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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Cupido





O amor não tem prazo marcado. Nasce quando quer e vai-se embora sem pedir permissão. O amor não tem pontos cardeais nem obedece a climas. Pode ser um furacão ou uma brisa. Acaricia-te ou atira-te contra a parede se tentas analisá-lo ou dar-lhe nomes. O amor não se compra em centros comerciais nem se desdobra em cortesias uma vez por ano. Está ali ao alcance da mão, ou tão longe que precisas de te atirar do alto de uma montanha para o alcançares. O amor não tem hora marcada, nem dia para se repetir ad eternum nas rádios e nas televisões de um qualquer país. O amor não é um dia, porque é todos os dias ou não é. Pode aprisionar-te num segundo e libertar-te noutro e as horas que o marcam não se acomodam num mero relógio. O amor é assim: tem fases, declinações, pausas e reticências. Precisa de dádivas e de paixões. O que ele não tem de ser é um cupido idiota a vender-se por aí num só dia do ano.



© Margarida Piloto Garcia 


© Arte de David Renshaw

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Datas





Datas são para relembrar.
Datas são para esquecer.
Dias, meses, anos,cronologia de vida.
Segredos preciosos como diamantes,
horas carpidas em rosários magoados,
anos repletos das maravilhas do desabrochar
dos suaves tremores
das feéricas paixões,
freios exteriores mas alma liberta.
Sonhos de uma ingenuidade pueril
tornada doentia nas dobras do tempo.
Datas expectantes, mal amadas na insatisfação da dura realidade.
Alegrias únicas, cintilações
tesouros guardados num imaginário a sépia.
Datas para esquecer em papéis rasgados,
imagens descoloridas e desfocadas,
sentimentos apanhados em teias de aranha
num sótão de fantasmas povoados.
Datas que nos deixam cicatrizes,
nos abrem e cortam com bisturis afiados.
Momentos em que a alma atinge a destruição,
os olhos fecham e arrancam de nós as já pálidas esperanças.
Dores paridas em sonhos estrebuchados,
abortos provocados pela tirania do que se sente.

E entrelaçado nesta renda de bilros,
traços misteriosos, alinhavos em obra incompleta.

Faço a contabilidade das datas,
Extraio do leito deste rio as poucas pepitas do ouro
que ousei resgatar à vida.
No fim olho-me no espelho
e não me reconheço nuns olhos de espanto sofrido.

Datas são para esquecer
e eu eternizo-me a lembrá-las
embrulhando em papel dourado e cintilante
o lixo que sobrou.


 Margarida Piloto Garcia