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sábado, 9 de outubro de 2021

Amanhã








Fico

no rebentar salgado e sufocante

na onda que cresce emaranhada

na pele que arrasta as tuas mãos



Desenho

a nudez das palavras

a crescerem vulcânicas na raiva

ferozes como giestas bravas



Sinto

a alquimia secreta dos amores

o corpo a parir sol e chuva

feita das lágrimas vorazes



Morro

no frenesim de acontecer

hoje de novo, mais e mais

porque o amanhã é só uma ilusão




Margarida Piloto Garcia



Foto de Navin Vatsa



sábado, 15 de março de 2014

Apenas mais um dia




Era o tempo dos aromas, das fragâncias quentes a cheirar a sol, das melodias entranhadas, do toque sensual da areia fina das madrugadas.
Era a hora dos sentires rubros, dos olhares como farpas, dos primeiros beijos, da pele com sabor a caramelo.
Eram o tempo e a hora dos horizontes infinitos a levedarem nela.
Era o mundo à espera e o coração a rebentar pelas costuras na juvenil ganância de viver.
Pensava que a vida era uma linha recta, na qual poderia desenhar floreados equilibristas gerados pela mente. As metas eram oníricas e de uma louca fantasia escrita em livros de contos.
Os recantos escondidos onde se abrigava, tinham o sabor do fruto proibido e permitiam um nirvana onde a realidade não deixava pegadas.
Achava que o amor devia ter um gosto doce, feito de rebuçados duros donde o recheio suculento, tombava sobre a língua expectante. A paixão só poderia ser uma fera acutilante mas com um subtil travo a especiarias.
Pensava mesmo, que seria impossível não aprisionar nas mãos, os dias impolutos em que era gazela estonteada pelo brilho do sol, antes de sentir a agitação que a tornava loba nos luares da vida.
E depois, havia aquela transumância dos afectos, a eterna procura do Graal, enquanto os sonhos migravam deixando-a árida e grávida de recordações,
Mas os caminhos eram tortuosos e as rectas, se as havia, tinham o rigor preciso e matemático de um eterno labirinto a murmurar solidão.
As palavras que adorava transformaram-se em fumo.
Os homens que amara trocaram-na por tudo.
A vida que a prende é um fio pálido na neblina. Não tem um pouco de asa, nem sinal de colo.
Cabelos rebeldes ganharam laivos de lua enquanto ela pensava.
A força telúrica que a movia, ainda viaja e a percorre , a deixar rastos quer de fogo, quer de cinzas.
Adormece sempre no cansaço dos gestos e da vida ao lusco-fusco.
Acorda sempre nas manhãs deslavadas, vestindo o fantasma do corpo mal amado.
Não sabe porque segue.
Talvez porque tem raivas esdrúxulas, esquírolas que a ferem mas a espicaçam.
Talvez porque sempre foi assim, ingénua e despudoradamente sôfrega, uma louca em banda desenhada.


© Margarida Piloto Garcia

© Artworks by Montserrat Gudiol






sábado, 2 de fevereiro de 2013

Surreal



Tragam-me uma faca afiada
e eu vou cortar a lua em fatias translúcidas.
Vou decepar o canto aos noitibós
e rasgar as tendas erguidas nesta selva.
Com a lâmina fresca e sedenta
abro em mim os silêncios amordaçados
faço escorrer as purulentas dores
e escondo a vida por trás de portas blindadas.
Então, nós de veludo darão à vida
sabores amanteigados, doces e escorregadios.
Talvez eu odeie e tema o que é cortante
mas sabe-me a fruto proibido, a paixão consumada
o modo como as lâminas devoram as palavras
e as desenham em sangue no papel.
Mas a ilusão tem preço
e em todos os recantos espreitam marcianos
que tamborilam como anjos maus.
Do paraíso cai apenas uma pena negra
que se enleia na faca afiada
e se aconchega no meu seio.

Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013




quinta-feira, 28 de maio de 2009

Véu




Grinaldas de flores
compoem-lhe o cabelo.
São rosas com cheiro
que a deleitam e a fazem sentir ausente.
Sente o corpo apertado,
num vestido branco imaculado
que lhe contrasta a pele morena.
É um segundo EU,
uma estrutura flutuante,
cheia de visões de mais e de loucuras.
Vê-se no espelho.Uma jovem pura de olhos brilhantes,
pairando em rendas de Calais,
em estruturas antigas de outro século.
O cabelo longo foi armado,
canudos de desejo, pendentes formados
valorizando-lhe a boca carnuda que adora o beijo arrebatado.
Algures em si a realidade feneceu de louca.
Ela não quer saber, embora mais tarde nesse dia
prove amargamente o cálice que a espera.
Mas agora, apenas se enrola
e orgásmicamente se estende
no véu que junca o quarto.

Margarida Piloto Garcia



domingo, 4 de janeiro de 2009

Ilusões






Longa é a noite,
sem as tuas palavras tatuadas na minha alma
e a tua voz
escorrendo quente pela minha pele.
Mete-me medo
esta febre de te ter e de me dar.
Acho guloso o teu sorriso,
nuns lábios que adivinho exigentes
no frémito do desejo.

São minhas as palavras
não estudadas
não pensadas
não alinhavadas
num qualquer contexto.
Totalmente aleatórias
sentidas
vividas
e sofridas.
Mas é de um universo paralelo que se trata.
O meu comboio,
percorre uma linha
que passa tangencialmente pela tua,
sem nunca a encontrar.
As palavras só fizeram sentido
para mim.
Atingiram a tua superfície
como pedrada num lago.
Depois
a água continuou lisa e profunda,
negra e vazia de vida...como antes.

Eu sei.
É este meu defeito
de ser toda alvorada
aurora boreal
chama que se consome,
sem nunca se apagar.
Mas poderei alguma vez,
trocar-me e diluir-me
por uma felicidade incerta?
Certa ou incerta
pouco importa.
Este sobressalto que me corre nas veias
é apenas o meu código de vida,
o traço primitivo
que faz de mim quem sou.

Tudo o que deveria ser epístola de amor
tornou-se gravação em pedra tumular!

São regatas feitas em barcos de papel,
estes encontros
que nos inebriam
mas nos magoam.
Corremos feéricos,
tragados pela voragem
de um ciclone emocional.
Convenço o meu eu
dum qualquer cenário digno de Hollywood.
Assumo identidades paralelas
unidas na mesma descoberta
de efémeras e fugazes alegrias.
No fim
embaraço-me nos fios que me prendem,
marioneta partida
no teatro da vida.


Margarida Piloto Garcia