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sexta-feira, 22 de março de 2024

Amor e lágrimas




Há quanto tempo não escrevo uma carta de amor? Se calhar era paixão e eu não o percebi. Ou talvez um amor sonhado. Nada como um amor cismado a rasgar pulsos! Descubro umas tantas por aí, mas são mais de uma tristeza esfaqueada que se alonga na penumbra da casa. Em todas elas me abandonas como os pesadelos onde não há antídoto que dilua o veneno no sangue, ou morfina que debele a dor que cresce no silêncio.

Essas cartas perdidas, estão escritas em papel e não passam de cadafalsos onde o corpo foi guilhotinado. Neles se perde a cabeça mas ninguém aparentemente morre. Mas é mais ilusão, porque já todos são fantasmas destruídos pelas sílabas afiadas.

Tento de novo escrever a carta de amor mas o coração está carcomido, a vida estala, o desespero rói e a falta de ar não é produto de uma sinfonia apaixonada, mas apenas um carrasco que se ergue em cada manhã. Por vezes é mais fácil estender os dedos da noite sobre a nossa pele!

Retorno à carta, com ou sem destino, mas as palavras resvalam entre a ternura e a paixão, começam a escrever nos corpos com poemas entranhados a cortar como facas. Possivelmente acho que estou enganada, que não sei a quem escrevo, que não sei nada porque ninguém sabe. Mais uma vez volto a enganar-me mas afinal é do engano que nascem as cartas de amor.

Insisto mesmo que o amor se cale numa quase morte. E se há coisas que esqueci, outras não quero lembrar e é preferível misturá-las com sumo de laranja e beber cada gota como se fosse cicuta.

Surgem palavras cheias do meu sangue. Por vezes tímidas, por vezes destemidas, focadas numa guerra que cresce nas veias e cria uma devastação da qual não consigo regressar.

Talvez seja melhor assim. Voltarei à carta de amor quando as lágrimas regressarem ao meus olhos secos.




Margarida Piloto Garcia


Foto de Laura Makabresku

 

domingo, 19 de janeiro de 2020

Amor por inteiro







Nem metade, nem três quartos de um amor. O que sempre quis foi um amor por inteiro. Sabes, aquele amor que imaginava no meio das giestas bravas que cercavam a casa, os teus cabelos inclinados sobre mim, o silêncio a gritar o zumbido das abelhas, os sentidos a montarem armadilhas e as tuas mãos a orquestrarem sinfonias. A urgência de amar mordia a tarde calada e eu engasgava os gemidos que cresciam no peito.
O que sempre quis foi um amor inteiro. Nada de passos gelados a fazerem gemer o soalho antigo, nem noites disfarçadas de lancinantes esperas, o medo a deslizar das sombras e a cravar as unhas na cama deserta. Eu a lembrar o estio a romper das janelas, o vento suão a perpassar no meu corpo enquanto a tua voz cantava Fistful of love e as tuas mãos peregrinavam a viola antes de se desmoronarem com fingida ferocidade sobre mim.
Não vale a pena chorar. Vem um algoritmo e apaga-te de vez as lágrimas, encerra-te na distância e transforma o caos da paixão numa caixa cinzenta e pardacenta. Nem todas as cartas de amor são felizes. A prova está nesta que vou colando, letra após letra.
Criei o hábito de sonhar. Antes eram sonhos de amor onde corria o risco de me acidentar. Era um risco de morte feito de olhares negros carregados dos beijos gulosos com que canibalizávamos as bocas. Era tudo uma questão de sobrevivência, a incapacidade de conter o grito e a compostura. Mas depois o engano cresceu no escuro e o calendário enlouqueceu. Não há versos ou notas de música que o façam parar. Não existem fórmulas mágicas ou passos de dança, capazes de fazer desaparecer a desilusão.
Quantas décimas tem um amor? Um amor inteiro feito da sedução da areia, do cheiro da maresia, da rendição à vida sem esperar qualquer absolvição.
Agora a noite é densa, feita de um pesadelo recorrente. É difícil respirar enquanto se pesa um coração. Quantos gramas para um amor inteiro? Para o saber talvez seja preciso renegar as almas fraturadas e sondar os filósofos da felicidade, aqueles que se embebedam de estrelas e atravessam a vida cheios de certezas. Gostava de ser assim. Talvez tenha sido assim, sem as ideias de fim de mundo que me atravessam.
Continuo a não aceitar, um meio amor, ou três quartos dele. Talvez seja louca em exigir um amor inteiro, por isso não sei escrever cartas de amor.
Afinal o poeta tinha razão. Todas as cartas de amor são ridículas.





© Margarida Piloto Garcia-in III COLECTÂNEA DE CARTAS DE AMOR-"TRÊS QUARTOS DE UM AMOR"-publicado por CHIADO BOOKS-2020



© Foto de Josh Adamski