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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Uma estrela de memórias






Tinha chegado o dia em que sentia o fim da infância, mesmo que os cabelos brancos lhe dissessem, que essa há muito que não existia. O tempo estava esquecido num gemido abafado ou num sorriso áspero e remoto na profundidade da memória.
Mas hoje acordara tenso, despido da ilusão roubada num mundo de aparências, onde a maior era sem dúvida ele. O tempo migrara-lhe da mente, recusa feita à vida surda e cega que nunca o deixara envelhecer. Que importavam os caminhos armadilhados na pele, rugas cativas da contagem dos dias e das horas?
Até ali olhara-se e apenas vira um miúdo ladino mas sonhador, ou até um jovem feito de vagarosa eternidade. Pouco lhe interessava a tosse dos olhos virando lágrimas ou as curvas escorregadias da boca a dizerem não. A tal juventude agarrava-se à pele e escondia-se nos bolsos fundos das calças. Os ossos não gemiam e o corpo ainda cantava mesmo que a solidão lhe enchesse a boca de sal a afundar-se feito mar dentro do estômago.
Não percebia a razão de agora se sentir diferente, nem o facto do silêncio esquivo não lhe saber a paz mas a morte anunciada. Curiosamente nunca pensara muito nisso, naquela ilusória juventude, fruto de uma imperfeição sabiamente agarrada aos sentidos.
Não era um fantasma à deriva, nem um louco preso a esfaimados desvarios. Apenas achava impossível que o seu tempo findasse e que aquilo que via e sentia fosse somente resultado de um estado de espírito matreiro, adoçado e maquiavélico.
Continuava a não perceber aquela transformação. Olhava-se no espelho onde um desconhecido o enfrentava,  desafiador. Há coisas que levam tempo, como se fossem pegajosas e escorressem  para parte incerta onde nunca as encontramos.
Era assim aquele olhar vindo do espelho, uma boca a abrir e fechar balbuciando palavras para ouvidos moucos, enquanto ele se refugiava numa zona de conforto onde não visse, nem ouvisse,  a mente desfragmentada e impúdica assumindo aquele que ele era.
Não só o corpo lhe era estranho, como também aquela pungente sensação de peso e a condescendente sabedoria de quem viveu muitos anos. Pela primeira vez, um medo frio suou-lhe da pele e roubou-lhe as certezas redondas, perfeitas e enfadonhas.
Talvez que a sua escolhida solidão, sem mulher, sem filhos, sem enredos familiares, o  tivessem poupado ao deslizar do tempo, qual Peter Pan sem Wendy no horizonte.
Afligiu-se a tentar desesperadamente agarrar a criança perdida que incauta lhe fugia, a respiração instável a dizer-lhe que tinha  um coração antigo, enquanto o corpo lasso se despia da casca jovem e se impregnava de males não sarados.
E os pontos de interrogação enfileiraram-se seguindo o caminho inverso ao da verdade.
E tão perto que ela estava, como se o abraço escondido da dúvida, finalmente o agarrasse e se desfizesse.
Atirou-se de peito feito a essa verdade, a juntar todos os nãos até perfazer um sim,  vestido com os medos do papão escondido da infância.
E percebeu. E enquanto percebia, olhava. E depois de olhar, cheirou a memória de quem muito viveu e sentiu nas mãos o que magneticamente as ocupava.
Uma estrela dourada e cintilante acendeu-lhe nas veias um calor morno num quase cheiro de caramelo queimado. Tocou-lhe e sentiu chispas que lhe encheram os olhos de imagens de uma vida.
A estrela da avó! A estrela cheia de histórias, velhinha e frágil, que hoje , não sabia porquê, fora resgatar a uma gaveta perdida .
Súbito , todas as memórias se desfizeram nele como um cataclismo.
Aquela estrela era o seu cordão umbilical, a sua rota. Como tinham sido belos aqueles dias de Natal junto à chaminé da avó!
Lembrava-se tão bem do alguidar onde sovava a massa que depois de frita e polvilhada de açúcar, ele trincava e lambia como se não houvesse amanhã. O abraço da avó só cabia no mundo dos sonhos, de tal modo era mágico e reconfortante. Os dias de Natal tinham o aconchego de uma mão cheia de sorrisos  e de raios de sol resgatados à tristeza.
Mas nada, nada, se comparava à estrela dourada que ele se habituara a ver no alto do pinheiro ainda a cheirar a resina. E as memórias rangiam nele como cordas velhas e esticadas, assaltando-o como feras à solta. Por muito que as datas e os nomes se esfumassem , por mais que os anos e a vida se cansassem dele, tudo desaguava em catadupa, deixando-o desarmado, com o destino a pesar-lhe nos ombros.
E enquanto lá fora o Natal marcava a vida de tantos, ele compreendia que fora essa lembrança que o levara a descobrir a estrela refugiada num canto obscuro da gaveta.
Curiosamente,  este último Natal roubava-lhe o abrigo da pseudo imortalidade. Passou a ter anos e vidas acumuladas em cada poro, em cada batida do coração.
Mas tal como lhe deu idade, também lha retirou.
Apertou forte a estrela das memórias e de novo foi criança.
E sendo-a, sonhou e voou.

