quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

EU





Se eu fosse EU, seria de um outro universo
uma guerreira bela e escultural
com algo de uma qualquer nipónica série de tv
mesclada de uma ocidentalidade suave.
Se eu fosse uma gota de suor, escalaria a tua pele firme
e só pararia quando me misturasse à saliva
na ponta da tua língua.
Se eu fosse uma deusa, teria um exército
de animais falantes, estranhamente belos.
Voaria sobre toda a natureza e
pintaria uma tela de arco-íris encantados.
Se eu fosse o fulgor do teu olhar
forjaria amor desde a alvorada
até me exaurir no pôr do sol.
Se eu fosse EU
Ah, se eu fosse EU...seria uma mulher feliz.



© Margarida Piloto Garcia





domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ousadia






Levanto-me da aridez do dia pasmado e decido que hoje vou voar, jogar-me lá do alto de uma montanha e planar sobre o mar. Quase que sinto na boca, o ar prenhe do perfume pungente das acácias e quero render-me ao medo sem que ele me violente.

Não sei, mas talvez hoje pegue no carro e parta em direção a lado nenhum. Vou levar os ouvidos a escorrerem um soul profundo que me corrói a pele e procurar por aí a solidão dos que me são iguais.
Atrevo-me a encontrar-te, sentado num areal perdido onde me cegas os olhos e me prendes o tacto.
Dispo-me de preconceitos, para que no meu corpo grites como as gaivotas que nos surpreendem e pasmam.
Juntamente com o sol, preenches-me e transformas-me num cristal translúcido. Não te conheço, mas já te ouvi tantas palavras, que agora só preciso do primitivo enlace. Não gritarás sozinho, porque tenho esta ânsia de te dominar e de saber que na tua boca, o meu nome é prece suplicante.
Ouso ir mais além e procuro nas azedas amarelas, um outro que me traga cânticos de guerra gravados em runas milenares e mate esta fome suicida e sôfrega de que não sei o nome.
Há um mudo e atávico sentimento, que dentro de mim ata nós em que me enleio e cria enigmas que não sei desvendar.
Hoje vou ser louca num filme de cinema mudo.
Calei todas aquelas palavras que desfilam permanentemente em mim, numa esquizofrenia alheia aos outros.
Transporto comigo um vendaval que já ninguém pode travar.
Percebo agora que a minha ousadia é muito maior e vai mais além. Roeu todas as grilhetas, rebentou barreiras e tem um nome que não posso pronunciar. Deixou de se esconder e enfrenta-me disposta a triunfar sobre uma cobardia acomodada.
Não mais algodão doce, apenas o travo amargo da verdade a deixar antever especiarias picantes de que a vida é feita.
Sou a última partícula de um universo em explosão. Nada mais para além de mim, do que sou, do que resta, do que sempre fui. Um sonho atormentado lido nuns olhos de criança.
E é hoje e é já, que me atrevo e que ouso.
No alto da montanha ou nos corpos que enleio, busco a minha verdade pela última vez.
Se falhar, que importa?
Vou acabar gritando madrugadas para sempre e Fernão Capelo jamais será gaivota.

© Margarida Piloto Garcia in "CONTOS AO VENTO"publicado por EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015






domingo, 3 de fevereiro de 2013

Ad-lib





Improvisa.
Treina esses ad-libs
na seda dos meus cabelos.
Desce em rapel
pelo meu corpo
e torna-te explorador
nos meus leitos, vales e montanhas.
Sê o meu aventureiro a desbravar florestas.
Entrego-te um tesouro milenar
se conseguires derrotar todos os medos.

© Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013






sábado, 2 de fevereiro de 2013

Surreal



Tragam-me uma faca afiada
e eu vou cortar a lua em fatias translúcidas.
Vou decepar o canto aos noitibós
e rasgar as tendas erguidas nesta selva.
Com a lâmina fresca e sedenta
abro em mim os silêncios amordaçados
faço escorrer as purulentas dores
e escondo a vida por trás de portas blindadas.
Então, nós de veludo darão à vida
sabores amanteigados, doces e escorregadios.
Talvez eu odeie e tema o que é cortante
mas sabe-me a fruto proibido, a paixão consumada
o modo como as lâminas devoram as palavras
e as desenham em sangue no papel.
Mas a ilusão tem preço
e em todos os recantos espreitam marcianos
que tamborilam como anjos maus.
Do paraíso cai apenas uma pena negra
que se enleia na faca afiada
e se aconchega no meu seio.

Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013




quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Para sempre






Para sempre
e os meus olhos seguem a curva da tua boca.
Nos beijos continuados, a minha, morre ébria na tua
feita canibal voraz.
Passam minutos, horas...

Para sempre
o teu cheiro agarrasse-me à pele
sexual, primitivo, um pecado mortal.
Um raio de sol atravessa a vidraça e inunda-te de oiro,
um deus feito homem
no silêncio dos braços que me cingem forte,
tão forte, que me partem a vida
em pedaços que não colo mais.

