quarta-feira, 22 de julho de 2020

Chá de amor




Chá de amor
Sai do avião meio sonâmbulo e dormente com o corpo a precisar de ganhar asas próprias, cansado do pássaro de metal a voar por ele.
Despacha rapidamente as burocracias e mete no carro alugado as bagagens, que ainda trazem agarradas o cheiro da terra estrangeira onde passou os dois últimos anos.
Entra no carro e tudo o que lhe apetece é rodar pela ilha numa fome que a ausência fez surgir.
Foram profícuos e estimulantes aqueles anos passados com os tios emigrados há anos. Desenvolveu projectos, acabou o mestrado e deixou semeado um caminho para uma possível volta com um emprego no horizonte.
Pensa em tudo isto enquanto o carro se embrenha pela ilha dentro. Mastiga uns candies e deixa que os verdes lhe expludam nos olhos, quase palpáveis de tão luxuriantes.
Traz em si as sombras dos arranha céus e o frenesim da multidão agitada que lhe encheu os dias nos últimos anos.
Está sedento de um arroz de lapas, de uma boa manteiga, farto do cheiro enjoativo da pinabara, que os primos já nascidos na América, comem a toda a hora.
Guia numa premência obstinada de chegar aos locais que lhe trazem memórias impressas e nunca apagadas.
Finalmente chega à Baía de Stª Iria e é como se o oceano lhe enchesse a boca e as narinas de marés e vagas alterosas.
O Atlântico envia-lhe um apelo magnético que lhe tolda os olhos e lhe grita na mente.
Há muito que a ideia de navegar partindo da ilha é um bichinho a roê-lo e a carcomi-lo. É toda uma inquietação que lhe serve de fuga e lhe atiça os sonhos.
Mas não foi por isso que regressou a S.Miguel.
Sai do carro e pisa levemente o caminho com as snicas vermelhas compradas no último dia na América. Procura as hortênsias em molhos e passa-lhes a mão por cima apenas a afagá-las e a dizer-lhes:
-Cheguei.
Aquele primeiro impacto encheu-o de uma sensação que acha quase piegas tal o modo como o fez sentir.
Mas regressa ao carro porque hoje é o 1º sábado de Maio e sabe que Madalena vai estar em Porto Formoso.
Foi há cerca de dois anos que a conheceu. Trazia vestido o fato de uma apanhadeira de chá do séc. XIX. O enorme chapéu de palha sombreava-lhe o rosto, onde uns olhos cor do oceano o chamaram pela primeira vez. Por baixo dele um lenço de cor vermelha a despontar-lhe faíscas nos lábios rubros e carnudos.
Não sabe porque ficou cativo dos seus gestos e das mãos pequenas e delicadas que arrancavam as folhas novas de chá para depois as enrolarem nos tabuleiros de madeira.
João ficara hipnotizado pela visão de todas aquelas mulheres e homens a reconstituírem a apanha manual agora substituída pelas máquinas. Sentira-se transportado a uma outra era, imbuído de um espírito romântico e sonhador, tão diferente do homem racional que sempre fora.
Não sabia se tinha sido isso que o fizera logo reparar naquela rapariga banhada pelo sol da manhã, como se de uma rara flor se tratasse no mar de carreiros verdes e perfumados.
Fora um espectáculo magnífico ver tanta gente naquele labor, as mulheres numa azáfama entre cantigas e os homens a fazerem o transporte em grandes cestos de verga.
Madalena era uma espécie de ave canora num corpo pequeno e flexível. A sua voz encontrara facilmente um caminho através dos seus sentidos e tudo fizera para a conhecer.
Ela era bastante mais nova, apenas 18 anos cheios de sonhos, como se as neblinas que de repente assolam a ilha, também a envolvessem num estranho e impalpável manto, escondendo-lhe a realidade.
Mas João gostava dessa sua faceta, da quase imaterialidade de Madalena, quando ela lhe aparecia com as sandálias na mão, correndo descalça pela areia fina e acinzentada da Praia dos Moinhos. Os cabelos negros ondulavam na brisa matinal quando ela quase sem fôlego se pendurava no seu pescoço e lhe dizia:
- Vamos lálár?
Ele ria-se perdidamente com o seu falar tão pitoresco e sabendo quanto ela gostava de o ouvir responder-lhe assim, retorquia-lhe:
- Xoaquesim.
Dos risos cristalinos passavam às carícias amedrontadas enquanto ele, perdido nos olhos dela, lhe dizia baixinho:
- És uma gueixa.
- Même de vero?- respondia-lhe ela baixando os olhos recatada escondendo o desejo.
- Xoaquesim- respondia-lhe ele de novo num gemido contido e assustado.
O corpo miúdo dela refugiava-se cada vez mais no dele que lhe temia o contacto. Sentia por ela uma estranha atração, mas tinha receio de se envolver com alguém tão jovem e sem planos na vida. Tinha 29 anos e metas que desejava alcançar. Ela parecia-lhe de uma outra dimensão, alguém que o atraía como uma sereia enquanto se deitavam na areia a olharem para o céu, à espera da solução mágica para a vida.
