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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Lembrança





Lembro-me sempre de ti.
Crescem-me ramos ao longo dos braços
e as minhas mãos são maçãs carnudas e aromáticas
a desfiar carícias de antigamente.
Abraço a tua lembrança
com os lábios acerejados onde as flores brotam
ao ritmo da respiração lenta e sincopada
para esquecer as arritmias do nosso cavalgar.
Cada dia passado na tua ausência
abre o rumo da fome dos sentidos
e deixa pegadas que o tempo não apaga.
Lembro-me sempre de ti
dos dias em que as sombras
eram apenas o nome dos nossos corpos acesos
e das noites em que morríamos nos gritos
a ecoarem no silêncio dos cheiros enlaçados.
Mas não deixo que a lembrança me desvende o olhar
e me roube a paixão de que sou feita.
De mim só eu sei.
O resto são artifícios, rendas que os outros tecem.


© Margarida Piloto Garcia



quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Em mim





Insubordinada de mim mesma
a boca a calar por fora
o grito a rasgar por dentro.
Intemperados  apelos escondidos
no veludo cândido dos olhos.
Insondáveis iras a escaparem-se
dos gestos dançados das palavras.
E no corpo, última fronteira
a eterna reza do evangelho da paixão


© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

EU





Se eu fosse EU, seria de um outro universo
uma guerreira bela e escultural
com algo de uma qualquer nipónica série de tv
mesclada de uma ocidentalidade suave.
Se eu fosse uma gota de suor, escalaria a tua pele firme
e só pararia quando me misturasse à saliva
na ponta da tua língua.
Se eu fosse uma deusa, teria um exército
de animais falantes, estranhamente belos.
Voaria sobre toda a natureza e
pintaria uma tela de arco-íris encantados.
Se eu fosse o fulgor do teu olhar
forjaria amor desde a alvorada
até me exaurir no pôr do sol.
Se eu fosse EU
Ah, se eu fosse EU...seria uma mulher feliz.



© Margarida Piloto Garcia





sábado, 2 de fevereiro de 2013

Surreal



Tragam-me uma faca afiada
e eu vou cortar a lua em fatias translúcidas.
Vou decepar o canto aos noitibós
e rasgar as tendas erguidas nesta selva.
Com a lâmina fresca e sedenta
abro em mim os silêncios amordaçados
faço escorrer as purulentas dores
e escondo a vida por trás de portas blindadas.
Então, nós de veludo darão à vida
sabores amanteigados, doces e escorregadios.
Talvez eu odeie e tema o que é cortante
mas sabe-me a fruto proibido, a paixão consumada
o modo como as lâminas devoram as palavras
e as desenham em sangue no papel.
Mas a ilusão tem preço
e em todos os recantos espreitam marcianos
que tamborilam como anjos maus.
Do paraíso cai apenas uma pena negra
que se enleia na faca afiada
e se aconchega no meu seio.

Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013




domingo, 28 de novembro de 2010

Destino






Eu já era assim
Tinha sagas futuristas agarradas nos olhos
e cobria os recantos escondidos e aconchegados
de poalhas de sonhos.
Em cada noite
fazia clones sem parar
uma máquina inconfundível de realidades estropiadas.
Quando as manhãs rasgavam o conforto
procurava na vida as personagens só imaginadas.
Eu sempre fui assim
ingénua e despudoradamente sôfrega
uma louca em banda desenhada.
As minhas mãos têm recordações táteis
guardadas para desfiar num rosário de noites brancas
em que a mente desenha borrões de tinta viva pingando gritos pelo quarto.
Tento não ser assim
mas escrevi um destino torto em fase terminal.



Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013