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quarta-feira, 30 de julho de 2014

O mundo da lua




Há muitos anos, era parte de mim a lua pendurada no teu corpo. Tu ias e vinhas na noite, num tropel que nem os cavalos do sonho conseguiam acompanhar. Nada era realidade a vestir-me o corpo e apenas o medo penteava os meus cabelos.
Tu seguias imune aos meus apelos, orgulhoso e falsamente convencido de que a estrada do luar era só tua. Agarrada a ténues esperanças, abri-te os braços vezes sem conta, na vã tentativa de que eles fossem abrigo e casulo, fossem caminho e cama de amores lunares. Mas a teia dos segredos a palpitar nos olhos, sempre nos enredou e os lobos a morderem a pele numa luciferina sedução, foram sempre vencedores.
Hoje os dedos doem-me quando toco o luar e me tento demorar na pele do teu corpo.
É em quarto minguante que a lua te recorta, suspirando maresias insensatas e insuspeitas. Nada consigo ouvir, os sons enclausurados num outro universo, nada consigo ver, cega pelas mentiras embrulhadas em papel colorido. E as palavras que poderia dizer ou gritar, calo-as porque perdi as asas de gaivota ao cruzar o último céu.
Com o teu lado escuro tentas agarrar-me num abraço luarento, os olhos postos, não em mim, mas na feiticeira iluminada numa gritante noite azul.
Mas algo se recolhe em segredo, refugiando-se dos gestos gastos e mínimos. Não tenho mais desejos grávidos de ti porque os isentaste de mim.
Agora, só desejo guardar  aquele lugar mágico , inviolado e secreto que nunca corrompeste.
Toma para ti o que com esqueléticas razões julgaste ser teu. Deixa-me apenas o mundo da lua.




© Margarida Piloto Garcia in- O MUNDO DA LUA-publicado por EDITORA LUA DE MARFIM-2014

© Arte de Dimitar Voinov Jr

 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Fuga




Abres a boca e as consoantes saem ordenadas
epileticamente dançadas de encontro
às vogais que balbucio.
Prendo-as levemente nos lábios
e sopro-tas com movimentos de enlace
enredando-as em fateixas de abraços.
Solto os meus cabelos cor de lua
e escorrego devagar pelo teu corpo
meio medusa, meio sereia a naufragar-te
enquanto as mãos se enchem de um perfume bárbaro.
Tenho mágoas a cobrir-me o olhar
mas diluo-as na tua pele numa osmose de sombras.
Rasgo em mim uma rota através de antárticas noites
olhadas das vespertinas clarabóias dos meus olhos.
Os teus discursos têm anzóis e gavinhas
e nem o meu canto , nem o meu gemido
nem a minha febre ou o meu olhar
conseguem evitar o precipício.
Depois...silencia-se a boca e a fuga reclama-nos


© Margarida Piloto Garcia in "VI ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS"-publicado por FOLHETO EDIÇÕES- 2014


© Quadro de Gottfried Helnwein
  


terça-feira, 23 de junho de 2009

Pintura





Pinto o beijo na face cor de lua
e traço em pinceladas
as margens do teu corpo.
Caminhos que as minhas mãos desvendam
debitam cor de rosa e carmim.
Fraseio nos teus lábios sussurros desmedidos
e enlaço e entrelaço
as linhas que nos unem.
Os gritos que não calo
explodem-me na pele em rubras cores.
Cruza os meus olhos esse fogo dos teus.
Mas somos náufragos de um amor perdido
pintura de Monet em tarde cálida.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013

Quadro de Claude Monet