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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pedido




Fecha os olhos para não veres a sombra do meu rasto, porque parto com as aves. Vou ser feliz e alagar os poros com o suor dos dias. Vou-me encher de chuva e arrancar as raízes desta terra que me pesa na pele. Vou e não volto, mesmo que as noites deixem de ser rubras e eu tenha de coser os olhos e a boca, mesmo que tenha de gelar todos os nervos. Retiro-me. Na penumbra da tarde gasto o último verso. No chão maduro e rubro do meu sangue, deponho as minhas asas. Encolho os ossos frios e arranco a carne ainda em chamas.
Que é isso da saudade, grito eu, já mal suspensa dos evadidos braços? Mas a dor é surda e não me ouve. Mordem-me as curvas escondidas num regaço de que não sei o cheiro nem as palpitações. E vou, porque a alma se gasta na esquina das noites e os dedos são miasmas à solta num contágio fremente e alucinado.
Não me entrego às perguntas, amantes e teimosas. Encosto-as à parede para que nela fiquem como quadros de um passado voraz. Solto-me incauta a desprender-me de ácidas algemas e felicidade feita às fatias.
Deixa-me ser selvagem mesmo que tenha nos seios o leite das doçuras prometidas e o meu ventre se abra às tuas palavras devoradoras, porque  elas não são tuas e nem sequer são minhas, nem mesmo de ninguém. Deixa que o vento me despenteie o caminho e o sonho revolto e preso a fios de nada me aplauda as opcões ainda que tortas.

E num último e frenético pedido, cobre a minha boca de rezas beijadas para que voe em frente, antes que eu tropece enlouquecida e recue na evasão do medo.


© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019

© Foto de Eliane Schulze Segunda


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Silêncios








Talvez eu goste dos teus silêncios
porque não trazem laços.
Sentados  junto ao rio que corre
esquecemos palavras.
Apenas o teu olhar escreve alfabetos
tão antigos como o homem.
Tenho perguntas para fazer
mas navegam num barco de papel
feito das últimas letras  que escrevi.
Deixo o meu ombro desnudar-se
e secar-te os discursos.
Agora, já só tens um desejo
gritado no silêncio.
Não levamos connosco âncoras
de passado ou futuro.
Só temos o momento a tremer nas pestanas
e a escorregar devagar pelas margens do corpo.
E se eu quiser
pronunciar palavras proibidas
por favor não me deixes fazê-lo
e sela com a tua a minha boca.


© Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS II-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013