domingo, 14 de julho de 2013

Busca




Ando à procura de ti.
Meti-me nesta saga, armada de um espírito de conquista e descoberta, a cabeça cheia de sonhos quase inatingíveis. Ainda não percebi porque tenho este anseio frenético de almejar o ideal. Quem sou eu afinal neste mundo transgénico e longe das lendas arquitectadas em criança?
Dia 2

10,30h
Tu chegas. A passada larga como que te percorre de alto a baixo, subindo-te pelo corpo até aos cabelos revoltos. No meu louco devaneio esqueço-te o fato de bom corte e vejo em direção a mim, um guerreiro viking de armadura reluzente. Fico emudecida no acalento de um corpo a despertar ansiedades. Tento ser realista e ver-te tal como és, de carne e osso, mas ser moura encantada é mais forte do que eu.
12,30h
Ao fim de 2 horas, tenho estampado em mim os restos calcinados da ilusão. Parecias um deus mas não te consegui navegar na voz, nem perceber-te um sentido de vida. Tanta futilidade, tantos rasgos de vida material, tanto que faria as delícias de alguém que não fosse eu.
 Eu...esta mente em alvoroço, este corpo feito de aragem perfumada, das areias quentes de um deserto à espera dessa água que me mitigue a sede sem nunca me saciar.
Dia 8

Procuro-te nas praças, nos areais a parir lonjura e paixões ardentes. Tento encontrar-te no aroma de um café, no apelo de um quadro, no raio de sol que lambe a face.
A insistência deste apelo torna-me frenética, ameaça desnudar-me as paixões e ânsias em qualquer praça pública, incita a minha loucura a desbravar e transpor  os limites que a vida me ensinou.
Se os aceitei foi numa mentira que forjei para mim mesma, para continuar a demanda sem que me venham trazer leis encapotadas de palavras mornas e mansas.
Dia 12

14,30h
Olho-te numa demora escrutinadora. Extraordinário como as palavras te fluem num discurso carismático. Ambos sabemos como fazê-las entoar deliciosos trilos que se insinuam em nós como punhais.
Permaneço num langor que me esvai, enquanto a tua mão enceta uma rota rumo ao meu corpo e a tua boca se aproxima num fôlego a partilhar.
Cerro os olhos ao sol que foge no horizonte, tentando embalar-me na cadência do que dizes. Não quero abri-los para descobrir enganos  e tornar prosaica a poesia do que já dissemos.
Inútil! De súbito gelo, numa recusa que me emudece, quando num arrepiado e consciente momento me apercebo da ausência da fisicalidade entre nós.
Se antes condenava o sonho, agora arrependo-me da realidade que acabo de sentir.
Dia 21

Os dias passam num atar de nós de incertezas e buscas permanentes.
Existirá aquele que me pode trazer o festim do amor que o meu imaginário almeja?
Dia 25

18h
À medida que me lanças um daqueles sorrisos de menino, tento sondar-te  e ver para além do que os teus olhos me dizem. Não acredito em olhares, desconfio da sua veracidade. Sei que por vezes traem, são teatrais e escondem nebulosos segredos.
Lembrava-me dos teus de há alguns anos e do que sempre julguei saber deles. Talvez eu afinal não soubesse tanto assim, e fosse apenas a minha imaginação que me incapacitasse de um juízo fiel.
Mas continuas a agradar-me  com o teu corpo esguio a tentar cingir o meu, os teus lábios frementes, que antes da busca dos meus, tentam dizer palavras que sabes de antemão o meu intelecto te exige.
Estás perante mim e eu penso, num ardil que lanço a mim própria, se a busca terminou.
Escondido atrás da porta o amor hesita, e à laia de um cupido ladino e ardiloso, pisca-me o olho e abana a cabeça.
Ainda não...


© Margarida Piloto Garcia



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Pedido em três tempos





Pediste-me que te dissessse que te amava.
Cá dentro havia febre como água a correr
vontade que a garganta se abrisse
e que as palavras pressurosas
saíssem  mesmo que atropeladas.
Queria gritar em mãos cheias
de vibrações, o que o corpo não calava
nas ondas azuis e ansiadas
de uma juventude crepitante.
Mas eu ainda mal aprendera o nome das palavras
 que apenas me permitia murmurar.

Pediste-me que te dissesse que te amava.
Não precisavas, não precisaste nunca.
“Amo-te” era uma ladaínha
que eu orava no teu corpo
mãos em cadências raras
toda eu em devota adoração.
“Amo-te” não tinha hora ou dia
ressoava mesmo nos silêncios
em que tu não estavas
ou formava um rosário de pérolas
a escorrer da minha boca
para tudo o que eras tu.

