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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Reencontro





É neste reencontro envergonhado
que o meu corpo cabe e escuta
e me transmuto e reinvento.
É nesta febre que me firo
a saliva engasgada a pulsar
a saudade presa nos dentes.
À superfície da pele
a paixão não naufraga
enquanto a onda de desejo
se quebrar furiosa em mim.
O que em mim renasce
é do fogo que semeias
flor e fruto proibido.
Mergulho fundo neste reencontro
numa apneia escura que me tolhe.
São tão impronunciáveis
as palavras que calamos
que o medo súbito desagua
e fere o que resta de nós.
Abandonada nos braços da maresia
cinjo as algas num silêncio aflito
e dou-me aos cardumes
que me mordem a pele.
Sigo uma rota áspera
e sou nómada de afetos.
Neste reencontro e no avesso de tudo
ainda brinco com o teu olhar.
Afinal, é de ti que vou ter mais saudades.




© Margarida Piloto Garcia in CONEXÕES ATLÂNTICAS V-publicado por IN-FINITA 2020







© Imagem Marta Syrko




sábado, 22 de agosto de 2009

Blogagem colectiva de Agosto no "Vou de Colectivo" Carta de amor.



Era uma vez uma carta de amor

Hoje resolvi escrever-te a tal carta de amor que tanto tenho adiado. Não sei se foi o tempo que nunca chegou, se foram as palavras que faltaram, mas hoje pensei escrever-ta ao ver-te ao meu lado num sono pacífico... Certo que não precisavas de ter deixado a roupa toda pelo chão e já sei quem a vai apanhar mas... Dormes e eu deslizo os meus olhos pelo corpo que adoro tactear, sentir meu, cheirar... Bem, não tenho querido dizer mas detesto aquele novo perfume que a tua mãe te deu, mas enfim... Sinto vontade de te acariciar os cabelos, despenteá-los enquanto dormes... Pois, bem sei que não passa de sonho pois tu detestas que te estrague o penteado e eu guardo esse desejo como uma fantasia fechada a sete chaves. Mas olho-te e apetece-me dizer-te palavras doces, apaixonadas, dizer-tas num delicioso jantar à luz das velas em local romântico... É, podia ser assim, mas detestas o cheiro das ditas e jantar fora de casa, bolas e lá vou eu a correr para a cozinha. Mas pronto, as palavras de amor vão ficar para quando estivermos encostados lado a lado, bem aconchegados no sofá... Espero bem que não tenhas deixado por lá o jornal e não te apeteça fazer um zapping louco numa procura de não sei o quê!
Não sei bem como, mas as palavras seguiram outro rumo à medida que te ia escrevendo. Acho que ainda não estou pronta para a tal carta de amor, ou de raiva, já não sei bem. Este é mais um rascunho deitado no cesto dos papéis, o embrião de algo adiado.
Juro que queria muito escrever essa tal carta de amor, mas já não sei fazê-lo ou talvez, quem sabe, a vida tirou-me o jeito. Também, para que queria eu escrevê-la se tu detestas ler.

Margarida Piloto Garcia


quarta-feira, 22 de julho de 2009

Desencontros



.“ Não voltarei ao leito breve

onde quebrámos uma a uma

todas as frágeis hastes do amor”


Eugénio de Andrade in “ Obscuro domínio”


Jogo os desencontros
nas marés revoltas
tsunamis de querer.
Num simples batel
a minha alma rema inebriada
e eu nem ouço
as chicotadas duma voz que grita.
É triste o dealbar deste sol
que se transmuta e fere de morte
os escolhos de uma praia.
Os desencontros são cicuta
gotejada pouco a pouco.
À raiva acutilante
desse mar revolto
responde a calmaria de um céu sem estrelas
de um deserto de sentires.
Exausta, encalho na praia
onde me espera a solidão.
Mas não me importo!
Sou um Crusoe que só deseja
que os desencontros morram na última maré.



Margarida Piloto Garcia-in SOB EPÍGRAFE-TRIBUTO A EUGÉNIO DE ANDRADE-publicado por TEMAS ORIGINAIS, 2023