Partiu e nunca mais voltou.



© Margarida Piloto Garcia in "LUGARES E PALAVRAS DE NATAL III" publicado por LUGAR DAS PALAVRAS EDITORA 2014

domingo, 8 de setembro de 2013

Depois de ti




Depois de ti não há mais palavras.
O tempo é ladrão que tudo rouba
sem que em troca nos dê o deus do esquecimento.
Depois de ti não ficaram terras por cultivar
onde eu pudesse ao amanhecer
vir espreitar as papoilas rubras.
Não ficaram mais mistérios por desvendar
porque já me tinhas navegado até ao último horizonte.
Depois de ti a noite já não tem pecados
nem sonhos, nem estrelas a chamarem por mim.
Não conheço mais fogos esventrando as madrugadas
nem as sinfonias me acordam de noite
desejosas que se escreva um novo andamento.
Depois de ti nada em mim é sobressalto.
Nem as sombras da pele
nem as comissuras dos lábios
nem o reflexo dos olhos.
Nada se atreve a existir.
Alimento-me das memórias
e minto-te e minto-me porque o pensamento é matreiro
e cerca de ciladas o coração.
Nada sei do fingimento do poeta
apenas do que restou depois de ti.


© Margarida Piloto Garcia  in "ESSÊNCIA DO AMOR III"-publicado EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015