Para sempre
promessas num olhar anzol do meu
uma chama bravia de fera em cio.
No teu corpo é que me encontro e perco
e aprendo e ensino um alfabeto reinventado.

Para sempre
e a vida passa num suspiro breve
feita de laços de aço ou talvez não.

Para sempre é uma recordação
são as minhas palavras avulsas
que só rimam com amor quando lhes chamas tuas


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013




quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Amor perdido



Na manhã outonal escrevi-te um poema.
Tinha o gosto do orvalho matinal e o aroma das maresias desaguadas em mim.
Tu trazias  o cansaço do tempo feito sonho, mas sorrias com os olhos.
Plantei em ti uma flor amarela e acalentei-a.
Às vezes as tardes eram tão vibrantes que a flor exalava perfumes de corpos extasiados.
Pouco a pouco, as aves que me falavam de ti, partiram.
E a flor chorou pétala a pétala o amor perdido.

Margarida Piloto Garcia-in "PALAVRAS DE CRISTAL I"-publicado por MODOCROMIA-2013




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Este desejo



O teu corpo tem linhas de fumo e luz a delinear o horizonte amanhecido.
Eu descubro em mim uma papoila ardente a inundar-me o ventre em chicotadas.
A boca enlouquece na espera, mais do que do teu beijo, da tua seiva de mortal a imitar os deuses.
Na seda fria da cama tento ungir o corpo das delícias nocturnas que nele semeaste.
Eu sou fada, lírio, morte anunciada. E tu és poema, vela de navio, espada ardente de tempos ancestrais.
Cruzas o quarto envolto em aromas acariciados e trazes-me a tua pele fresca para eu a transformar em lava.
Toco-a e faço-a minha. Ora me submeto, ora te ponho na boca implorantes frases.
Este meu desejo é tão insaciável como o teu.
Desenha em nós um amor perfeito, embalado em histórias de encantar.
E em cada vaivém de desespero eu espero a tua vida e tu guardas a minha para sempre.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013





segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sabedoria





Sabes do que falo?
Destes mistérios feitos casulos no peito
deste arfar meio louco
desta canção desgarrada a tremer sentidos
e a alvejar-me impiedosamente?
Sabes do sol a mergulhar no horizonte
enquanto eu tento aprisioná-lo e bebê-lo em flutes geladas?
Procuro desabrochar por entre os meus temores
mas tu trazes látegos na voz e eu revisto-me de aço.
Torno-me numa estátua açoitada pelo vento
a alma prenhe de vagalumes  e aromas noturnos.
Sabes como se morre?
Mordendo as madrugadas
na orgíaca lembrança de uma tarde de amor.


Margarida Piloto Garcia in-ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA VOL 4 "ENTRE O SONO E O SONHO"-publicado por CHIADO EDITORA-2013













quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Tempo






Não tenho tempo para palavras presas na garganta
nem para olhares plenos de mentiras.
Agora o caminho tem de ter uma ponte que atravesso
com a minha mão na tua.
Não perco mais alvoradas pintadas no horizonte
enquanto a minha pele ainda exala o perfume da tua.
O passado é uma ária que ambos entoámos
enquanto cruzávamos uma savana de feras.
Hoje sou um barco de velas desfraldadas a navegar mar fora.
Levo comigo o vento a sussurrar-me os beijos que trocámos.
Tenho esta pressa de te ter
sempre agarrado a mim como uma âncora.
Por isso o tempo que não tenho é todo teu.

Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013




domingo, 10 de junho de 2012

Morte


 E lágrima a lágrima teço uma mortalha.
 Não me dêem louvores que já não ouço.
 Não me tragam beijos que já não sinto.
 Preciso de oblívio, de um buraco negro que me sorva.
 Não quero sorrisos...nem carícias.
 Não me mostrem paraísos que não existem.
 Quero uma estrada lisa, rude, informe.
 Quero tropeçar em cada raiz das árvores que não plantei e esmagar cada flor quando cair.
 Espero apenas um sol vermelho quando chegar ao abismo e a morte me sugar

 Margarida Piloto Garcia



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A chave




Tinha uma chave feita de lágrimas e suspiros.
Guardava-a misturada com um vestido de seda
dançado a pares no teu ombro.
A chave era mítica e destrancava labaredas e caminhos de luz.
Pendurava-a à cintura, quando requebrava as ancas
ou ondeava o ventre e as mãos, num chamamento de véus orientais.
Com a chave abria os caminhos do meu e do teu corpo
e cantava melodias nunca interrompidas.
Sei que descobrias em mim o prazer escondido mas por ti sonhado.
Sabias de cor o cheiro da minha pele e os relevos do meu corpo
e levavas-me o coração guardado nessa chave.
Eu acreditava nos segredos que ela abria
quando juntávamos as mãos nos passeios por entre os rios
que escorriam pelas nossas pernas.
Numa travessia por um eterno deserto, guardava-a sequiosamente.
Um dia perdeste o passo, o rumo.
Embriagaste-te numa rota de pequenos veleiros e os grandes navios seguiram comigo.
Hoje não há chaves, apenas estacas a delimitar fronteiras.