Pediste-me que te dissesse que te amava.
E eu tremi no dia quente
sentindo o frio de um vampiro
procurando-me o sangue.
Queria escorregar na tua pele
lambendo nela a palavra desejada.
Mas agora não há força que me faça
descerrar os lábios
nem cavalos selvagens
à desfilada no meu corpo.
Não quero atar-te numa mentira cega
e o que me pedes não encontra espaço
para ti, no meu vocabulário.
Mergulho o olhar no horizonte
e apenas te abraço.


© Margarida Piloto Garcia


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Entre nós




Da tua pele à minha
vai um suspiro e um vibrar de línguas
em reptilíneos arremessos.
Vão dedos diligentes, colibris apressados
invasores que permito e acalento.
Entre ti e mim há cidades e montanhas
rios e gente, num horizonte de lonjuras.
Mas tu constróis o caminho com as palavras
e eu desenho em mim uma rosa dos ventos
para que me percorras sem nunca te perderes.
Do norte da polpa dos meus seios
rumas ao sul já orvalhado.
Meu corpo em cataclísmico desafio
arqueia-se em ogiva
as pernas sucumbindo em agonia.
E no estremecimento já não há distâncias.
Da minha pele à tua vai um  sonho.


© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013


sábado, 8 de junho de 2013

Fim de tarde




Hoje apetece-lhe alguém
que lhe ame o corpo
sem sorrisos doces
sem palavras a enganarem os sentidos.

Anula a alma
um estorvo que carrega
como o peso de uma mala vazia
ou um pássaro morto.

Precisa de urgências
porque não quer sentir.
Apenas deseja ser um animal
no cio da primavera.

Hoje apetece-lhe
que nada lhe apeteça
e o dia finde.


© Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE II-publicado po PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013


terça-feira, 7 de maio de 2013

Tanto e tão pouco








Sabes-me sempre a pouco
quando chegas com os teus olhos de espanto
e a boca sôfrega a desvendar a minha.
Os teus cabelos cheiram profundamente a sol
e atam com nós trémulos a paixão que carrego.
Deixo uma lágrima morna
beijar-me os cantos da boca que já só sabe à tua.
Misturo-a com a saliva numa alquimia pagã
enquanto o teu corpo me dita húmidas pressas.
Abraças-me como um mar de sargaços.
Enleada em ti sou apenas uma pequena flor
a proteger-se do vento das palavras que me cantas.
Das tuas mãos espero sempre a vida celebrada
quando me tornas tua e emudeces.
Não quero que me saibas de cor.
Apenas que te surpreendas sempre
e renasças para me redescobrir mais uma vez.
E de gazela estonteada e débil
torno-me loba nos luares da vida
para poder ser presa e predadora.
Em mim deixas sempre uma urgência
que receio não calar.
Por isso, mesmo que não consigas debelar
esta fome de ti
o pouco que me dás sabe-me a tanto.


© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Silêncios








Talvez eu goste dos teus silêncios
porque não trazem laços.
Sentados  junto ao rio que corre
esquecemos palavras.
Apenas o teu olhar escreve alfabetos
tão antigos como o homem.
Tenho perguntas para fazer
mas navegam num barco de papel
feito das últimas letras  que escrevi.
Deixo o meu ombro desnudar-se
e secar-te os discursos.
Agora, já só tens um desejo
gritado no silêncio.
Não levamos connosco âncoras
de passado ou futuro.
Só temos o momento a tremer nas pestanas
e a escorregar devagar pelas margens do corpo.
E se eu quiser
pronunciar palavras proibidas
por favor não me deixes fazê-lo
e sela com a tua a minha boca.


© Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS II-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013




quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sem palavras






Pelas pontas dos dedos
as palavras não escorrem.
Recusam-se a caminhar nuas
a despir-se para mim.
Os meus olhos não as transbordam
teimam em calá-las num brilho aquoso
a esconder constelações.

Num silêncio que me come por dentro
caminho devagar na sombra que deixaste.
As palavras não morreram
prendem-me com os nós que não soubemos dar.

E é neste duro enleio
que te sinto, mas te apago,
te devoro e minto.
Eu guardo a pressa de um amor aflito
tu, jazendo a meus pés já nada sendo.

A minha saia dançando
a minha roupa em voo
no rasgo alucinado da asa da gaivota.
Meu corpo amanhecido
rubro ventre
seiva que o teu navio implorante guarda.

