Tinha uma chave feita de lágrimas e suspiros.
Guardava-a misturada com um vestido de seda
dançado a pares no teu ombro.
A chave era mítica e destrancava labaredas e caminhos de luz.
Pendurava-a à cintura, quando requebrava as ancas
ou ondeava o ventre e as mãos, num chamamento de véus orientais.
Com a chave abria os caminhos do meu e do teu corpo
e cantava melodias nunca interrompidas.
Sei que descobrias em mim o prazer escondido mas por ti sonhado.
Sabias de cor o cheiro da minha pele e os relevos do meu corpo
e levavas-me o coração guardado nessa chave.
Eu acreditava nos segredos que ela abria
quando juntávamos as mãos nos passeios por entre os rios
que escorriam pelas nossas pernas.
Numa travessia por um eterno deserto, guardava-a sequiosamente.
Um dia perdeste o passo, o rumo.
Embriagaste-te numa rota de pequenos veleiros e os grandes navios seguiram comigo.
Hoje não há chaves, apenas estacas a delimitar fronteiras.
Não me procures por aí.
Para onde vou, levo apenas a companhia de uma gaivota pousada no ombro.
O resto...é silêncio.
Abro uma porta
e espreito.
Que longo é o caminho a percorrer!
Estendo um tapete de mágoas
e tento caminhar.
O sonho é sempre delirante.
Na realidade
encontro-me apenas
parada
à espera.
Soergue a mão e deixa lentamente escorrer areia por entre os dedos.
Contando cada grão, uns mais escuros, outros mais brilhantes, xistosos, ela mede cada segundo de vida e deixa-os cair e desaparecer lentamente, numa chuva miudinha e dispersa.
Com os segundos passando, num tempo que não se detém, conta os grãos, e a memória regressa a uma praia onde as mães cuidam dos filhos, onde os toldos enfunam ao vento.
Há velhos bancos de madeira com pequenos orifícios pelos quais a areia escorre para formar castelos.
Os castelos são de areia tal como os sonhos, mas ela ainda não sabe e sonha.
Os sonhos são de menina mas contêm o germe de todos os sonhos.
E o pensamento é livre e escorre, tão palpável mas tão etéreo como a areia que agora lhe escorrega por entre os dedos.
Devagar, devagarinho, ela descalça-se como no strip mais intimista e mergulha lentamente os dedos dos pés na areia fresca da madrugada, macia como uma virgem por desflorar.
A sensação de que se recorda ano após ano, regressa num impacto súbito.
É sempre a mesma!
Os grãos que escorrem da mão, são o anti-clímax da profunda e sensual sensação de puro deleite, enquanto deixa os pés escorregarem e enterrarem-se profundamente na seda fria do areal.
Um sorriso transcende-lhe as comissuras dos lábios e retira-lhe o ricto um pouco amargo de acumulados desalentos.
E à medida que a pele aprofunda as sensações, ela sente cada poro aspirar o aroma pungente da brisa marinha.
São tantas as emoções que a percorrem, que já não sabe exactamente onde começa e onde acaba a paixão e a volúpia dos grãos de areia fria da alvorada.
Saboreia o momento, numa vibração quase orgásmica que não precisa de parceiro, porque existe dentro de si
.Ela sabe que o momento é breve tal como a realidade, porque o sol vai aquecer a areia fria e os sonhos têm de ser recolhidos muito fundo.
Fundo, tão fundo que às vezes se esquece de sonhar e é nessa altura que o travo metálico de uma morte anunciada a faz vacilar.
O momento aproxima-se e a dor fá-la retrair-se numa estátua.
Tenta desesperadamente agarrar o último resquício da sensação que não quer perder, da emoção que não quer largar, da paixão que não quer deixar arrebatar do corpo, da alma, de todo o seu pensamento.
Agarra com força o último punhado de areia e cerra-o na mão fechada.
Nas costas da pequena mão que lhe recorda a criança de outrora, uma veia azul serpenteia como o caudal de um rio.
Segue o rio, navega nele olhando-o com duplicidade da margem e, pouco a pouco, muito lentamente, à medida que o sol se torna mais intenso, abre lentamente a mão fechada e deixa os últimos grãos de areia cairem, já mortos, pisados e húmidos, junto dos seus pés.
A névoa dissipou-se.
Quando levanta a cabeça das mãos, as paredes do quarto encerram-lhe o corpo e a vida.
Os olhos seguem a luz que entra pela janela.
A média distância erguem-se mais paredes, mais janelas, num cenário de um qualquer planeta que não é o seu.
Recolhe à posição fetal.
Não me posso chegar à tua beira
sem que me estremeças
com as teias com que me teces os cabelos.
Biombos ondulantes
cortinas da vida, ocultam-me.
Não me consigo ver
nos espelhos enlutados
com os panos que os cobrem.
Sinto-me embriagada
em sonhos vividos nas margens de um rio.
Tudo o que posso dar
são mãos estendidas em trémulas manhãs.
Como um algoz
chegam visões de uma praia
de águas azuis, quentes e doces,
de um pequeno café fugindo do sol tórrido
de uma limonada refrescante.
Vende-se uma ilha, anuncia o cartaz.
E a mente galopa
num onírico quase psicadélico.
Pergunto-me porque me teces os cabelos
porque os entranças de mágoas
geradas em tardes deslumbrantes.
Quero chegar-me à tua beira
mas o frio tolhe-me e a escuridão cerca-me
porque faz tempo que partimos.