domingo, 14 de julho de 2013
Busca
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Pedido em três tempos
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Entre nós
sábado, 8 de junho de 2013
Fim de tarde
Hoje apetece-lhe alguém
que lhe ame o corpo
sem sorrisos doces
sem palavras a enganarem os sentidos.
Anula a alma
um estorvo que carrega
como o peso de uma mala vazia
ou um pássaro morto.
Precisa de urgências
porque não quer sentir.
Apenas deseja ser um animal
no cio da primavera.
Hoje apetece-lhe
que nada lhe apeteça
e o dia finde.
© Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE II-publicado po PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
Tanto e tão pouco
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Silêncios
Talvez eu goste dos teus silêncios
porque não trazem laços.
Sentados junto ao rio que corre
esquecemos palavras.
Apenas o teu olhar escreve alfabetos
tão antigos como o homem.
Tenho perguntas para fazer
mas navegam num barco de papel
feito das últimas letras que escrevi.
Deixo o meu ombro desnudar-se
e secar-te os discursos.
Agora, já só tens um desejo
gritado no silêncio.
Não levamos connosco âncoras
de passado ou futuro.
Só temos o momento a tremer nas pestanas
e a escorregar devagar pelas margens do corpo.
E se eu quiser
pronunciar palavras proibidas
por favor não me deixes fazê-lo
e sela com a tua a minha boca.
© Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS II-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Sem palavras
Web -art de Yolanda Botelho
sábado, 13 de abril de 2013
Mala de viagem
© Margarida Piloto Garcia in- "CORDA BAMBA"- publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2012
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Hoje
© Margarida Piloto Garcia in-NÓS POETAS EDITAMOS- VOL II-2013
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
EU
uma guerreira bela e escultural
com algo de uma qualquer nipónica série de tv
mesclada de uma ocidentalidade suave.
Se eu fosse uma gota de suor, escalaria a tua pele firme
e só pararia quando me misturasse à saliva
na ponta da tua língua.
Se eu fosse uma deusa, teria um exército
de animais falantes, estranhamente belos.
Voaria sobre toda a natureza e
pintaria uma tela de arco-íris encantados.
Se eu fosse o fulgor do teu olhar
forjaria amor desde a alvorada
até me exaurir no pôr do sol.
Se eu fosse EU
Ah, se eu fosse EU...seria uma mulher feliz.
© Margarida Piloto Garcia
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Ousadia
Atrevo-me a encontrar-te, sentado num areal perdido onde me cegas os olhos e me prendes o tacto.
Dispo-me de preconceitos, para que no meu corpo grites como as gaivotas que nos surpreendem e pasmam.
Juntamente com o sol, preenches-me e transformas-me num cristal translúcido. Não te conheço, mas já te ouvi tantas palavras, que agora só preciso do primitivo enlace. Não gritarás sozinho, porque tenho esta ânsia de te dominar e de saber que na tua boca, o meu nome é prece suplicante.
Ouso ir mais além e procuro nas azedas amarelas, um outro que me traga cânticos de guerra gravados em runas milenares e mate esta fome suicida e sôfrega de que não sei o nome.
Há um mudo e atávico sentimento, que dentro de mim ata nós em que me enleio e cria enigmas que não sei desvendar.
Hoje vou ser louca num filme de cinema mudo.
Calei todas aquelas palavras que desfilam permanentemente em mim, numa esquizofrenia alheia aos outros.
Transporto comigo um vendaval que já ninguém pode travar.
Percebo agora que a minha ousadia é muito maior e vai mais além. Roeu todas as grilhetas, rebentou barreiras e tem um nome que não posso pronunciar. Deixou de se esconder e enfrenta-me disposta a triunfar sobre uma cobardia acomodada.
Não mais algodão doce, apenas o travo amargo da verdade a deixar antever especiarias picantes de que a vida é feita.
Sou a última partícula de um universo em explosão. Nada mais para além de mim, do que sou, do que resta, do que sempre fui. Um sonho atormentado lido nuns olhos de criança.
E é hoje e é já, que me atrevo e que ouso.
No alto da montanha ou nos corpos que enleio, busco a minha verdade pela última vez.
Se falhar, que importa?
Vou acabar gritando madrugadas para sempre e Fernão Capelo jamais será gaivota.
© Margarida Piloto Garcia in "CONTOS AO VENTO"publicado por EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Ad-lib
Improvisa.
Treina esses ad-libs
na seda dos meus cabelos.
Desce em rapel
pelo meu corpo
e torna-te explorador
nos meus leitos, vales e montanhas.
