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domingo, 3 de setembro de 2023

Loucos





Só os loucos escrevem

debaixo da canícula da tarde

polindo as palavras na areia

enquanto o suor desfaz em borrões

cada frase, cada letra ,

como se varresse uma convidada indesejada.

É a poesia que cheira a maresia

e sobe pelas narinas

desfazendo-se em imagens do passado.


Só os loucos sabem

das possibilidades dos inocentes vingarem

quando brincavam ao sol

sem necessitarem de palavras.

Antes tinham ainda o fogo sem marcas

sem que no coração restasse cinza morna.


Na areia o poema esquecido

já não é o mesmo. Transfigurou-se

e desapareceu sob outros destroços.

Com a água nos flancos, os loucos

lambem gota a gota o sal

com que insistem em escrever.




Margarida Piloto Garcia-in ANTOLOGIA DE POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA"Entre o sono e o sonho"-Volume XV


Foto de Anna Heimkreiter


 

domingo, 10 de junho de 2012

Morte


 E lágrima a lágrima teço uma mortalha.
 Não me dêem louvores que já não ouço.
 Não me tragam beijos que já não sinto.
 Preciso de oblívio, de um buraco negro que me sorva.
 Não quero sorrisos...nem carícias.
 Não me mostrem paraísos que não existem.
 Quero uma estrada lisa, rude, informe.
 Quero tropeçar em cada raiz das árvores que não plantei e esmagar cada flor quando cair.
 Espero apenas um sol vermelho quando chegar ao abismo e a morte me sugar

 Margarida Piloto Garcia