João resistiu bastante tempo a enredar-se nos seus cabelos, a descobrir-lhe o corpo, quando lhe mordia os lábios a provocar-lhe epidérmicos desafios. Temia o apelo dos sentidos, daquele corpo que era terra e mar, simplicidade e desafio.Temia a sofreguidão da carne que apertava com rédeas fortes antes que de si se apossasse.
Não sabia como inseri-la na sua vida, como construir um futuro com ela. Sempre fora muito racional e aquela rapariga apelava ao sonhador escondido, descosendo facilmente os alinhavos que ele dera na sua alma contida e deixando-o nu de preconceitos e planos.
Foi no dia em que se aventuraram pela ruínas do Castelo de Porto Formoso, que a chuva do desejo os engoliu misturando-se com a que caía num dia húmido e frio.
Naquela guarita ainda de pé e resistindo à degradação, encontraram finalmente os nós com que ataram as mãos aos corpos a arder.
Ele mergulhou avidamente numa Madalena virgem e em botão, uma folha nova de chá de aroma fresco e inebriante. Ela deixou que ele lhe levasse o corpo tal como já fizera com tudo o que nela era vida.
Enquanto se resguardavam da chuva, João não se conseguia impedir de racionalizar. Não sabia ainda bem o que sentia por Madalena e se a queria parte da sua vida.
Quando partira para casa dos primos, nada lhe prometera. Não tinham os mesmos propósitos de vida, ela era duma juvenil rusticidade que o encantava mas não se daria bem nos meios que frequentava.
Durante uns 8 meses tinham-se falado e visto no computador, até que ambos se tinham afastado. Ele tinha dias ocupados com estudos e trabalhos, ela...ele não sabia, talvez se tivesse esquecido dele e arranjado alguém que a quisesse com o seu sotaque cerrado e expressões muito próprias e típicas que o faziam sorrir.
Sabia no entanto que há cerca de 2 anos tinham prometido encontrar-se na apanha do chá, mas agora parecia que nada fazia sentido após tantos meses sem se falarem.
No entanto, ele ali estava, ofegante e meio tonto, perscrutando a encosta verde a regurgitar de pessoas, mais parecendo um dos muitos turistas que assistiam ao evento.
Durante quase duas horas vagueou por entre as apanhadeiras tentando descobrir Madalena.
Por cada carreiro passado, por cada jovem avistada, a desilusão crescia nele como vagas de maré viva a galgar praias e o nó na garganta tornava-se cada vez maior e mais doloroso.
Por fim desistiu. Ela não estava. Afinal nem sequer percebia aquela certeza que o dominara. Nada sabia do rumo que ela tomara e a culpa fora dele.
Meteu-se no carro e guiou até Ponta Delgada. Queria esquecer-se de tudo, tornar a ser quem entendia, tratar aquela decepção como algo infantil , fugir dela e não a deixar ganhar gavinhas dentro dele.
Mas não era fácil, sentia-o, enquanto sentado num café com vista para o mar se debatia com um rol de emoções inesperadas.
Uma voz meiga e cristalina perguntou-lhe:
- Chá?
Voltou-se repentinamente, o susto cravado no semblante, o coração num corrupio de sentidos, numa pressa desenfreada de lhe sair pela boca juntamente com um grito.
Ali estava ela! O traje de apanhadeira tinha sido substituído por um vestido de linho branco que realçava um corpo que João não esquecera.
- Orange Pekoe?
- Claro, sabes que é o que mais gosto- respondeu ele a lembrar-se do aroma que sempre o acompanhava mesmo na casa dos tios.
- Então vamos pedir dois chás- disse Madalena sorrindo, enquanto se sentava muito senhoril e bonita a fazê-lo ruborizar com a sua delicadeza.
- Que é? Estás a estranhar-me?
- Bem, estava à espera daquela rapariga sempre a rir e a falar daquele modo que me punha a cabeça à roda.
- Pois é, vê bem o que não fazem dois anos a estudar no continente- respondeu ela e riu-se atirando a cabeça para trás a descobrir um pescoço que lhe apeteceu beijar, enquanto por dentro tudo encontrava rumo.
- Ah, mas se quiseres posso dizer-te que és um corisco muito mal amanhado por teres fugido de mim- e os olhos dela brilharam enquanto os lábios debitavam as frases que o encantavam.
O chá chegou e o seu aroma evolou-se das chávenas numa melancólica carícia parida nas encostas de S. Miguel. As mãos tocaram-se e dedos esguios enlearam-se noutros mais fortes.
Agora nada mais importava. Às perguntas por fazer respondiam as folhas de chá com prosas de aromas e sabores



