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sexta-feira, 18 de abril de 2014

Agora



Agora é tarde.
Fez-se noite nos meus olhos e a melhor parte de mim não tem ponto cardeal.
Nada de novo a este ou a oeste e os sábios são cegos,  ébrios e de uma pequenez  árida.Tenho um passo não dado nos trilhos do teu corpo, nas esperas eternas e desfardadas das noites brancas, nos desejos secretos das curvas sem memória.
Finco os pés em cada pensamento colado em mim.
Sinto-os desajustados e impertinentes a levarem de mim a temperatura, o gargalhar, o suspiro das lágrimas, as curvas e contracurvas do corpo ansioso. Agarro-me a cada soalho que pisei com sapatos de esperança e abro os braços a escorar as paredes da ira.
É preciso esperar que a vida tenha quatro cantos como uma lua louca nos atalhos da razão.
É preciso esperar que tu chegues, mesmo que as palavras a tiracolo se tornem impossíveis de suportar de tão desafinadas e sem pauta que as sustente.
E depois...
Nego essa paz redonda feita de mudos vocábulos.
O corpo quer é pinceladas fortes na pele e verbos a roerem o baixo ventre.



© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019


© Foto de Shabina Nadegna




sexta-feira, 7 de março de 2014

Ausência




Se eu não estiver mais aqui
não me procures se as aves não regressaram
ou se os poentes se tornaram indecifráveis
Não questiones o tempo que foi meu
nem as palavras escondidas nos meus seios
e carregadas pelos meus ombros famintos
Se eu não estiver mais aqui
no local onde os lábios são sangue
e as pernas se entrelaçam sequiosas
nesse tempo onde os olhares se canibalizam
e os ventres se guerreiam ardendo
perceberás que eu só sou, se tu fores em mim
e este mundo só foi nosso porque nos demos.


© Margarida Piloto Garcia-in AMANTES DA POESIA I-publicado por EDITORA UNIVERSUS-2014

© Arte de Tomasz Rut


domingo, 8 de setembro de 2013

Depois de ti




Depois de ti não há mais palavras.
O tempo é ladrão que tudo rouba
sem que em troca nos dê o deus do esquecimento.
Depois de ti não ficaram terras por cultivar
onde eu pudesse ao amanhecer
vir espreitar as papoilas rubras.
Não ficaram mais mistérios por desvendar
porque já me tinhas navegado até ao último horizonte.
Depois de ti a noite já não tem pecados
nem sonhos, nem estrelas a chamarem por mim.
Não conheço mais fogos esventrando as madrugadas
nem as sinfonias me acordam de noite
desejosas que se escreva um novo andamento.
Depois de ti nada em mim é sobressalto.
Nem as sombras da pele
nem as comissuras dos lábios
nem o reflexo dos olhos.
Nada se atreve a existir.
Alimento-me das memórias
e minto-te e minto-me porque o pensamento é matreiro
e cerca de ciladas o coração.
Nada sei do fingimento do poeta
apenas do que restou depois de ti.


© Margarida Piloto Garcia  in "ESSÊNCIA DO AMOR III"-publicado EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015