sábado, 28 de março de 2009

Abismos





O nulo absoluto
oprime e exige.
Quando te apercebes...
já nada tens.
As imagens surgem-te desfocadas.
As letras são corropios em veloz retirada.
E restam-te sonhos idiotas.
Descobres-te na ridícula paisagem
do faz de conta.
Prometes não voltar.
Mas voltas, vezes sem conta.
Rejeitas o que te oferecem,
pela procura da negra perdição.
Afundas os sonhos.
Mergulhas na maldição.
Tudo o que és de bom é subvertido.
Perversamente aceitas que já nada te resta.
Desejas o vórtice da loucura,
as algemas que te rasgam a carne
desde que do outro lado a vida exulte.
Os teus desejos são intransponíveis,
transitam num vislumbre
pelo negrume dos outros.
E as horas passam
desfilam anorécticas em sedas transparentes.
O teu relógio morde-te, fere-te,
dilacera-te em pedaços a espera.
E não tens dúvidas...
de que tens um abismo no lugar da alma.



Margarida Piloto Garcia








quarta-feira, 18 de março de 2009

Perdão






Perdoa-me
se não te soube amar.
Jazias informe e exangue
num cativeiro há muito acomodado.
Abri-te as portas da prisão
e mostrei-te o mundo da magia.
Inventei histórias de encantar
artes de mulher tornada
Xerazade.
Dei-te a vislumbrar o paraíso
e convenci-me duma
felicidade incerta.
Provei da tua boca o mel
das palavras há muito esquecidas.
Desenhei-te na pele
uma marca invisível
que agora te arde e te magoa.
Mostrei-te horizontes de partilhas
em vastos areais.

Nos mistérios desenhados num ecrã,
a matéria explodia louca,
inusitada
pinturas luxuriantes em paleta de mestre.
Transformei desastres
em façanhas,
brinquei de faz de conta para te ver sorrir.

Algures lá fora a vida
continuava cruel como costuma ser,
alheia aos devaneios de um romance.

Perdoa-me se não te soube amar
se te calei a voz
se te cortei as asas
se fiz da tua vida algo vazia
o tormento de um coração cheio.
Desculpa-me
as migalhas preciosas
com que teimo afagar-te
e dar-te alento.
Mas há coisas que a minha
alma rejeita,
grilhetas que eu não ouso
ora quebrar
ora trocar por novas.
Quero ser livre
como o pensamento
e expurgar de mim
todas as dores.

Perdoa-me
se não te soube amar
mas o meu coração
é apenas uma bola de cristal
que eu não sei desvendar.



Margarida Piloto Garcia


tela de Francis Picabia



quinta-feira, 5 de março de 2009

Noite





São assim as nossas noites
negras como lençóis de cetim, banhados ao luar,
cheias dum profundo medo do abismo...
mas mergulhando nele.
São negras as perguntas sem resposta
e os fantasmas da tua alma têm o cheiro da terra queimada.

Morro de cada vez que o cetim negro
me desliza na alma
e eu te imagino mais e mais
sem nunca te tocar.

São mágicas estas caravelas, que sulcam o meu mar
sem rumo definido,
batendo de encontro às tuas ondas revoltas
tentando não sossobrar nos escolhos
que teimas em semear.

Mas as nossas noites também são vermelhas,
chamas flamejantes e ardentes de fogo de artifício.
Nelas há palavras na língua voluptuosa da paixão
e eu descubro novas magias
e feitiços de encantamento
que teimo em aplicar.

As nossas noites são lambidas em faúlhas rubras
e morrem acetinadas nos restos negros da lembrança.



Margarida Piloto Garcia




domingo, 1 de março de 2009

Delírio





 “Nós, as mulheres, o que nos faz amar um homem é aparentá-lo com tudo o que amamos-o tempo da crise, da puberdade, da gestação, do enigma; os primeiros rostos, as primeiras carícias, os primeiros medos.”

Agustina Bessa-Luis




Esqueço o teu número num copo.

Meio cheio

meio vazio

meio cheio.

Tento...tonta, vestir a desnudada incompreensão

e atravesso a fronteira entre o real e o imaginário.

Esqueço a tua voz que me hipnotiza

rabisco frases idiotas, engulo ácidos de desespero

ansiando pela tão desejada anestesia.

Esqueço os teus beijos

suaves, carentes, tímidos

ou devoradores e suculentos.

Embarco num turbilhão

giro num carrossel que me nauseia

numa montanha russa de sombras escuras.


Retorço-me na minha carapaça,

inseto inútil e assustado na palma da tua mão!

Esmagas-me devagar com toda a crueldade,

de quem não entende, de quem me teme.


Esqueço a tua escrita correndo-me no sangue,

fluído vital

parte de mim.

