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segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Do virtual ao real


 


Está uma bela tarde, daquelas em que o sol de inverno nos tece uma malha junto à pele.

Entro no lounge do restaurante sobre um mar cerúleo.

Descubro Peter, que reconheço pelas fotografias e me identifica pelo sorriso.

Cumprimentamo-nos e por certo cada um fica a tecer considerações sobre o aspecto real.

Durante muito tempo, eu, ele e Ana, sua prima e minha velha amiga, escrevemos e trocámos vozes, poses e pouco mais através da tela.

Hoje, anfitriã num país desconhecido, o Peter real parece-me mais baço que o virtual. Não posso deixar de reparar que caminha ligeiramente curvado, como se os 40 anos de vida lhe tivessem desabado sobre os ombros.

Sentados na mesa encetamos conversa sobre tantos assuntos já abordados, mas agora numa exploração mais intimista porque real e próxima.

Talvez seja aí que o meu corpo, de braço dado com a mente, começa a recuar.

Por entre as palavras ditas num inglês de Oxford, ele ataca o couvert. Molho discretamente pão num azeite aromático e enquanto sinto a gota solar picar-me a língua, debato-me com o frenesim na minha frente.

Aos poucos um vórtice começa a formar-se no meu âmago.

Os pratos chegam. Para mim um risotto, para Peter um bife que me parece acabado de cortar da vaca ainda a pastar no prado.

A conversa esfriou porque ele se degladia com nacos vampirescos de carne.

Debico os grãos de arroz, que embora deliciosos, ameaçam formar um pequeno exército marchando em parada militar, do estômago à boca.

Peter emborca o vinho como se estivesse no deserto agarrado a um cantil de água.

O vinho é de um púrpura profundo como um desejo nocturno, mas ele violenta-o e dilui-lhe a cor na carne ensanguentada.

Tento deter o risotto fardado a caminho da expulsão, bebendo um pouco de água.

Repasto devorado, Peter recomeça a conversa. Mas com os sentidos alerta como uma teia de dor, as palavras são papagaios de papel a embaterem na minha cabeça.

Implacável, descubro-lhe meia dúzia de pontos de caspa no casaco e o uso agressivo e abusador de um bom D&G.

O simpático almoço transmutou-se num suplício.

Os grãos de arroz, soldados liliputianos, retomam a marcha.

Aflita, esforço-me por ouvir dentro de mim a Gloria Gaynor que a plenos pulmões canta : “ I will survive”, “ I will survive”.


© Margarida Piloto Garcia

domingo, 1 de setembro de 2019

Cegueira








Chove.
Chove há muito, mesmo que faça sol.
Chove desde o dia em que deixei de ver as nuvens
penduradas na janela a fingir horizonte.
Encurralada entre sombras, não meço distâncias
nem descubro gestos.
Onde a noite se deita, mascaro o amor de pedra
polindo as arestas mas cobrindo as feridas com sal.
As manhãs são sempre negras ou é a minha cegueira
que insiste em esconder o sol.

Chove.
Chove sempre que te relembro, mesmo que tenha
feito sol, mesmo que a primavera despontasse em mim.
É fundamental que as grilhetas não entrem no sangue
e as feridas não infetem com as memórias.
O que importa é que a ausência seja o tempo do nada

o tempo da cegueira.





© Margarida Piloto Garcia  in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019



© Foto de Georges Dambier

sábado, 15 de março de 2014

Apenas mais um dia




Era o tempo dos aromas, das fragâncias quentes a cheirar a sol, das melodias entranhadas, do toque sensual da areia fina das madrugadas.
Era a hora dos sentires rubros, dos olhares como farpas, dos primeiros beijos, da pele com sabor a caramelo.
Eram o tempo e a hora dos horizontes infinitos a levedarem nela.
Era o mundo à espera e o coração a rebentar pelas costuras na juvenil ganância de viver.
Pensava que a vida era uma linha recta, na qual poderia desenhar floreados equilibristas gerados pela mente. As metas eram oníricas e de uma louca fantasia escrita em livros de contos.
Os recantos escondidos onde se abrigava, tinham o sabor do fruto proibido e permitiam um nirvana onde a realidade não deixava pegadas.
Achava que o amor devia ter um gosto doce, feito de rebuçados duros donde o recheio suculento, tombava sobre a língua expectante. A paixão só poderia ser uma fera acutilante mas com um subtil travo a especiarias.
Pensava mesmo, que seria impossível não aprisionar nas mãos, os dias impolutos em que era gazela estonteada pelo brilho do sol, antes de sentir a agitação que a tornava loba nos luares da vida.
E depois, havia aquela transumância dos afectos, a eterna procura do Graal, enquanto os sonhos migravam deixando-a árida e grávida de recordações,
Mas os caminhos eram tortuosos e as rectas, se as havia, tinham o rigor preciso e matemático de um eterno labirinto a murmurar solidão.
As palavras que adorava transformaram-se em fumo.
Os homens que amara trocaram-na por tudo.
A vida que a prende é um fio pálido na neblina. Não tem um pouco de asa, nem sinal de colo.
Cabelos rebeldes ganharam laivos de lua enquanto ela pensava.
A força telúrica que a movia, ainda viaja e a percorre , a deixar rastos quer de fogo, quer de cinzas.
Adormece sempre no cansaço dos gestos e da vida ao lusco-fusco.
Acorda sempre nas manhãs deslavadas, vestindo o fantasma do corpo mal amado.
Não sabe porque segue.
Talvez porque tem raivas esdrúxulas, esquírolas que a ferem mas a espicaçam.
Talvez porque sempre foi assim, ingénua e despudoradamente sôfrega, uma louca em banda desenhada.