© Margarida Piloto Garcia

domingo, 12 de julho de 2020

Promessa








Já te contei
que atravessei a linha do comboio
e me deitei nas azedas amarelas
para fugir da morte?
Por isso resolvi
que vou tentar morrer sossegada
sem fazer barulho
sem estilhaçar espelhos
sem rasgar livros
sem ferir os punhos nas paredes.
Tão de leve e silenciosamente
que se assemelhe a um sono profundo
onde ninguém está.
A solidão já é um hábito tão velho
que ganhou raízes e impregnou a pele.
Os meus olhos cansaram-se
a minha boca recusou-se
os meus braços cerraram-se de vez.
As Evas são assim, resilientes
mas sedutoras, a cheirar a baunilha e limão
passionárias que não podem ser sombras
e explodem no sol de qualquer revolução.

O único problema é que as mulheres
não morrem assim, devagar e sem dor.
As mulheres amam e vivem para sempre.




© Margarida Piloto Garcia in- " A mulher no infinito dos tempos"-publicado por IDEÁRIOS 2020

© Foto de  Andreas H. Bitesnich 



sábado, 1 de fevereiro de 2020

Beleza









O poeta deixa palavras carregadas em folhas brancas
ou até mesmo em guardanapos de papel.
O pintor eleva a ninfa anónima
a aparições que os homens disputam.
O escultor brande o cinzel
e transforma o mistério frio e impassível
na deusa ardente que nos emudece.
O fotógrafo, o cineasta, qualquer deles
procura o que germina dentro da pele
e sussurra pelas noites como um estalar de chicote.
Nos amantes há gestos presos e beijos inquietos
explosões feitas de estrelas cadentes
incêndios gemidos e sílabas selvagens.
Por aí, a natureza é um poema ávido
uma maçã carnuda a ser mordida plena de seiva
uma litania como um arpão de esperança
uma epifania de mil angústias
escritas através do tempo em velhos papiros.
Tudo é beleza, até mesmo os disparos certeiros
deste mundo pleno de insanidade.



© Margarida Piloto Garcia-OPUS-3-Selecta de poesia em Língua Portuguesa- publicado por  TEMAS ORIGINAIS-2020


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Equilíbrio







Abro as cartas que perderam a cor
e só leio gritos.
Tento esticar as asas para me equilibrar
mas os ventos desnudam-me e sem pedir licença
trazem-te de volta.
Volto ao vazio, à cumplicidade mecânica e obscena,
à submissão feita de pedra lascada, ao amor polido,
à arcaica história das rosas com espinhos.
E retorno ao denodado equilíbrio, sem saber a direção,
a colocar pé ante pé, sem renascimentos pretéritos.
Sei que a esperança de viver está toda nesse equilíbrio
mas este silêncio é uma ferida aberta
um corpo inteiro rasgado ao cosmos.
Caminho numa corda tensa, numa ânsia agonizada.
Sou transparente neste precipício, neste bater de asas
e amo cada caminho tal como os reescrevo com raiva.
Submerjo-me em lagos frios, sem que os lótus
me brotem dos lábios ressequidos.
É tão depressa esta vida que nos marca o ventre
que nos esmaga os seios e enruga os olhos!
Equilíbrio é a insubmissão nesta terra impura.
Quando a guerra chama, escrevo com canetas
de vermelho sangue permanente
as palavras cansadas onde o equilíbrio se perdeu.