Mas de encontro às minhas coxas de cetim
há muito naufragaste
enterrando o sentir neste meu mar profundo.
E as palavras que te impediriam de partir
eu não as soube então
nem nunca as saberei.


© Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013

Web -art de Yolanda Botelho



sábado, 13 de abril de 2013

Mala de viagem






Há muitos anos a vida cabia toda numa mala de viagem. Não daquelas que agora se usam. Apenas uma que levava na mão com toda a energia da sua juventude. Ana lembra-se que nela cabiam poucas coisas, a maior parte dos seus bens materiais, mas a bagagem dos sonhos era enorme.
Agora alonga o olhar num rio juncado de gaivotas. Traçam-lhe percursos, todos divagantes. Em cada voo um grito, em cada mergulho um sonho afogado. E o rio enche e vaza em perenes partos sempre anunciados. Ana passeia por entre o verde vibrante que a nova estação fez desabrochar. Busca flores, com a alma aflita de quem minera ouro, num eterno cansaço de novas descobertas. Agarra-se à terra buscando raízes que a prendam à vida e sonha, sonha sempre. Nos campos ou junto ao mar, sente-se um espírito livre. Enverga palavras borboleteantes, salpicos de ondas ou pérolas de orvalho matinal. Parte em todos os navios que despontam no horizonte ou enche-se do aroma fervilhante da terra, qual insecto laborioso.
Ana afunda o olhar na distância e sorri no prazer antecipado do reencontro. Ao longe Luísa caminha na sua direcção. Traz um passo masculino, quase um contra-natura do seu pequeno mas viçoso seio, ligeiramente descoberto no decote. Luísa é toda alvoroço, palavras atropeladas distribuídas por uns lábios finos que não denotam a paixão que a move. Ana abraça e beija a amiga. De imediato ela lhe conta os dois últimos meses. As doenças dos filhos, as crises conjugais, os últimos falhanços. Fala-lhe dos quês e dos porquês, das raivas pendentes, das noites adiadas, dos solavancos do corpo miúdo, das ânsias de fugas desmedidas, das loucuras ácidas e picantes. Ana ouve-a e no fundo, tenta resgatar os navios que deixou naufragar nos rios que atravessou com a mala de viagem. Nas palavras da amiga, descobre os gorjeios do pássaro aflito que a consome. Já nem escuta, os olhos a dançarem desejos e os lábios gotejando  paixões arrítmicas. Ambas se debatem,  presas numa gaiola onde estiolam os sonhos de uma juventude.
Tornaram-se amigas na descoberta de ritmos dançados. Luísa mais saltitante, Ana mais apaixonada. Habituaram-se pouco a pouco a debitar segredos, a partilhar mágoas. De vez em quando, fogem ao quotidiano e atiram-se como setas a matar a inércia e a letargia. Descobrem sempre um recanto onde pairam como fadas. Partilham um copo e desfazem os nós dos romances. Numa certa loucura, dançam com magia, trauteando versos que lhes expurgam as maldições.
Depois que a amiga parte, de volta ao trilho que traçou, Ana pensa que também precisa regressar, não à vida sonhada, mas àquela que foi fabricando em tantos anos de vida. Ajeita o vestido preto que lhe faz destacar o cabelo louro, quase branco. Sente-se bem nessa cor sombria que há anos se sentiu compelida a escolher. É quase um luto pelo corpo mal amado. Por baixo, a pele explode em vermelhos luxuriantes, em laranjas flamejantes que só pensam em mitigar a sede em encontros azuis. Sob o vestido um arco-íris, uma palpitação, uma boca mordida. Por fora, sombras e placidez, só traídas por uma curva do corpo, pela sensualidade do olhar, pelo modo como enrola o cabelo nos dedos suaves mas febris.
A tarde cai e um pôr-do-sol desenha o horizonte como uma tela de Van Gogh. Pensa numa música de Bethânia a gravar-lhe palavras esdrúxulas na alma magoada. Não quer pensar na casa sem flores nas janelas, na paisagem quase alienígena dos prédios que a cercam e lhe serram as pernas com que dança e as mãos com que acaricia. O encontro com a amiga já se esfumou, deixando-lhe a boca seca e um frio a lamber-lhe as margens do corpo.
Já não tem a mala onde cabiam os sonhos e os poucos pertences. Agora seriam precisos muitos caixotes para empacotar os valores, mas também os desperdícios de toda uma vida. A tralha substituiu toda a esperança e delapidou-a.
Pensa que caminha para um fim e a única coisa que desejava era um caminho de luz por onde seguir e uma mala de viagem carregada de sonhos


