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quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Empréstimo

 





Já te emprestei os dedos

com os quais escrevia cartas de amor

e dedilhava lentamente os teus músculos

como se fossem argamassa de música

para construir cidadelas

não fosse a paixão fugir.

As minhas pernas também levaste

mas esqueceste-as embrulhadas noutra pele

ao ponto de eu não saber andar.

Numa sexta-feira emprestei-te os meus olhos

e eu fiquei sem saber onde estava a vida

e os pontos cardeais sangravam secretamente.

Embrulhei os cinco sentidos na esperança

de te fazer feliz, eu que nunca pensei que

a felicidade fosse tão pouca.

Quis enviar uma mensagem a um qualquer deus

mas já não tinha voz.

Agora, côncava no silêncio de mais uma noite

rasgo o vazio com uma navalha e grito:


"DEVOLVE-ME TODOS OS EMPRÉSTIMOS"!




Margarida Piloto Garcia-in OPUS-5-Selecta de poesia em Língua Portuguesa- publicado por  TEMASORIGINAIS-2022



Arte fotográfica de Richard Davis


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

NA NOITE-ParteII- Raiva




Raiva
Farpas afiadas a deixar esquírolas
Raiva
Rasgões violentos cuspidos da pele
Raiva
Um corpo em desvario a partir cortinas ocultas
opacas de tanto serem rasgadas e refeitas.
Negro, breu e sem vestígios de um raio de sol.
Negro, encardido com a mágoa
que os loucos não reconhecem.
Vontade de voar e cair livremente do espaço
a abraçar as árvores, a ser absorvida pelo mar,
a mergulhar na relva e nas azedas amarelas.
Pele a arder e púrpura nos olhos
chispas a chicotear paredes
e a sair lá para fora num bando de asas rutilantes.
Raiva
Negro, vermelho, cinza com laivos, laranja ardente
Raiva, raiva, raiva
e um coração a rebentar violência
e a esquecer doçuras.





© Margarida Piloto Garcia in-"RONDA DA NOITE"- publicado  por TEMAS ORIGINAIS 2019




sábado, 15 de março de 2014

Apenas mais um dia




Era o tempo dos aromas, das fragâncias quentes a cheirar a sol, das melodias entranhadas, do toque sensual da areia fina das madrugadas.
Era a hora dos sentires rubros, dos olhares como farpas, dos primeiros beijos, da pele com sabor a caramelo.
Eram o tempo e a hora dos horizontes infinitos a levedarem nela.
Era o mundo à espera e o coração a rebentar pelas costuras na juvenil ganância de viver.
Pensava que a vida era uma linha recta, na qual poderia desenhar floreados equilibristas gerados pela mente. As metas eram oníricas e de uma louca fantasia escrita em livros de contos.
Os recantos escondidos onde se abrigava, tinham o sabor do fruto proibido e permitiam um nirvana onde a realidade não deixava pegadas.
Achava que o amor devia ter um gosto doce, feito de rebuçados duros donde o recheio suculento, tombava sobre a língua expectante. A paixão só poderia ser uma fera acutilante mas com um subtil travo a especiarias.
Pensava mesmo, que seria impossível não aprisionar nas mãos, os dias impolutos em que era gazela estonteada pelo brilho do sol, antes de sentir a agitação que a tornava loba nos luares da vida.
E depois, havia aquela transumância dos afectos, a eterna procura do Graal, enquanto os sonhos migravam deixando-a árida e grávida de recordações,
Mas os caminhos eram tortuosos e as rectas, se as havia, tinham o rigor preciso e matemático de um eterno labirinto a murmurar solidão.
As palavras que adorava transformaram-se em fumo.
Os homens que amara trocaram-na por tudo.
A vida que a prende é um fio pálido na neblina. Não tem um pouco de asa, nem sinal de colo.
Cabelos rebeldes ganharam laivos de lua enquanto ela pensava.
A força telúrica que a movia, ainda viaja e a percorre , a deixar rastos quer de fogo, quer de cinzas.
Adormece sempre no cansaço dos gestos e da vida ao lusco-fusco.
Acorda sempre nas manhãs deslavadas, vestindo o fantasma do corpo mal amado.
Não sabe porque segue.
Talvez porque tem raivas esdrúxulas, esquírolas que a ferem mas a espicaçam.
Talvez porque sempre foi assim, ingénua e despudoradamente sôfrega, uma louca em banda desenhada.


© Margarida Piloto Garcia

© Artworks by Montserrat Gudiol