© Margarida Piloto Garcia

© Artworks by Montserrat Gudiol






segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A vida e a morte durante a ira







Sente-se envolta numa roupagem débil, semi-palpável, um desconcertante invólucro trespassado por calafrios.
Um avião corta o céu cerúleo e o som explode-lhe na boca, num quebrar de ondas de saliva de encontro aos dentes.
Há um aroma agreste feito da humidade que se lhe cola aos cabelos.
Não sabe se há-de ir embora, ou ficar mais um pouco exposta aos elementos, mas resguardada naquele pedaço de relva, que se distingue da terra castanha e ocre do cemitério.
A ira ainda não a deixou. Pergunta-se se algum dia o fará e fica aturdida e temerosa que tal aconteça. O que sente é tão devastador que não consegue acalmar o corpo.
A boca está seca, a garganta irritada. A náusea é um algoz potente a revolver-lhe as entranhas. Vomita aos arrancos tentando expelir a raiva que sente e a perfura como espada afiada.
É imperativo que se livre daqueles sentimentos parasitas que a devoram. Mas como?
Não suporta mais as intermináveis manifestações de pesar que lhe parecem cuspidas na sua direcção. Pior ainda, aguenta numa repugnância pungente, os toques pseudo-afectuosos, os beijos que lhe escorrem na pele e a fazem estremecer.
Resiste o mais que pode e sabe, às conversas, às tentativas de a sondarem e saberem mais, de remexerem fundo na sua vida. Os predadores cercam-na, como se ela fosse carniça ao seu dispor, em busca de pormenores, naquela ânsia que a turba tem de saber da vida alheia.
Ela encerra-se no vestido discreto, de um antracite reconfortante, uma espécie de armadura contra os invasores da sua intimidade.
Sabe que a imagem que passa é a de uma mulher petrificada, gélida e sem sentimentos. Não tem dor nos olhos e nem uma lágrima lhe cruzou o rosto.
Ninguém sabe que o rio há muito secou no leito. Os soluços que durante anos lhe descontrolaram o corpo, foram cuidadosamente arrumados numa caixa da qual perdeu a chave.
Enrola atrás da orelha um caracol ainda viçoso do cabelo branco e curto. O gesto lembra-lhe outros, os primeiros que os dedos de Miguel ensaiaram no seu rosto.
Cerra os lábios com força, porque assustadoramente cresce-lhe na memória, o dia em que os dedos lhe ficaram marcados na face. Apesar das ameaças, essa foi a única vez,  mas o efeito foi o de uma tatuagem eterna, algo que ninguém vê mas ela nunca deixou de sentir.
Envolta na sua armadura cor de aço, o seu olhar é um radar a sondar todos os que passam e lhe deixam os pêsames.
Será que eles sabem como gastou o caudal de lágrimas?
Será que adivinham como foi possível transformá-la numa terra árida de desejos contidos  e onde nada brota?
Muitos anos antes tinha sido uma sonhadora, dedicada à causa de formar família, de singrar naquele rumo, plena de todo um enorme manancial de amor.
Nada dera certo por muitos esforços que fizesse. Em cada passo dado, a vida deixou-lhe o gosto amargo dos falhanços e uma certeza começada a construir,  de que algo estava errado nela. Algo nos seus genes, na sua matriz, estava contaminado. Nas suas veias devia  correr  uma infecção que jamais seria curada.
Miguel contribuíra, sem dúvida, para que tal acontecesse. Submetera-a, subjugara-a, traindo-a e humilhando vezes sem conta. A ira contra ele era medonha mas a principal  raiva sentia-a por ela própria e pela sua cobardia.
Não sabe bem porquê, mas os sonhos nunca a tinham abandonado, tornando-se na única jangada disponível para não se afogar.
Tinham passado muitos anos, até ele se acalmar e serenar perante a vida.
Mas que restara dela? Que restara dos dois?
Ele parecia ter encerrado a vida. Existia sem a ver e ouvir. Ela compreendia agora que ele a  matara. Antes trocava-a, agora ignorava-a.
Sara recusara-se a envelhecer, a calar o corpo, a desistir de si.
E ao fim de tantos anos, a ira apossou-se dela como um veneno de acção lenta mas letal.
Pouco a pouco, aquela raiva surda começou a invadi-la. Num dia desenhava-lhe uma nova ruga, noutro esculpia-lhe magramente as maçãs do rosto ou branqueava-lhe mais o cabelo revolto. Todos os dias a ia secando  como algo visceral e imundo.
Tentara muitas vezes libertar-se daquele anzol sem contudo o conseguir.
E um dia, tranquilamente, Miguel morreu enquanto dormia. Sem dores, sem pavores, deixava-lhe em testamento toda a ira que nela plantara.
Nesse dia explodiu pela casa, partiu objectos, rasgou roupa, dançou numa espécie de estertor, como uma boneca partida, uma marioneta sem fios.
Gritou para as paredes  o que guardara em si, tentando que tudo o que sentia  desaparecesse com ele.
Ali, enfim sozinha, naquele pedaço de relva que a sustém, sabe que ainda não se livrou daquela ira. Falta-lhe algo, uma última catarse que a exorcize.
Caminha devagar, pisando a gravilha num som acidamente corrosivo e irritante, tentando esmagar a vida perdida.
Nas paredes em frente ao cemitério, contrastando com o imaculado dos seus muros, um grupo de jovens grafita frases e desenhos.
E de repente, num acto que denomina de pura loucura, mas que lhe parece genial resolve falar com eles. Nem são precisas muitas palavras porque eles lhe sorriem e incitam de um modo que nunca ninguém fez.
Munida de uma lata de tinta, começa a escrever o sentir amordaçado. Os “companheiros” incitam aquela mulher de cinza e cabelo branco que saiu do cemitério.
E ela escreve e escreve, iradamente


