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domingo, 20 de agosto de 2023

Tempestades




 “ São como cristal,

as palavras. “


Eugénio de Andrade in “Até amanhâ”




Sei que não adivinhas

que esta vida é uma desventura erótica

e que se os nossos pés não se tocam,

a mensagem telepática dos dias

é apenas uma história suspensa

a pedir desesperadamente um fim.


As palavras são enormes e cheias de bolor

não me cabem nos bolsos

já não rasgam o corpo

e são tão inúteis como dentes partidos.

Apesar disso mordemos cada sílaba

e enchemos de gelo o tédio dos dias.




Margarida Piloto Garcia in- Tributo a Eugénio de Andrade. Publicado por Temas Originais-2023 




 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Meses






Que são os meses senão uma sucessão de dias

a correrem pelas curvas da estrada?

Afinal é comigo que as noites se matam

numa velocidade que me explode nas mãos.

Há tantas paixões a albergarem os meses quentes

todas necessárias para que a cicuta não se beba

a víbora não te morda ou o espaço não te cale

ou leve ao precipício.


Balanças, balanças, mas não cais

até que a vida avariada se cale

sem que alguém a conserte.

Nos meses frios ardes sozinha

porque o amor só te ensina a perder.


Os meses correm e voltam frequentemente

a acordar a memória do corpo

e a pré-história da pele e do desejo antigo.

É urgente passar a mão pelos cabelos

enquanto as hienas não surgem

e te cospem na cara que tudo já foi dito.




© Margarida Piloto Garcia-

 in- " As palavras, rios de tantas águas "-publicado por IDEÁRIOS 2022


Foto de Dasha Pears

 

sábado, 9 de outubro de 2021

Amanhã








Fico

no rebentar salgado e sufocante

na onda que cresce emaranhada

na pele que arrasta as tuas mãos



Desenho

a nudez das palavras

a crescerem vulcânicas na raiva

ferozes como giestas bravas



Sinto

a alquimia secreta dos amores

o corpo a parir sol e chuva

feita das lágrimas vorazes



Morro

no frenesim de acontecer

hoje de novo, mais e mais

porque o amanhã é só uma ilusão




Margarida Piloto Garcia



Foto de Navin Vatsa



segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Tempo das arestas


 



Este é o tempo das arestas

das facas afiadas, dos gestos

que são línguas de segredos.


Este é o tempo onde descobres

que nada muda ou se transmuta

ou somos nós que permanecemos

tolhidos e agarrados a um egoísmo

que morde e infeta.


Tão grandes mas demasiado pequenos

nem o amor nos salva, esse que apregoamos

como se não o usássemos como um bisturi.


Somos titãs de tantos feitos

mas só nos une este mundo perdido

e uma natureza a gritar sobrevivência.


Neste tempo de cansaço

os sorrisos escondem-se.

Fica-nos este silêncio profundo

que nos morre nos olhos.



© Margarida Piloto Garcia-in ANTOLOGIA DE POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA"Entre o sono e o sonho"-Volume XII


© Foto de Rui Palha


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Tempo






Não tenho tempo para palavras presas na garganta
nem para olhares plenos de mentiras.
Agora o caminho tem de ter uma ponte que atravesso
com a minha mão na tua.
Não perco mais alvoradas pintadas no horizonte
enquanto a minha pele ainda exala o perfume da tua.
O passado é uma ária que ambos entoámos
enquanto cruzávamos uma savana de feras.
Hoje sou um barco de velas desfraldadas a navegar mar fora.
Levo comigo o vento a sussurrar-me os beijos que trocámos.
Tenho esta pressa de te ter
sempre agarrado a mim como uma âncora.
Por isso o tempo que não tenho é todo teu.

Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013




quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ritual




Uma mulher normal
conta as rugas do descrédito, reflectidas no espelho desdenhoso.

Deixa os dedos
percorrer as estradas do cabelo naufragado nos ombros.

Escreve melancólica
palavras de uma só sílaba, que contabiliza com esmero.

Desmaia
no último veludo da pele acariciada.

Uma mulher normal
fecha a porta do castelo numa dança febril.

Reúne os últimos despojos
e cerra as asas, cansada da borboleta que já foi.


Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013