Sê o meu aventureiro a desbravar florestas.
Entrego-te um tesouro milenar
se conseguires derrotar todos os medos.
© Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Surreal
Tragam-me uma faca afiada
e eu vou cortar a lua em fatias translúcidas.
Vou decepar o canto aos noitibós
e rasgar as tendas erguidas nesta selva.
Com a lâmina fresca e sedenta
abro em mim os silêncios amordaçados
faço escorrer as purulentas dores
e escondo a vida por trás de portas blindadas.
Então, nós de veludo darão à vida
sabores amanteigados, doces e escorregadios.
Talvez eu odeie e tema o que é cortante
mas sabe-me a fruto proibido, a paixão consumada
o modo como as lâminas devoram as palavras
e as desenham em sangue no papel.
Mas a ilusão tem preço
e em todos os recantos espreitam marcianos
que tamborilam como anjos maus.
Do paraíso cai apenas uma pena negra
que se enleia na faca afiada
e se aconchega no meu seio.
Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Para sempre
Para sempre
e os meus olhos seguem a curva da tua boca.
Nos beijos continuados, a minha, morre ébria na tua
feita canibal voraz.
Passam minutos, horas...
Para sempre
o teu cheiro agarrasse-me à pele
sexual, primitivo, um pecado mortal.
Um raio de sol atravessa a vidraça e inunda-te de oiro,
um deus feito homem
no silêncio dos braços que me cingem forte,
tão forte, que me partem a vida
em pedaços que não colo mais.
Para sempre
promessas num olhar anzol do meu
uma chama bravia de fera em cio.
No teu corpo é que me encontro e perco
e aprendo e ensino um alfabeto reinventado.
Para sempre
e a vida passa num suspiro breve
feita de laços de aço ou talvez não.
Para sempre é uma recordação
são as minhas palavras avulsas
que só rimam com amor quando lhes chamas tuas
Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Amor perdido
Na manhã outonal escrevi-te um poema.
Tinha o gosto do orvalho matinal e o aroma das maresias desaguadas em mim.
Tu trazias o cansaço do tempo feito sonho, mas sorrias com os olhos.
Plantei em ti uma flor amarela e acalentei-a.
Às vezes as tardes eram tão vibrantes que a flor exalava perfumes de corpos extasiados.
Pouco a pouco, as aves que me falavam de ti, partiram.
E a flor chorou pétala a pétala o amor perdido.
Margarida Piloto Garcia-in "PALAVRAS DE CRISTAL I"-publicado por MODOCROMIA-2013
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Este desejo
O teu corpo tem linhas de fumo e luz a delinear o horizonte amanhecido.
Eu descubro em mim uma papoila ardente a inundar-me o ventre em chicotadas.
A boca enlouquece na espera, mais do que do teu beijo, da tua seiva de mortal a imitar os deuses.
Na seda fria da cama tento ungir o corpo das delícias nocturnas que nele semeaste.
Eu sou fada, lírio, morte anunciada. E tu és poema, vela de navio, espada ardente de tempos ancestrais.
Cruzas o quarto envolto em aromas acariciados e trazes-me a tua pele fresca para eu a transformar em lava.
Toco-a e faço-a minha. Ora me submeto, ora te ponho na boca implorantes frases.
Este meu desejo é tão insaciável como o teu.
Desenha em nós um amor perfeito, embalado em histórias de encantar.
E em cada vaivém de desespero eu espero a tua vida e tu guardas a minha para sempre.
Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Sabedoria
Sabes do que falo?
Destes mistérios feitos casulos no peito
deste arfar meio louco
desta canção desgarrada a tremer sentidos
e a alvejar-me impiedosamente?
Sabes do sol a mergulhar no horizonte
enquanto eu tento aprisioná-lo e bebê-lo em flutes geladas?
Procuro desabrochar por entre os meus temores
mas tu trazes látegos na voz e eu revisto-me de aço.
Torno-me numa estátua açoitada pelo vento
a alma prenhe de vagalumes e aromas noturnos.
Sabes como se morre?
Mordendo as madrugadas
na orgíaca lembrança de uma tarde de amor.
Margarida Piloto Garcia in-ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA VOL 4 "ENTRE O SONO E O SONHO"-publicado por CHIADO EDITORA-2013
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Tempo
Não tenho tempo para palavras presas na garganta
nem para olhares plenos de mentiras.
Agora o caminho tem de ter uma ponte que atravesso
com a minha mão na tua.
Não perco mais alvoradas pintadas no horizonte
enquanto a minha pele ainda exala o perfume da tua.