© Margarida Piloto Garcia.-OPUS-3-Selecta de poesia em Língua Portuguesa- publicado por  TEMAS ORIGINAIS-2020
Imagem © Benjamin Von Wong



Síndroma da Branca de Neve






Desde criança que aqueles rituais eram a sua razão de ser. Lembra-se dos mais pequenos pormenores, das minúcias, dos detalhes.
O quarto da mãe tinha um cheiro característico que ainda hoje paira no ar. Era um misto de frescura primaveril, com notas picantes e doiradas de algo mais profundo e sensual.
Tudo no quarto estava estudado para dar uma noção de langor e lassidez. Nada de coisas inúteis ou em excesso, demasiado pesadas ou ricas. Apenas uma beleza displicente e um não sei quê de abandono dos sentidos.
Sempre assim fora, uma espécie de divisão mágica que frequentava religiosamente, numa adoração sem limites.
Perpendicular à janela existia um enorme espelho de corpo inteiro, que no seu suporte basculante, era a presença dominante do quarto. A moldura era cor de prata pesada e antiga e tinha um toque frio mas suave e aveludado.
À medida que crescia ia acariciando o metal, chegando cada vez mais alto, até ter atingido a idade de lhe poder tocar no topo. Tinha tido uma tremenda sensação de euforia, como se tal significasse ter atingido a plenitude da vida e descoberto finalmente os seus mistérios.
O espelho era magnífico, de um brilho metálico mesmerizante e uma nitidez ímpar.
Ainda criança, nunca se cansava de observar aquela cerimónia, que a mãe efectuava em frente ao espelho.
Durante quase uma hora, ela ia desnudando o corpo pouco a pouco e observando meticulosamente cada nesga de pele. Com mãos pequenas que achava lindas e um dia invejaria, a mãe passava minuciosas doses de um óleo a cheirar a laranjas e a aromas exóticos, executando uma dança com as pontas finas dos dedos. Círculos ora concêntricos, ora excêntricos, afloravam-lhe a pele que ficava rosada e sombreada por uma leve penugem doirada e brilhante.
Era pura fascinação observar as rendas da lingerie que ela vestia vagarosamente, as meias transparentes e acetinadas e todos os gestos que o corpo ritmicamente bailava, numa sinfonia habilmente orquestrada.
Via-a dar imensas voltas e reviravoltas ao espelho, enquanto se vestia e despia, na eterna indecisão do que melhor lhe ficaria. Sorria , fazia esgares, mirando o seu reflexo com ar de estrela de cinema.
No fim a mãe dava-lhe um beijo repenicado e lançava-lhe um olhar inquiridor, como se a criança lhe pudesse dar a aprovação final que desejava.
Quantas vezes ficara a olhar para o espelho, tentando perceber em si os traços da progenitora!
Já na adolescência, aqueles momentos mais íntimos foram sendo cerceados. Mas continuava a ter o privilégio de assistir à parte final daquele ritual mágico.
A mãe já não era tão jovem mas tinha ainda um fascínio que conseguia transmitir.
Adorava ver as suas mãos esguias, pousarem no pescoço alto, um colar de pérolas nacaradas com um brilho frio mas suave. Ajudava-a muitas vezes a apertar o fecho, uma pequena borboleta de ouro, cravejada de diamantes negros. O cabelo fulvo, era uma chama viva domada de vez em quando num elegante apanhado.
Quando a mãe saía aproveitava para o seu momento especial. Toda a sua, ainda curta vida, fora construída à volta daquele quarto, daqueles momentos e daquele espelho.
Lembra-se da primeira vez que se olhou nele, as mãos a tocarem o cabelo liso e negro, herdado do pai.

Num jeito meio temeroso, meio brincalhão, recordara-se da história, tantas vezes contada em criança e ironicamente olhando o espelho, perguntara:
- Espelho meu, diz-me se há alguém com maior beleza do que eu?
A resposta era-lhe dada pelo reflexo que a mãe parecia ter deixado no espelho.
Aproveitava então o tempo em que ninguém estava em casa, para vestir e despir as roupas perfumadas, cheirar cremes e pós, experimentar colares e lenços, pentear os cabelos com a escova larga e macia.
De vez em quando repetia para o espelho a pergunta fatal:
- Espelho meu, diz-me se há alguém com maior beleza do que eu?
Inevitavelmente a resposta não era o seu reflexo, mas outro, sempre presente mesmo quando não estava.
O tempo foi deslizando entre realidades e sonhos, privilegiando as primeiras e sendo carrasco dos segundos. Foi descobrindo no rosto daquela mulher a quem seguia os passos, uma ruga mais marcada, a pele menos firme e rosada, o cabelo mais baço, onde os brancos se escondiam sob a ilusão da tinta. Deixou de assistir àquele cerimonial que a mãe repetia diariamente. Já não sentia o mesmo fascínio e achava que tinha aprendido tudo. Na mãe via-se uma debilidade que se foi acentuando, obrigando-a, tal como agora, a passar temporadas no hospital.
No seu íntimo algo se regozijou pecaminosamente.
Desejou que os dias passassem rápidos, frenéticos, a atropelarem o tempo. Precisava que a idade reclamasse por fim os seus direitos.
Agora frequentava aquele quarto todos os dias, tomando-o como seu, faltando às aulas e fugindo de tudo aquilo que lhe tinham querido impingir sem se importarem com a sua opinião e com quem realmente sente que é.
Num espectáculo que lhe envaidecia o ego, vestia-se e despia-se posando para o enorme espelho.
Mas agora, à pergunta habitualmente feita, o reflexo mostrado é o seu. Cabelos negros deixados crescer, saltos altos vertiginosos, vestido justo e decotado, soutien almofadado a esconder ( por enquanto ) a falta de seios, meias negras nas pernas depiladas, boca pintada de vermelho e uma base compacta a esconder a barba incipiente, feita ao amanhecer.
Agora a mais bela é “ela”.

