Basta acordar cedo e fugir aos dialetos noturnos. O medo esconde-se nas sombras e nos silêncios. É uma serpente a devorar a luz. O dia vive temerário e brilha como sílica ao sol. Nele, os poemas são menos fatais e as clausuras são menos verdadeiras e insensatas.
Não há leis nem teoremas que te ajudem quando morres atropelada pelos sonhos. Em qualquer estação do ano, a vida é uma promessa imperfeita, uma construção a desmoronar-se desde o passado.
Há uma morte repetida em cada dia um revolver apontado à cabeça, um apelo que guardamos por dentro a tornar-se peso, a tornar-se sombra, a respirar fundo feito veneno.
Aral sonhava viver libertar-se e correr com pequenas pernas no meio do clã. Crescer e ser mulher e um dia talhar o dente de mamute que um homem viril lhe havia de oferecer. Veio a clava de pedra e o ventre da mãe fez-se dor e morte e Aral não nasceu.
Cléa tinha mil sonhos. Em cada miosótis que bordaria, o sangue havia de correr-lhe fogoso e aquela fome de ser mais e ser única, seria já esperança a crescer dentro da mãe Veio a espada mortal e a ponta golpeou-lhe o coração. Não houve sequer um minuto para apalpar o tronco de uma árvore.
Joshua sonhava ser músico. Os violinos que ouvia aninhado no útero trepavam-lhe cada nervo, a ensinar-lhe tempestades e dilúvios, coisas que os caminhos lhe trariam. Veio o golpe e a fome, a pancada e o gás. Até ao fim , a dor semeou sangue no livro dos mortos e Joshua não nasceu.
Anne sabia das borboletas aquelas que a mãe queria alcançar, numa luta feroz, ganha a pulso nos dias desgastados e espremidos nas noites de insubmissas vontades, a esconder desejos Veio a bala e os lábios não conheceram beijo veio o homem e violou a casa onde crescia e Anne nunca viu a cor das borboletas
João tinha fome de nascer A esperança era tão forte que apressava a vida e o lançava do corpo da mãe para vir ao mundo alimentar de seiva os corações e adubar os olhos de beleza e júbilo, dentro e fora da pele. João nasceu e como ele mais homens e mulheres. Nesse tempo futuro não existiam armas
Há muitos anos a vida cabia
toda numa mala de viagem. Não daquelas que agora se usam. Apenas uma que levava
na mão com toda a energia da sua juventude. Ana lembra-se que nela cabiam
poucas coisas, a maior parte dos seus bens materiais, mas a bagagem dos sonhos
era enorme.
Agora alonga o olhar num rio
juncado de gaivotas. Traçam-lhe percursos, todos divagantes. Em cada voo um
grito, em cada mergulho um sonho afogado. E o rio enche e vaza em perenes
partos sempre anunciados. Ana passeia por entre o verde vibrante que a nova
estação fez desabrochar. Busca flores, com a alma aflita de quem minera ouro,
num eterno cansaço de novas descobertas. Agarra-se à terra buscando raízes que
a prendam à vida e sonha, sonha sempre. Nos campos ou junto ao mar, sente-se um
espírito livre. Enverga palavras borboleteantes, salpicos de ondas ou pérolas
de orvalho matinal. Parte em todos os navios que despontam no horizonte ou
enche-se do aroma fervilhante da terra, qual insecto laborioso.
Ana afunda o olhar na distância
e sorri no prazer antecipado do reencontro. Ao longe Luísa caminha na sua
direcção. Traz um passo masculino, quase um contra-natura do seu pequeno mas
viçoso seio, ligeiramente descoberto no decote. Luísa é toda alvoroço, palavras
atropeladas distribuídas por uns lábios finos que não denotam a paixão que a
move. Ana abraça e beija a amiga. De imediato ela lhe conta os dois últimos
meses. As doenças dos filhos, as crises conjugais, os últimos falhanços.
Fala-lhe dos quês e dos porquês, das raivas pendentes, das noites adiadas, dos
solavancos do corpo miúdo, das ânsias de fugas desmedidas, das loucuras ácidas
e picantes. Ana ouve-a e no fundo, tenta resgatar os navios que deixou
naufragar nos rios que atravessou com a mala de viagem. Nas palavras da amiga,
descobre os gorjeios do pássaro aflito que a consome. Já nem escuta, os olhos a
dançarem desejos e os lábios gotejando
paixões arrítmicas. Ambas se debatem,
presas numa gaiola onde estiolam os sonhos de uma juventude.
Tornaram-se amigas na descoberta
de ritmos dançados. Luísa mais saltitante, Ana mais apaixonada. Habituaram-se
pouco a pouco a debitar segredos, a partilhar mágoas. De vez em quando, fogem
ao quotidiano e atiram-se como setas a matar a inércia e a letargia. Descobrem
sempre um recanto onde pairam como fadas. Partilham um copo e desfazem os nós
dos romances. Numa certa loucura, dançam com magia, trauteando versos que lhes
expurgam as maldições.
Depois que a amiga parte, de
volta ao trilho que traçou, Ana pensa que também precisa regressar, não à vida
sonhada, mas àquela que foi fabricando em tantos anos de vida. Ajeita o vestido
preto que lhe faz destacar o cabelo louro, quase branco. Sente-se bem nessa cor
sombria que há anos se sentiu compelida a escolher. É quase um luto pelo corpo mal
amado. Por baixo, a pele explode em vermelhos luxuriantes, em laranjas
flamejantes que só pensam em mitigar a sede em encontros azuis. Sob o vestido
um arco-íris, uma palpitação, uma boca mordida. Por fora, sombras e placidez,
só traídas por uma curva do corpo, pela sensualidade do olhar, pelo modo como
enrola o cabelo nos dedos suaves mas febris.
A tarde cai e um pôr-do-sol
desenha o horizonte como uma tela de Van Gogh. Pensa numa música de Bethânia a
gravar-lhe palavras esdrúxulas na alma magoada. Não quer pensar na casa sem
flores nas janelas, na paisagem quase alienígena dos prédios que a cercam e lhe
serram as pernas com que dança e as mãos com que acaricia. O encontro com a
amiga já se esfumou, deixando-lhe a boca seca e um frio a lamber-lhe as margens
do corpo.
Já não tem a mala onde cabiam
os sonhos e os poucos pertences. Agora seriam precisos muitos caixotes para
empacotar os valores, mas também os desperdícios de toda uma vida. A tralha
substituiu toda a esperança e delapidou-a.
Raro é o desejo que ao ser satisfeito não te deixa marcas a ferro e fogo. E depois, para quê esperar com denodada ansiedade a meta escolhida, a visão que te assombra as noites e te devora os dias? Tal como numa viagem, enches o teu eu de quimeras, de expectativas, de sonhos para fruir e saborear. O teu sangue estremece, a tua alma é um pardal saltitante, o teu sangue pulsa a cada batida de espera do teu coração. E depois? Há momentos empolgantes que te desenham tatuagens líricas e há as mágoas e as decepções que te esculpem por dentro a sangue frio. E à medida que a viagem se aproxima do fim, começas a sentir o nó da privação, do retorno a velhos males e a páginas por colorir. Assim são os desejos satisfeitos, a morte dos sonhos, a esponja do quotidiano. E no entanto levamo-los connosco, acolhemo-los dentro de nós, numa ânsia constante, num quase vício de que não nos desprendemos.
Desejos e sonhos são traços de nós.