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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Prisão



Há uma certa crueldade
nas palavras que escreves com teclados estéreis.
Eu não vejo céus de estrelas
só ripas que me fecham os olhos e amortalham.
E é nesta minha quase sinestesia
que a dor explode em rubros clarões
com cheiros aveludados a cerejas carnudas.
Leio as palavras e quedo-me muda
enquanto os gritos me recortam em desenhos surrealistas.
Tento ir mais além, navegar no tsunami
mas este leito tem amarras
prende-me o pensamento, castra-me as emoções
chama-me louca, e possessivo, subjuga-me.
Sou um velho guerreiro, um espírito engelhado
de armas ferrugentas e cicatrizes virulentas
como ecos de uma viagem por entre guerras sem fim.
Levo o meu coração embrulhado num pequeno papel
amarrotado, fino, manchado e a desfazer-se.
Às vezes, penso que já não existem céus estrelados
e que o pôr do sol há muito se escondeu nas trevas.
Ouso despir a angústia a um corpo que desconheço
e pendura-la nos fantasmas que me mordem.
Algures, as palavras escritas com teclados, reclamam-me a alma.

Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013




sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Estilhaços








Não consigo apanhar os estilhaços da tua ausência. Os meus sonhos rasgam cada centímetro da minha pele ferida. A realidade é uma faca afiada cortando e recortando espirais de dor num corpo que se quer suado. Espasmódicos requebros percorrem cada gota de suor, vertida numa manhâ eternamente recordada. Os lábios secam sem o beijo e recolhem a frivolidade de uma lágrima que teima em cair. Por mais que queira, sou subvertida pelos acordes saídos da tua viola e sinto esse gosto a loucura que me divide entre a vida e a morte.
Queria tanto apanhar esses estilhaços! Colá-los numa cópia insana do que foi! Mas olho-os e sinto-me vazia. A minha alma não passa de um rascunho amarrotado, no qual mal se notam os traços, de tão usada. Dobro as esquinas da vida e respiro os eflúvios de uma qualquer droga que amorfine. Multiplico, divido, somo, elevo a uma potência difícil de calcular, este vórtice que me domina. Mas quando mergulho nos teus escritos e na memória falada de um mar reflectido nos teus olhos, a minha vontade é uma folha caída ao sabor do vento acutilante.
Não sei unir estilhaços porque não deviam existir estilhaços .
Que trilho não pisei?
Que segredos não soube desvendar?
Que imensidão de mim não foi suficiente?
Como funciona um grão de felicidade?
Um grão pequeno, uma migalha, um sopro do refexo sonhado e sentido. Existe um nó que se aperta, uma medusa que destila veneno, minando a minha consciência e transvazando uma agonia para um eu vazio. Perceber é um exercício de quê?
Que traço deve ser desenhado, que nota deve ser tocada, que palavra cria o milagre do acontecer? Amarfanho os cantos da vida num envelope velho, onde moram fotografias que não reconheço.
Não quero estilhaços...porque era tão inteiro esse meu querer!




Margarida Piloto Garcia

Web-Art de Yolanda Botelho