O passado é uma ária que ambos entoámos
enquanto cruzávamos uma savana de feras.
Hoje sou um barco de velas desfraldadas a navegar mar fora.
Levo comigo o vento a sussurrar-me os beijos que trocámos.
Tenho esta pressa de te ter
sempre agarrado a mim como uma âncora.
Por isso o tempo que não tenho é todo teu.
Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013
domingo, 10 de junho de 2012
Morte
E lágrima a lágrima teço uma mortalha.
Não me dêem louvores que já não ouço.
Não me tragam beijos que já não sinto.
Preciso de oblívio, de um buraco negro que me sorva.
Não quero sorrisos...nem carícias.
Não me mostrem paraísos que não existem.
Quero uma estrada lisa, rude, informe.
Quero tropeçar em cada raiz das árvores que não plantei e esmagar cada flor quando cair.
Espero apenas um sol vermelho quando chegar ao abismo e a morte me sugar
Margarida Piloto Garcia
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
A chave
Tinha uma chave feita de lágrimas e suspiros.
Guardava-a misturada com um vestido de seda
dançado a pares no teu ombro.
A chave era mítica e destrancava labaredas e caminhos de luz.
Pendurava-a à cintura, quando requebrava as ancas
ou ondeava o ventre e as mãos, num chamamento de véus orientais.
Com a chave abria os caminhos do meu e do teu corpo
e cantava melodias nunca interrompidas.
Sei que descobrias em mim o prazer escondido mas por ti sonhado.
Sabias de cor o cheiro da minha pele e os relevos do meu corpo
e levavas-me o coração guardado nessa chave.
Eu acreditava nos segredos que ela abria
quando juntávamos as mãos nos passeios por entre os rios
que escorriam pelas nossas pernas.
Numa travessia por um eterno deserto, guardava-a sequiosamente.
Um dia perdeste o passo, o rumo.
Embriagaste-te numa rota de pequenos veleiros e os grandes navios seguiram comigo.
Hoje não há chaves, apenas estacas a delimitar fronteiras.
Não me procures por aí.
Para onde vou, levo apenas a companhia de uma gaivota pousada no ombro.
O resto...é silêncio.
Margarida Piloto Garcia
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Passeio
Dou-te a mão e espero.
Tremem sentidos na pálida madrugada
e o nevoeiro escorrega-me nos nós dos dedos.
... Levo entrelaçado nos cabelos, fios de histórias por rematar.
Caminho no ondear das palavras
enquanto a cidade escorre no som das memórias relatadas.
Quero acreditar
que o rio me leva ao mar imenso, parindo barcos de velas enfunadas.
Em cada nuvem um pensamento
em cada onda uma sereia.
Sigo o caminho de mão dada buscando nesse enredo o calor do sol
e o aroma das cerejas, tintas e carnudas.
Na palidez do dia escondo o coração no bolso do casaco.
E sigo de mão dada, como um fantasma na neblina matinal.
Margarida Piloto Garcia
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Final
Não tenho mais palavras.
Gastei-as no fundo da tua boca.
Fiz com elas ondas salgadas com que te penteei os cabelos
e te lavei o corpo.
Nas tuas meigas mãos depositei-as
e deixei que me descobrisses os segredos
e me percorresses em vagas de paixão.
Entre nós havia um raio de sol sempre a pôr-se no horizonte
e tu cobrias a minha pele de flutuantes carícias
só visíveis aos olhos dos deuses, das montanhas e dos mares.
Hoje gastei as palavras nas pegadas deixadas na areia
e na tua boca não escrevo mais poemas de amor.
Margarida Piloto Garcia in-PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Um dia
Um dia
vou dizer-te palavras bordadas a bilros
traçando um labirinto que tu procuras percorrer com os lábios.
Vou olhar-te com olhos que te falem de mim
e onde as promessas dançam tangos de paixão.
Um dia, um dia...
Vou ensinar-te a percorrer os caminhos que levam ao meu colo
onde descansas a cabeça das intempéries da vida.
Passo a passo
gesto a gesto
carícia a carícia
quebras as barreiras e teces a teia dos desejos.
Um dia
vou surpreender-te e pôr a alma nua nos contornos do teu e do meu corpo.
O desenho dela vai cantar-te baladas
e as tuas mãos dançarão nas curvas dos meus seios
ao afundar-se em mim como um cisne morrendo.
Um dia
tu vais olhar as minhas rendas pretas e desnudar-me os ombros.
Murmurarás palavras ciciadas, urdindo um feitiço enquanto o sol se põe.
