domingo, 1 de dezembro de 2019

Ouvi dizer









Ouvi dizer que neste mundo
as mulheres têm penas mas não voam
e as vitórias esmagam-lhes o peito.
Ouvi dizer que o vento só lhes é favorável
quando gritam e contam tudo às árvores
e atravessam o vazio à boleia de uma lua cheia.
Ouvi dizer que moram na História
mesmo que as tentem apagar
construir muralhas ou mergulhá-las em sangue
ou mesmo enterrá-las num chão negro.
Mesmo que ganhem espinhos, elas florescem
e todas as flores despertam nas feridas abertas.
Ouvi dizer que só a arqitectura dos seus corpos
sustenta o universo e desenha o horizonte
em linhas perfeitas e caligrafias nostálgicas.
Ouvi dizer que é graças a elas, que se dá nome às coisas
e se inventam palavras capazes de vencer a morte.






Imagem de Gary Isaacs

sábado, 16 de novembro de 2019

Poente outonal







Há um céu fulvo a comer a saudade
e os passos resistem a queimar-nos a dor.
Sobram palavras onde o sol expira
num lânguido suspiro no horizonte.
Enleio-me na serenidade das gaivotas
e no gozo do grito das pequenas vagas.

Não há olhares na sombra do caminho
e os murmúrios são incógnitos e tristes.

Na calma amarga e aparente
resta-me o som vago e distante
da que já foi a tua voz.

© Margarida Piloto Garcia 
in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A CAMILO PESSANHA- publicado por Temas Originais 2017


À poesia








É o teu som que oiço na brisa matinal

despertando epopeias na pele dos meus sentidos

Arrulha o pássaro no reverso de mim

a instigar palavras para quebrar e dançar em teclas.

Agora a fonética corre lasciva da mente aos dedos

metamorfoses por trás da retina, versos saciados

a beberem as células do pensamento em fusão.

A imaginação atropela-me o corpo em sons

que se fundem num impensável ou predestinado

poema, prosa , acto de amor eterno.

Mordo as palavras com os sons que despertam

mesmo que seja noite, ou o inverno se mascare de verão.

Os espasmos dos risos ou dos beijos

são versos gritados a escorraçar silêncios

que vagueiam durante o dia, espessos como nevoeiro.

No fim amo-os nos sons que crescem dentro de mim

No fim amo-te a ti, poesia.






© Margarida Piloto Garcia.


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Ser






Ser água
e permitir que escorra
entre beijos desfeitos.
Ser vento
e perder a inocência
nas raízes desse cabelo.
Ser terra
e sentir-me inteira
como um pecado original.
Na dúvida ser tudo isso
como um desejo insano e prepotente.
Conjugar verbos no sabor da pele
e gritar necessidades, doces, salgadas,
por vezes amargas e rebeldes.
Ser mar e ser falésia
deixar-me navegar até que tu naufragues
e as gotas de sangue me apaziguem os sentidos.
Ser a memória apagada
a predadora do cansaço e da crueldade mal gasta.
Ser um anjo feroz a abocanhar a vida
numa seminua pequenez.
Ser a mudez da cama vazia.
Fosforescer no verão ou noutra estação qualquer
quando só me falta a tua
num vai e vem de anos ululantes.
Ser o alento enganoso
quando o tempo não tem vagar de existir.
Ser um velho tango marginal
um ritual intimo enroscado num poema.
Ser o aroma da flor acabada de colher
e o grito da manhã.
Ser, enfim, a esperança de sobreviver
a mais um recomeço.



© Margarida Piloto Garcia


© Foto de Randall Hobbet - Tetyana

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Desistência





O que não compreendes
é que a lâmina desliza devagar.
Tu não entendes.
Ninguém o faz.
Mas a lâmina é isso mesmo
um corte suave e eficaz
um deslizar carmim
o esquecimento
a paz.

Podes lá chegar
dum modo ou outro.
De joelhos com um beijo inesperado
no silêncio de uma vida minada
ou a decifrar algoritmos de perigo.
Tudo pode ser mais fluido
com comprimidos brancos enredados
em líquido ambarino.

