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domingo, 30 de novembro de 2014

Pensamentos soltos




De que servem os braços onde não cabes?
Lianas sem flor azul nascidas em mãos de adaga.
De que serve a pele, plena de um momento cheio
desde o dia em que a madrugada acordou o meu pulso?
Essa pele onde as armas escreveram desalinhadas vogais
e os dias naufragaram no vício maduro e intrometido.
De que servem os olhos, frestas incendiadas?
Nem anjos nem demónios se escondem
nas palpitações dos cílios que beijaste.
De que serve a boca onde as estrelas acordam?
De nada, sem essa respiração suspensa sobre mim
e a tua invasão destes meus lábios cerrados.



© Margarida Piloto Garcia

© Foto de Joné Reed





segunda-feira, 5 de maio de 2014

De longe







E Abril passou
E outros virão aqui onde estou
de esperanças feito
O frio aperta na mente que sonha
e a fome alerta sem voo nem asas
Daqui faço planos
mas os desenganos escrevem-se a cru
Na luta sem tréguas
não mais vejo as águas do meu oceano
nem as azinheiras torradas de sol
Daqui a lonjura é corda que enforca
é faca que corta e caudal que alaga
e sobe à garganta
No país amado deixei só a alma
que o corpo faz falta pra ganhar o pão
Abril já partiu
e os medos que envergo não guardo
nem quero
mas expulso e enterro
em estrangeiro chão.


© Margarida Piloto Garcia



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pedido




Fecha os olhos para não veres a sombra do meu rasto, porque parto com as aves. Vou ser feliz e alagar os poros com o suor dos dias. Vou-me encher de chuva e arrancar as raízes desta terra que me pesa na pele. Vou e não volto, mesmo que as noites deixem de ser rubras e eu tenha de coser os olhos e a boca, mesmo que tenha de gelar todos os nervos. Retiro-me. Na penumbra da tarde gasto o último verso. No chão maduro e rubro do meu sangue, deponho as minhas asas. Encolho os ossos frios e arranco a carne ainda em chamas.
Que é isso da saudade, grito eu, já mal suspensa dos evadidos braços? Mas a dor é surda e não me ouve. Mordem-me as curvas escondidas num regaço de que não sei o cheiro nem as palpitações. E vou, porque a alma se gasta na esquina das noites e os dedos são miasmas à solta num contágio fremente e alucinado.
Não me entrego às perguntas, amantes e teimosas. Encosto-as à parede para que nela fiquem como quadros de um passado voraz. Solto-me incauta a desprender-me de ácidas algemas e felicidade feita às fatias.
Deixa-me ser selvagem mesmo que tenha nos seios o leite das doçuras prometidas e o meu ventre se abra às tuas palavras devoradoras, porque  elas não são tuas e nem sequer são minhas, nem mesmo de ninguém. Deixa que o vento me despenteie o caminho e o sonho revolto e preso a fios de nada me aplauda as opcões ainda que tortas.

E num último e frenético pedido, cobre a minha boca de rezas beijadas para que voe em frente, antes que eu tropece enlouquecida e recue na evasão do medo.


© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019

© Foto de Eliane Schulze Segunda


domingo, 28 de julho de 2013

Flor de laranjeira




Virou a esquina e o perfume atingiu-a como um soco violento. Parou aturdida, a mão comprimindo o estômago, a respiração ofegante, o coração tornado corcel em fuga insana. O aroma era inebriante, quase sufocante de tão pungente e intenso.
Respirou fundo, muito fundo, as narinas tremendo,  na vã tentativa de que a fragância se diluísse nas veias sem a entorpecer demasiado.
Andou um pouco, cambaleante com a intensidade da resposta que o corpo lhe transmitia.
A rua era inclinada com meia dúzia de bancos a culminar a subida. Sentou-se e voltou a aspirar o ar limpo da madrugada azul. Uma brisa odorífera, chicoteou-a levemente numa carícia perversa e proibida e uma flor caiu da árvore e escorregou-lhe levemente por um fio de cabelo, fez um percurso em espiral e aterrou-lhe nos lábios.
Voltou a sentir o formigueiro intenso nas narinas e a resposta febril que o aroma desencadeava em si.
As flores nas árvores executavam um mágico e sensual bailado, agitando-se, lançando-se em voo feérico, dispersando-se, tombando e voltando a remoínhar rua abaixo.
Estremeceu inquieta, assustada pelas sensações transmitidas pelas flores da laranjeira. Encostou-se no banco, a saborear em pequenos travos os raios de sol perfumados.
Tantas lembranças a marcarem-lhe o corpo como cicatrizes mal curadas!
Tinha dias em que jogava um jogo: o do esquecimento. Nesses dias, o jogo era misericordioso com ela. Marcava-lhe a mente com um torpor sólido e palpável, uma espécie de cadeado que impedia as memórias de se escapulirem do local onde as guardava.
Era assim que se sentia quando nessa manhã caminhava aérea e quase intangível, antes de ter virado a esquina.
Depois ...tudo se transfigurara. O perfume intenso das flores tinha sido a chave que criara o dilúvio, a tempestade de emoções. De repente os muros ruíram e as lembranças jorraram em tropel, desnudando-a, violentando-a, derrubando-a sem qualquer pudor.
Fora num dia assim que o conhecera. Corria uma primavera quente e insidiosa, com a natureza a brotar por todo o lado num parto incessante e quase lúbrico. Sentia-se especial, com o amor próprio a cantar de prazer, à custa de um corpo flexível e de um novo penteado. Os recentes caracóis pareciam espirais de um desejo pagão a volutearem ao longo da face. Tinha uma leveza exaltada, nos movimentos quase lascivos de tango dançado e um apetite voraz de um não sei quê a queimar-lhe a pele.
Fora a casa de uma amiga que regressara de uma longa estadia no estrangeiro, com o intuito de passar uma boa tarde a trocar experiências. Ela apresentara-lhe o irmão mais novo, um menino maroto como carinhosamente o apelidou.
Ainda hoje se pergunta o que aconteceu. Seria a magia do dia primaveril, uma febre grassando-lhe o sangue ou o princípio de uma demência desconhecida?
Ambos se olharam e mesmerizaram.
A partir dessa altura tudo o que a rodeava se tornou difuso, distorcido. Tinham brincado com as palavras enquanto os olhos diziam outras. A tensão entre eles era tão explícita que deformava o espaço e o tempo.
A vida fora reinventada. Pareciam falar uma língua primitiva feita  com os corpos em vibrações e cicios. Ela ardia, o corpo em chama a palpitar num louco crescendo, os mamilos a sobressaírem triunfantes na blusa branca. Tinham sorrisos comedidos mas a sofreguidão de um beijo já corria neles. As cores em redor tornaram-se psicadélicas num alucinado e gritante tumulto. Magentas cinabrinos, vermelhos lacre, brancos cintinlantes, explodiam numa atávica orgia de sentidos.
Lembrava-se que tentara manter-se racional mas falhara , corpo e mente enlouquecidos num prazer tão antigo como o tempo. Duas horas de conversa tinham parecido cinco minutos mágicos e intemperados de lava ardente.
Pensando bem, não se lembrava de como a certa altura tinham ficado momentaneamente sós na pequena sala, que de súbito não era mais do que um casulo quente e magnético.
Descontroladamente e sem pensar tinham-se aproximado. O beijo fez os corpos embaterem e fundiram-nos. Foi sôfrego, voraz, canibalesco. O abraço selvagem que os uniu, tornou-os em cometas, supernovas, buracos negros.
A partir dessa altura nenhum dos dois voltou a ser como dantes.
Nos primeiros dias que passaram sem se ver, ela adoeceu de inquietação, o corpo a ressacar a falta do beijo. Não entendia aquele desejo enorme, aquela loucura quase demoníaca que a possuíra. Sentia-se uma deusa por ele também a desejar, a ela uma mulher de 52 anos já vividos, ele ainda um jovem com os 35 anos bem notórios no corpo musculado  e naquela fragante e viciante masculinidade com que a cingira.
Passaram horas ao telefone, alheios a tudo o mais, na inútil tentativa de compreenderem o que lhes acontecera. Ao mesmo tempo iam descobrindo quem eram e criando entre eles elos que como gavinhas cada vez mais os enlaçavam.
Ao princípio achara que era só desejo, uma incontrolável atração que os unira. Mas a primeira vez que fizeram amor, ele tremera como uma criança e ela chorara de uma só vez os sonhos perdidos e as mágoas rebeldes.
No quarto onde o sol lhes pintava os corpos com fórmulas de alquimista, compreenderam que o desejo se tornara paixão. Da janela viam o pequeno pátio onde as laranjeiras se enchiam de frutos doces prenhes de sumo, explodindo depois numa florescência impetuosa.
Impossível não tactearem cada milímetro do corpo e se devorarem com beijos sempre que estavam perto. A suas bocas conheciam todos os recantos e sem tabus ou preconceitos desvendavam todos os segredos. No fim gritavam sempre êxtases, murmurando depois versos no fundo da boca. A carência de um pelo outro era quase uma prece aflita, um cântico de alarme.
Ambos se sentiam virgens de tudo, inventando e reinventando a palavra amor. Porque era de amor que se tratava.
Sabia que o tinham percebido no decorrer dos meses e na morte anunciada em cada ausência.
Tantas vezes ela ia ao seu encontro e ao entrar na casa saltava-lhe para o colo como uma menina ladina. Ele ria sempre subjugando-a com beijos e chamando-lhe miúda louca, a sua adolescente.
Mas a pouco e pouco a preocupação de um pelo outro aumentava, os planos começavam a perturbá-la e a dor de não se terem sempre, iniciou uma rota feroz.
Ela começou a indagar-se, perturbada pelo que fazia. Sempre que passeavam enlaçados, sentia entre eles silêncios rezados que amargavam o pôr do sol.
Sempre fora uma mulher sem pecados a não ser os da imaginação. Há muito que o seu casamento ruíra e o marido seguira um outro rumo sem olhar para trás. Não havia filhos para lhe lembrar o passado e ela nem sequer pensara em encontrar alguém. E ali estava ele, com uma noiva à espera pronta a dar-lhe o que tanto ambicionava: um filho.
Sentia-se culpada, com sentimentos a baralhar tudo invadindo-lhe algo que fantasiosamente construíra. Ela podia bastar-lhe mas nunca lhe satisfaria o sonho.
Num dia de horizontes rubros tinha-o esperado, ansiosa como sempre. Música tocava, canções que lhes punham lágrimas nos olhos enquanto os corpos suados escreviam antigas runas e os rios entre as suas pernas desaguavam sempre num estremecer incontido. Ela juncara a cama de flores que agora lhes perfumavam os corpos. Inúmeras velas criavam caminhos de luz e sombra,  contando a história antiga  do amor entre um homem e uma mulher.
Foram frementes as carícias desenhadas com a mãos. Intensas, poderosas, loucas, a anunciar o apocalipse. Mais uma vez mergulhara nos olhos dele e tentara esgueirar-se pelas pupilas negras e magnéticas. Tinha querido arder nelas enquanto se desfazia no corpo dele. Cheirou-o como fera, embrenhou-se naquele cabelo rebelde e cingiu-o arrebatadamente. E amaram-se vezes sem fim, no eco dos tempos primitivos, como um pássaro aflito num louco bater de asas.
O corpo dela tinha sido instrumento onde ele com mestria tocara acordes rasgados e profundos num inimaginável adagio. E no fim, quando gritaram em paroxismo os nomes um do outro, ela libertara-o.
Durante muito tempo o corpo dele ficou preso no dela numa despedida muda. Não deixara que as súplicas a demovessem. Sentira-se oca mas amava-o demasiado para lhe negar o sonho.
Naquele dia ele partiu primeiro e levou-a colada à sua pele. A mulher que entrara ficou embrulhada na colcha da cama e no perfume das flores que desenhavam a marca dos corpos. Quando por fim saíra, levava os braços enlaçados no corpo à procura do dele. Por dentro a escuridão avançava, a corroê-la numa agonia que ela queria arredar correndo como louca e desfazendo a decisão. De olhos postos na porta fechada, achava que a dor iria acalmar com o tempo, com os anos, com outras primaveras a florir.
Mas a dor nunca tinha passado ou abrandado, num ritual que começava ao acordar e só a largava altas horas quando o cansaço da insónia a vergava.
É certo que erguera barreiras e se habituara a ficar entorpecida, perdida em pensamentos.
Mas bastara o aroma súbito das laranjeiras em flor para que a história daquele intenso amor e dos laços que cortara cerce e sem hipótese de retorno a devorassem como parasitas a roerem-lhe os ossos.
Passados doze anos, sentada no banco banhado pelo odor fulgurante, sabe que a dor lhe traz algo de bom. Com ela reviveu cada minuto do amor perdido e parece-lhe sentir de novo as mãos dele, fazendo-a e defazendo-a como barro moldável.
Nada mudou nela apesar dos cabelos brancos. Adolescente aos 52 e adolescente depois dos 70. Uma alma juvenil e ébria de paixão a espreitar nos seus olhos.
Devagarinho, enquanto o entardecer arrefece o perfume das flores, retira uma folha meio amarelecida do bolso do casaco. Desdobra-a com o cuidado de quem toca uma renda preciosa, as mãos tremendo como uma virgem em dia de descobertas.
Os lábios que sabem bem o gosto de um primeiro beijo nunca esquecido, recitam o último poema que ele lhe deixou.