E inevitávelmente beberás dos meus lábios
a magia que te entardece os dias e inebria as noites.
Saio de madrugada ao teu encontro
a boca tremendo
o coração louco
a pele fervendo na espera do teu toque.
Um dia
vou contar-te este meu sonho.
Talvez quem sabe..um dia.
Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Chocolate
Leva-te às alturas
esse pedaço de chocolate negro que mordes nos lábios túrgidos.
Escorre-te uma gota no canto da boca
e qual réptil, a tua língua recolhe-a e degusta-a.
Sentes borboletas no estômago e faíscas cintilantes
nos olhos, na mente, no teu eu.
O chocolate trouxe-te uma magia orgásmica
um arco-íris gritante, como um LSD natural.
Viajas noutra galáxia
onde traças sulcos quase negros numa pele firme e elástica.
Tens as pestanas coloridas desse rímel feito com o cacau dos deuses
e tracejas outra face húmida de saliva e suor.
Não queres acordar
presa de uma magia que oriunda de trabalho escravo
de algum modo também te aprisiona.
O pequeno pedaço já se foi, derreteu melado nas tuas entranhas.
Agora há uma paz melódica e translúcida
mas de uma tão erótica vibração, que te viciou.
Margarida Piloto Garcia
sábado, 5 de novembro de 2011
Girassóis
“ Assim fremente e nua, a luz só pode ser dos girassóis. “
Eugénio de Andrade in “O outro nome da terra.”
O
comboio leva-me e carrega os meus sonhos.
Num
constante rolar o meu olhar atinge os campos
e
os campos devolvem-me esse olhar.
Não
sinto, porque sinto tanto que matei o sentir.
O
comboio rola e leva-me à cidade onde me perco
e
onde amo cada pequeno passo, dado sozinha ou ao teu lado.
Essa
cidade vai-me abraçar e corroer a vida de paixão.
A
beleza dela é uma epifania e um esplendor
que
tu escangalhas quando me desfazes a alma.
Esse
ego monstruoso esconde a tua fragilidade
e
é por ela que me detestas
porque
eu a sei, porque eu a sinto.
Mas
a cidade ainda está longe e eu já antecipei a dor
sublimada
em pequenos prazeres que me alucinam.
Estava
a tentar deixar correr os olhos
no
tremor do amarelo da paisagem.
E
vejo-me solta, uma silhueta em alvoroço, cabelo ao vento
rodeada
do dourado que me fere os olhos.
Tento
não olhar, não sentir que corro através das flores
que
me atraem e me chamam.
E
de repente vejo, são girassóis, imensos, ondulantes
fazendo-me
o apelo.
Sou
transportada a uma selva louca de pétalas
que
me prendem mais do que me afagam.
E
é isso mesmo que se crava em mim, o sentimento da minha
invisibilidade.
Margarida Piloto Garcia in- Sob Epígrafe. Tributo a Eugénio de Andrade, publicado por TEMAS ORIGINAIS, 2023
Arte de Paul Schilliger
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Prisão
Há uma certa crueldade
nas palavras que escreves com teclados estéreis.
Eu não vejo céus de estrelas
só ripas que me fecham os olhos e amortalham.
E é nesta minha quase sinestesia
que a dor explode em rubros clarões
com cheiros aveludados a cerejas carnudas.
Leio as palavras e quedo-me muda
enquanto os gritos me recortam em desenhos surrealistas.
Tento ir mais além, navegar no tsunami
mas este leito tem amarras
prende-me o pensamento, castra-me as emoções
chama-me louca, e possessivo, subjuga-me.
Sou um velho guerreiro, um espírito engelhado
de armas ferrugentas e cicatrizes virulentas
como ecos de uma viagem por entre guerras sem fim.
Levo o meu coração embrulhado num pequeno papel
amarrotado, fino, manchado e a desfazer-se.
Às vezes, penso que já não existem céus estrelados
e que o pôr do sol há muito se escondeu nas trevas.
Ouso despir a angústia a um corpo que desconheço
e pendura-la nos fantasmas que me mordem.
Algures, as palavras escritas com teclados, reclamam-me a alma.
Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013
domingo, 28 de novembro de 2010
Destino
Eu já era assim
Tinha sagas futuristas agarradas nos olhos
e cobria os recantos escondidos e aconchegados
de poalhas de sonhos.
Em cada noite
fazia clones sem parar
uma máquina inconfundível de realidades estropiadas.
Quando as manhãs rasgavam o conforto
procurava na vida as personagens só imaginadas.
Eu sempre fui assim
ingénua e despudoradamente sôfrega
uma louca em banda desenhada.