© Margarida Piloto Garcia in- "CORDA BAMBA"- publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2012





quarta-feira, 10 de abril de 2013

Hoje



Quero que o hoje seja amanhã
ou outro qualquer dia.
Nunca um hoje onde guardo aflita
a alma amarrotada e dobrada
numa caixinha de cantos esquinados.
Uso a mente, dou corda ao coração
tento poli-la e arredondar-lhe
as arestas vivas e quase cítricas
como um limão azedo.
Hoje a asa da andorinha
não cruzou este horizonte
nem me falou de risos.
A chuva pintou de cinzento
estas mãos com que escrevo
desejos de outros tempos.
Talvez venha um amanhã
ou outro qualquer dia que não seja este.
Talvez.
Eu apenas estremeço as pálpebras
fecho a caixa dos sonhos à espera
e encerro a página do dia que não foi.

© Margarida Piloto Garcia in-NÓS POETAS EDITAMOS- VOL II-2013





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

EU





Se eu fosse EU, seria de um outro universo
uma guerreira bela e escultural
com algo de uma qualquer nipónica série de tv
mesclada de uma ocidentalidade suave.
Se eu fosse uma gota de suor, escalaria a tua pele firme
e só pararia quando me misturasse à saliva
na ponta da tua língua.
Se eu fosse uma deusa, teria um exército
de animais falantes, estranhamente belos.
Voaria sobre toda a natureza e
pintaria uma tela de arco-íris encantados.
Se eu fosse o fulgor do teu olhar
forjaria amor desde a alvorada
até me exaurir no pôr do sol.
Se eu fosse EU
Ah, se eu fosse EU...seria uma mulher feliz.



© Margarida Piloto Garcia





domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ousadia






Levanto-me da aridez do dia pasmado e decido que hoje vou voar, jogar-me lá do alto de uma montanha e planar sobre o mar. Quase que sinto na boca, o ar prenhe do perfume pungente das acácias e quero render-me ao medo sem que ele me violente.

Não sei, mas talvez hoje pegue no carro e parta em direção a lado nenhum. Vou levar os ouvidos a escorrerem um soul profundo que me corrói a pele e procurar por aí a solidão dos que me são iguais.
Atrevo-me a encontrar-te, sentado num areal perdido onde me cegas os olhos e me prendes o tacto.
Dispo-me de preconceitos, para que no meu corpo grites como as gaivotas que nos surpreendem e pasmam.
Juntamente com o sol, preenches-me e transformas-me num cristal translúcido. Não te conheço, mas já te ouvi tantas palavras, que agora só preciso do primitivo enlace. Não gritarás sozinho, porque tenho esta ânsia de te dominar e de saber que na tua boca, o meu nome é prece suplicante.
Ouso ir mais além e procuro nas azedas amarelas, um outro que me traga cânticos de guerra gravados em runas milenares e mate esta fome suicida e sôfrega de que não sei o nome.
Há um mudo e atávico sentimento, que dentro de mim ata nós em que me enleio e cria enigmas que não sei desvendar.
Hoje vou ser louca num filme de cinema mudo.
Calei todas aquelas palavras que desfilam permanentemente em mim, numa esquizofrenia alheia aos outros.
Transporto comigo um vendaval que já ninguém pode travar.
Percebo agora que a minha ousadia é muito maior e vai mais além. Roeu todas as grilhetas, rebentou barreiras e tem um nome que não posso pronunciar. Deixou de se esconder e enfrenta-me disposta a triunfar sobre uma cobardia acomodada.
Não mais algodão doce, apenas o travo amargo da verdade a deixar antever especiarias picantes de que a vida é feita.
Sou a última partícula de um universo em explosão. Nada mais para além de mim, do que sou, do que resta, do que sempre fui. Um sonho atormentado lido nuns olhos de criança.
E é hoje e é já, que me atrevo e que ouso.
No alto da montanha ou nos corpos que enleio, busco a minha verdade pela última vez.
Se falhar, que importa?
Vou acabar gritando madrugadas para sempre e Fernão Capelo jamais será gaivota.

© Margarida Piloto Garcia in "CONTOS AO VENTO"publicado por EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015






domingo, 3 de fevereiro de 2013

Ad-lib





Improvisa.
Treina esses ad-libs
na seda dos meus cabelos.
Desce em rapel
pelo meu corpo
e torna-te explorador
nos meus leitos, vales e montanhas.
Sê o meu aventureiro a desbravar florestas.
Entrego-te um tesouro milenar
se conseguires derrotar todos os medos.

© Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013






sábado, 2 de fevereiro de 2013

Surreal



Tragam-me uma faca afiada
e eu vou cortar a lua em fatias translúcidas.
Vou decepar o canto aos noitibós
e rasgar as tendas erguidas nesta selva.
Com a lâmina fresca e sedenta
abro em mim os silêncios amordaçados
faço escorrer as purulentas dores
e escondo a vida por trás de portas blindadas.
Então, nós de veludo darão à vida
sabores amanteigados, doces e escorregadios.
Talvez eu odeie e tema o que é cortante
mas sabe-me a fruto proibido, a paixão consumada
o modo como as lâminas devoram as palavras
e as desenham em sangue no papel.
Mas a ilusão tem preço
e em todos os recantos espreitam marcianos
que tamborilam como anjos maus.
Do paraíso cai apenas uma pena negra
que se enleia na faca afiada
e se aconchega no meu seio.

Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013




quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Para sempre






Para sempre
e os meus olhos seguem a curva da tua boca.
Nos beijos continuados, a minha, morre ébria na tua
feita canibal voraz.
Passam minutos, horas...

Para sempre
o teu cheiro agarrasse-me à pele
sexual, primitivo, um pecado mortal.
Um raio de sol atravessa a vidraça e inunda-te de oiro,
um deus feito homem
no silêncio dos braços que me cingem forte,
tão forte, que me partem a vida
em pedaços que não colo mais.

Para sempre
promessas num olhar anzol do meu
uma chama bravia de fera em cio.
No teu corpo é que me encontro e perco
e aprendo e ensino um alfabeto reinventado.

Para sempre
e a vida passa num suspiro breve
feita de laços de aço ou talvez não.

Para sempre é uma recordação
são as minhas palavras avulsas
que só rimam com amor quando lhes chamas tuas


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013




quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Amor perdido



Na manhã outonal escrevi-te um poema.
Tinha o gosto do orvalho matinal e o aroma das maresias desaguadas em mim.
Tu trazias  o cansaço do tempo feito sonho, mas sorrias com os olhos.
Plantei em ti uma flor amarela e acalentei-a.
Às vezes as tardes eram tão vibrantes que a flor exalava perfumes de corpos extasiados.
Pouco a pouco, as aves que me falavam de ti, partiram.
E a flor chorou pétala a pétala o amor perdido.

Margarida Piloto Garcia-in "PALAVRAS DE CRISTAL I"-publicado por MODOCROMIA-2013




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Este desejo



O teu corpo tem linhas de fumo e luz a delinear o horizonte amanhecido.
Eu descubro em mim uma papoila ardente a inundar-me o ventre em chicotadas.
A boca enlouquece na espera, mais do que do teu beijo, da tua seiva de mortal a imitar os deuses.
Na seda fria da cama tento ungir o corpo das delícias nocturnas que nele semeaste.
Eu sou fada, lírio, morte anunciada. E tu és poema, vela de navio, espada ardente de tempos ancestrais.
Cruzas o quarto envolto em aromas acariciados e trazes-me a tua pele fresca para eu a transformar em lava.
Toco-a e faço-a minha. Ora me submeto, ora te ponho na boca implorantes frases.
Este meu desejo é tão insaciável como o teu.
Desenha em nós um amor perfeito, embalado em histórias de encantar.
E em cada vaivém de desespero eu espero a tua vida e tu guardas a minha para sempre.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013





segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sabedoria





Sabes do que falo?
Destes mistérios feitos casulos no peito
deste arfar meio louco
desta canção desgarrada a tremer sentidos
e a alvejar-me impiedosamente?
Sabes do sol a mergulhar no horizonte
enquanto eu tento aprisioná-lo e bebê-lo em flutes geladas?
Procuro desabrochar por entre os meus temores
mas tu trazes látegos na voz e eu revisto-me de aço.
Torno-me numa estátua açoitada pelo vento
a alma prenhe de vagalumes  e aromas noturnos.
Sabes como se morre?
Mordendo as madrugadas
na orgíaca lembrança de uma tarde de amor.


Margarida Piloto Garcia in-ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA VOL 4 "ENTRE O SONO E O SONHO"-publicado por CHIADO EDITORA-2013













quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Tempo






Não tenho tempo para palavras presas na garganta
nem para olhares plenos de mentiras.
Agora o caminho tem de ter uma ponte que atravesso
com a minha mão na tua.
Não perco mais alvoradas pintadas no horizonte
enquanto a minha pele ainda exala o perfume da tua.
O passado é uma ária que ambos entoámos
enquanto cruzávamos uma savana de feras.
Hoje sou um barco de velas desfraldadas a navegar mar fora.
Levo comigo o vento a sussurrar-me os beijos que trocámos.
Tenho esta pressa de te ter
sempre agarrado a mim como uma âncora.
Por isso o tempo que não tenho é todo teu.

Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013




domingo, 10 de junho de 2012

Morte


 E lágrima a lágrima teço uma mortalha.
 Não me dêem louvores que já não ouço.
 Não me tragam beijos que já não sinto.
 Preciso de oblívio, de um buraco negro que me sorva.
 Não quero sorrisos...nem carícias.
 Não me mostrem paraísos que não existem.
 Quero uma estrada lisa, rude, informe.
 Quero tropeçar em cada raiz das árvores que não plantei e esmagar cada flor quando cair.
 Espero apenas um sol vermelho quando chegar ao abismo e a morte me sugar

 Margarida Piloto Garcia



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A chave




Tinha uma chave feita de lágrimas e suspiros.
Guardava-a misturada com um vestido de seda
dançado a pares no teu ombro.
A chave era mítica e destrancava labaredas e caminhos de luz.
Pendurava-a à cintura, quando requebrava as ancas
ou ondeava o ventre e as mãos, num chamamento de véus orientais.
Com a chave abria os caminhos do meu e do teu corpo
e cantava melodias nunca interrompidas.
Sei que descobrias em mim o prazer escondido mas por ti sonhado.
Sabias de cor o cheiro da minha pele e os relevos do meu corpo
e levavas-me o coração guardado nessa chave.
Eu acreditava nos segredos que ela abria
quando juntávamos as mãos nos passeios por entre os rios
que escorriam pelas nossas pernas.
Numa travessia por um eterno deserto, guardava-a sequiosamente.
Um dia perdeste o passo, o rumo.
Embriagaste-te numa rota de pequenos veleiros e os grandes navios seguiram comigo.
Hoje não há chaves, apenas estacas a delimitar fronteiras.

Não me procures por aí.
Para onde vou, levo apenas a companhia de uma gaivota pousada no ombro.
O resto...é silêncio.

Margarida Piloto Garcia







quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Passeio





Dou-te a mão e espero.
Tremem sentidos na pálida madrugada
e o nevoeiro escorrega-me nos nós dos dedos.
... Levo entrelaçado nos cabelos, fios de histórias por rematar.
Caminho no ondear das palavras
enquanto a cidade escorre no som das memórias relatadas.
Quero acreditar
que o rio me leva ao mar imenso, parindo barcos de velas enfunadas.
Em cada nuvem um pensamento
em cada onda uma sereia.
Sigo o caminho de mão dada buscando nesse enredo o calor do sol
e o aroma das cerejas, tintas e carnudas.
Na palidez do dia escondo o coração no bolso do casaco.
E sigo de mão dada, como um fantasma na neblina matinal.


Margarida Piloto Garcia








quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Final



Não tenho mais palavras.
Gastei-as no fundo da tua boca.
Fiz com elas ondas salgadas com que te penteei os cabelos
e te lavei o corpo.
Nas tuas meigas mãos depositei-as
e deixei que me descobrisses os segredos
e me percorresses em vagas de paixão.
Entre nós havia um raio de sol sempre a pôr-se no horizonte
e tu cobrias a minha pele de flutuantes carícias
só visíveis aos olhos dos deuses, das montanhas e dos mares.
Hoje gastei as palavras nas pegadas deixadas na areia
e na tua boca não escrevo mais poemas de amor.

Margarida Piloto Garcia in-PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013





quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Um dia




Um dia
vou dizer-te palavras bordadas a bilros
traçando um labirinto que tu procuras percorrer com os lábios.
Vou olhar-te com olhos que te falem de mim
e onde as promessas dançam tangos de paixão.
Um dia, um dia...
Vou ensinar-te a percorrer os caminhos que levam ao meu colo
onde descansas a cabeça das intempéries da vida.
Passo a passo
gesto a gesto
carícia a carícia
quebras as barreiras e teces a teia dos desejos.
Um dia
vou surpreender-te e pôr a alma nua nos contornos do teu e do meu corpo.
O desenho dela vai cantar-te baladas
e as tuas mãos dançarão nas curvas dos meus seios
ao afundar-se em mim como um cisne morrendo.


Um dia
tu vais olhar as minhas rendas pretas e desnudar-me os ombros.
Murmurarás palavras ciciadas, urdindo um feitiço enquanto o sol se põe.
E inevitávelmente beberás dos meus lábios
a magia que te entardece os dias e inebria as noites.

