quarta-feira, 14 de maio de 2014

O apelo







-Acorda Maria, acorda por favor !
Soergue o ventre como um sol pleno e alonga as pernas de algas assombradas na berma do rio. A neblina esvai-se das águas sussurrantes e aprisiona-lhe a mente num torpor letárgico. Já não tem sorrisos para lançar ao vento. Só mãos pálidas com que tece prantos . Sente os seios de lua cheia, grávidos de esperanças e do próximo leite. Mas não quer pensar e cerra os olhos.
- Maria não desistas, estou à  tua espera.  Quero ver os teus olhos e sentir o teu colo.
De novo se levanta num incómodo liquefeito. Ajeita ao corpo o vestido sujo onde o bordado inglês já tem a cor dos dias desfeitos. Vem-lhe à memória a menina ladina na varanda ao sol.
 Lá longe o rio junta-se ao céu e os cheiros entram-lhe pela boca e pelas narinas em golfadas ardentes. Canta debruçada por entre as flores garridas e o cabelo baloiça-lhe nas costas, acetinado e fragante. Quantos segredos por desvendar, quantas caravelas soltas no mar da imaginação!
Ergueu-se um frio gélido que se insinua na pele arrepiada. Sabe-lhe bem. A frialdade  é bem vinda para lhe sossegar o corpo quente e dorido . Respira devagarinho como se exalasse pouco a pouco os últimos suspiros e precisasse de os soltar em câmara lenta. Agarrada aos cabelos emaranhados está a derradeira esperança. Mais vale afugentá-la, fazê-la correr sem retorno. O-s-t-r-a-c-i-s-m-o é o destino da esperança e o seu.
- Maria porque não me ouves? A hora vai chegar e tu a negares a vida. Porquê Maria?
Não suporta aquela vozinha irritante a brocar-lhe a cabeça num ritmo insidioso. Quer muito que se cale mas os sons apertam-na e comem-na por dentro com dentes afiados.
 A pouco e pouco foram-se transformando numa dor palpitante e espasmódica que a faz tentar de novo adormecer no esquecimento.
Suavemente desliza num sonho feliz. Sabe-lhe a boca aos pastéis que o pai lhe comprava todos os domingos. O aroma a canela faz-lhe cócegas e adoça-lhe o palato e a mente. Como eram felizes esses passeios! