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segunda-feira, 24 de março de 2014

Outras palavras




Matam, as palavras que escorrem nos cantos dos olhos
ansiosas, brutas, paralisantes de agonias tóxicas.
Vampirizam-nos as vogais numa deslumbrante dança
com sensuais e cúmplices consoantes .
O sol de cada manhã jaz parido nas mãos de noite
que celebram afectos. Cúmplice de tudo, o coração
esbofeteia-nos no pingar das horas solitárias.
E as palavras voltam a morder as entranhas
numa sofreguidão plasmada. Erguem-se as verdades
e às escondidas dão-nos bússolas que comemos
com a mesma boca com que engolimos as palavras
com a cortesia anónima com que olhamos os outros.
Cegas, rolam para os dedos e escrevem matreiras
as confissões histriónicas cheias de declarações
a secar a boca e a chegar o sal à pele.
No fim, o tempo corre e quem paga é a chuva
e o vento, e a dor que passa apressada.
Resta a vida vociferada, a ternura fechada
na gaveta e o corpo que urge.

© Margarida Piloto Garcia in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A JORGE DE SENA- publicado por TEMAS ORIGINAIS- 2019





segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Fuga




Abres a boca e as consoantes saem ordenadas
epileticamente dançadas de encontro
às vogais que balbucio.
Prendo-as levemente nos lábios
e sopro-tas com movimentos de enlace
enredando-as em fateixas de abraços.
Solto os meus cabelos cor de lua
e escorrego devagar pelo teu corpo
meio medusa, meio sereia a naufragar-te
enquanto as mãos se enchem de um perfume bárbaro.
Tenho mágoas a cobrir-me o olhar
mas diluo-as na tua pele numa osmose de sombras.
Rasgo em mim uma rota através de antárticas noites
olhadas das vespertinas clarabóias dos meus olhos.
Os teus discursos têm anzóis e gavinhas
e nem o meu canto , nem o meu gemido
nem a minha febre ou o meu olhar
conseguem evitar o precipício.
Depois...silencia-se a boca e a fuga reclama-nos


© Margarida Piloto Garcia in "VI ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS"-publicado por FOLHETO EDIÇÕES- 2014


© Quadro de Gottfried Helnwein