Saio de madrugada ao teu encontro
a boca tremendo
o coração louco
a pele fervendo na espera do teu toque.

Um dia
vou contar-te este meu sonho.
Talvez quem sabe..um dia.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Chocolate






Leva-te às alturas
esse pedaço de chocolate negro que mordes nos lábios túrgidos.
Escorre-te uma gota no canto da boca
e qual réptil, a tua língua recolhe-a e degusta-a.
Sentes borboletas no estômago e faíscas cintilantes
nos olhos, na mente, no teu eu.
O chocolate trouxe-te uma magia orgásmica
um arco-íris gritante, como um LSD natural.
Viajas noutra galáxia
onde traças sulcos quase negros numa pele firme e elástica.
Tens as pestanas coloridas desse rímel feito com o cacau dos deuses
e tracejas outra face húmida de saliva e suor.
Não queres acordar
presa de uma magia que oriunda de trabalho escravo
de algum modo também te aprisiona.

O pequeno pedaço já se foi, derreteu melado nas tuas entranhas.
Agora há uma paz melódica e translúcida
mas de uma tão erótica vibração, que te viciou.


Margarida Piloto Garcia



sábado, 5 de novembro de 2011

Girassóis



  “ Assim fremente e nua, a luz só pode ser dos girassóis. “


Eugénio de Andrade in “O outro nome da terra.”


O comboio leva-me e carrega os meus sonhos.
Num constante rolar o meu olhar atinge os campos
e os campos devolvem-me esse olhar.
Não sinto, porque sinto tanto que matei o sentir.
O comboio rola e leva-me à cidade onde me perco
e onde amo cada pequeno passo, dado sozinha ou ao teu lado.
Essa cidade vai-me abraçar e corroer a vida de paixão.
A beleza dela é uma epifania e um esplendor
que tu escangalhas quando me desfazes a alma.
Esse ego monstruoso esconde a tua fragilidade
e é por ela que me detestas
porque eu a sei, porque eu a sinto.
Mas a cidade ainda está longe e eu já antecipei a dor
sublimada em pequenos prazeres que me alucinam.

Estava a tentar deixar correr os olhos
no tremor do amarelo da paisagem.
E vejo-me solta, uma silhueta em alvoroço, cabelo ao vento
rodeada do dourado que me fere os olhos.
Tento não olhar, não sentir que corro através das flores
que me atraem e me chamam.
E de repente vejo, são girassóis, imensos, ondulantes
fazendo-me o apelo.
Sou transportada a uma selva louca de pétalas
que me prendem mais do que me afagam.

E é isso mesmo que se crava em mim, o sentimento da minha invisibilidade.

Tu não me vês e os girassóis são cegos.



Margarida Piloto Garcia in- Sob Epígrafe. Tributo a Eugénio de Andrade, publicado por TEMAS ORIGINAIS, 2023





Arte de Paul Schilliger






quinta-feira, 21 de julho de 2011

Prisão



Há uma certa crueldade
nas palavras que escreves com teclados estéreis.
Eu não vejo céus de estrelas
só ripas que me fecham os olhos e amortalham.
E é nesta minha quase sinestesia
que a dor explode em rubros clarões
com cheiros aveludados a cerejas carnudas.
Leio as palavras e quedo-me muda
enquanto os gritos me recortam em desenhos surrealistas.
Tento ir mais além, navegar no tsunami
mas este leito tem amarras
prende-me o pensamento, castra-me as emoções
chama-me louca, e possessivo, subjuga-me.
Sou um velho guerreiro, um espírito engelhado
de armas ferrugentas e cicatrizes virulentas
como ecos de uma viagem por entre guerras sem fim.
Levo o meu coração embrulhado num pequeno papel
amarrotado, fino, manchado e a desfazer-se.
Às vezes, penso que já não existem céus estrelados
e que o pôr do sol há muito se escondeu nas trevas.
Ouso despir a angústia a um corpo que desconheço
e pendura-la nos fantasmas que me mordem.
Algures, as palavras escritas com teclados, reclamam-me a alma.

Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013





domingo, 28 de novembro de 2010

Destino






Eu já era assim
Tinha sagas futuristas agarradas nos olhos
e cobria os recantos escondidos e aconchegados
de poalhas de sonhos.
Em cada noite
fazia clones sem parar
uma máquina inconfundível de realidades estropiadas.
Quando as manhãs rasgavam o conforto
procurava na vida as personagens só imaginadas.
Eu sempre fui assim
ingénua e despudoradamente sôfrega
uma louca em banda desenhada.
As minhas mãos têm recordações táteis
guardadas para desfiar num rosário de noites brancas
em que a mente desenha borrões de tinta viva pingando gritos pelo quarto.
Tento não ser assim
mas escrevi um destino torto em fase terminal.



Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013




quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ritual




Uma mulher normal
conta as rugas do descrédito, reflectidas no espelho desdenhoso.

Deixa os dedos
percorrer as estradas do cabelo naufragado nos ombros.

Escreve melancólica
palavras de uma só sílaba, que contabiliza com esmero.

Desmaia
no último veludo da pele acariciada.

Uma mulher normal
fecha a porta do castelo numa dança febril.

Reúne os últimos despojos
e cerra as asas, cansada da borboleta que já foi.


Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013



quinta-feira, 22 de abril de 2010

Grito







Venho dizer-te
que eu sou eu
e nunca ninguém poderá ser eu.
Trago um pássaro no peito
que se agita e estremece
cravando-me garras aguçadas.
Sei que não compreendes
o labirinto que a minha língua percorre
mas hoje os minotauros fugiram do meu sonho.
Se tenho olhos de corça
foi porque amordacei paixões e lhes calei a voz.
Agora canto silêncios
e estendo-os no luar da vida.
Confesso-te esta alma inquieta
feita de marés e remoinhos
mas não quero ver-me no espelho dos teus olhos.
Aqui onde me encontro
cobri de aço a alma rasgada
tranquei-a para sempre no meu eu.
Flutuo sem pensamentos
até que o pássaro nada sinta.

Mas eu sou eu
e até que me dilua na cinza universal
vou deixar rastos no teu corpo.


Margarida Piloto Garcia in- POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA

Arte de Delawer




domingo, 14 de março de 2010

Poeta




Tenho um poeta
que me canta versos navalhados
plenos de êxtases e de mágoas
deixando em mim uma marca feroz.
Nas esquinas do meu desejo
entrelaçam-se rotas em carne viva
gritadas loucas ao vento suão.
O meu poeta
é uma ave madrugando as palavras
cheirando-me o cabelo em sussurros.
Inquieta, corro por entre os sons desenhados
sem saber o que fazer com a eternidade dos sentidos.
Ficam agrestes e soluçantes
as arestas do meu pensamento
um caudal de emoções em lava abrupta.
Nas marés vivas do que escreve
há raios pranteados de luar
caminhos secretos e paixões.
Este poeta que me morde os flancos
e me rasga a roupa
traz sinfonias incompletas ao meu desespero.
Cega o meus olhos de corça
enche o meu ventre de mel
e pinta a minha boca de cobiças.
E assustada fujo
estropiada na embriaguez dos versos.


Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013






domingo, 28 de fevereiro de 2010

Agonia






Vieste nesse dia
e trouxeste ramos de absurdos
e raivas incontidas.
Dentro de mim
um pássaro bateu asas aflito.
Auroras rubras
tentaram desfazer o meu querer
e atiçaram emoções fogosas
mas eu já me perdera em nevoeiros.
Sou um canavial ao vento
e todas as gotas de chuva me devoram.
O pássaro dentro de mim
é uma fera aflita
um grito
um sopro
uma esperança.
Todas as dores me roem
as algemas com que teimas em calar-me.
Não sei mais quem tu és
mas sei quem sou:
um pássaro morrendo na madrugada.


Margarida Piloto Garcia-in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013

Arte de Felix Más





terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Conhecimento




Sei que tu sabes
desta febre que me devora e suga
deste ácido que brilha em pérolas de suor na minha pele.
A minha mão esculpe o teu corpo
e conhece-lhe recantos escondidos.
Há um aroma vibrante nesse teu cabelo
e uma força macia que se me enrola nos dedos.

Sei que tu sabes
quando os meus olhos se perdem loucos
no abismo dos teus.
Numa espiral magnética
as minhas pestanas dançam húmidas e
desconcertantes coreografias pela tua face.

Sei que tu sabes
deste meu vício de ti
da ânsia do toque apaixonado
dessas mãos a que me submeto.
Em complicadas partituras
mescladas de trombetas e tambores
esta paixão é um cavalo alado
sem rédeas, sem freio, sem destino.
Descubro-te a vida numa lágrima
e a tua voz canta-me rumbas de desejo.
Não sabemos como partir
como quebrar o sonho e seguir.
Em cada dia há um mistério por guardar
e um punhal cá dentro a afundar-se.

Mas eu sei que tu sabes
que eu sou tão real quanto imaginária
e guardo em mim o mistério do amor.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013