“ Quando fechar os olhos
tu virás amor e eu farei
do teu corpo a minha casa.
Nas tardes melancólicas
Beijarei os teus seios de deusa
e morrerei em ti, onde sempre me esperas.
As muitas luas que passarem
sobre as nossas bocas
soletrarão o teu nome
e o beijo ardente perdurará
na memória das flores de laranjeira.”



© Margarida Piloto Garcia-in BEIJOS DE BICOS-publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2013





sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Porquê?





A minha lágrima escorre nessa tua pestana.
Escondo novamente o meu olhar,
só porque me detenho nuns lábios de que sei o gosto.
Deslizo num slide inebriante pela risca da tua camisa.
Reconheço o padrão,
sinto-lhe a textura sem sequer lhe tocar.
As minhas mãos brincam um perigoso jogo...
Porque receio tocar-te.

Mas sinto no beijo quebrado do teu adeus, que nunca voltarás.

Não sei como entender-me.
Nem porque teimo em estropiar-me.
Queria mesmo era não sentir essa garra...
Inevitável!

Repetes o discurso intermitente,
da culpa sem desculpa.
Já não o quero ouvir porque o gravei há muito,
na minha pele
na minha alma
na ferida que teima em não sarar.

Mantenho a compostura ,
quando o meu olhar se detém nas tuas ancas.
Procuro a aterradora memória em mim gravada.
Não quero recordar tudo o que não esqueci.
Nego a evidência, vezes sem conta.

Tenho medo que a vida me demonstre,
o grito que voraz me começou a devorar.

Tento fugir a tanto não que tu proferes.
Fujo rua abaixo, morta por dentro.

Não ouso olhar para trás quando te afastas.


Margarida Piloto Garcia