© Margarida Piloto Garcia.

Foto de © Veri Apriyatno



domingo, 19 de janeiro de 2020

Amor por inteiro







Nem metade, nem três quartos de um amor. O que sempre quis foi um amor por inteiro. Sabes, aquele amor que imaginava no meio das giestas bravas que cercavam a casa, os teus cabelos inclinados sobre mim, o silêncio a gritar o zumbido das abelhas, os sentidos a montarem armadilhas e as tuas mãos a orquestrarem sinfonias. A urgência de amar mordia a tarde calada e eu engasgava os gemidos que cresciam no peito.
O que sempre quis foi um amor inteiro. Nada de passos gelados a fazerem gemer o soalho antigo, nem noites disfarçadas de lancinantes esperas, o medo a deslizar das sombras e a cravar as unhas na cama deserta. Eu a lembrar o estio a romper das janelas, o vento suão a perpassar no meu corpo enquanto a tua voz cantava Fistful of love e as tuas mãos peregrinavam a viola antes de se desmoronarem com fingida ferocidade sobre mim.
Não vale a pena chorar. Vem um algoritmo e apaga-te de vez as lágrimas, encerra-te na distância e transforma o caos da paixão numa caixa cinzenta e pardacenta. Nem todas as cartas de amor são felizes. A prova está nesta que vou colando, letra após letra.
Criei o hábito de sonhar. Antes eram sonhos de amor onde corria o risco de me acidentar. Era um risco de morte feito de olhares negros carregados dos beijos gulosos com que canibalizávamos as bocas. Era tudo uma questão de sobrevivência, a incapacidade de conter o grito e a compostura. Mas depois o engano cresceu no escuro e o calendário enlouqueceu. Não há versos ou notas de música que o façam parar. Não existem fórmulas mágicas ou passos de dança, capazes de fazer desaparecer a desilusão.
Quantas décimas tem um amor? Um amor inteiro feito da sedução da areia, do cheiro da maresia, da rendição à vida sem esperar qualquer absolvição.
Agora a noite é densa, feita de um pesadelo recorrente. É difícil respirar enquanto se pesa um coração. Quantos gramas para um amor inteiro? Para o saber talvez seja preciso renegar as almas fraturadas e sondar os filósofos da felicidade, aqueles que se embebedam de estrelas e atravessam a vida cheios de certezas. Gostava de ser assim. Talvez tenha sido assim, sem as ideias de fim de mundo que me atravessam.
Continuo a não aceitar, um meio amor, ou três quartos dele. Talvez seja louca em exigir um amor inteiro, por isso não sei escrever cartas de amor.
Afinal o poeta tinha razão. Todas as cartas de amor são ridículas.





© Margarida Piloto Garcia-in III COLECTÂNEA DE CARTAS DE AMOR-"TRÊS QUARTOS DE UM AMOR"-publicado por CHIADO BOOKS-2020



© Foto de Josh Adamski


Link: www.radiovizela.pt/programa-hora-da-poesia

https://www.mixcloud.com/Radiovizela/hora-da-poesia-programa-sobre-margarida-piloto-garcia-150120/




quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Amor







Das razões do amor
dizem uns que sabem, outros que o sentem.
Se ele arde, se ele é a álgebra da vida
se é ferida que adivinhas e te impede de morrer
se tanto te torna exultante ou descontente
se te faz içar as bandeiras da fé
ou lutar em tempos de anarquia
se o amor te faz nascer e renascer
pequeno ou imenso como lava ou tsunami
se o sentes, devora-o.
Come-o até ao caroço e rejubila.
Deixa que o suco escorra e em ti se abrigue.
Conjuga verbos inexistentes
e inventa marés.
Constrói com dedos corajosos a sábia magia
e brinda furtivamente aos deuses
não vá a sorte explodir desassossegada.
Agasalha os sentidos , sempre na incerteza dos poetas.
Depois, ajoelha e engana a morte.
Afinal, o amor é isso mesmo
uma crença na eternidade.




© Margarida Piloto Garcia-OPUS-3-Selecta de poesia em Língua Portuguesa- publicado por  TEMAS ORIGINAIS-2020



© Foto de Alicja Reczek



terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Pânico








Quando te aproximas, parto.
Refaço o caminho nesta fuga desamparada.
Nada me resta mas há mais perigo noutro percurso.
Alterno a vida, engasgo as dores
e a vida a metro não faz sentido.
Sucumbo ao salto, usurpo o golpe, monto a armadilha.
O medo instala-se e manipula, cega-me as asas.
Mas não há primavera na tua tela negra.
O teu “para sempre” tem a finitude de um caixão
de onde não posso ver as estrelas.
Os meus gritos são poeira cósmica
quartos minguantes cegos e distraídos.
Ninguém os ouve, ninguém os vê
apenas eu percorro as noturnas veias
à espera de encontrar um sangue penetrante
como uma estaca no fundo de mim.
Não é uma desistência esta fuga declarada.
Mas há estilhaços nos abraços e facas nas palavras.
Fico semente, colhida no terror de não dar flor.
Por isso parto com um cemitério de memórias
e as lâminas que tenho não me ferem mais
nem a voracidade dos dias me corta os dedos.



© Margarida Piloto Garcia-OPUS-3-Selecta de poesia em Língua Portuguesa- publicado por  TEMAS ORIGINAIS-2020
© Foto de Suzy Parker

domingo, 1 de dezembro de 2019

Ouvi dizer









Ouvi dizer que neste mundo
as mulheres têm penas mas não voam
e as vitórias esmagam-lhes o peito.
Ouvi dizer que o vento só lhes é favorável
quando gritam e contam tudo às árvores
e atravessam o vazio à boleia de uma lua cheia.
Ouvi dizer que moram na História
mesmo que as tentem apagar
construir muralhas ou mergulhá-las em sangue
ou mesmo enterrá-las num chão negro.
Mesmo que ganhem espinhos, elas florescem
e todas as flores despertam nas feridas abertas.
Ouvi dizer que só a arquitectura dos seus corpos
sustenta o universo e desenha o horizonte
em linhas perfeitas e caligrafias nostálgicas.
Ouvi dizer que é graças a elas, que se dá nome às coisas
e se inventam palavras capazes de vencer a morte.



© Margarida Piloto Garcia- in "COLECTÂNEA TOCA A ESCREVER 10 ANOS"-publicado por IN-FINITA EDITORA 2020



© Imagem de Gary Isaacs

sábado, 16 de novembro de 2019

Poente outonal







Há um céu fulvo a comer a saudade
e os passos resistem a queimar-nos a dor.
Sobram palavras onde o sol expira
num lânguido suspiro no horizonte.
Enleio-me na serenidade das gaivotas
e no gozo do grito das pequenas vagas.

Não há olhares na sombra do caminho
e os murmúrios são incógnitos e tristes.

Na calma amarga e aparente
resta-me o som vago e distante
da que já foi a tua voz.

© Margarida Piloto Garcia 
in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A CAMILO PESSANHA- publicado por Temas Originais 2017


À poesia








É o teu som que oiço na brisa matinal

despertando epopeias na pele dos meus sentidos

Arrulha o pássaro no reverso de mim

a instigar palavras para quebrar e dançar em teclas.

Agora a fonética corre lasciva da mente aos dedos

metamorfoses por trás da retina, versos saciados

a beberem as células do pensamento em fusão.

A imaginação atropela-me o corpo em sons

que se fundem num impensável ou predestinado

poema, prosa , acto de amor eterno.

Mordo as palavras com os sons que despertam

mesmo que seja noite, ou o inverno se mascare de verão.

Os espasmos dos risos ou dos beijos

são versos gritados a escorraçar silêncios

que vagueiam durante o dia, espessos como nevoeiro.

No fim amo-os nos sons que crescem dentro de mim

No fim amo-te a ti, poesia.






