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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Reencontro





É neste reencontro envergonhado
que o meu corpo cabe e escuta
e me transmuto e reinvento.
É nesta febre que me firo
a saliva engasgada a pulsar
a saudade presa nos dentes.
À superfície da pele
a paixão não naufraga
enquanto a onda de desejo
se quebrar furiosa em mim.
O que em mim renasce
é do fogo que semeias
flor e fruto proibido.
Mergulho fundo neste reencontro
numa apneia escura que me tolhe.
São tão impronunciáveis
as palavras que calamos
que o medo súbito desagua
e fere o que resta de nós.
Abandonada nos braços da maresia
cinjo as algas num silêncio aflito
e dou-me aos cardumes
que me mordem a pele.
Sigo uma rota áspera
e sou nómada de afetos.
Neste reencontro e no avesso de tudo
ainda brinco com o teu olhar.
Afinal, é de ti que vou ter mais saudades.




© Margarida Piloto Garcia in CONEXÕES ATLÂNTICAS V-publicado por IN-FINITA 2020







© Imagem Marta Syrko




quarta-feira, 3 de junho de 2009

Memória




Naquele dia
reinventaste a vida.
Com que magia me feriste?
Os teus olhos eram brasas ardentes
e eu queimei nesse ardor.
Falaste a língua primitiva
dos homens e mulheres que amam.
Horas e horas que pareceram
apenas um relâmpago.
Vibrações e cicios
correram entre nós,
lampejos cintilantes e febris.
No teu sorriso brilhava
a sofreguidão de um beijo
e novamente a língua dos amantes
movia-se entre nós mas sem se ouvir.
Na pele palpitante
corriam rios de desejo
e o corpo sussurrava.
Naquele dia
a loucura implodiu em nós.
Tudo se subverteu e se moldou
num hino a algo louco e belo.
O branco era mais branco
reluzente e chamativo,
tal como a blusa que me emoldurava
e onde tombavam feridos um ou dois caracóis.
O ar carregava de estática
os corpos flexíveis.
Algures em meu redor
as cores viravam magenta
com um toque de cinabre.
Naquele dia
os deuses enlouqueceram
e nós, simples mortais,
não passámos de barro
moldado caprichosamente.
Não havia barreiras
fronteiras
algemas entre nós.
O beijo fez
os corpos embaterem
fundiram-nos.
Foi sôfrego, voraz,
canibalesco.
Transformou-nos em tochas a arder
em fogo de artifício inconsequente.
Tudo era atávico
tão primitivo como o primeiro homem.
Naquele dia renascemos
fomos cometas, supernovas, buracos negros.
Embriagados num turbilhão
ascendemos a alturas nunca imaginadas.
Fomos lava ardente
oásis num deserto
arcanjos de asas negras.
Nada nos afastava
na atracção magnética.

Naquele dia quando tu partiste
levaste-me colada à tua pele.



Margarida Piloto Garcia



sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Fado





Sombrias noites de luas escurecidas
sem luar.
Flashes de luzes despóticas
que impedem de te abraçar.
Traumas de vida...corrente,
na penumbra de um olhar.
E entre abraços e carícias
as caravelas percorrem, velas enfunando ao vento,
toda esta tremenda vida, ungida no verbo amar.
Amar, querer, possuir,
escolhos num mar de emoções.
O verbo é apenas um e vem de dentro de nós.
Algas enredam-te a vida
em tramas de renda negra.

E a ausência é uma paixão
de caminhos percorridos e de medos perturbados.

Coroas de espinhos despertam gemidos na tua voz,
cravados nas minhas mãos.
Falta o alento do ser-se,
um olhar que nos percorre.
São dedos frios que nos mentem,
que nos tolhem,
que nos colhem.
De tão fremente essa boca, destila raros sabores,
torna-se em mim um tormento, uma sina, uma voz.

É quase um fado vadio quando apareces na esquina.
Escondo envergonhada a voz que cala o grito voraz.
Explodem ondas no olhar,
ancoram almas perdidas.
Arquitectas Babilónias feitas de teias de aranha.
Rasgo-as em passos de dança
para as poder percorrer,
bebê-las em devaneios
sem nunca me saciar...

E quando as tardes me ferem
e me suspiram a alma, numa cadência de morte,
são as sombrias noites que te trazem
em minutos de desordem
num caos quase perfeito.



Margarida Piloto Garcia


Foto de Paolo Roversi