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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Algumas vezes

 




- Responsabilidade de quê?
- A responsabilidade de ter olhos quando os outros perderam. “


José Saramago






Algumas vezes pouco sabes de mim.

Escutas a insensatez do que dizes e

o sotaque das nuvens é ligeiramente azul.

Tu não vês que os desconsolos das derrotas

já nem se calam no plasma dos lençóis

mas adormeces numa cegueira contínua

que não é coisa alguma.

Calar-me. Esconder o canto na garganta

aos soluços, renegando as linhas débeis

do teu perfil devorado em tantos incêndios.

Mas a tua cegueira move-se na escuridão

e as palavras nascem e morrem no mesmo dia

em que os espaços vazios não precisam

de ordem ou ponto de partida.

Não te digo nada porque as palavras podem

tropeçar nos adereços de uma vida atormentada

mas esta pele que é sinónimo de sangue

antes de ir embora

ainda te deseja algumas vezes.




Margarida Piloto Garcia in- Tributo a Agustina e Saramago. Publicado por Temas Originais-2022 



Foto de Kultur Tava


domingo, 1 de setembro de 2019

Cegueira








Chove.
Chove há muito, mesmo que faça sol.
Chove desde o dia em que deixei de ver as nuvens
penduradas na janela a fingir horizonte.
Encurralada entre sombras, não meço distâncias
nem descubro gestos.
Onde a noite se deita, mascaro o amor de pedra
polindo as arestas mas cobrindo as feridas com sal.
As manhãs são sempre negras ou é a minha cegueira
que insiste em esconder o sol.

Chove.
Chove sempre que te relembro, mesmo que tenha
feito sol, mesmo que a primavera despontasse em mim.
É fundamental que as grilhetas não entrem no sangue
e as feridas não infetem com as memórias.
O que importa é que a ausência seja o tempo do nada

o tempo da cegueira.





© Margarida Piloto Garcia  in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019



© Foto de Georges Dambier

terça-feira, 26 de maio de 2009

Vidro sem luz



Como são os pássaros que trinam em manhãs orvalhadas?
O ar é quente
Cheio de odores inebriantes, aveludados
sensações fortes que embriagam.
O que são flores?
Os cheiros capitosos penetram-no profundamente
enquanto acaricia a relva ondulante
macia, vibrante
de uma sensualidade que lhe desperta o corpo.
O que é verde, castanho, azul?
Como é um arco-íris?
O sol faz-lhe chegar aos lábios húmidos
a primeira gota de suor, sal do seu ser.
O sol que o cativa e estremece
a lua que lhe traz a languidez das noites caprichosas.
Estrelas...
Como são as estrelas de que falam as canções de amor?
Tanta coisa que sente e o faz despertar.
Sentimentos que lhe trazem vida
saboreando cada dia novas descobertas.
As mãos afagam com carinho o meigo animal que o acompanha.
Sabe-lhe bem esse contacto que lhe acalenta a alma.
Ergue-se lentamente enquanto abraça a vida
sorrindo das grandes maravilhas guardadas dia a dia.
Caminha numa passada lenta, saboreada e cautelosa.
Um contentamento mudo
molda-lhe os lábios sequiosos dos dias que correm
das noites que passam
dos mistérios insondáveis de um vasto universo.
Como são as pessoas que por ele passam?
Como são os seus olhos opacos como vidro sem luz?


Margarida Piloto Garcia