© Margarida Piloto Garcia.


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Ser






Ser água
e permitir que escorra
entre beijos desfeitos.
Ser vento
e perder a inocência
nas raízes desse cabelo.
Ser terra
e sentir-me inteira
como um pecado original.
Na dúvida ser tudo isso
como um desejo insano e prepotente.
Conjugar verbos no sabor da pele
e gritar necessidades, doces, salgadas,
por vezes amargas e rebeldes.
Ser mar e ser falésia
deixar-me navegar até que tu naufragues
e as gotas de sangue me apaziguem os sentidos.
Ser a memória apagada
a predadora do cansaço e da crueldade mal gasta.
Ser um anjo feroz a abocanhar a vida
numa seminua pequenez.
Ser a mudez da cama vazia.
Fosforescer no verão ou noutra estação qualquer
quando só me falta a tua
num vai e vem de anos ululantes.
Ser o alento enganoso
quando o tempo não tem vagar de existir.
Ser um velho tango marginal
um ritual intimo enroscado num poema.
Ser o aroma da flor acabada de colher
e o grito da manhã.
Ser, enfim, a esperança de sobreviver
a mais um recomeço.



© Margarida Piloto Garcia-in "PALAVRAS DE CRISTAL VOLUME VI"-publicado por MODOCROMIA EDITORA-2020


© Foto de Randall Hobbet - Tetyana

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Desistência





O que não compreendes
é que a lâmina desliza devagar.
Tu não entendes.
Ninguém o faz.
Mas a lâmina é isso mesmo
um corte suave e eficaz
um deslizar carmim
o esquecimento
a paz.

Podes lá chegar
dum modo ou outro.
De joelhos com um beijo inesperado
no silêncio de uma vida minada
ou a decifrar algoritmos de perigo.
Tudo pode ser mais fluido
com comprimidos brancos enredados
em líquido ambarino.

Mas a lâmina corta cerce a cauda de sereia
e desfaz o sonho em fiapos.
Afinal, o vermelho vai casar bem
com o amarelo das giestas.

© Margarida Piloto Garcia in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A JORGE DE SENA- publicado por TEMAS ORIGINAIS- 2019

© Foto de Pilar Les



quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Sexto sentido





A vida é um bicho estranho. Tem múltiplas pernas com que se movimenta num ritmo ora acelerado, ora lento. Tem asas com que às vezes voa e esmaga as ausências, e pele que dói no grito quente das memórias. As mãos inventam a vida ao sabor da imaginação e guardam na língua as palavras com que a tecem.
Desde pequena que a avó lhe dizia que ela tinha um dom. Ao longo da vida fora-se apercebendo das suas qualidades, bem como dos seus defeitos. Uns e outros eram o seu centro, a pedra nua onde se perdiam os passos do passado e se escondiam as linhas do futuro. Mas o tal dom nunca o sentira. Não adivinhava vidas, nem sequer vislumbrava essências do que já fora. O seu sexto sentido, a existir, devia-lhe ter falado ao ouvido no dia em que o conheceu. Quem sabe, não a devia mesmo ter esbofeteado acordando-a para a realidade.
Não fora uma paixão à primeira vista. Ela apenas se sentia amputada de um amor sonhado, de algo que a imaginação pedia e o corpo lhe gritava. Ele pintara-lhe a vida de cores garridas, de cativantes atenções e abrira-lhe as portas de um mundo novo. No desassossego dos sentidos incendiavam-se quimeras e nesse tempo não cuidava em perceber se o ombro dele seria porto de abrigo. Vestiu na perfeição uma cegueira engalanada e partiu em direcção a um destino torto.
As traições que lhe bateram à porta foram apenas os preliminares de uma destruição. As únicas coisas em que pensava eram um poderoso aríete a martelar-lhe a mente. Não quebrar. Não desistir. Não recuar. Tentar derrotar as humilhações, as ameaças, as palavras cruéis. Sobreviver, talvez por fora, enquanto por dentro tudo enregela e morre.
E dentro de si as palavras da avó: tens um sexto sentido!
Que sexto sentido? Aquele que a fazia tentar vezes sem conta burilar os factos para que a vida fosse normal, ou o que a dotava de discursos suicidas quando falava com ele?
A vida provara-lhe quão medíocre era a sua previsão de resultados. Cada conquista amainava-lhe os anseios e a esperança crescia-lhe nos olhos. Mas quanto demorava a decepção a engolir-lhe a vida e a persegui-la como um cheiro impiedoso? Muito pouco, por vezes míseros minutos até se sentir de novo exaurida numa solidão só dela, subjugada ao desprezo dele.
E os anos passaram sem que se conseguisse libertar, submetida ao bem dos outros, num arrastar sem sentido. Enquanto sentiu, lutou. Mas chegou a uma altura onde até a imprecisão da dor se tornou um hábito. A vida deixou de pulsar ainda que o coração dissesse que batia.
Naquele dia acordou com a estranha sensação de que algo aconteceria. Seria o tal sexto sentido de que a avó lhe falara? Se sim, não entendia porque esperara que ela tivesse cabelos brancos e o sorriso só lhe assomasse a cara aos trambolhões de tão pouco usado.
Levantou-se e traçou as linhas do costume. Começou a percorrer a estrada de mais um dia sem surpresas, nem alegrias. A sensação com que acordara era cada vez mais forte ao ponto de se tornar numa insidiosa dor de cabeça. Se não fosse a rotina e ela escrava de uma condição que a vida determinara, ou a sua cobardia lhe exigira, e teria saído para mergulhar o olhar nalgum ponto azul do rio.
Mas ficou presa nas teias da casa a arrastar a irrespirável solidão.
E foi nessa altura que o irreparável aconteceu. Tudo aquilo que ele um dia ameaçara estava agora a cumprir-se.
Só nos últimos segundos de vida se apercebeu que afinal a avó não mentira.



