Mostrar mensagens com a etiqueta mar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta mar. Mostrar todas as mensagens

domingo, 7 de julho de 2019

Canção do mar





Lençol de areia quente e branca
a emborcar desejos sob o sol.
Nele me envolvo com a alma gasta 
e a pele a arder. Um dia destes
rompo os braços mar fora.
Quem sabe a espuma sabe a algodão doce
e me faz adormecer devagarinho.

Passo a passo deixo rudes marcas
fantasmas deste corpo a afogar-se
em esperanças devolutas, presas pela raiz.
Abro o peito à maresia para expurgar
os vícios. Afasto os versos turvos
e mergulho a alma sem remédio.

As palavras soam estéreis
sem que ninguém lhes valha, tal como cada adeus.
Indiferentes, as gaivotas despedem-se de mim
e eu não sei de gritos para as chamar.

Na impoluta madrugada
canção perfeita é a do mar.

© Margarida Piloto Garcia in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A SOPHIA DE MELLO BREYNER- publicado por TEMAS ORIGINAIS- 2019

© Pintura de David Ligare



quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Escuridão



Na imensa escuridão
um fino raio de prata incinera os corpos
e deixa fantasmagóricas runas
escritas em névoas de vagalumes.
No negro profundo
há lábios pálidos e exangues
drenados por vampiros quotidianos
após canibalescas festas do sentir.
Algures por entre as vagas negras
deslizam sentimentos tirânicos
reescrevendo um pretérito cada vez mais imperfeito.

O raio prateado tornou-se feérico
e enche a noite de charcos pálidos.
Ao som de um tango de Gardel
os corpos são silhuetas primitivas
num ballet rítmico e gutural.

Quando a aurora devorar
os últimos resquícios de escuridão
os fantasmas terão partido
e eu ficarei só.


Margarida Piloto Garcia




terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Último mar







Nas rebeldes madeixas
de corvos de asas negras,
gotas de chuva serpenteiam.
Ela, é estatua de pedra silenciada
guarida onde a tristeza fez o ninho.
As gaivotas esvoaçam-lhe
a vida ressequida
e gritam-lhe
as lembranças do passado.
O mar lhe trouxe o amor
e o levou,
ardendo-lhe a alma
em pira fúnebre.
Os olhos tão cinzentos,
bordados de orlas escuras violáceas,
reflectem o sentir das ondas verdes
e das marés que lhe encheram o ventre.
Neles se escreveram
linhas tortas de vida,
como se de um manuscrito se tratasse.
Só a boca rubra
não esqueceu,
os rituais de amor tornado dor,
a saudade, as mágoas, o carpir.

Na espuma que lhe morde os pés
escreve devagarinho,
em letra antiga,
um último poema.



Margarida Piloto Garcia


Web-Art de Yolanda Botelho

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Terra de Sal




Essa terra entrança-lhe o cabelo de salmoura.
Os gritos das gaivotas sulcam-lhe a memória como traineiras em mar revolto.
O cheiro da maresia é um perfume de evocações de Agostos idos.
Odores de creme Nivea, o da caixinha azul,
passados numa pele alerta, a imaginar toques proibitivos e sonhados.

Essa terra é um grito de explosão mar fora.
Passeios longos nessa areia partilhada de fulgores,
até deixar o sol morder a pele.
Solta nela o orgulho de mulher.
Traça-lhe os lábios o apetite de um beijo voraz.
Olhos castanhos rasgados de sonhos futuros!
Passeios largos,
rochas altaneiras,
esconderijos descobertos e partilhados.
Subidas fulgurantes em encostas a parir verde e cheiro a seiva.
Ameias de castelo debruçados em sons estereofónicos,
crias dadas à luz por carro veloz.

Essa terra debita-lhe na alma o sotaque arrastado
das peles curtidas pelo mar.
O som melodioso enrolasse-lhe na boca e transforma-lhe as vogais lisboetas em suspiros de sereia.
Traz-lhe em revoadas o espanto provocado da chegada.
Lembra-lhe os encantamentos induzidos,
quando desce de um autocarro,
quando sobe a ladeira,
quando brinca escondida na trama de um chapéu de palha.
Há fluxos de energia gerados pelos ventres quentes
nascidos da mente repleta e farta...insaciável!

Essa terra é um fruto que se come sôfrega
em pedaços carnudos e sumarentos,
mas também se mordisca e lambe até que o sal e o ácido lhe piquem a língua.
Ás vezes solta-se dela o cheiro do pão acabado de cozer,
morno e suculento numa madrugada.

Tem sons de quarto embebidos em desejo,
amálgama delirante de um romance bordado em desespero.
É uma paixão sonhada em vida, um rebentar pelas costuras.
Tantas ruas e esquinas cheias de pedras polidas
por onde deixou a vida escorrer.

Essa terra é-lhe mais fiel do que ela lhe foi.
Aceita-a de volta quando ela a renegou.
Debruçada sobre ondas em marés de Setembro
ela recolhe-a no seu útero,
ressuscita-a em procissão calcorreada
no cheiro de alecrim e rosmaninho.
Talvez os vultos que lhe rasgam a vida se entretenham
no apelo dessa baía.
Ela só quer lembrar o verniz às camadas,
o cabelo longo a cheirar a sol
os remos fendendo a água
as lapas brilhando no meio de ouriços do mar.

A pequena cama onde a criança dormiu
e a mulher sonhou, o gosto da farinha torrada,
vertida na boca que grita na brincadeira em génese,
são alguns dos alinhavos de que foi feita no tear da vida.

Essa terra tem lágrimas brilhando nas escamas
dos peixes saltitantes trazidos pela rede.
O vestido verde ajeita-lhe o primeiro soutien
escondendo-lhe e mostrando a pele suculenta
como um figo maduro.
Adolescência mergulhada em mar profundo,
pose altaneira de quem sabe o que vale.
Existe em si a semente dessa baía rasgada na serra.

Não importa quanto tudo mudou nela, na terra, na vida.
Essa terra é a sua alma e nesse mar fará a sua sepultura.

Margarida Piloto Garcia-in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE II-publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2013