Não me procures por aí.
Para onde vou, levo apenas a companhia de uma gaivota pousada no ombro.
O resto...é silêncio.

Margarida Piloto Garcia







quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Passeio





Dou-te a mão e espero.
Tremem sentidos na pálida madrugada
e o nevoeiro escorrega-me nos nós dos dedos.
... Levo entrelaçado nos cabelos, fios de histórias por rematar.
Caminho no ondear das palavras
enquanto a cidade escorre no som das memórias relatadas.
Quero acreditar
que o rio me leva ao mar imenso, parindo barcos de velas enfunadas.
Em cada nuvem um pensamento
em cada onda uma sereia.
Sigo o caminho de mão dada buscando nesse enredo o calor do sol
e o aroma das cerejas, tintas e carnudas.
Na palidez do dia escondo o coração no bolso do casaco.
E sigo de mão dada, como um fantasma na neblina matinal.


Margarida Piloto Garcia








quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Final



Não tenho mais palavras.
Gastei-as no fundo da tua boca.
Fiz com elas ondas salgadas com que te penteei os cabelos
e te lavei o corpo.
Nas tuas meigas mãos depositei-as
e deixei que me descobrisses os segredos
e me percorresses em vagas de paixão.
Entre nós havia um raio de sol sempre a pôr-se no horizonte
e tu cobrias a minha pele de flutuantes carícias
só visíveis aos olhos dos deuses, das montanhas e dos mares.
Hoje gastei as palavras nas pegadas deixadas na areia
e na tua boca não escrevo mais poemas de amor.

Margarida Piloto Garcia in-PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013





quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Um dia




Um dia
vou dizer-te palavras bordadas a bilros
traçando um labirinto que tu procuras percorrer com os lábios.
Vou olhar-te com olhos que te falem de mim
e onde as promessas dançam tangos de paixão.
Um dia, um dia...
Vou ensinar-te a percorrer os caminhos que levam ao meu colo
onde descansas a cabeça das intempéries da vida.
Passo a passo
gesto a gesto
carícia a carícia
quebras as barreiras e teces a teia dos desejos.
Um dia
vou surpreender-te e pôr a alma nua nos contornos do teu e do meu corpo.
O desenho dela vai cantar-te baladas
e as tuas mãos dançarão nas curvas dos meus seios
ao afundar-se em mim como um cisne morrendo.


Um dia
tu vais olhar as minhas rendas pretas e desnudar-me os ombros.
Murmurarás palavras ciciadas, urdindo um feitiço enquanto o sol se põe.
E inevitávelmente beberás dos meus lábios
a magia que te entardece os dias e inebria as noites.

Saio de madrugada ao teu encontro
a boca tremendo
o coração louco
a pele fervendo na espera do teu toque.

Um dia
vou contar-te este meu sonho.
Talvez quem sabe..um dia.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Chocolate






Leva-te às alturas
esse pedaço de chocolate negro que mordes nos lábios túrgidos.
Escorre-te uma gota no canto da boca
e qual réptil, a tua língua recolhe-a e degusta-a.
Sentes borboletas no estômago e faíscas cintilantes
nos olhos, na mente, no teu eu.
O chocolate trouxe-te uma magia orgásmica
um arco-íris gritante, como um LSD natural.
Viajas noutra galáxia
onde traças sulcos quase negros numa pele firme e elástica.
Tens as pestanas coloridas desse rímel feito com o cacau dos deuses
e tracejas outra face húmida de saliva e suor.
Não queres acordar
presa de uma magia que oriunda de trabalho escravo
de algum modo também te aprisiona.

O pequeno pedaço já se foi, derreteu melado nas tuas entranhas.
Agora há uma paz melódica e translúcida
mas de uma tão erótica vibração, que te viciou.


Margarida Piloto Garcia



sábado, 5 de novembro de 2011

Girassóis



  “ Assim fremente e nua, a luz só pode ser dos girassóis. “


Eugénio de Andrade in “O outro nome da terra.”


O comboio leva-me e carrega os meus sonhos.
Num constante rolar o meu olhar atinge os campos
e os campos devolvem-me esse olhar.
Não sinto, porque sinto tanto que matei o sentir.
O comboio rola e leva-me à cidade onde me perco
e onde amo cada pequeno passo, dado sozinha ou ao teu lado.
Essa cidade vai-me abraçar e corroer a vida de paixão.
A beleza dela é uma epifania e um esplendor
que tu escangalhas quando me desfazes a alma.
Esse ego monstruoso esconde a tua fragilidade
e é por ela que me detestas
porque eu a sei, porque eu a sinto.
Mas a cidade ainda está longe e eu já antecipei a dor
sublimada em pequenos prazeres que me alucinam.

Estava a tentar deixar correr os olhos
no tremor do amarelo da paisagem.
E vejo-me solta, uma silhueta em alvoroço, cabelo ao vento
rodeada do dourado que me fere os olhos.
Tento não olhar, não sentir que corro através das flores
que me atraem e me chamam.
E de repente vejo, são girassóis, imensos, ondulantes
fazendo-me o apelo.
Sou transportada a uma selva louca de pétalas
que me prendem mais do que me afagam.

E é isso mesmo que se crava em mim, o sentimento da minha invisibilidade.

Tu não me vês e os girassóis são cegos.



Margarida Piloto Garcia in- Sob Epígrafe. Tributo a Eugénio de Andrade, publicado por TEMAS ORIGINAIS, 2023





Arte de Paul Schilliger






quinta-feira, 21 de julho de 2011

Prisão



Há uma certa crueldade
nas palavras que escreves com teclados estéreis.
Eu não vejo céus de estrelas
só ripas que me fecham os olhos e amortalham.
E é nesta minha quase sinestesia
que a dor explode em rubros clarões
com cheiros aveludados a cerejas carnudas.
Leio as palavras e quedo-me muda
enquanto os gritos me recortam em desenhos surrealistas.
Tento ir mais além, navegar no tsunami
mas este leito tem amarras
prende-me o pensamento, castra-me as emoções
chama-me louca, e possessivo, subjuga-me.
Sou um velho guerreiro, um espírito engelhado
de armas ferrugentas e cicatrizes virulentas
como ecos de uma viagem por entre guerras sem fim.
Levo o meu coração embrulhado num pequeno papel
amarrotado, fino, manchado e a desfazer-se.
Às vezes, penso que já não existem céus estrelados
e que o pôr do sol há muito se escondeu nas trevas.
Ouso despir a angústia a um corpo que desconheço
e pendura-la nos fantasmas que me mordem.
Algures, as palavras escritas com teclados, reclamam-me a alma.

Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013





domingo, 28 de novembro de 2010

Destino






Eu já era assim
Tinha sagas futuristas agarradas nos olhos
e cobria os recantos escondidos e aconchegados
de poalhas de sonhos.
Em cada noite
fazia clones sem parar
uma máquina inconfundível de realidades estropiadas.
Quando as manhãs rasgavam o conforto
procurava na vida as personagens só imaginadas.
Eu sempre fui assim
ingénua e despudoradamente sôfrega
uma louca em banda desenhada.
As minhas mãos têm recordações táteis
guardadas para desfiar num rosário de noites brancas
em que a mente desenha borrões de tinta viva pingando gritos pelo quarto.
Tento não ser assim
mas escrevi um destino torto em fase terminal.



Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013




quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ritual




Uma mulher normal
conta as rugas do descrédito, reflectidas no espelho desdenhoso.

Deixa os dedos
percorrer as estradas do cabelo naufragado nos ombros.

Escreve melancólica
palavras de uma só sílaba, que contabiliza com esmero.

Desmaia
no último veludo da pele acariciada.

Uma mulher normal
fecha a porta do castelo numa dança febril.

Reúne os últimos despojos
e cerra as asas, cansada da borboleta que já foi.


Margarida Piloto Garcia-in POÉTICA III- publicado por EDITORIAL MINERVA-2013



quinta-feira, 22 de abril de 2010

Grito







Venho dizer-te
que eu sou eu
e nunca ninguém poderá ser eu.
Trago um pássaro no peito
que se agita e estremece
cravando-me garras aguçadas.
Sei que não compreendes
o labirinto que a minha língua percorre
mas hoje os minotauros fugiram do meu sonho.
Se tenho olhos de corça
foi porque amordacei paixões e lhes calei a voz.
Agora canto silêncios
e estendo-os no luar da vida.
Confesso-te esta alma inquieta
feita de marés e remoinhos
mas não quero ver-me no espelho dos teus olhos.
Aqui onde me encontro
cobri de aço a alma rasgada
tranquei-a para sempre no meu eu.
Flutuo sem pensamentos
até que o pássaro nada sinta.

Mas eu sou eu
e até que me dilua na cinza universal
vou deixar rastos no teu corpo.


Margarida Piloto Garcia in- POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA

Arte de Delawer




domingo, 14 de março de 2010

Poeta




Tenho um poeta
que me canta versos navalhados
plenos de êxtases e de mágoas
deixando em mim uma marca feroz.
Nas esquinas do meu desejo
entrelaçam-se rotas em carne viva
gritadas loucas ao vento suão.
O meu poeta
é uma ave madrugando as palavras
cheirando-me o cabelo em sussurros.
Inquieta, corro por entre os sons desenhados
sem saber o que fazer com a eternidade dos sentidos.
Ficam agrestes e soluçantes
as arestas do meu pensamento
um caudal de emoções em lava abrupta.
Nas marés vivas do que escreve
há raios pranteados de luar
caminhos secretos e paixões.
Este poeta que me morde os flancos
e me rasga a roupa
traz sinfonias incompletas ao meu desespero.
Cega o meus olhos de corça
enche o meu ventre de mel
e pinta a minha boca de cobiças.
E assustada fujo
estropiada na embriaguez dos versos.


Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013






domingo, 28 de fevereiro de 2010

Agonia






Vieste nesse dia
e trouxeste ramos de absurdos
e raivas incontidas.
Dentro de mim
um pássaro bateu asas aflito.
Auroras rubras
tentaram desfazer o meu querer
e atiçaram emoções fogosas
mas eu já me perdera em nevoeiros.
Sou um canavial ao vento
e todas as gotas de chuva me devoram.
O pássaro dentro de mim
é uma fera aflita
um grito
um sopro
uma esperança.
Todas as dores me roem
as algemas com que teimas em calar-me.
Não sei mais quem tu és
mas sei quem sou:
um pássaro morrendo na madrugada.


Margarida Piloto Garcia-in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013

Arte de Felix Más





terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Conhecimento




Sei que tu sabes
desta febre que me devora e suga
deste ácido que brilha em pérolas de suor na minha pele.
A minha mão esculpe o teu corpo
e conhece-lhe recantos escondidos.
Há um aroma vibrante nesse teu cabelo
e uma força macia que se me enrola nos dedos.

Sei que tu sabes
quando os meus olhos se perdem loucos
no abismo dos teus.
Numa espiral magnética
as minhas pestanas dançam húmidas e
desconcertantes coreografias pela tua face.

Sei que tu sabes
deste meu vício de ti
da ânsia do toque apaixonado
dessas mãos a que me submeto.
Em complicadas partituras
mescladas de trombetas e tambores
esta paixão é um cavalo alado
sem rédeas, sem freio, sem destino.
Descubro-te a vida numa lágrima
e a tua voz canta-me rumbas de desejo.
Não sabemos como partir
como quebrar o sonho e seguir.
Em cada dia há um mistério por guardar
e um punhal cá dentro a afundar-se.

Mas eu sei que tu sabes
que eu sou tão real quanto imaginária
e guardo em mim o mistério do amor.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013




domingo, 4 de outubro de 2009

Notas de chuva



As gotas na janela
escorrem ao ritmo dos blues.
São lágrimas pasmadas de amores perdidos
orvalhadas paixões que a tempestade pariu.
Os murmúrios gotejam
um nocturno forjado num piano pagão.
E o vulto move-se, crisálida efémera
dançando mágoas eternas, declamadas, suicidas.
Há no ar um odor metálico
um exaurir de emoções, quais versos de Sylvia Plath.
As gotas de chuva
enchem copos com aroma a vodka
e fazem as lágrimas desenhar caminhos sem retorno.

Ai meu amor,
a chuva na janela tem o canto magoado de um fado de Amália
e eu não sei resistir-lhe.
Por isso, aqui me tens:
um vulto amarrotado desfiando pálidas ilusões
quase ébria de tanta melancolia.

A noite chora em crescente agonia
e eu afogo-me nas gotas da janela.

Margarida Piloto Garcia





quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Escuridão



Na imensa escuridão
um fino raio de prata incinera os corpos
e deixa fantasmagóricas runas
escritas em névoas de vagalumes.
No negro profundo
há lábios pálidos e exangues
drenados por vampiros quotidianos
após canibalescas festas do sentir.
Algures por entre as vagas negras
deslizam sentimentos tirânicos
reescrevendo um pretérito cada vez mais imperfeito.

O raio prateado tornou-se feérico
e enche a noite de charcos pálidos.
Ao som de um tango de Gardel
os corpos são silhuetas primitivas
num ballet rítmico e gutural.

Quando a aurora devorar
os últimos resquícios de escuridão
os fantasmas terão partido
e eu ficarei só.


Margarida Piloto Garcia




quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Dossel



Hoje quero a minha cama no ocaso.
Drapeados negros no meu sentir
Tons de prata a aflorar-me a pele
e um leve tom rubi com que me cubro.
Quero um leito desnudo, jangada primitiva
que navegue e traga sonhos vividos
mistérios relembrados.
Doce brisa leve e odorífera
sopra no meu corpo, carícia amedrontada.
Descaio a cabeça no doce sono
um Morfeu que esqueci
e esculpe em mim saudades
de arroubos e pele a gritar.
Não quero luares no meu dossel.
Apenas preciso de um veludo azul
de um doce deslizar sem impressões digitais.

Margarida Piloto Garcia -in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013


sábado, 22 de agosto de 2009

Blogagem colectiva de Agosto no "Vou de Colectivo" Carta de amor.



Era uma vez uma carta de amor

Hoje resolvi escrever-te a tal carta de amor que tanto tenho adiado. Não sei se foi o tempo que nunca chegou, se foram as palavras que faltaram, mas hoje pensei escrever-ta ao ver-te ao meu lado num sono pacífico... Certo que não precisavas de ter deixado a roupa toda pelo chão e já sei quem a vai apanhar mas... Dormes e eu deslizo os meus olhos pelo corpo que adoro tactear, sentir meu, cheirar... Bem, não tenho querido dizer mas detesto aquele novo perfume que a tua mãe te deu, mas enfim... Sinto vontade de te acariciar os cabelos, despenteá-los enquanto dormes... Pois, bem sei que não passa de sonho pois tu detestas que te estrague o penteado e eu guardo esse desejo como uma fantasia fechada a sete chaves. Mas olho-te e apetece-me dizer-te palavras doces, apaixonadas, dizer-tas num delicioso jantar à luz das velas em local romântico... É, podia ser assim, mas detestas o cheiro das ditas e jantar fora de casa, bolas e lá vou eu a correr para a cozinha. Mas pronto, as palavras de amor vão ficar para quando estivermos encostados lado a lado, bem aconchegados no sofá... Espero bem que não tenhas deixado por lá o jornal e não te apeteça fazer um zapping louco numa procura de não sei o quê!
Não sei bem como, mas as palavras seguiram outro rumo à medida que te ia escrevendo. Acho que ainda não estou pronta para a tal carta de amor, ou de raiva, já não sei bem. Este é mais um rascunho deitado no cesto dos papéis, o embrião de algo adiado.
Juro que queria muito escrever essa tal carta de amor, mas já não sei fazê-lo ou talvez, quem sabe, a vida tirou-me o jeito. Também, para que queria eu escrevê-la se tu detestas ler.

Margarida Piloto Garcia


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vício





Quero um beijo meu
que não seja teu
que não seja nada.
Que não saiba a café
ou a desamores.
Que não transborde paixão
para dentro da minha boca exangue
e não diga frases molhadas.
Não quero um beijo rubro
carregado de ânsias febris,
um almiscarado ósculo
com um currículo de mágoas, de paixões
de raivas tracejadas.
Quero um beijo meu.
Não sei se é cândido, se devasso
mas traz em si um rótulo diabólico
um carimbo que não passa de prazo
uma tatuagem que morde e infecta.
Bebo nesse meu beijo a saliva de outro
o despudor da alma desnuda
o vício de largar na boca
inconsequentes devaneios.
Nos meus lábios sinto quebrantos
e orgias seladas com lacre.
Quero um beijo meu
que não seja teu
que não seja nada
que não seja de ninguém.

Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESFERA DO CAOS-2013



sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Boneca partida



Definitivamente há que pedir desculpa aos que acreditaram e investiram. Não que o seu ser seja feito de enganos, apenas de medos .Esse medo escuro que não tem cura, o fruto de uma pressão de que não sabe o início. Esse medo trava-lhe os passos, joga-a no chão, impede-lhe o sentir. E dentro tudo galopa furiosamente, devorando. Não pode mais calar que há que pedir desculpa aos que sonharam. Que mais fazer? Não sabe se algo se partiu no mecanismo original, talvez um defeito de fabrico que a impede de dizer...Quero! Querer ela até quer e até diz. Mas os passos a dar não são possíveis para a sua quadriplégica alma. Algo falhou, algo lhe corroeu o ânimo, a força. O monstro aterrador que sempre lhe assombrou as noites afinal existia. Não vale a pena esconder mais. Há que deitar a cabeça no cepo para que o carrasco a cale de uma só vez, sem delongas, sem demoras. No meio da dor intensa não vai dar por nada.

Margarida Piloto Garcia


Foto de Yvone Gort



sábado, 8 de agosto de 2009

Caminho




Ao lamento incessante
junto a palavra dura.
Verto a lágrima polida
de tantas arestas limadas.
E sigo.
Quero saltar o abismo
como se o amanhã não existisse.
Não construo pontes
Não enleio lianas
Não sei tirar as asas
aos pássaros de cor deste meu leito.
À melopeia dolorida
junto um cântico de bravura
passos batendo ao rufar dos tambores.
E sigo.

Margarida Piloto Garcia





terça-feira, 28 de julho de 2009

Crepúsculo



Deixa que a noite caia.
Sem pôr de sol ensanguentado
Sem brisas de promessas
Sem velas acesas
sombreando as paredes com chicotadas ébrias.
Deixa que a noite caia
e devagar se aniche nos corações aflitos.
Os pensamentos esfomeados
roem por dentro a vida
e tudo o que pintaste numa tela virgem
são borrões demoníacos
traços rasgados e sem sentido.
A ferida que vais talhando em ti
não pode ser fechada
e dela escorre a vida a pouco e pouco.
Deixa que a noite caia.
Encosta a cabeça na parede nua
e saboreia o último suor.
Já não sabes construir mais pontes
para esse castelo inexpugnável.
Cada segundo é uma bala
alojada bem fundo num corpo partido
sem amanhãs que o consertem.
Portanto não esperes
e solta as amarras que gemendo
prendem a vida numa tosca sátira.
Não vivas sonhos gastos
que o amanhã nunca trará.
E porque a luz do dia te assassina
com a raiva da ilusão
fecha os olhos vazios e apenas
deixa que a noite caia.

Margarida Piloto Garcia in- PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013

Foto de Alofredo Ventura de Sousa







quarta-feira, 22 de julho de 2009

Desencontros



.“ Não voltarei ao leito breve

onde quebrámos uma a uma

todas as frágeis hastes do amor”


Eugénio de Andrade in “ Obscuro domínio”


Jogo os desencontros
nas marés revoltas
tsunamis de querer.
Num simples batel
a minha alma rema inebriada
e eu nem ouço
as chicotadas duma voz que grita.
É triste o dealbar deste sol
que se transmuta e fere de morte
os escolhos de uma praia.
Os desencontros são cicuta
gotejada pouco a pouco.
À raiva acutilante
desse mar revolto
responde a calmaria de um céu sem estrelas
de um deserto de sentires.
Exausta, encalho na praia
onde me espera a solidão.
Mas não me importo!
Sou um Crusoe que só deseja
que os desencontros morram na última maré.



Margarida Piloto Garcia-in SOB EPÍGRAFE-TRIBUTO A EUGÉNIO DE ANDRADE-publicado por TEMAS ORIGINAIS, 2023



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sorriso




Dás-me um sorriso azul, feito de um mundo deslumbrante que não houve, carente de afectos e ternuras.As crianças têm esse sorriso, mas o teu, parece ainda mais ingénuo e esconde uma tristeza que se entranha e nos atrai como uma lua pálida.
Todas as noites escorrego de mansinho pela tua cama, abraço o teu corpo e sinto-o meu.Mas não descerro os olhos para não me aperceber da tua ausência.Que força me empurra, que poder me esmaga, a ponto da falta de uma palavra tua, ser a privação do ar que respiro?Tento varrer fantasmas para arranjar espaço para me emprestares os teus, e sigo murmurando ladaínhas.
Dás-me um sorriso azul e eu vergo, alquebro, bamboleando palavras cegas.


Margarida Piloto Garcia-in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013



Pintura de Richard Burlet






domingo, 12 de julho de 2009

Anjo





Esqueço-te nas noites negras.
Porque o ar que respiro
é fruto do teu beijo
Porque o teu beijo é vermelho
e traça marés na minha pele
Porque a minha pele ferve desejos
quando abres as asas da ilusão.
Esqueço-te nas noites negras.
Negras para não ver
Negras para não sentir.
Traço rumos à vida
quando tu abres essas asas de anjo
e fujo dessa sombra
cruzando labirintos de fascínio.
Quando me cegas
colo as minhas mãos nas tuas margens
e vivo os dias em tácteis cicatrizes.
Depois...
Esqueço-te nas noites negras.

Margarida Piloto Garciain NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013


Web-art de Yolanda Botelho






domingo, 5 de julho de 2009

Palavras ao sol poente



Pendurei as palavras no estendal
bandeiras brancas desfraldadas
sob um sol maduro.
As gaivotas grasnaram ao longe
e os pássaros trinaram por cima das palavras.
Ao sol poente, os brancos
ganharam laivos sangrentos
e as palavras destilaram ódios e paixões.
Atenta ao vento quente
dum qualquer mês ensolarado
vigiei as palavras para que não fugissem
ou me fossem roubadas.
Porque há que as cuidar sem feri-las de morte.
Não deixar os lençóis de palavras
crestar violentamente
ou encarquilhar em chuvas de lágrimas.
As minhas são açoitadas no estendal
pela maresia do oceano vizinho.
Levanto-me da cadeira onde balanço os sonhos
e vigio as palavras.
Aqui e ali, estremeço quando o vento norte
me tenta rasgar as mais vivas
as que se tornaram em cores de sentimentos.
Entro em casa abrindo a porta da ilusão.
As ideias correm na minha frente
e fazem-me tocar nos lençóis de palavras.
Acaricio todo o estendal
e antes do anoitecer
embrulho-me rodopiando
nos mares multicolores de palavras.


Margarida Piloto Garcia

Foto de maz Gun





quinta-feira, 2 de julho de 2009

Trilho



Abro uma porta
e espreito.
Que longo é o caminho a percorrer!
Estendo um tapete de mágoas
e tento caminhar.
O sonho é sempre delirante.
Na realidade
encontro-me apenas
parada
à espera.

Margarida Piloto Garcia



sábado, 27 de junho de 2009

Noites de Grieg



Grieg soa vitorioso nos meus ouvidos.
Transborda-me a alma
revolve-me entranhas
esfiapa-me a vida em lençóis de desespero.
Noites de Grieg são catarses que deixam cicatrizes.
Vampirizam-me a mente
esqualos predatórios.
Adormeço em mares azuis
mas sou devorada por sombras cinzentas.
O meu íntimo é um vendaval vivido e não domado.
Paira à minha volta uma teia de aranha.
Vislumbro-a num doce emaranhado
tecido em pálidos sonhos antigos.
Não me abusa nem me atemoriza esse silêncio.
Traz-me a paz e a eficiência das aranhas
um mergulhar em mim
uma felicidade fetal, verdadeiro watsu.
Mas abandono o esconderijo silencioso
e deixo a alma desnudar-se aos sons.
Grieg arrebata-me numa paixão sem fim.