Raiva
Farpas afiadas a deixar esquírolas
Raiva
Rasgões violentos cuspidos da pele
Raiva
Um corpo em desvario a partir cortinas ocultas
opacas de tanto serem rasgadas e refeitas.
Negro, breu e sem vestígios de um raio de sol.
Negro, encardido com a mágoa
que os loucos não reconhecem.
Vontade de voar e cair livremente do espaço
a abraçar as árvores, a ser absorvida pelo mar,
a mergulhar na relva e nas azedas amarelas.
Pele a arder e púrpura nos olhos
chispas a chicotear paredes
e a sair lá para fora num bando de asas rutilantes.
Raiva
Negro, vermelho, cinza com laivos, laranja ardente
Raiva, raiva, raiva
E um coração a rebentar violência
e a esquecer doçuras.

Perante as palmas dos recentes “amigos” sorri envergonhada e lê e relê tudo o que saiu dela.
Inspira profundamente o ar que lhe parece agora mais frutado e leve.
Afasta-se quando o crepúsculo cai levando na face o rasto salgado da primeira lágrima.


© Margarida Piloto Garciain- 7 PECADOS II- publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013


© Pintura de Djordje Prudnikoff









domingo, 8 de setembro de 2013

Depois de ti




Depois de ti não há mais palavras.
O tempo é ladrão que tudo rouba
sem que em troca nos dê o deus do esquecimento.
Depois de ti não ficaram terras por cultivar
onde eu pudesse ao amanhecer
vir espreitar as papoilas rubras.
Não ficaram mais mistérios por desvendar
porque já me tinhas navegado até ao último horizonte.
Depois de ti a noite já não tem pecados
nem sonhos, nem estrelas a chamarem por mim.
Não conheço mais fogos esventrando as madrugadas
nem as sinfonias me acordam de noite
desejosas que se escreva um novo andamento.
Depois de ti nada em mim é sobressalto.
Nem as sombras da pele
nem as comissuras dos lábios
nem o reflexo dos olhos.
Nada se atreve a existir.
Alimento-me das memórias
e minto-te e minto-me porque o pensamento é matreiro
e cerca de ciladas o coração.
Nada sei do fingimento do poeta
apenas do que restou depois de ti.


© Margarida Piloto Garcia  in "ESSÊNCIA DO AMOR III"-publicado EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015





quarta-feira, 10 de abril de 2013

Hoje



Quero que o hoje seja amanhã
ou outro qualquer dia.
Nunca um hoje onde guardo aflita
a alma amarrotada e dobrada
numa caixinha de cantos esquinados.
Uso a mente, dou corda ao coração
tento poli-la e arredondar-lhe
as arestas vivas e quase cítricas
como um limão azedo.
Hoje a asa da andorinha
não cruzou este horizonte
nem me falou de risos.
A chuva pintou de cinzento
estas mãos com que escrevo
desejos de outros tempos.
Talvez venha um amanhã
ou outro qualquer dia que não seja este.
Talvez.
Eu apenas estremeço as pálpebras
fecho a caixa dos sonhos à espera
e encerro a página do dia que não foi.

© Margarida Piloto Garcia in-NÓS POETAS EDITAMOS- VOL II-2013