Mas a lâmina corta cerce a cauda de sereia
e desfaz o sonho em fiapos.
Afinal, o vermelho vai casar bem
com o amarelo das giestas.

© Margarida Piloto Garcia

© Foto de Pilar Les



quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Sexto sentido





A vida é um bicho estranho. Tem múltiplas pernas com que se movimenta num ritmo ora acelerado, ora lento. Tem asas com que às vezes voa e esmaga as ausências, e pele que dói no grito quente das memórias. As mãos inventam a vida ao sabor da imaginação e guardam na língua as palavras com que a tecem.
Desde pequena que a avó lhe dizia que ela tinha um dom. Ao longo da vida fora-se apercebendo das suas qualidades, bem como dos seus defeitos. Uns e outros eram o seu centro, a pedra nua onde se perdiam os passos do passado e se escondiam as linhas do futuro. Mas o tal dom nunca o sentira. Não adivinhava vidas, nem sequer vislumbrava essências do que já fora. O seu sexto sentido, a existir, devia-lhe ter falado ao ouvido no dia em que o conheceu. Quem sabe, não a devia mesmo ter esbofeteado acordando-a para a realidade.
Não fora uma paixão à primeira vista. Ela apenas se sentia amputada de um amor sonhado, de algo que a imaginação pedia e o corpo lhe gritava. Ele pintara-lhe a vida de cores garridas, de cativantes atenções e abrira-lhe as portas de um mundo novo. No desassossego dos sentidos incendiavam-se quimeras e nesse tempo não cuidava em perceber se o ombro dele seria porto de abrigo. Vestiu na perfeição uma cegueira engalanada e partiu em direcção a um destino torto.
As traições que lhe bateram à porta foram apenas os preliminares de uma destruição. As únicas coisas em que pensava eram um poderoso aríete a martelar-lhe a mente. Não quebrar. Não desistir. Não recuar. Tentar derrotar as humilhações, as ameaças, as palavras cruéis. Sobreviver, talvez por fora, enquanto por dentro tudo enregela e morre.
E dentro de si as palavras da avó: tens um sexto sentido!
Que sexto sentido? Aquele que a fazia tentar vezes sem conta burilar os factos para que a vida fosse normal, ou o que a dotava de discursos suicidas quando falava com ele?
A vida provara-lhe quão medíocre era a sua previsão de resultados. Cada conquista amainava-lhe os anseios e a esperança crescia-lhe nos olhos. Mas quanto demorava a decepção a engolir-lhe a vida e a persegui-la como um cheiro impiedoso? Muito pouco, por vezes míseros minutos até se sentir de novo exaurida numa solidão só dela, subjugada ao desprezo dele.
E os anos passaram sem que se conseguisse libertar, submetida ao bem dos outros, num arrastar sem sentido. Enquanto sentiu, lutou. Mas chegou a uma altura onde até a imprecisão da dor se tornou um hábito. A vida deixou de pulsar ainda que o coração dissesse que batia.
Naquele dia acordou com a estranha sensação de que algo aconteceria. Seria o tal sexto sentido de que a avó lhe falara? Se sim, não entendia porque esperara que ela tivesse cabelos brancos e o sorriso só lhe assomasse a cara aos trambolhões de tão pouco usado.
Levantou-se e traçou as linhas do costume. Começou a percorrer a estrada de mais um dia sem surpresas, nem alegrias. A sensação com que acordara era cada vez mais forte ao ponto de se tornar numa insidiosa dor de cabeça. Se não fosse a rotina e ela escrava de uma condição que a vida determinara, ou a sua cobardia lhe exigira, e teria saído para mergulhar o olhar nalgum ponto azul do rio.
Mas ficou presa nas teias da casa a arrastar a irrespirável solidão.
E foi nessa altura que o irreparável aconteceu. Tudo aquilo que ele um dia ameaçara estava agora a cumprir-se.
Só nos últimos segundos de vida se apercebeu que afinal a avó não mentira.



