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quarta-feira, 29 de maio de 2019

Sonhos






Aral sonhava viver
libertar-se e correr com pequenas pernas
no meio do clã. Crescer e ser mulher
e um dia talhar o dente de mamute
que um homem viril lhe havia de oferecer.
Veio a clava de pedra e o ventre da mãe
fez-se dor e morte e Aral não nasceu.

Cléa tinha mil sonhos.
Em cada miosótis que bordaria, o sangue havia
de correr-lhe fogoso e aquela fome de ser mais
e ser única, seria já esperança a crescer dentro da mãe
Veio a espada mortal e a ponta golpeou-lhe
o coração. Não houve sequer um minuto
para apalpar o tronco de uma árvore.

Joshua sonhava ser músico.
Os violinos que ouvia aninhado no útero
trepavam-lhe cada nervo, a ensinar-lhe tempestades
e dilúvios, coisas que os caminhos lhe trariam.
Veio o golpe e a fome, a pancada e o gás.
Até ao fim , a dor semeou sangue no livro dos mortos
e Joshua não nasceu.

Anne sabia das borboletas
aquelas que a mãe queria alcançar, numa luta
feroz, ganha a pulso nos dias desgastados e espremidos
nas noites de insubmissas vontades, a esconder desejos
Veio a bala e os lábios não conheceram beijo
veio o homem e violou a casa onde crescia
e Anne nunca viu a cor das borboletas

João tinha fome de nascer
A esperança era tão forte que apressava a vida
e o lançava do corpo da mãe para vir ao mundo
alimentar de seiva os corações e adubar os olhos
de beleza e júbilo, dentro e fora da pele.
João nasceu e como ele mais homens e mulheres.
Nesse tempo futuro não existiam armas



© Margarida Piloto Garcia.



© Óleo de Maysa Mohammed


domingo, 12 de abril de 2015

Paz



Traz-me um pedaço de céu
um rumor de asas, uma flor amarela.
Peço-te que em todo o lado procures
olhos azuis ou castanhos, peles de todas as cores
rezas, canções, danças secretas.
Extermina no pó todos os horrores
e apodrece os malefícios da louca humanidade.
Ri-te e ama no branco dos lençóis, no azul das águas
num abraço fraterno a respirar doçura.
Traça um armistício da lua até à terra
numa onda de paz que nos transborde e submerja
Que o único gume a existir
seja o das bocas que se beijam.


© Margarida Piloto Garcia

© Foto de Grethe Holmgard Lange

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Desabafo




Preciso habituar-me à imperfeição, logo eu, de imperfeições feita
agarradas aos olhos e ao cérebro latejante
Ergo-me inconformada e inquieta, o rio do corpo a correr não sei para que foz
as margens a tropeçarem nos azares e a vida a tentar passar a fronteira da pele
Mas que importa, se crias outro dialecto com que me assombras com a futilidade de um romance!
Às vezes o coração fica míope de tão inocente e desacertado
E depois? Olho para trás e para dentro , a mão nervosa a tocar os olhos
como se as lágrimas fossem cordas de guitarra.
Os anjos puxam-me o cabelo e os pássaros abraçam-me com asas cinzentas
a salvarem-me do que não controlo, olhos magoados a escoarem dores.
Não grito como flor aberta, não deixo escorrer por entre os dedos
o desassossego da sede feroz e da fome a roer as entranhas.
Agarrada ao sonho teimo cegueiras em palavras lúdicas
em cheiros de corpos que a paixão louca não questiona
em sabores engolidos e pele a arder no vazio enclausurado.
Mas emudeço os tacanhos e delirantes sentimentos
porque algures num mundo escangalhado sem velas e sem leme
mais uma mãe encosta o corpo na fronteira da dor
e exausta, desabita a lucidez enquanto abraça o filho morto.


© Margarida Piloto Garcia  in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019


© Foto de Jonè Reed