Poesia do meio da manhã

quando a emergência do sol nos desespera

e os zeros da existência nos confrontam.

Esqueço tudo, o antes, o durante e o depois.

Rasgo com olhos vagos o copo...

Meio cheio

meio vazio

meio cheio.

A vida escoa-se em cada gota de álcool, a sangue frio.


O ar à minha volta é um garrote

um animal que vai roendo a presa

e prefiro não confrontar os cubos de gelo

diluindo-se na vaga de calor que tu não sentes.


Esqueço a perceção do inevitável.

Não consigo evitar o rasgar de entranhas

numa ilógica e fascinante destruição,

diluída num conteúdo inútil de tão ferida.

E dói-me o teu perfume à esquerda

do meu braço como uma tempestade de verão.


O copo continua lá

meio cheio

meio vazio

meio cheio.

Deixo de acreditar que o sol nasceu num novo dia.


O inseto que sou ainda estremece,

tentando lutar num instinto básico e primário.

Mas a dor que tu provocas aperta mais o cerco,

fina, fria, metálica.


Já nem reparo no copo.

Meio cheio

meio vazio

meio cheio.

Esqueço-me de viver...



Margarida Piloto Garcia in- Tributo a Agustina e Saramago. Publicado por Temas Originais-2022 




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Deixa




Deixa.
Não te espero mais.
Larguei as fímbrias de mim mesma na calçada
despojos de um EU enlouquecido.

Calcorreei-as tanto numa luta insana!
Busca desenfreada de fiapos,
névoas de letárgicos entardeceres.

Salpico as paredes de palavras,
soltas
despojadas de vida.

Lambendo-me em labaredas,
sufoco no gemido desse querer,
que transformas em água cintilante.

Deixa
deixa mesmo de tentar explicar.
Danças esse teu orgulho nos sussurros do meu corpo.
Moldas-me a alma
com palavras afiadas e esgrimidas.
Tropeço nas tuas pedras, polidas como a calçada.

Ferem-me todos esses requebros de mentira.

A cama em que me deito,
magoa a minha vida.
Quero feri-la como os gestos com que danço,
mas voo em ziguezagues...estropiada.
A ferida aberta não se cala mais.
E o grito deixa livre este meu eu.
Crucificada em êxtase, mas exposta ao vento,
liberdade drogada em esquecimento.

Ignoras o meu rosto...
E eu cruzo assustada mais um dia.

Desespero a espera e rasgo sem pudor as minhas horas.
Mas é inevitável a escolha desgarrada.
A gota do orvalho não vai molhar os lábios numa qualquer manhã.

Por isso...
Deixa lá.
Deixa.

Margarida Piloto Garcia



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Doce selvagem





Trazes o sol a acompanhar-te o rasto
os tons púrpura e laranja escondem-te o rosto.
O meu coração estremece correndo...
chita na savana imensa.
Chega-me o teu odor, mistura da selva, das crianças,
eivado do perfume que é só teu e se me entranha na pele.
Trazes o sorriso dos angustiados
e o cansaço de não conseguir mais.

Hoje não estive contigo, a mão cerrada na tua.
Mal tive tempo para um beijo fugaz, roçando os lábios.
Mas agora, na noite quente e plena de ruídos sussurrantes,
tu surges como o anjo alado que esperei todo o dia.
Esperaram outras mulheres,
cada coração na prece aprendida ou imaginada.
Caio nos teus braços e o beijo agora é mais profundo,
mais quente que a noite doce e melodiosa.

Comes
conversas
planeias.
Sorris no calor das fogueiras acesas e atiçadas.
Danças comigo até que os corpos ardam de prazer.
Os sons batucados tornam-se vorazes.
Recolhemos ao refúgio só nosso.
Contas em voz cansada mas profunda as lágrimas do dia.
Eu relato-te as minhas.
Banho-te delicadamente por entre suspiros e abraços,
molhando-me a roupa num frenesim que exige mais.

Quando a aurora chegar teremos toda a noite sido UM
almas e corpos fundidos na vida que cala, grita e estremece,
não mais deixando de nos presentear com o milagre



Margarida Piloto Garcia





terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sonata no areal






Ela move devagar cada partícula,cada grão de areia

que lhe acaricia a pele.

Suave e fresca a areia fina e fria do despertar matinal

provoca-lhe sensações dispersas,

acordando-a para a realidade de um novo dia.

No entanto ela não deseja acordar.

Fecha os olhos e inspira a maresia sensual

que o ar evola de cada onda.

Pela cabeça passam-lhe

todas as imagens lúdicas e intensamente vividas

de instantes mágicos e inebriantes.

O corpo acaricia novamente a areia.

Deixa uma poalha escorrer entre os dedos finos.

Mãos e pés, extremidades sensitivas

apoderam-se de cada pequeno e ínfimo pormenor

da carícia.

É uma frescura inusitada, uma paixão moldada

pelo encontro entre o frio de cada grão de areia

e o suave calor da sua pele.

Nada mais importa no momento

a não ser

esse desvirginar do areal

no primeiro toque de um novo amor

num novo ciclo primaveril.

Abre os olhos

consciente de que é a única na praia deserta.

Neste momento nada existe do quotidiano

buliçoso e barulhento.

As notas do dia a dia foram apagadas

pela hora matinal e pelo seu casulo

povoado de sonhos.

Um leve sorriso paira-lhe nos lábios.

Sorri de si mesma, da sua vida. das memórias, dos desejos.

Aos poucos o sorriso morre-lhe nos lábios.

Porque os lábios desejam

e a fome dos desejos é em si mesma devoradora.

Tenta não pensar

e deixa que o mar a absorva e de certo modo

a subjugue.

O grasnido de uma gaivota

percorre-a de repente e desperta-a para o mundo.

O corpo estremece, os olhos descerram e os lábios tremem.

Toda ela é sacudida pelo turbilhão da vida

pelo desejo de absorver todos os cheiros

e os sons que a rodeiam.

Busca desesperadamente

regressar à redoma que construíu

ao embrião em que se tinha tornado

num contacto osmótico

com a frieza da areia da praia.

Mas é demasiado tarde!

Neste momento retrai-se

porque a areia aquece, os sons estendem-se

e o isolamento desfaz-se.

Levanta-se e caminha.

Ainda continua a ser um ponto no areal

uma pedra rolada nos beijos lambidos

das ondas que morrem e mordem a praia.

Mas a sensualidade felina do espreguiçar

na areia

e o isolamento em si,

como que se quebrou.

Luta consigo mesma

contra a paixão que a quer assolar

e devolver à vida.

Sabe de antemão que vai perder a batalha

que o seu corpo e a sua mente

a vão inundar de vida

e embriagar de emoções.

Deseja-o tanto quanto o repele!

A paixão é dor e sofrimento

mas faz parte de si, do seu eu maior, intrínseco e imutável.

Cede à vida, cede ao desejo, cede à realidade.

No fundo

guarda um segredo que lhe arrebata

o coração.

Ela sabe

que amanhã o areal ainda frio e macio

tão intocado quanto um primeiro amor...

espera por ela.





Margarida Piloto Garcia



domingo, 15 de fevereiro de 2009

Teias da vida




Não me posso chegar à tua beira
sem que me estremeças
com as teias com que me teces os cabelos.
Biombos ondulantes
cortinas da vida, ocultam-me.
Não me consigo ver
nos espelhos enlutados
com os panos que os cobrem.
Sinto-me embriagada
em sonhos vividos nas margens de um rio.
Tudo o que posso dar
são mãos estendidas em trémulas manhãs.
Como um algoz
chegam visões de uma praia
de águas azuis, quentes e doces,
de um pequeno café fugindo do sol tórrido
de uma limonada refrescante.
Vende-se uma ilha, anuncia o cartaz.
E a mente galopa
num onírico quase psicadélico.
Pergunto-me porque me teces os cabelos
porque os entranças de mágoas
geradas em tardes deslumbrantes.
Quero chegar-me à tua beira
mas o frio tolhe-me e a escuridão cerca-me
porque faz tempo que partimos.


Margarida Piloto Garcia

Imagem de Sylwia Makris



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Porquê?





A minha lágrima escorre nessa tua pestana.
Escondo novamente o meu olhar,
só porque me detenho nuns lábios de que sei o gosto.
Deslizo num slide inebriante pela risca da tua camisa.
Reconheço o padrão,
sinto-lhe a textura sem sequer lhe tocar.
As minhas mãos brincam um perigoso jogo...
Porque receio tocar-te.

Mas sinto no beijo quebrado do teu adeus, que nunca voltarás.

Não sei como entender-me.
Nem porque teimo em estropiar-me.
Queria mesmo era não sentir essa garra...
Inevitável!

Repetes o discurso intermitente,
da culpa sem desculpa.
Já não o quero ouvir porque o gravei há muito,
na minha pele
na minha alma
na ferida que teima em não sarar.

Mantenho a compostura ,
quando o meu olhar se detém nas tuas ancas.
Procuro a aterradora memória em mim gravada.
Não quero recordar tudo o que não esqueci.
Nego a evidência, vezes sem conta.

Tenho medo que a vida me demonstre,
o grito que voraz me começou a devorar.

Tento fugir a tanto não que tu proferes.
Fujo rua abaixo, morta por dentro.

Não ouso olhar para trás quando te afastas.


Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Poema-paixão



Hoje o leito era uma cela.
Procurei no silêncio a fome insatisfeita
e soube
que precisava da alma espraiada mar fora
sem desertos depressivos, sem cobardias disfarçadas.
Consegui de uma forma tola
erguer-me cambaleante e não desistir
nem
me perder nos verões que me feriram.
A lágrima que escorregou, já a lambi
e mesmo sem te ter provado, sabe-me a ti.
Tens de saber a terra, a mar, a especiarias.
O teu corpo há-de ter o gosto almiscarado
de tudo o que é raro e exótico.

Não me importa se assim não for.

Tu és a minha flor de sal.

Quero desenhar com a boca a tua tatuagem
quero conhecer o teu íntimo mais recôndito.

Esperei-te toda a vida.


Continuo a esperar-te...




©️ Margarida Piloto Garcia.- in CONEXÕES ATLÂNTICAS VI-publicado por In-Finita 2022



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Dilema





Bom, assumamos, não há como negar. Não cabemos ambos no mesmo papel. Traças esquadrias tão exactas, que necessito ousar para transgredir e nem tentas acreditar num futuro mais-que-perfeito. O imperativo domina a tua vida e desliza numa subreptícia carícia para o meu.
Não sei vestir essa farda de combatente por uma felicidade básica e linear.Talvez num quase autista comportamento, quero dizer quem sou, negando-o.
Difícil compreender como uma folha de papel se mantém branca como uma barreira intransponível.
Vejo por detrás os vultos do imaginário porque a realidade é apenas ficção, traços abstractos num labirinto sem saída.
Será pecado acreditar? Então eu confesso a pura essência desse mal em mim.Consome-me eu sei, disseca-me todos os dias.Sinto-me autopsiada pela vida, numa mesa de aço estéril.

Rasguei as últimas páginas de vida emudecida.Mas os meus gestos são espirais num disco de vinil, ranhuras porque me movo quando julgo saber tudo aquilo de que preciso.Oiço-te, numa voz gravada em mim e imagino-te.Mas somo os dias pelos dedos de uma só mão e mais uma vez abro a Caixa de Pandora.
Essa visão elitista e hedonista do sei quem sou, confunde-me.Há palavras que me rolam na boca como um duro rebuçado.Desenrolei esse papel brilhante e barulhento do doce anónimo, mas não descubro segredos e sabores.
A folha de papel ainda é branca e escorrega nas minhas mãos.Penso nos esboços que desejo desenhar mas, cerebralmente, são equações que surgem.Por detrás dos olhos estendem-se cruzes pueris de um qualquer jogo do galo.Mas são origamis de papel virgem e branco que consigo construir.
Dizes sim, digo não.Afirmo, tu negas.Recuas e avanças numa coreografia que não entendo.A vida torna-se uma cacofonia sem o menor sentido, uma Torre de Babel onde me perco.

Esqueci os sonhos da noite passada para assumir no dia de hoje, a incompreensão e a ruptura.
Por muitas voltas que dê, não sei mesmo como cabermos ambos no mesmo papel.


Margarida Piloto Garcia




sábado, 31 de janeiro de 2009

Adeus






A alegria
bateu-lhe com a porta.
Um som surdo
um tiro opaco
látego de chicote
ziguezagueante.
Deixou cair a lágrima
amarela
envelhecida.
Voltou as costas
e entorpecida
seguiu.


Margarida Piloto Garcia



quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Perdição





Ela olhou nos seus olhos
e soube-se perdida.
Lembrou palavras soltas,
cascatas sombreadas de desejo.
Fermentos de loucura incipiente roubaram-lhe a razão.
Cada letra lançou âncora, parasitou-a.
Deixou-se devorar e perdeu-se nos olhos.
Embrulhou-lhe os defeitos num novelo,
pintou como obra de arte a simples tela
e olhando-o nos olhos, sentiu-lhe os lábios mornos e o corpo quente.
O mar era um abismo de prazer
e os verdes e vermelhos golpeavam
fortes como frutos trincados.
Tentou não aceitar a perdição.
Ser mais forte, não ser igual a si.
Tivesse percebido e fugiria,
saltaria barricadas
verteria o seu sangue em escarlate manto
tingiria de negro a paixão.
Mas essa loucura dentro dela não tem travões,
não tem pregos que a prendam num caixão.

Corre desenfreada, cerra fileiras, desafia.

Mas...
Quando ela o sente,
já os cavalos galopam planície fora
rasgam telas manchadas de amarelo
ferem a música com rajadas de vento.
As mãos prendem e entrelaçam
e a voz canta-lhe ao ouvido o lânguido torpor tornado encantamento,
ferro em brasa marcando-lhe o sentir.

