Mostrar mensagens com a etiqueta impossibilidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta impossibilidade. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Agora



Agora é tarde.
Fez-se noite nos meus olhos e a melhor parte de mim não tem ponto cardeal.
Nada de novo a este ou a oeste e os sábios são cegos,  ébrios e de uma pequenez  árida.Tenho um passo não dado nos trilhos do teu corpo, nas esperas eternas e desfardadas das noites brancas, nos desejos secretos das curvas sem memória.
Finco os pés em cada pensamento colado em mim.
Sinto-os desajustados e impertinentes a levarem de mim a temperatura, o gargalhar, o suspiro das lágrimas, as curvas e contracurvas do corpo ansioso. Agarro-me a cada soalho que pisei com sapatos de esperança e abro os braços a escorar as paredes da ira.
É preciso esperar que a vida tenha quatro cantos como uma lua louca nos atalhos da razão.
É preciso esperar que tu chegues, mesmo que as palavras a tiracolo se tornem impossíveis de suportar de tão desafinadas e sem pauta que as sustente.
E depois...
Nego essa paz redonda feita de mudos vocábulos.
O corpo quer é pinceladas fortes na pele e verbos a roerem o baixo ventre.



© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019


© Foto de Shabina Nadegna




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Porquê?





A minha lágrima escorre nessa tua pestana.
Escondo novamente o meu olhar,
só porque me detenho nuns lábios de que sei o gosto.
Deslizo num slide inebriante pela risca da tua camisa.
Reconheço o padrão,
sinto-lhe a textura sem sequer lhe tocar.
As minhas mãos brincam um perigoso jogo...
Porque receio tocar-te.

Mas sinto no beijo quebrado do teu adeus, que nunca voltarás.

Não sei como entender-me.
Nem porque teimo em estropiar-me.
Queria mesmo era não sentir essa garra...
Inevitável!

Repetes o discurso intermitente,
da culpa sem desculpa.
Já não o quero ouvir porque o gravei há muito,
na minha pele
na minha alma
na ferida que teima em não sarar.

Mantenho a compostura ,
quando o meu olhar se detém nas tuas ancas.
Procuro a aterradora memória em mim gravada.
Não quero recordar tudo o que não esqueci.
Nego a evidência, vezes sem conta.

Tenho medo que a vida me demonstre,
o grito que voraz me começou a devorar.

Tento fugir a tanto não que tu proferes.
Fujo rua abaixo, morta por dentro.

Não ouso olhar para trás quando te afastas.


Margarida Piloto Garcia