As minhas mãos têm recordações táteis
guardadas para desfiar num rosário de noites brancas
em que a mente desenha borrões de tinta viva pingando gritos pelo quarto.
Tento não ser assim
mas escrevi um destino torto em fase terminal.
Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Ritual
Uma mulher normal
conta as rugas do descrédito, reflectidas no espelho desdenhoso.
Deixa os dedos
percorrer as estradas do cabelo naufragado nos ombros.
Escreve melancólica
palavras de uma só sílaba, que contabiliza com esmero.
Desmaia
no último veludo da pele acariciada.
Uma mulher normal
fecha a porta do castelo numa dança febril.
Reúne os últimos despojos
e cerra as asas, cansada da borboleta que já foi.
Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Grito
Venho dizer-te
que eu sou eu
e nunca ninguém poderá ser eu.
Trago um pássaro no peito
que se agita e estremece
cravando-me garras aguçadas.
Sei que não compreendes
o labirinto que a minha língua percorre
mas hoje os minotauros fugiram do meu sonho.
Se tenho olhos de corça
foi porque amordacei paixões e lhes calei a voz.
Agora canto silêncios
e estendo-os no luar da vida.
Confesso-te esta alma inquieta
feita de marés e remoinhos
mas não quero ver-me no espelho dos teus olhos.
Aqui onde me encontro
cobri de aço a alma rasgada
tranquei-a para sempre no meu eu.
Flutuo sem pensamentos
até que o pássaro nada sinta.
Mas eu sou eu
e até que me dilua na cinza universal
vou deixar rastos no teu corpo.
Margarida Piloto Garcia in- POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA
Arte de Delawer
domingo, 14 de março de 2010
Poeta
Tenho um poeta
que me canta versos navalhados
plenos de êxtases e de mágoas
deixando em mim uma marca feroz.
Nas esquinas do meu desejo
entrelaçam-se rotas em carne viva
gritadas loucas ao vento suão.
O meu poeta
é uma ave madrugando as palavras
cheirando-me o cabelo em sussurros.
Inquieta, corro por entre os sons desenhados
sem saber o que fazer com a eternidade dos sentidos.
Ficam agrestes e soluçantes
as arestas do meu pensamento
um caudal de emoções em lava abrupta.
Nas marés vivas do que escreve
há raios pranteados de luar
caminhos secretos e paixões.
Este poeta que me morde os flancos
e me rasga a roupa
traz sinfonias incompletas ao meu desespero.
Cega o meus olhos de corça
enche o meu ventre de mel
e pinta a minha boca de cobiças.
E assustada fujo
estropiada na embriaguez dos versos.
Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Agonia
Vieste nesse dia
e trouxeste ramos de absurdos
e raivas incontidas.
Dentro de mim
um pássaro bateu asas aflito.
Auroras rubras
tentaram desfazer o meu querer
e atiçaram emoções fogosas
mas eu já me perdera em nevoeiros.
Sou um canavial ao vento
e todas as gotas de chuva me devoram.
O pássaro dentro de mim
é uma fera aflita
um grito
um sopro
uma esperança.
Todas as dores me roem
as algemas com que teimas em calar-me.
Não sei mais quem tu és
mas sei quem sou:
um pássaro morrendo na madrugada.
Margarida Piloto Garcia-in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013
Arte de Felix Más
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Conhecimento
Sei que tu sabes
desta febre que me devora e suga
deste ácido que brilha em pérolas de suor na minha pele.
A minha mão esculpe o teu corpo
e conhece-lhe recantos escondidos.
Há um aroma vibrante nesse teu cabelo
e uma força macia que se me enrola nos dedos.
Sei que tu sabes
quando os meus olhos se perdem loucos
no abismo dos teus.
Numa espiral magnética
as minhas pestanas dançam húmidas e
desconcertantes coreografias pela tua face.
Sei que tu sabes
deste meu vício de ti
da ânsia do toque apaixonado
dessas mãos a que me submeto.
Em complicadas partituras
mescladas de trombetas e tambores
esta paixão é um cavalo alado
sem rédeas, sem freio, sem destino.
Descubro-te a vida numa lágrima
e a tua voz canta-me rumbas de desejo.
Não sabemos como partir
como quebrar o sonho e seguir.
Em cada dia há um mistério por guardar
e um punhal cá dentro a afundar-se.
Mas eu sei que tu sabes
que eu sou tão real quanto imaginária
e guardo em mim o mistério do amor.
Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013































