Mostrar mensagens com a etiqueta lembrança. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta lembrança. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Garrote








Não me escrevas.
Peço-te que não me escrevas.
Proíbo-te mesmo de me escreveres.
Afinal, a verdade nunca é a verdade.
Há inúmeras versões com o mesmo destino
irrepetível e abandonado, como coisa usada.

Não me escrevas.
A memória do corpo é coisa antiga
que tu acordas nas palavras. E quando a pele
se lembra, anseia pelo lume e tu não ardes.
As hienas chegam e riem das palavras
enquanto devoram a saudade.

Não me escrevas.
Não me lembres o momento em que o amor morreu
ou mesmo a chacina que a vida fez por aí.
Faço um esforço para aceitar as vozes que rasgam
pulsos e cravam facas no peito e insone
esmago sonhos nos vidros das janelas.

Posso aceitar o abismo
a penumbra dos lugares e até mesmo
a inutilidade da vida.

Mas por favor, não me escrevas.




© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019



© Arte fotográfica de Marysia Bieniaszewska





terça-feira, 24 de setembro de 2013

Lembrança





Lembro-me sempre de ti.
Crescem-me ramos ao longo dos braços
e as minhas mãos são maçãs carnudas e aromáticas
a desfiar carícias de antigamente.
Abraço a tua lembrança
com os lábios acerejados onde as flores brotam
ao ritmo da respiração lenta e sincopada
para esquecer as arritmias do nosso cavalgar.
Cada dia passado na tua ausência
abre o rumo da fome dos sentidos
e deixa pegadas que o tempo não apaga.
Lembro-me sempre de ti
dos dias em que as sombras
eram apenas o nome dos nossos corpos acesos
e das noites em que morríamos nos gritos
a ecoarem no silêncio dos cheiros enlaçados.
Mas não deixo que a lembrança me desvende o olhar
e me roube a paixão de que sou feita.
De mim só eu sei.
O resto são artifícios, rendas que os outros tecem.


© Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 3 de junho de 2009

Memória




Naquele dia
reinventaste a vida.
Com que magia me feriste?
Os teus olhos eram brasas ardentes
e eu queimei nesse ardor.
Falaste a língua primitiva
dos homens e mulheres que amam.
Horas e horas que pareceram
apenas um relâmpago.
Vibrações e cicios
correram entre nós,
lampejos cintilantes e febris.
No teu sorriso brilhava
a sofreguidão de um beijo
e novamente a língua dos amantes
movia-se entre nós mas sem se ouvir.
Na pele palpitante
corriam rios de desejo
e o corpo sussurrava.
Naquele dia
a loucura implodiu em nós.
Tudo se subverteu e se moldou
num hino a algo louco e belo.
O branco era mais branco
reluzente e chamativo,
tal como a blusa que me emoldurava
e onde tombavam feridos um ou dois caracóis.
O ar carregava de estática
os corpos flexíveis.
Algures em meu redor
as cores viravam magenta
com um toque de cinabre.
Naquele dia
os deuses enlouqueceram
e nós, simples mortais,
não passámos de barro
moldado caprichosamente.
Não havia barreiras
fronteiras
algemas entre nós.
O beijo fez
os corpos embaterem
fundiram-nos.
Foi sôfrego, voraz,
canibalesco.
Transformou-nos em tochas a arder
em fogo de artifício inconsequente.
Tudo era atávico
tão primitivo como o primeiro homem.
Naquele dia renascemos
fomos cometas, supernovas, buracos negros.
Embriagados num turbilhão
ascendemos a alturas nunca imaginadas.
Fomos lava ardente
oásis num deserto
arcanjos de asas negras.
Nada nos afastava
na atracção magnética.

Naquele dia quando tu partiste
levaste-me colada à tua pele.



Margarida Piloto Garcia