domingo, 28 de julho de 2013

Flor de laranjeira




Virou a esquina e o perfume atingiu-a como um soco violento. Parou aturdida, a mão comprimindo o estômago, a respiração ofegante, o coração tornado corcel em fuga insana. O aroma era inebriante, quase sufocante de tão pungente e intenso.
Respirou fundo, muito fundo, as narinas tremendo,  na vã tentativa de que a fragância se diluísse nas veias sem a entorpecer demasiado.
Andou um pouco, cambaleante com a intensidade da resposta que o corpo lhe transmitia.
A rua era inclinada com meia dúzia de bancos a culminar a subida. Sentou-se e voltou a aspirar o ar limpo da madrugada azul. Uma brisa odorífera, chicoteou-a levemente numa carícia perversa e proibida e uma flor caiu da árvore e escorregou-lhe levemente por um fio de cabelo, fez um percurso em espiral e aterrou-lhe nos lábios.
Voltou a sentir o formigueiro intenso nas narinas e a resposta febril que o aroma desencadeava em si.
As flores nas árvores executavam um mágico e sensual bailado, agitando-se, lançando-se em voo feérico, dispersando-se, tombando e voltando a remoínhar rua abaixo.
Estremeceu inquieta, assustada pelas sensações transmitidas pelas flores da laranjeira. Encostou-se no banco, a saborear em pequenos travos os raios de sol perfumados.
Tantas lembranças a marcarem-lhe o corpo como cicatrizes mal curadas!
Tinha dias em que jogava um jogo: o do esquecimento. Nesses dias, o jogo era misericordioso com ela. Marcava-lhe a mente com um torpor sólido e palpável, uma espécie de cadeado que impedia as memórias de se escapulirem do local onde as guardava.
Era assim que se sentia quando nessa manhã caminhava aérea e quase intangível, antes de ter virado a esquina.
Depois ...tudo se transfigurara. O perfume intenso das flores tinha sido a chave que criara o dilúvio, a tempestade de emoções. De repente os muros ruíram e as lembranças jorraram em tropel, desnudando-a, violentando-a, derrubando-a sem qualquer pudor.
Fora num dia assim que o conhecera. Corria uma primavera quente e insidiosa, com a natureza a brotar por todo o lado num parto incessante e quase lúbrico. Sentia-se especial, com o amor próprio a cantar de prazer, à custa de um corpo flexível e de um novo penteado. Os recentes caracóis pareciam espirais de um desejo pagão a volutearem ao longo da face. Tinha uma leveza exaltada, nos movimentos quase lascivos de tango dançado e um apetite voraz de um não sei quê a queimar-lhe a pele.
Fora a casa de uma amiga que regressara de uma longa estadia no estrangeiro, com o intuito de passar uma boa tarde a trocar experiências. Ela apresentara-lhe o irmão mais novo, um menino maroto como carinhosamente o apelidou.
Ainda hoje se pergunta o que aconteceu. Seria a magia do dia primaveril, uma febre grassando-lhe o sangue ou o princípio de uma demência desconhecida?
Ambos se olharam e mesmerizaram.
A partir dessa altura tudo o que a rodeava se tornou difuso, distorcido. Tinham brincado com as palavras enquanto os olhos diziam outras. A tensão entre eles era tão explícita que deformava o espaço e o tempo.
A vida fora reinventada. Pareciam falar uma língua primitiva feita  com os corpos em vibrações e cicios. Ela ardia, o corpo em chama a palpitar num louco crescendo, os mamilos a sobressaírem triunfantes na blusa branca. Tinham sorrisos comedidos mas a sofreguidão de um beijo já corria neles. As cores em redor tornaram-se psicadélicas num alucinado e gritante tumulto. Magentas cinabrinos, vermelhos lacre, brancos cintinlantes, explodiam numa atávica orgia de sentidos.
Lembrava-se que tentara manter-se racional mas falhara , corpo e mente enlouquecidos num prazer tão antigo como o tempo. Duas horas de conversa tinham parecido cinco minutos mágicos e intemperados de lava ardente.
Pensando bem, não se lembrava de como a certa altura tinham ficado momentaneamente sós na pequena sala, que de súbito não era mais do que um casulo quente e magnético.
Descontroladamente e sem pensar tinham-se aproximado. O beijo fez os corpos embaterem e fundiram-nos. Foi sôfrego, voraz, canibalesco. O abraço selvagem que os uniu, tornou-os em cometas, supernovas, buracos negros.
A partir dessa altura nenhum dos dois voltou a ser como dantes.
Nos primeiros dias que passaram sem se ver, ela adoeceu de inquietação, o corpo a ressacar a falta do beijo. Não entendia aquele desejo enorme, aquela loucura quase demoníaca que a possuíra. Sentia-se uma deusa por ele também a desejar, a ela uma mulher de 52 anos já vividos, ele ainda um jovem com os 35 anos bem notórios no corpo musculado  e naquela fragante e viciante masculinidade com que a cingira.
Passaram horas ao telefone, alheios a tudo o mais, na inútil tentativa de compreenderem o que lhes acontecera. Ao mesmo tempo iam descobrindo quem eram e criando entre eles elos que como gavinhas cada vez mais os enlaçavam.
Ao princípio achara que era só desejo, uma incontrolável atração que os unira. Mas a primeira vez que fizeram amor, ele tremera como uma criança e ela chorara de uma só vez os sonhos perdidos e as mágoas rebeldes.
