domingo, 7 de julho de 2019

Canção do mar





Lençol de areia quente e branca
a emborcar desejos sob o sol.
Nele me envolvo com a alma gasta 
e a pele a arder. Um dia destes
rompo os braços mar fora.
Quem sabe a espuma sabe a algodão doce
e me faz adormecer devagarinho.

Passo a passo deixo rudes marcas
fantasmas deste corpo a afogar-se
em esperanças devolutas, presas pela raiz.
Abro o peito à maresia para expurgar
os vícios. Afasto os versos turvos
e mergulho a alma sem remédio.

As palavras soam estéreis
sem que ninguém lhes valha, tal como cada adeus.
Indiferentes, as gaivotas despedem-se de mim
e eu não sei de gritos para as chamar.

Na impoluta madrugada
canção perfeita é a do mar.

Margarida Piloto Garcia

Pintura de David Ligare



segunda-feira, 1 de julho de 2019

Fórmula






O segredo é não chegar perto
não deixar o ar encher-se de perfumes nocturnos
trazidos pelo vento suão.
Impedir o peito de arfar
e sorver a vida em golfadas sôfregas
sem que te pique a língua e arranhe a garganta.

O segredo é não deixar
a pele arrepiar. Cerrar os dentes
mesmo que todos os ossos te doam
e a febre te consuma.

Mesmo assim…
nem todos os santos e crenças me salvarão.
Nem todos os médicos e mezinhas
surtirão efeito, se um dia te deixar
chegar perto.



Margarida Piloto Garcia



 Imagem Eliza Mytk


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Faca mortal






Faca mortal
esse teu nome que me perfura 
rompe e sussurra neste naufrágio.

Faca mortal
esta lembrança de mãos acesas
que me rebentam em cegarregas
sem fim à vista.

Faca mortal
estes sentidos não saciados
num faz de conta todo inventado
trocando o medo pelo vazio.

Visto este corpo, só com o teu
que se intromete e manipula.
Rubro o punhal que me embriaga
e eu intrépida abraço a lâmina
que se retorce dentro de mim.

Vem à lembrança o sol na pele
veias pulsando, bocas gritando
e eu amarrada no teu olhar.

Faca mortal
este desgosto.




Margarida Piloto Garcia

domingo, 23 de junho de 2019

Entre a noite e o dia







Basta acordar cedo e fugir aos dialetos noturnos.
O medo esconde-se nas sombras
e nos silêncios. É uma serpente a devorar a luz.
O dia vive temerário e brilha como sílica ao sol.
Nele, os poemas são menos fatais e as clausuras
são menos verdadeiras e insensatas.

Não há leis nem teoremas que te ajudem
quando morres atropelada pelos sonhos.
Em qualquer estação do ano, a vida
é uma promessa imperfeita, uma construção
a desmoronar-se desde o passado.

Há uma morte repetida em cada dia
um revolver apontado à cabeça,
um apelo que guardamos por dentro
a tornar-se peso, a tornar-se sombra,
a respirar fundo feito veneno.




Margarida Piloto Garcia

Mulher







O que os olhos das mulheres dizem
tem o suspiro das feridas ligeiramente encobertas
com o nevoeiro das promessas.
O que os seus braços abraçam
são as opções de todas as batalhas femininas.
A suas bocas não falam só de amor
gritam enquanto se batem nesta selva.
Lá fora as crianças carregam sorrisos em bombas por explodir
e as mães lavam o sangue na areia onde as vergaram.
O medo não tem direito a beijos, nem a lágrimas apressadas
por isso as mulheres guardam-nos em cada ruga, em cada poro.
Sabem tudo mas engasgam as palavras porque o vento as devolve
por vezes em látegos de dor. 
Amam na raiva e na meiguice. Estão no lado errado da lua
mas a luz explode nelas.
Intrometem-se, polinizam, abandonam-se e embriagam-se de amor.
Fecham as asas da crença mas intrépidas soltam-nas em alto voo.
Para falar de amor, as mulheres ajoelham-se como quem reza
porque dentro delas há sempre sonhos por cumprir.



Margarida Piloto Garcia


Foto de Christian Coigny

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O que resta







Do amor já nem resta o quarto vazio
o sol do outono e o vento do verão.

Foram-se as paredes cúmplices
e os beijos vorazes como papoilas.
As feridas abertas são exorcizadas
em equilíbrios acrobáticos.
Temos lâminas e espadas nas mãos
e um revólver na boca aberta
a encher de balas o que nos rodeia.
Fez-se noite tão depressa
as paredes encheram-se de bolor e
os quartos são habitados por outros amantes.

Já não sei se inventei afectos
ou se o medo cresceu no final
mas os pássaros ainda se deitam nesta praia
e a chuva ainda chora por nós.



Margarida Piloto Garcia

Foto de Rova


Vida e morte







O que a impede de morrer é aquela lua
no vapor vago e delirante da maré cheia.
O que a prende é a linha salgada
e o silêncio puro do corpo despido.
Impávida, cerca-se de suicídios teóricos
envoltos em fantasmas do passado.

Por causa dele está presa à raiz
à viagem sem retorno
às cumplicidades amarguradas.

O que a impede de viver
é a esperança ébria e imperfeita
que a massacra e lhe morde a vida.




Margarida Piloto Garcia

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Pássaro





Pássaro azul, a tua boca
mora ao lado da minha e sobrevoa-me.
Cristalina, canta-me madrugadas
e beija-me com o cheiro do pão quente.
A luz da manhã pisa as flores moribundas
fere o silêncio e dá nome aos nossos corpos.

Pássaro vermelho, as tuas mãos
são tardes de um fulgor incandescente
silhuetas desassossegadas no corpo em fúria.




Margarida Piloto Garcia

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Domingos






Os domingos podem ser tão frágeis
eivados de um convívio que se sente na carne
a antecipar o medo de uma nova semana.

Palpável é o suor dos dias
no cinabre que tinge todas as esperanças.
Só sabemos do ontem e a vida forra-nos a pele
segundo a segundo.

Por vezes ainda temos quinze anos
e o gosto de beijos na boca.

Puro engano.
Há que lavar bem a boca, pôr os óculos
e ver a crueza do dia.




Margarida Piloto Garcia in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A FERNANDO PESSOA- publicado por Temas Originais 2018

Interrogações




Sede ou fome não o sei dizer.
Das palavras, dos sentidos, das coisas proibidas.

Escrevamos então um último poema. 
Onde as armas se calam e o corpo se renega
beijemos com bocas de lobo aguardando a aurora.

De pé, ereta e imune a todos os desafios horizontais
num uivo que rasga, numa febre que se assume.

Afinal, basta apenas esta língua
que tudo fala, tudo desvenda, tudo canibaliza.

Margarida Piloto Garcia

Foto de Alberto Bezzanca