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segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Joana D'Arc






E se um dia as luzes se apagassem?
E se não déssemos mais flor e fruto
e o verbo trincado apodrecesse?
Mas e se todo o tempo se detivesse
nas minhas mãos, entre os meus dedos,
poderia eu travar a faca feroz
o lume da destruição nos seios duros
nas coxas aprumadas, nas línguas feridas
pelos beijos insanos debruados a dor?

O verbo ardente entra no corpo
não pede licença e não tem pudor.
Pinta a pele com o vermelho das amoras
e grita com violência nas veias.
Há uma respiração urgente
uma loucura obscura que nos torna deusas
um fogo carnívoro que nos enfeitiça.

Mas e se um dia viesse uma Joana D'Arc
ascética e guerreira, estender-te
a crueldade do caminho deserto
e reclamar-te em silêncio a carne
e roubar-te à loucura e ao amor
que farias mulher?




© Margarida Piloto Garcia- in- " A mulher no infinito dos tempos"-publicado por IDEÁRIOS 2020




© Imagem de Telmo Miel




quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Coração de mulher





Um coração de mulher não se parte assim
ao relento sem chama ou vibração.
Primeiro mói-se o sangue na raiz do medo
roem-se os ossos da desgraça e espalham-se
ao vento ou nas ondas da praia.
Segundo enleiam-se os dedos delicados
ou ásperos desfiando rosários
nas mãos que amassam e cozem pão.
Em seguida quebram-se os braços
que acolhem filhos com fragilidades
embuçadas para estancarem as feridas
ou reinventam-se as bocas que beijam
rendidas mas nunca saciadas, os amantes.
Um coração de mulher parece doce e mudo
imprevisto no desespero e indecifrável
à luz da aurora quando morde a manhã.
Um coração de mulher arde na dor
mas não se parte ou estilhaça assim.
Um coração de mulher segue sempre
mesmo que em carne viva.


© Margarida Piloto Garcia- in- " A mulher no infinito dos tempos"-publicado por IDEÁRIOS 2020

Imagem © Sanne Sanne






domingo, 23 de junho de 2019

Mulher







O que os olhos das mulheres dizem
tem o suspiro das feridas ligeiramente encobertas
com o nevoeiro das promessas.
O que os seus braços abraçam
são as opções de todas as batalhas femininas.
A suas bocas não falam só de amor
gritam enquanto se batem nesta selva.
Lá fora as crianças carregam sorrisos em bombas por explodir
e as mães lavam o sangue na areia onde as vergaram.
O medo não tem direito a beijos, nem a lágrimas apressadas
por isso as mulheres guardam-nos em cada ruga, em cada poro.
Sabem tudo mas engasgam as palavras porque o vento as devolve
por vezes em látegos de dor.
Amam na raiva e na meiguice. Estão no lado errado da lua
mas a luz explode nelas.
Intrometem-se, polinizam, abandonam-se e embriagam-se de amor.
Fecham as asas da crença mas intrépidas soltam-nas em alto voo.
Para falar de amor, as mulheres ajoelham-se como quem reza
porque dentro delas há sempre sonhos por cumprir.



© Margarida Piloto Garcia 
in- "OPUS-2"-Selecta de poesia em Língua Portuguesa- publicado por  TEMAS ORIGINAIS-2019


© Foto de Christian Coigny

terça-feira, 1 de julho de 2014

A outra




Enleio as mãos no cabelo ressuscitando um antigo formigueiro nos dedos. Sigo caminho rumo aos lábios, sentindo-lhes a textura suculenta. Divertida, olho para o espelho onde aquela mulher, real, mas cheia de magia, me provoca e com um piscar de olho inusitado e burlesco, me seduz.
Como adoro perceber que há um corpo curvilíneo, cingido num vestido cor de céu a ocultar estrelas!
Rodopio num louco devaneio, o corpo em chamas, a mente como uma ave liberta do cativeiro. Tenho ondas, ora salgadas, ora doces, a percorrerem-me como um tsunami.
Atiro-me para cima da cama, jogando os sapatos vermelhos de salto agulha pelo ar. As meias gritam-me nas pernas e a lingerie ousada que só eu vi, canta-me um jazz melódico, rouco e lânguido.
De repente apetece-me gritar e expulsar a outra que eu era. Vestida de modo sorumbático, cabelo apanhado, um corpo a fingir-se morto e enlutado. Uma mulher-sombra, pacata, uma espécie de rato pardacento. Era isso que eu era? Sou isto que sou?
Sempre me afundei nos livros e resguardei em retaguardas, náufraga a nadar violentamente em busca de terra firme. Nunca a alcancei porque há sempre um samurai implacável a traçar-me caminhos.
Estranho que a Teresa me tivesse escolhido para a substituir hoje. Claro que primeiro recusei. Como transformar-me no que não sou? Numa mulher enigmática, elegante, vibrante de sensualidade? Mas a Teresa foi tão persistente! Afinal era apenas um almoço de negócios onde teria de entregar projetos que conheço mas de onde nunca emerjo como resplandecente borboleta. Esse é o papel dela neste nosso teatrinho diário.
Curiosamente, esta mulher de cinza, escondida de todos, fechada num casulo, aceitou. E o pó de fadas que agora sinto a espalhar-se pelo corpo e pelo sangue, começou a possuir-me.
Sentir-me admirada, poder conversar, olhar nos olhos de outros sem esconder os meus, rir num riso quase cúmplice que me veio de dentro e me brilhou no corpo como um arco-íris, foi um prazer quase dissoluto.
Foi febrilmente orgásmica a satisfação com que me penteei e vesti com roupas que nunca usara. Não pretendi seduzir ninguém, apenas a mim.
 E aqui estou eu, numa embriaguez de sentidos e sentimentos. A Helena de ontem não é aquela mulher que vislumbrei no espelho e que agora se estende voluptuosa na cama.
No fim de um dia onde cada minuto me mordeu a pele, já não sei quem sou.


© Margarida Piloto Garcia




quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

EU





Se eu fosse EU, seria de um outro universo
uma guerreira bela e escultural
com algo de uma qualquer nipónica série de tv
mesclada de uma ocidentalidade suave.
Se eu fosse uma gota de suor, escalaria a tua pele firme
e só pararia quando me misturasse à saliva
na ponta da tua língua.
Se eu fosse uma deusa, teria um exército
de animais falantes, estranhamente belos.
Voaria sobre toda a natureza e
pintaria uma tela de arco-íris encantados.
Se eu fosse o fulgor do teu olhar
forjaria amor desde a alvorada
até me exaurir no pôr do sol.
Se eu fosse EU
Ah, se eu fosse EU...seria uma mulher feliz.



© Margarida Piloto Garcia





quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ritual




Uma mulher normal
conta as rugas do descrédito, reflectidas no espelho desdenhoso.

Deixa os dedos
percorrer as estradas do cabelo naufragado nos ombros.

Escreve melancólica
palavras de uma só sílaba, que contabiliza com esmero.

Desmaia
no último veludo da pele acariciada.

Uma mulher normal
fecha a porta do castelo numa dança febril.

Reúne os últimos despojos
e cerra as asas, cansada da borboleta que já foi.


Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013