Já tentou ver-lhe a alma e vencer.
Mas perde sempre,
algemada nuns olhos feitos de palavras.



©  Margarida Piloto Garcia -in NÓS POETAS EDITAMOS-vol II-2013







terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Inocência





Sei que não é amor,
mas embrulhas os sentidos em gestos coloridos.
O teu sorriso troça da tristeza,
arranca o meu entre a provocação e a a candura.
Fico na expectativa do teu toque...
da tua timidez,
da quase juvenil carícia
na mescla sensual de que a revestes.
Sei que não é amor
mas atreves-te a quebrar tabus,
quando me desejas
me provocas
me queres de uma maneira que é só tua.
Sei que não é amor.
Nem mesmo é paixão.
Mas a loucura partilhada dos sentidos ,
existe no olhar trocado.
Sei que me perco nos beijos ora vorazes, ora subtis,
no abraço carente que me desnuda aos poucos.
Brincamos sem pudor
carentes desse amplexo desejado.
E embarcamos numa viagem feita de um desejo duro mas doce.
Nunca nos falta o riso
rolando como pérola.
Sei que não é amor
mas partilhas comigo um arco íris de emoções...
E o teu amplexo é forte e orvalhado de desejo.

Sôfrega é a satisfação linear,
sem perguntas, sem noites de espera,
sem algemas a roerem esfomeadas.

O corpo é um abrigo em que se esconde a alma.

Sei que não é amor
nem mesmo é paixão.
É talvez um não sei quê
que vai e vem
e deixa a vida intacta, virgem...à espera.


Margarida Piloto Garcia-in EROTISMVS-IMPULSOS E APELOS-publicado por ESPERA DO CAOS-2013



domingo, 25 de janeiro de 2009

Cântico de sereia





Se as frases são de encantos e magias,
não deixes de as dizer.
Conta-me a história dos murmúrios sussurrados,
vertidos no orvalho matinal,
lambidos na gota de suor.
O sal que me perfuma
traz as gaivotas até à minha pele.
Tanta salmoura é mar, é lágrima, é sémen de uma nova vida.
Abro-me em flor.
Carnuda.
Prenhe de desejo.
Sei ser um corpo ao vento
fustigada na ciclópica tempestade.
Não vergo mais.
Junco flexível.
Alma elástica em torvelinho.
Trauma pré-concebido.

E a tua voz é quente e abrasadora!
Bálsamo refrescante na minha alma,
ácido corrosivo no meu eu.
Dissolvo-me na contradição.
Mas essas frases inundantes,
deixam-me num porto á tua espera,
figurinha recortada em mítico horizonte.
Persigo sonhos mas o sono brinca com as horas
fá-las escorregar numa fiada de pérolas,
nacaradas, lisas, frescas na minha pele sedenta.

Se desfraldo essa vela,
rumo a um mar profundo.
Levo comigo a faca serrilhada,
desenhando runas ancestrais dentro de mim.
Sinto-lhe a ponta fria e metálica
mas abro-lhe os braços.
Cedo á carícia perfurante,
cega por uma dor que me tortura.
Aventuro-me sabendo-me por certo sem regresso.
Mas as sereias trazem as frases encantadas
e se as quiser beber...
não posso recusar a embriaguez.

Provo o teu elixir,
ambrósia divinal.
E espero-te na noite sem memória.
Oferto-te o imaginário
sabendo que nos olhamos de diferentes cais.
Mas se as frases são de encantos e magias,
não deixes de as dizer.

Margarida Piloto Garcia




sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Fado





Sombrias noites de luas escurecidas
sem luar.
Flashes de luzes despóticas
que impedem de te abraçar.
Traumas de vida...corrente,
na penumbra de um olhar.
E entre abraços e carícias
as caravelas percorrem, velas enfunando ao vento,
toda esta tremenda vida, ungida no verbo amar.
Amar, querer, possuir,
escolhos num mar de emoções.
O verbo é apenas um e vem de dentro de nós.
Algas enredam-te a vida
em tramas de renda negra.

E a ausência é uma paixão
de caminhos percorridos e de medos perturbados.

Coroas de espinhos despertam gemidos na tua voz,
cravados nas minhas mãos.
Falta o alento do ser-se,
um olhar que nos percorre.
São dedos frios que nos mentem,
que nos tolhem,
que nos colhem.
De tão fremente essa boca, destila raros sabores,
torna-se em mim um tormento, uma sina, uma voz.

É quase um fado vadio quando apareces na esquina.
Escondo envergonhada a voz que cala o grito voraz.
Explodem ondas no olhar,
ancoram almas perdidas.
Arquitectas Babilónias feitas de teias de aranha.
Rasgo-as em passos de dança
para as poder percorrer,
bebê-las em devaneios
sem nunca me saciar...

E quando as tardes me ferem
e me suspiram a alma, numa cadência de morte,
são as sombrias noites que te trazem
em minutos de desordem
num caos quase perfeito.



Margarida Piloto Garcia


Foto de Paolo Roversi



quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Datas





Datas são para relembrar.
Datas são para esquecer.
Dias, meses, anos,cronologia de vida.
Segredos preciosos como diamantes,
horas carpidas em rosários magoados,
anos repletos das maravilhas do desabrochar
dos suaves tremores
das feéricas paixões,
freios exteriores mas alma liberta.
Sonhos de uma ingenuidade pueril
tornada doentia nas dobras do tempo.
Datas expectantes, mal amadas na insatisfação da dura realidade.
Alegrias únicas, cintilações
tesouros guardados num imaginário a sépia.
Datas para esquecer em papéis rasgados,
imagens descoloridas e desfocadas,
sentimentos apanhados em teias de aranha
num sótão de fantasmas povoados.
Datas que nos deixam cicatrizes,
nos abrem e cortam com bisturis afiados.
Momentos em que a alma atinge a destruição,
os olhos fecham e arrancam de nós as já pálidas esperanças.
Dores paridas em sonhos estrebuchados,
abortos provocados pela tirania do que se sente.

E entrelaçado nesta renda de bilros,
traços misteriosos, alinhavos em obra incompleta.

Faço a contabilidade das datas,
Extraio do leito deste rio as poucas pepitas do ouro
que ousei resgatar à vida.
No fim olho-me no espelho
e não me reconheço nuns olhos de espanto sofrido.

Datas são para esquecer
e eu eternizo-me a lembrá-las
embrulhando em papel dourado e cintilante
o lixo que sobrou.


 Margarida Piloto Garcia





domingo, 18 de janeiro de 2009

Beijo









Colaste a tua boca à minha
e disseste segredos insondáveis.
Os teus olhos atearam fogos
devoraram, mesmerisaram e devolveram-me
à minha primitiva condição de mulher-Eva

Porque colaste a tua boca à minha
as nossas bocas são agora uma só.
Tenho o gosto dos teus lábios,
da tua língua
da tua saliva,
impregnado nos meus.
Sabor a pele, a mel
sabor a homem, a doçura.
Sabor forte, carente, sensual.

Quando colaste a tua boca à minha
o meu corpo morreu de encontro ao teu,
para logo reviver em ondas de paixão.
As carícias sonhadas não chegaram,
só mitigaram o vulcânico desejo.

Mas ao colares a tua boca à minha
a paixão partilhada foi tão demolidora,
que nos tornou pueris no medo da perder
e nos deixou nas almas um amor,
que por perfeito só pode ser sonhado.

Se ao colares a tua boca à minha
sentires que galopamos,
cavalos na bruma enevoada da manhã,
é porque o teu coração derreteu na lava ardente
e numa quase morte se fundiu no meu.

Depois de colares a tua boca à minha
os sonhos fugiram-me da alma.
Cruzaste os portões do impossível
reacendeste em labaredas
cada átomo do meu ser.
O meu corpo é um piano onde dedilhas
lânguidas e românticas sonatas,
galopantes e desvairadas sinfonias

Se quiseres colar a tua boca à minha
perceberás que o amor nem sempre é
como o sonhamos.
Ás vezes é simplesmente...melhor.


Margarida Piloto Garcia






quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Quero-te




Quero-te
porque te quero
E quero-te
assim mesmo
de olhos insones
com rugas dos desaires
de nostálgicos outroras.

Quero-te assim
porque te quero mesmo.

Não sei se os teus cabelos
trazem o cheiro da madrugada
nem se os teus olhos
são azuis ou verdes
ou de um castanho
que se transfigura.

Quero-te
no ocaso dos desejos
e na madrugada das paixões.
Espero a tua carícia
doce, terna
afago de criança.
Suplico o teu corpo
em vaivéns de desespero.

E quero-te
porque te quero
mesmo se tu não queres
mesmo que eu às vezes
esqueça que te quis
e quererei.
Quero as portas do teu sorriso
abertas, escancaradas
prontas a me sugar
em lábios desejosos.
Preciso do teu querer
em palavras desenhado
em relevos esculpido
em melodias interrompido.
Quero ouvir o bater das portas
quando a janela aberta,
sopra vento nos nossos corpos nus.

Olho-me no espelho
e pergunto-me porque te quero.
Mas é assim,
com escolhos semeados
com tormentas mal aplacadas
terramotos de destruição
com uivos na noite longa
com rasgares internos
a pulsar e a devorar
que eu te quero.
Vivo no vício deste querer
tentando loucamente
curar-me, diluir-me.
Cavalgo em batalhas sangrentas
lutando inexorável
contra as tramas da vida.
E interrogo-me na procura
dos porquês sem nexo.
Não és um cavaleiro
e eu não sou princesa.
A vida não se escreve
num ecrã de cinema.
Afasto-me de ti,
da crueldade com que medes
as horas e os dias.
Mas estendo-te a mão
de cada vez que atávicos sentimentos
me algemam.

Quero-te
porque te quero
E quero-te
assim mesmo.


Margarida Piloto Garcia.




terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Último mar







Nas rebeldes madeixas
de corvos de asas negras,
gotas de chuva serpenteiam.
Ela, é estatua de pedra silenciada
guarida onde a tristeza fez o ninho.
As gaivotas esvoaçam-lhe
a vida ressequida
e gritam-lhe
as lembranças do passado.
O mar lhe trouxe o amor
e o levou,
ardendo-lhe a alma
em pira fúnebre.
Os olhos tão cinzentos,
bordados de orlas escuras violáceas,
reflectem o sentir das ondas verdes
e das marés que lhe encheram o ventre.
Neles se escreveram
linhas tortas de vida,
como se de um manuscrito se tratasse.
Só a boca rubra
não esqueceu,
os rituais de amor tornado dor,
a saudade, as mágoas, o carpir.

Na espuma que lhe morde os pés
escreve devagarinho,
em letra antiga,
um último poema.



Margarida Piloto Garcia



Web-Art de Yolanda Botelho

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Estilhaços








Não consigo apanhar os estilhaços da tua ausência. Os meus sonhos rasgam cada centímetro da minha pele ferida. A realidade é uma faca afiada cortando e recortando espirais de dor num corpo que se quer suado. Espasmódicos requebros percorrem cada gota de suor, vertida numa manhâ eternamente recordada. Os lábios secam sem o beijo e recolhem a frivolidade de uma lágrima que teima em cair. Por mais que queira, sou subvertida pelos acordes saídos da tua viola e sinto esse gosto a loucura que me divide entre a vida e a morte.
Queria tanto apanhar esses estilhaços! Colá-los numa cópia insana do que foi! Mas olho-os e sinto-me vazia. A minha alma não passa de um rascunho amarrotado, no qual mal se notam os traços, de tão usada. Dobro as esquinas da vida e respiro os eflúvios de uma qualquer droga que amorfine. Multiplico, divido, somo, elevo a uma potência difícil de calcular, este vórtice que me domina. Mas quando mergulho nos teus escritos e na memória falada de um mar reflectido nos teus olhos, a minha vontade é uma folha caída ao sabor do vento acutilante.
Não sei unir estilhaços porque não deviam existir estilhaços .
Que trilho não pisei?
Que segredos não soube desvendar?
Que imensidão de mim não foi suficiente?
Como funciona um grão de felicidade?
Um grão pequeno, uma migalha, um sopro do refexo sonhado e sentido. Existe um nó que se aperta, uma medusa que destila veneno, minando a minha consciência e transvazando uma agonia para um eu vazio. Perceber é um exercício de quê?
Que traço deve ser desenhado, que nota deve ser tocada, que palavra cria o milagre do acontecer? Amarfanho os cantos da vida num envelope velho, onde moram fotografias que não reconheço.
Não quero estilhaços...porque era tão inteiro esse meu querer!




Margarida Piloto Garcia

Web-Art de Yolanda Botelho





terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Extracto de mim



Sou feita de maçãs e hortelã
do ácido dos frutos do pomar.
Papoilas enchem-me o cabelo
e os girassóis inundam-me o olhar.
O cacau mais amargo
corre nas minhas veias
palpitante.
A canela e o jasmim
vivem em mim.
Chocolate e pimenta são a seiva
com que meus lábios
mordem com ternura ou beijam.
As rosas perfumam o meu rosto.
Flores de maracujá
cantam nos meus abrigos.
Sinto os frutos vermelhos
escorrerem-me na pele
e na minha alma flores de lótus
deslizam sem sentido.
Odores de mel e especiarias
deleitam-me a vida,
em paisagens desérticas, de sol
e exuberantes florestas virgens.
E nos verdes pomares,
onde os cantares são lágrimas choradas,
as flores de laranjeira desabrocham
tecendo-me a mortalha
em mãos de fadas.



Margarida Piloto Garcia

Quadro de Felipe Casorati




domingo, 4 de janeiro de 2009

Ilusões






Longa é a noite,
sem as tuas palavras tatuadas na minha alma
e a tua voz
escorrendo quente pela minha pele.
Mete-me medo
esta febre de te ter e de me dar.
Acho guloso o teu sorriso,
nuns lábios que adivinho exigentes
no frémito do desejo.

