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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Lobotomia






Antes que a luz quebrasse

a translúcida vidraça

já era bela aos olhos dele.

Tão bela que a distância

entre o real e o imaginário

se fundia nas frestas de luz

e se recompunha despudorada

nas sombras de um velho cão.

Acordavas os sons das ervas

no quintal e guardavas os vincos

na almofada vazia.


Depois desmantelaste-me

como um velho relógio.

Agora a minha ausência

é uma tempestade e uma sede

que te consome e não entendes.

Devias ter pensado nisso

quando me envolveste de escuridão

e deixaste de correr para os meus braços.



Margarida Piloto Garcia-in OPUS-5-Selecta de poesia em Língua Portuguesa- publicado por  TEMASORIGINAIS-2022



 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Ouves?





Ouves?

São as hienas comprometidas

com a noite a rirem-se numa

contagem decrescente para o rasgar

das vidas onde cravam dentes ágeis.

Já nós seguimos apáticos e meio cegos

sem saber o que nos espera

nas ruas que não mudam de lugar.


Ouves?

É a música que nos invade os passos

e nos cala a boca farta de palavras do passado.

A febre quebra-nos os ossos

desfazendo a dança e o corpo esquece

as memórias das promessas feitas.


Ouves?

As hienas voltaram assim que

me largaste a mão mas o meu vestido

só morreu na boca das traças.




Margarida Piloto Garcia-in OPUS-5-Selecta de poesia em Língua Portuguesa- publicado por  TEMASORIGINAIS-2022


Pintura de Clare Elsaesser


 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pedido




Fecha os olhos para não veres a sombra do meu rasto, porque parto com as aves. Vou ser feliz e alagar os poros com o suor dos dias. Vou-me encher de chuva e arrancar as raízes desta terra que me pesa na pele. Vou e não volto, mesmo que as noites deixem de ser rubras e eu tenha de coser os olhos e a boca, mesmo que tenha de gelar todos os nervos. Retiro-me. Na penumbra da tarde gasto o último verso. No chão maduro e rubro do meu sangue, deponho as minhas asas. Encolho os ossos frios e arranco a carne ainda em chamas.
Que é isso da saudade, grito eu, já mal suspensa dos evadidos braços? Mas a dor é surda e não me ouve. Mordem-me as curvas escondidas num regaço de que não sei o cheiro nem as palpitações. E vou, porque a alma se gasta na esquina das noites e os dedos são miasmas à solta num contágio fremente e alucinado.
Não me entrego às perguntas, amantes e teimosas. Encosto-as à parede para que nela fiquem como quadros de um passado voraz. Solto-me incauta a desprender-me de ácidas algemas e felicidade feita às fatias.
Deixa-me ser selvagem mesmo que tenha nos seios o leite das doçuras prometidas e o meu ventre se abra às tuas palavras devoradoras, porque  elas não são tuas e nem sequer são minhas, nem mesmo de ninguém. Deixa que o vento me despenteie o caminho e o sonho revolto e preso a fios de nada me aplauda as opcões ainda que tortas.

E num último e frenético pedido, cobre a minha boca de rezas beijadas para que voe em frente, antes que eu tropece enlouquecida e recue na evasão do medo.


© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019

© Foto de Eliane Schulze Segunda



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Morte anunciada






 Morrias
em manhãs odoríferas grávidas de imaginação.
Morrias
nas tardes espúrias e pálidas que a nada chegam
Morrias
singrando as noites estultícias e afundando a vida.
Na tua boca as palavras expiraram
e os trechos cursivos estiolaram sem as tuas mãos..
De olhos voltados para dentro
estrangulaste sonhos e desejos.
Agora corro à procura do rio que sem pressas nem destino
me leva a outras margens
e sondo-me na esperança de que o sentimento
me acenda
me varra
me sugue como um vampiro.
Enquanto isto, sem mesmo te dares conta
tu morrias-me

© Margarida Piloto Garcia