© Margarida Piloto Garcia in "SEXTO SENTIDO"  - publicado por LUA DE MARFIM EDITORA-2016

domingo, 6 de outubro de 2019

Teimosia








Pegar a vida pelos cornos
demonizá-la, violentá-la,
apertá-la com a dose certa de fúria
num abraço extremo, num último extertor.
Dançá-la num tango, dobrá-la pelos rins
aos meus desejos mais febris.
Esquecer. Esquecer mesmo que os dentes da memória
se cravem diariamente na pele.
Começar de novo
sem que a espinha se parta e os ossos dobrem.
Escapar aos titereiros, aos pagadores de promessas,
aguentar entre o pensar e o sentir.
Desafiar a sina, embrulhar palavras salgadas
em beijos doces, sem escolhas demoníacas.
Rejeitar a crueldade a rastejar nas veias
e atirar ao vento a gargalhada louca.
Viver, viver porque a solidão é uma arma
e a vontade uma réstia de sobrevivência.
No fim de tudo abrir as asas com intrepidez
e rugir a um novo amanhecer.
© Foto de Nannimensch



segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Garrote








Não me escrevas.
Peço-te que não me escrevas.
Proíbo-te mesmo de me escreveres.
Afinal, a verdade nunca é a verdade.
Há inúmeras versões com o mesmo destino
irrepetível e abandonado, como coisa usada.

Não me escrevas.
A memória do corpo é coisa antiga
que tu acordas nas palavras. E quando a pele
se lembra, anseia pelo lume e tu não ardes.
As hienas chegam e riem das palavras
enquanto devoram a saudade.

Não me escrevas.
Não me lembres o momento em que o amor morreu
ou mesmo a chacina que a vida fez por aí.
Faço um esforço para aceitar as vozes que rasgam
pulsos e cravam facas no peito e insone
esmago sonhos nos vidros das janelas.

Posso aceitar o abismo
a penumbra dos lugares e até mesmo
a inutilidade da vida.

Mas por favor, não me escrevas.




Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019



Arte fotográfica de Marysia Bieniaszewska





domingo, 1 de setembro de 2019

Cegueira








Chove.
Chove há muito, mesmo que faça sol.
Chove desde o dia em que deixei de ver as nuvens
penduradas na janela a fingir horizonte.
Encurralada entre sombras, não meço distâncias
nem descubro gestos.
Onde a noite se deita, mascaro o amor de pedra
polindo as arestas mas cobrindo as feridas com sal.
As manhãs são sempre negras ou é a minha cegueira
que insiste em esconder o sol.

Chove.
Chove sempre que te relembro, mesmo que tenha
feito sol, mesmo que a primavera despontasse em mim.
É fundamental que as grilhetas não entrem no sangue
e as feridas não infetem com as memórias.
O que importa é que a ausência seja o tempo do nada

o tempo da cegueira.





Margarida Piloto Garcia  in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019



Foto de Georges Dambier

terça-feira, 20 de agosto de 2019

NA NOITE-Parte V- Aceitação






Finalmente arrumei as gavetas.
Deitei fora as cartas. Eram fórmulas mágicas
a prenderem-me à terra e estigmas
com que passava as noites. Ficou muito espaço
para arrumar o coração. Agora também posso
pendurar as lágrimas no armário, ou melhor ainda,
levá-las com o cão à rua e deixá-las a adornar as flores.
Já têm pouco sal, não devem fazer mal.
Cuidar do amor existe mestria. Os pedaços colam
de modo informe e desacertado e deixam arestas.
Assumi a reforma, não quero cuidar de nada.
Deitei todos os despojos no lixo, varri o teu fantasma
e o tempo em que era pássaro de gaiola.
Dentro de mim não há mais mágoas trituradas
e os sonhos vêm sem que o nevoeiro me penetre os ossos.
Já não tropeço cega e rastejante a perseguir sombras.
Enquanto te amei, estive sempre só. Hoje entrei
pelo espelho e fiquei completa, cara a cara com o meu eu.
Cumprimentei-me com o suspiro de quem se reencontra
e lembrei-me da canção que antes ouvia.

E vem-nos à memória uma frase batida
Este é o primeiro dia do resto da tua vida”



Margarida Piloto Garcia in-"RONDA DA NOITE"- publicado  por TEMAS ORIGINAIS- 2019

Foto de Josefina Melo