© Margarida Piloto Garcia in "SEXTO SENTIDO"  - publicado por LUA DE MARFIM EDITORA-2016

domingo, 6 de outubro de 2019

Teimosia








Pegar a vida pelos cornos
demonizá-la, violentá-la,
apertá-la com a dose certa de fúria
num abraço extremo, num último extertor.
Dançá-la num tango, dobrá-la pelos rins
aos meus desejos mais febris.
Esquecer. Esquecer mesmo que os dentes da memória
se cravem diariamente na pele.
Começar de novo
sem que a espinha se parta e os ossos dobrem.
Escapar aos titereiros, aos pagadores de promessas,
aguentar entre o pensar e o sentir.
Desafiar a sina, embrulhar palavras salgadas
em beijos doces, sem escolhas demoníacas.
Rejeitar a crueldade a rastejar nas veias
e atirar ao vento a gargalhada louca.
Viver, viver porque a solidão é uma arma
e a vontade uma réstia de sobrevivência.
No fim de tudo abrir as asas com intrepidez
e rugir a um novo amanhecer.



© Margarida Piloto Garcia  in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A JORGE DE SENA- publicado por TEMAS ORIGINAIS- 2019


© Foto de Nannimensch



segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Garrote








Não me escrevas.
Peço-te que não me escrevas.
Proíbo-te mesmo de me escreveres.
Afinal, a verdade nunca é a verdade.
Há inúmeras versões com o mesmo destino
irrepetível e abandonado, como coisa usada.

Não me escrevas.
A memória do corpo é coisa antiga
que tu acordas nas palavras. E quando a pele
se lembra, anseia pelo lume e tu não ardes.
As hienas chegam e riem das palavras
enquanto devoram a saudade.

Não me escrevas.
Não me lembres o momento em que o amor morreu
ou mesmo a chacina que a vida fez por aí.
Faço um esforço para aceitar as vozes que rasgam
pulsos e cravam facas no peito e insone
esmago sonhos nos vidros das janelas.

Posso aceitar o abismo
a penumbra dos lugares e até mesmo
a inutilidade da vida.

Mas por favor, não me escrevas.




© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019



© Arte fotográfica de Marysia Bieniaszewska





domingo, 1 de setembro de 2019

Cegueira








Chove.
Chove há muito, mesmo que faça sol.
Chove desde o dia em que deixei de ver as nuvens
penduradas na janela a fingir horizonte.
Encurralada entre sombras, não meço distâncias
nem descubro gestos.
Onde a noite se deita, mascaro o amor de pedra
polindo as arestas mas cobrindo as feridas com sal.
As manhãs são sempre negras ou é a minha cegueira
que insiste em esconder o sol.

Chove.
Chove sempre que te relembro, mesmo que tenha
feito sol, mesmo que a primavera despontasse em mim.
É fundamental que as grilhetas não entrem no sangue
e as feridas não infetem com as memórias.
O que importa é que a ausência seja o tempo do nada

o tempo da cegueira.





© Margarida Piloto Garcia  in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019



© Foto de Georges Dambier