Mostrar mensagens com a etiqueta loucura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta loucura. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 31 de março de 2014

Lábios






Fervem os lábios enquanto brilham na espera
e eu amo-te tanto
que não sei porque as bocas estremecem
no medo de se darem
Perdem-se as bocas em línguas de fogo
e eu amo-te ainda mais
mas não posso dizer-to
Se os lábios se envolvem num espasmo desmedido
eu rasgo-me louca na polpa agridoce
Neles se tocam os seios e os sexos
as palavras e os silêncios
neles se enredam histórias e estremecem estrelas
e as explosões dão-se em eternos segundos
Por isso amo-te
mas guardo na boca fechada o teu nome
porque ele é um segredo a florir nos lábios


© Margarida Piloto Garcia-in AMANTES DA POESIA I-publicado por EDITORA UNIVERSUS-2014




domingo, 28 de novembro de 2010

Destino






Eu já era assim
Tinha sagas futuristas agarradas nos olhos
e cobria os recantos escondidos e aconchegados
de poalhas de sonhos.
Em cada noite
fazia clones sem parar
uma máquina inconfundível de realidades estropiadas.
Quando as manhãs rasgavam o conforto
procurava na vida as personagens só imaginadas.
Eu sempre fui assim
ingénua e despudoradamente sôfrega
uma louca em banda desenhada.
As minhas mãos têm recordações táteis
guardadas para desfiar num rosário de noites brancas
em que a mente desenha borrões de tinta viva pingando gritos pelo quarto.
Tento não ser assim
mas escrevi um destino torto em fase terminal.



Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013



sábado, 28 de março de 2009

Abismo





O nulo absoluto
oprime e exige.
Quando te apercebes...
já nada tens.
As imagens surgem-te desfocadas.
As letras são corropios em veloz retirada.
E restam-te sonhos idiotas.
Descobres-te na ridícula paisagem
do faz de conta.
Prometes não voltar.
Mas voltas, vezes sem conta.
Rejeitas o que te oferecem,
pela procura da negra perdição.
Afundas os sonhos.
Mergulhas na maldição.
Tudo o que és de bom é subvertido.
Perversamente aceitas que já nada te resta.
Desejas o vórtice da loucura,
as algemas que te rasgam a carne
desde que do outro lado a vida exulte.
Os teus desejos são intransponíveis,
transitam num vislumbre
pelo negrume dos outros.
E as horas passam
desfilam anorécticas em sedas transparentes.
O teu relógio morde-te, fere-te,
dilacera-te em pedaços a espera.
E não tens dúvidas...
de que tens um abismo no lugar da alma.



Margarida Piloto Garcia








quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Perdição





Ela olhou nos seus olhos
e soube-se perdida.
Lembrou palavras soltas,
cascatas sombreadas de desejo.
Fermentos de loucura incipiente roubaram-lhe a razão.
Cada letra lançou âncora, parasitou-a.
Deixou-se devorar e perdeu-se nos olhos.
Embrulhou-lhe os defeitos num novelo,
pintou como obra de arte a simples tela
e olhando-o nos olhos, sentiu-lhe os lábios mornos e o corpo quente.
O mar era um abismo de prazer
e os verdes e vermelhos golpeavam
fortes como frutos trincados.
Tentou não aceitar a perdição.
Ser mais forte, não ser igual a si.
Tivesse percebido e fugiria,
saltaria barricadas
verteria o seu sangue em escarlate manto
tingiria de negro a paixão.
Mas essa loucura dentro dela não tem travões,
não tem pregos que a prendam num caixão.

Corre desenfreada, cerra fileiras, desafia.

Mas...
Quando ela o sente,
já os cavalos galopam planície fora
rasgam telas manchadas de amarelo
ferem a música com rajadas de vento.
As mãos prendem e entrelaçam
e a voz canta-lhe ao ouvido o lânguido torpor tornado encantamento,
ferro em brasa marcando-lhe o sentir.

Já tentou ver-lhe a alma e vencer.
Mas perde sempre,
algemada nuns olhos feitos de palavras.



©  Margarida Piloto Garcia -in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013