No quarto onde o sol lhes pintava os corpos com fórmulas de alquimista, compreenderam que o desejo se tornara paixão. Da janela viam o pequeno pátio onde as laranjeiras se enchiam de frutos doces prenhes de sumo, explodindo depois numa florescência impetuosa.
Impossível não tactearem cada milímetro do corpo e se devorarem com beijos sempre que estavam perto. A suas bocas conheciam todos os recantos e sem tabus ou preconceitos desvendavam todos os segredos. No fim gritavam sempre êxtases, murmurando depois versos no fundo da boca. A carência de um pelo outro era quase uma prece aflita, um cântico de alarme.
Ambos se sentiam virgens de tudo, inventando e reinventando a palavra amor. Porque era de amor que se tratava.
Sabia que o tinham percebido no decorrer dos meses e na morte anunciada em cada ausência.
Tantas vezes ela ia ao seu encontro e ao entrar na casa saltava-lhe para o colo como uma menina ladina. Ele ria sempre subjugando-a com beijos e chamando-lhe miúda louca, a sua adolescente.
Mas a pouco e pouco a preocupação de um pelo outro aumentava, os planos começavam a perturbá-la e a dor de não se terem sempre, iniciou uma rota feroz.
Ela começou a indagar-se, perturbada pelo que fazia. Sempre que passeavam enlaçados, sentia entre eles silêncios rezados que amargavam o pôr do sol.
Sempre fora uma mulher sem pecados a não ser os da imaginação. Há muito que o seu casamento ruíra e o marido seguira um outro rumo sem olhar para trás. Não havia filhos para lhe lembrar o passado e ela nem sequer pensara em encontrar alguém. E ali estava ele, com uma noiva à espera pronta a dar-lhe o que tanto ambicionava: um filho.
Sentia-se culpada, com sentimentos a baralhar tudo invadindo-lhe algo que fantasiosamente construíra. Ela podia bastar-lhe mas nunca lhe satisfaria o sonho.
Num dia de horizontes rubros tinha-o esperado, ansiosa como sempre. Música tocava, canções que lhes punham lágrimas nos olhos enquanto os corpos suados escreviam antigas runas e os rios entre as suas pernas desaguavam sempre num estremecer incontido. Ela juncara a cama de flores que agora lhes perfumavam os corpos. Inúmeras velas criavam caminhos de luz e sombra,  contando a história antiga  do amor entre um homem e uma mulher.
Foram frementes as carícias desenhadas com a mãos. Intensas, poderosas, loucas, a anunciar o apocalipse. Mais uma vez mergulhara nos olhos dele e tentara esgueirar-se pelas pupilas negras e magnéticas. Tinha querido arder nelas enquanto se desfazia no corpo dele. Cheirou-o como fera, embrenhou-se naquele cabelo rebelde e cingiu-o arrebatadamente. E amaram-se vezes sem fim, no eco dos tempos primitivos, como um pássaro aflito num louco bater de asas.
O corpo dela tinha sido instrumento onde ele com mestria tocara acordes rasgados e profundos num inimaginável adagio. E no fim, quando gritaram em paroxismo os nomes um do outro, ela libertara-o.
Durante muito tempo o corpo dele ficou preso no dela numa despedida muda. Não deixara que as súplicas a demovessem. Sentira-se oca mas amava-o demasiado para lhe negar o sonho.
Naquele dia ele partiu primeiro e levou-a colada à sua pele. A mulher que entrara ficou embrulhada na colcha da cama e no perfume das flores que desenhavam a marca dos corpos. Quando por fim saíra, levava os braços enlaçados no corpo à procura do dele. Por dentro a escuridão avançava, a corroê-la numa agonia que ela queria arredar correndo como louca e desfazendo a decisão. De olhos postos na porta fechada, achava que a dor iria acalmar com o tempo, com os anos, com outras primaveras a florir.
Mas a dor nunca tinha passado ou abrandado, num ritual que começava ao acordar e só a largava altas horas quando o cansaço da insónia a vergava.
É certo que erguera barreiras e se habituara a ficar entorpecida, perdida em pensamentos.
Mas bastara o aroma súbito das laranjeiras em flor para que a história daquele intenso amor e dos laços que cortara cerce e sem hipótese de retorno a devorassem como parasitas a roerem-lhe os ossos.
Passados doze anos, sentada no banco banhado pelo odor fulgurante, sabe que a dor lhe traz algo de bom. Com ela reviveu cada minuto do amor perdido e parece-lhe sentir de novo as mãos dele, fazendo-a e defazendo-a como barro moldável.
Nada mudou nela apesar dos cabelos brancos. Adolescente aos 52 e adolescente depois dos 70. Uma alma juvenil e ébria de paixão a espreitar nos seus olhos.
Devagarinho, enquanto o entardecer arrefece o perfume das flores, retira uma folha meio amarelecida do bolso do casaco. Desdobra-a com o cuidado de quem toca uma renda preciosa, as mãos tremendo como uma virgem em dia de descobertas.
Os lábios que sabem bem o gosto de um primeiro beijo nunca esquecido, recitam o último poema que ele lhe deixou.

“ Quando fechar os olhos
tu virás amor e eu farei
do teu corpo a minha casa.
Nas tardes melancólicas
Beijarei os teus seios de deusa
e morrerei em ti, onde sempre me esperas.
As muitas luas que passarem
sobre as nossas bocas
soletrarão o teu nome
e o beijo ardente perdurará
na memória das flores de laranjeira.”



© Margarida Piloto Garcia-in BEIJOS DE BICOS-publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2013