Pendurei as palavras no estendal
bandeiras brancas desfraldadas
sob um sol maduro.
As gaivotas grasnaram ao longe
e os pássaros trinaram por cima das palavras.
Ao sol poente, os brancos
ganharam laivos sangrentos
e as palavras destilaram ódios e paixões.
Atenta ao vento quente
dum qualquer mês ensolarado
vigiei as palavras para que não fugissem
ou me fossem roubadas.
Porque há que as cuidar sem feri-las de morte.
Não deixar os lençóis de palavras
crestar violentamente
ou encarquilhar em chuvas de lágrimas.
As minhas são açoitadas no estendal
pela maresia do oceano vizinho.
Levanto-me da cadeira onde balanço os sonhos
e vigio as palavras.
Aqui e ali, estremeço quando o vento norte
me tenta rasgar as mais vivas
as que se tornaram em cores de sentimentos.
Entro em casa abrindo a porta da ilusão.
As ideias correm na minha frente
e fazem-me tocar nos lençóis de palavras.
Acaricio todo o estendal
e antes do anoitecer
embrulho-me rodopiando
nos mares multicolores de palavras.
Margarida Piloto Garcia
Foto de maz Gun