Margarida Piloto Garcia in POESIA SEM GAVETAS-PARTE I-PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013








terça-feira, 23 de junho de 2009

Pintura





Pinto o beijo na face cor de lua
e traço em pinceladas
as margens do teu corpo.
Caminhos que as minhas mãos desvendam
debitam cor de rosa e carmim.
Fraseio nos teus lábios sussurros desmedidos
e enlaço e entrelaço
as linhas que nos unem.
Os gritos que não calo
explodem-me na pele em rubras cores.
Cruza os meus olhos esse fogo dos teus.
Mas somos náufragos de um amor perdido
pintura de Monet em tarde cálida.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013

Quadro de Claude Monet





quarta-feira, 17 de junho de 2009

Desejo



Raro é o desejo que ao ser satisfeito não te deixa marcas a ferro e fogo. E depois, para quê esperar com denodada ansiedade a meta escolhida, a visão que te assombra as noites e te devora os dias? Tal como numa viagem, enches o teu eu de quimeras, de expectativas, de sonhos para fruir e saborear. O teu sangue estremece, a tua alma é um pardal saltitante, o teu sangue pulsa a cada batida de espera do teu coração. E depois? Há momentos empolgantes que te desenham tatuagens líricas e há as mágoas e as decepções que te esculpem por dentro a sangue frio. E à medida que a viagem se aproxima do fim, começas a sentir o nó da privação, do retorno a velhos males e a páginas por colorir. Assim são os desejos satisfeitos, a morte dos sonhos, a esponja do quotidiano. E no entanto levamo-los connosco, acolhemo-los dentro de nós, numa ânsia constante, num quase vício de que não nos desprendemos.
Desejos e sonhos são traços de nós.

Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 10 de junho de 2009

E.T



Soergue a mão e deixa lentamente escorrer areia por entre os dedos.
Contando cada grão, uns mais escuros, outros mais brilhantes, xistosos, ela mede cada segundo de vida e deixa-os cair e desaparecer lentamente, numa chuva miudinha e dispersa.
Com os segundos passando, num tempo que não se detém, conta os grãos, e a memória regressa a uma praia onde as mães cuidam dos filhos, onde os toldos enfunam ao vento.
Há velhos bancos de madeira com pequenos orifícios pelos quais a areia escorre para formar castelos.
Os castelos são de areia tal como os sonhos, mas ela ainda não sabe e sonha.
Os sonhos são de menina mas contêm o germe de todos os sonhos.
E o pensamento é livre e escorre, tão palpável mas tão etéreo como a areia que agora lhe escorrega por entre os dedos.
Devagar, devagarinho, ela descalça-se como no strip mais intimista e mergulha lentamente os dedos dos pés na areia fresca da madrugada, macia como uma virgem por desflorar.
A sensação de que se recorda ano após ano, regressa num impacto súbito.
É sempre a mesma!
Os grãos que escorrem da mão, são o anti-clímax da profunda e sensual sensação de puro deleite, enquanto deixa os pés escorregarem e enterrarem-se profundamente na seda fria do areal.
Um sorriso transcende-lhe as comissuras dos lábios e retira-lhe o ricto um pouco amargo de acumulados desalentos.
E à medida que a pele aprofunda as sensações, ela sente cada poro aspirar o aroma pungente da brisa marinha.
São tantas as emoções que a percorrem, que já não sabe exactamente onde começa e onde acaba a paixão e a volúpia dos grãos de areia fria da alvorada.
Saboreia o momento, numa vibração quase orgásmica que não precisa de parceiro, porque existe dentro de si
.Ela sabe que o momento é breve tal como a realidade, porque o sol vai aquecer a areia fria e os sonhos têm de ser recolhidos muito fundo.
Fundo, tão fundo que às vezes se esquece de sonhar e é nessa altura que o travo metálico de uma morte anunciada a faz vacilar.
O momento aproxima-se e a dor fá-la retrair-se numa estátua.
Tenta desesperadamente agarrar o último resquício da sensação que não quer perder, da emoção que não quer largar, da paixão que não quer deixar arrebatar do corpo, da alma, de todo o seu pensamento.
Agarra com força o último punhado de areia e cerra-o na mão fechada.
Nas costas da pequena mão que lhe recorda a criança de outrora, uma veia azul serpenteia como o caudal de um rio.
Segue o rio, navega nele olhando-o com duplicidade da margem e, pouco a pouco, muito lentamente, à medida que o sol se torna mais intenso, abre lentamente a mão fechada e deixa os últimos grãos de areia cairem, já mortos, pisados e húmidos, junto dos seus pés.
A névoa dissipou-se.
Quando levanta a cabeça das mãos, as paredes do quarto encerram-lhe o corpo e a vida.
Os olhos seguem a luz que entra pela janela.
A média distância erguem-se mais paredes, mais janelas, num cenário de um qualquer planeta que não é o seu.
Recolhe à posição fetal.


Margarida Piloto Garcia