São minhas as palavras
não estudadas
não pensadas
não alinhavadas
num qualquer contexto.
Totalmente aleatórias
sentidas
vividas
e sofridas.
Mas é de um universo paralelo que se trata.
O meu comboio,
percorre uma linha
que passa tangencialmente pela tua,
sem nunca a encontrar.
As palavras só fizeram sentido
para mim.
Atingiram a tua superfície
como pedrada num lago.
Depois
a água continuou lisa e profunda,
negra e vazia de vida...como antes.

Eu sei.
É este meu defeito
de ser toda alvorada
aurora boreal
chama que se consome,
sem nunca se apagar.
Mas poderei alguma vez,
trocar-me e diluir-me
por uma felicidade incerta?
Certa ou incerta
pouco importa.
Este sobressalto que me corre nas veias
é apenas o meu código de vida,
o traço primitivo
que faz de mim quem sou.

Tudo o que deveria ser epístola de amor
tornou-se gravação em pedra tumular!

São regatas feitas em barcos de papel,
estes encontros
que nos inebriam
mas nos magoam.
Corremos feéricos,
tragados pela voragem
de um ciclone emocional.
Convenço o meu eu
dum qualquer cenário digno de Hollywood.
Assumo identidades paralelas
unidas na mesma descoberta
de efémeras e fugazes alegrias.
No fim
embaraço-me nos fios que me prendem,
marioneta partida
no teatro da vida.


Margarida Piloto Garcia



sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Terra de Sal




Essa terra entrança-lhe o cabelo de salmoura.
Os gritos das gaivotas sulcam-lhe a memória como traineiras em mar revolto.
O cheiro da maresia é um perfume de evocações de Agostos idos.
Odores de creme Nivea, o da caixinha azul,
passados numa pele alerta, a imaginar toques proibitivos e sonhados.

Essa terra é um grito de explosão mar fora.
Passeios longos nessa areia partilhada de fulgores,
até deixar o sol morder a pele.
Solta nela o orgulho de mulher.
Traça-lhe os lábios o apetite de um beijo voraz.
Olhos castanhos rasgados de sonhos futuros!
Passeios largos,
rochas altaneiras,
esconderijos descobertos e partilhados.
Subidas fulgurantes em encostas a parir verde e cheiro a seiva.
Ameias de castelo debruçados em sons estereofónicos,
crias dadas à luz por carro veloz.

Essa terra debita-lhe na alma o sotaque arrastado
das peles curtidas pelo mar.
O som melodioso enrolasse-lhe na boca e transforma-lhe as vogais lisboetas em suspiros de sereia.
Traz-lhe em revoadas o espanto provocado da chegada.
Lembra-lhe os encantamentos induzidos,
quando desce de um autocarro,
quando sobe a ladeira,
quando brinca escondida na trama de um chapéu de palha.
Há fluxos de energia gerados pelos ventres quentes
nascidos da mente repleta e farta...insaciável!

Essa terra é um fruto que se come sôfrega
em pedaços carnudos e sumarentos,
mas também se mordisca e lambe até que o sal e o ácido lhe piquem a língua.
Ás vezes solta-se dela o cheiro do pão acabado de cozer,
morno e suculento numa madrugada.

Tem sons de quarto embebidos em desejo,
amálgama delirante de um romance bordado em desespero.
É uma paixão sonhada em vida, um rebentar pelas costuras.
Tantas ruas e esquinas cheias de pedras polidas
por onde deixou a vida escorrer.

Essa terra é-lhe mais fiel do que ela lhe foi.
Aceita-a de volta quando ela a renegou.
Debruçada sobre ondas em marés de Setembro
ela recolhe-a no seu útero,
ressuscita-a em procissão calcorreada
no cheiro de alecrim e rosmaninho.
Talvez os vultos que lhe rasgam a vida se entretenham
no apelo dessa baía.
Ela só quer lembrar o verniz às camadas,
o cabelo longo a cheirar a sol
os remos fendendo a água
as lapas brilhando no meio de ouriços do mar.

A pequena cama onde a criança dormiu
e a mulher sonhou, o gosto da farinha torrada,
vertida na boca que grita na brincadeira em génese,
são alguns dos alinhavos de que foi feita no tear da vida.

Essa terra tem lágrimas brilhando nas escamas
dos peixes saltitantes trazidos pela rede.
O vestido verde ajeita-lhe o primeiro soutien
escondendo-lhe e mostrando a pele suculenta
como um figo maduro.
Adolescência mergulhada em mar profundo,
pose altaneira de quem sabe o que vale.
Existe em si a semente dessa baía rasgada na serra.

Não importa quanto tudo mudou nela, na terra, na vida.
Essa terra é a sua alma e nesse mar fará a sua sepultura.

Margarida Piloto Garcia-in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE II-publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2013