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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sem palavras






Pelas pontas dos dedos
as palavras não escorrem.
Recusam-se a caminhar nuas
a despir-se para mim.
Os meus olhos não as transbordam
teimam em calá-las num brilho aquoso
a esconder constelações.

Num silêncio que me come por dentro
caminho devagar na sombra que deixaste.
As palavras não morreram
prendem-me com os nós que não soubemos dar.

E é neste duro enleio
que te sinto, mas te apago,
te devoro e minto.
Eu guardo a pressa de um amor aflito
tu, jazendo a meus pés já nada sendo.

A minha saia dançando
a minha roupa em voo
no rasgo alucinado da asa da gaivota.
Meu corpo amanhecido
rubro ventre
seiva que o teu navio implorante guarda.

Mas de encontro às minhas coxas de cetim
há muito naufragaste
enterrando o sentir neste meu mar profundo.
E as palavras que te impediriam de partir
eu não as soube então
nem nunca as saberei.


© Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013

Web -art de Yolanda Botelho


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Último mar







Nas rebeldes madeixas
de corvos de asas negras,
gotas de chuva serpenteiam.
Ela, é estatua de pedra silenciada
guarida onde a tristeza fez o ninho.
As gaivotas esvoaçam-lhe
a vida ressequida
e gritam-lhe
as lembranças do passado.
O mar lhe trouxe o amor
e o levou,
ardendo-lhe a alma
em pira fúnebre.
Os olhos tão cinzentos,
bordados de orlas escuras violáceas,
reflectem o sentir das ondas verdes
e das marés que lhe encheram o ventre.
Neles se escreveram
linhas tortas de vida,
como se de um manuscrito se tratasse.
Só a boca rubra
não esqueceu,
os rituais de amor tornado dor,
a saudade, as mágoas, o carpir.

Na espuma que lhe morde os pés
escreve devagarinho,
em letra antiga,
um último poema.



Margarida Piloto Garcia


Web-Art de Yolanda Botelho