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domingo, 30 de novembro de 2014

Pensamentos soltos




De que servem os braços onde não cabes?
Lianas sem flor azul nascidas em mãos de adaga.
De que serve a pele, plena de um momento cheio
desde o dia em que a madrugada acordou o meu pulso?
Essa pele onde as armas escreveram desalinhadas vogais
e os dias naufragaram no vício maduro e intrometido.
De que servem os olhos, frestas incendiadas?
Nem anjos nem demónios se escondem
nas palpitações dos cílios que beijaste.
De que serve a boca onde as estrelas acordam?
De nada, sem essa respiração suspensa sobre mim
e a tua invasão destes meus lábios cerrados.



© Margarida Piloto Garcia

© Foto de Joné Reed





quarta-feira, 14 de maio de 2014

O apelo







-Acorda Maria, acorda por favor !
Soergue o ventre como um sol pleno e alonga as pernas de algas assombradas na berma do rio. A neblina esvai-se das águas sussurrantes e aprisiona-lhe a mente num torpor letárgico. Já não tem sorrisos para lançar ao vento. Só mãos pálidas com que tece prantos . Sente os seios de lua cheia, grávidos de esperanças e do próximo leite. Mas não quer pensar e cerra os olhos.
- Maria não desistas, estou à  tua espera.  Quero ver os teus olhos e sentir o teu colo.
De novo se levanta num incómodo liquefeito. Ajeita ao corpo o vestido sujo onde o bordado inglês já tem a cor dos dias desfeitos. Vem-lhe à memória a menina ladina na varanda ao sol.
 Lá longe o rio junta-se ao céu e os cheiros entram-lhe pela boca e pelas narinas em golfadas ardentes. Canta debruçada por entre as flores garridas e o cabelo baloiça-lhe nas costas, acetinado e fragante. Quantos segredos por desvendar, quantas caravelas soltas no mar da imaginação!
Ergueu-se um frio gélido que se insinua na pele arrepiada. Sabe-lhe bem. A frialdade  é bem vinda para lhe sossegar o corpo quente e dorido . Respira devagarinho como se exalasse pouco a pouco os últimos suspiros e precisasse de os soltar em câmara lenta. Agarrada aos cabelos emaranhados está a derradeira esperança. Mais vale afugentá-la, fazê-la correr sem retorno. O-s-t-r-a-c-i-s-m-o é o destino da esperança e o seu.
- Maria porque não me ouves? A hora vai chegar e tu a negares a vida. Porquê Maria?
Não suporta aquela vozinha irritante a brocar-lhe a cabeça num ritmo insidioso. Quer muito que se cale mas os sons apertam-na e comem-na por dentro com dentes afiados.
 A pouco e pouco foram-se transformando numa dor palpitante e espasmódica que a faz tentar de novo adormecer no esquecimento.
Suavemente desliza num sonho feliz. Sabe-lhe a boca aos pastéis que o pai lhe comprava todos os domingos. O aroma a canela faz-lhe cócegas e adoça-lhe o palato e a mente. Como eram felizes esses passeios! Dançava orgulhos no corpo juvenil numa pressa esfaimada de viver. As expectativas eram como uma erupção de mil sóis. Mal sabia ela que não passava de uma estrela cadente.
Sente que a dor se agudiza e lhe crava punhais ao longo das costas. O rio já está tão perto que quase lhe pode tocar. Estende a mão na busca do murmúrio das primeiras ondas leves e pequenas a  beijarem-lhe os pés.
- Não Maria, escuta-me! Não me ouves chamar-te? Sem ti não existo e eu quero sentir o sol e ver o reflexo da lua nos teus olhos. Estou há tanto tempo  à espera de te ver, de sentir o teu afago.
A voz é um punhal a desenhar-lhe arabescos retorcidos e fundos ao longo de cada nervo.
Queria tanto ter um filho! Fez tantos planos! Foi mulher, foi asa, foi combate e garra e sonho vadio. E depois...depois derrubaram-na, partiram-na em tantos pedaços que agora  precisa diluir-se e evitar que mais alguém seja infeliz.
Não se consegue levantar. As dores pregaram-na na margem fria e  escura. Nem sente que enregela naquele dia de Dezembro. A carne adquiriu uma dureza marmórea que lhe alivia o sofrimento e lhe entorpece cada vez mais a mente.
Como era delicioso aquele mês em casa dos avós! Ela mal dormia expectante pela visão da árvore engalanada e do presépio que crescia a cada ano.
Afinal era isso a felicidade e só agora o percebia.
 Como era bom o frio de Dezembro quando se abrigava na cama quente!
Tem a pele cheia das memórias sussurrantes a deslizarem rasteiras e a infiltrarem-se no sangue. Todas doces, mesmo as que trazem alfinetes a picarem-lhe os olhos lacrimejantes.
O rio tem um cheiro pungente e pesado. Sente-o envolvendo-a num abraço sufocante e poderoso. Acha que sabe a lodo e a todos os que nele escolheram habitar para sempre.
Não é assim que o recorda. Antes, quando era feliz, o rio tinha cores a correrem ao encontro dela e suspiros de sereia a acariciarem-lhe cada curva do corpo.
Gostava de o atravessar no barco que a levava de uma margem a outra. Mesmo no meio de tantos passageiros estava sempre sozinha. O vento soprava-lhe na face beijos impolutos e fazia-lhe os cabelos dançar em feéricas voltas.
A dor voltou e é preciso avançar um pouco mais. A água sobe-lhe pelas pernas como as mãos de um sôfrego amante.
- Maria já não consigo gritar mais. Tenho frio, tenho medo. Medo de nunca sentir o teu beijo e ver o teu sorriso.
- Mãe, mãe, por favor não me deixes morrer.
Como é assustadora aquela voz dentro dela! Quase a faz recuar nos seus propósitos. Rói-lhe por dentro aquele apelo lancinante e voraz.
Avança mais no rio, a água a lamber-lhe a barriga alva mal coberta pelo bordado inglês a desfazer-se.
E de repente, braços resgatam-na, roubam-na ao amante eterno, gritam-lhe juntamente com a voz. Debate-se com as poucas forças que lhe restam mas é inútil. Mal se apercebe que a deitam na margem e a envolvem em algo quente. Agora sente todas as dores a atravessarem-na como se ela não passasse  de um atalho para chegar a um destino.
 Na confusão gerada não dá conta  da chegada da ambulância , nem das mãos que a tocam.
As vozes riem e choram numa histeria que lhe soa caótica. E subitamente o relógio da praça antiga, ecoa 12 badaladas pesadas mas gloriosas, ao mesmo tempo que a voz se cala dentro dela mas  grita agora nos seus braços.
Sente algo antigo a invadir-lhe o corpo e a criar gavinhas .
Olha o pequeno ser que tem no colo e toda ela é júbilo e felicidade.
- Já viu bem? - diz-lhe alguém. É um menino e nasceu à meia noite do dia 24 de Dezembro. Ganhou um pequeno Jesus.
Maria sorri levemente como se também ela tivesse acabado de nascer e a vida fosse agora virgem de suplícios.


© Margarida Piloto Garcia in- "LUGARES E PALAVRAS DE NATAL II"-publicado por LUGAR DA PALAVRA EDITORA-2013



domingo, 10 de junho de 2012

Morte


 E lágrima a lágrima teço uma mortalha.
 Não me dêem louvores que já não ouço.
 Não me tragam beijos que já não sinto.
 Preciso de oblívio, de um buraco negro que me sorva.
 Não quero sorrisos...nem carícias.
 Não me mostrem paraísos que não existem.
 Quero uma estrada lisa, rude, informe.
 Quero tropeçar em cada raiz das árvores que não plantei e esmagar cada flor quando cair.
 Espero apenas um sol vermelho quando chegar ao abismo e a morte me sugar

 Margarida Piloto Garcia



domingo, 28 de fevereiro de 2010

Agonia






Vieste nesse dia
e trouxeste ramos de absurdos
e raivas incontidas.
Dentro de mim
um pássaro bateu asas aflito.
Auroras rubras
tentaram desfazer o meu querer
e atiçaram emoções fogosas
mas eu já me perdera em nevoeiros.
Sou um canavial ao vento
e todas as gotas de chuva me devoram.
O pássaro dentro de mim
é uma fera aflita
um grito
um sopro
uma esperança.
Todas as dores me roem
as algemas com que teimas em calar-me.
Não sei mais quem tu és
mas sei quem sou:
um pássaro morrendo na madrugada.


Margarida Piloto Garcia-in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013

Arte de Felix Más




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Porquê?





A minha lágrima escorre nessa tua pestana.
Escondo novamente o meu olhar,
só porque me detenho nuns lábios de que sei o gosto.
Deslizo num slide inebriante pela risca da tua camisa.
Reconheço o padrão,
sinto-lhe a textura sem sequer lhe tocar.
As minhas mãos brincam um perigoso jogo...
Porque receio tocar-te.

Mas sinto no beijo quebrado do teu adeus, que nunca voltarás.

Não sei como entender-me.
Nem porque teimo em estropiar-me.
Queria mesmo era não sentir essa garra...
Inevitável!

Repetes o discurso intermitente,
da culpa sem desculpa.
Já não o quero ouvir porque o gravei há muito,
na minha pele
na minha alma
na ferida que teima em não sarar.

Mantenho a compostura ,
quando o meu olhar se detém nas tuas ancas.
Procuro a aterradora memória em mim gravada.
Não quero recordar tudo o que não esqueci.
Nego a evidência, vezes sem conta.

Tenho medo que a vida me demonstre,
o grito que voraz me começou a devorar.

Tento fugir a tanto não que tu proferes.
Fujo rua abaixo, morta por dentro.

Não ouso olhar para trás quando te afastas.


Margarida Piloto Garcia



terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Último mar







Nas rebeldes madeixas
de corvos de asas negras,
gotas de chuva serpenteiam.
Ela, é estatua de pedra silenciada
guarida onde a tristeza fez o ninho.
As gaivotas esvoaçam-lhe
a vida ressequida
e gritam-lhe
as lembranças do passado.
O mar lhe trouxe o amor
e o levou,
ardendo-lhe a alma
em pira fúnebre.
Os olhos tão cinzentos,
bordados de orlas escuras violáceas,
reflectem o sentir das ondas verdes
e das marés que lhe encheram o ventre.
Neles se escreveram
linhas tortas de vida,
como se de um manuscrito se tratasse.
Só a boca rubra
não esqueceu,
os rituais de amor tornado dor,
a saudade, as mágoas, o carpir.

Na espuma que lhe morde os pés
escreve devagarinho,
em letra antiga,
um último poema.



Margarida Piloto Garcia


Web-Art de Yolanda Botelho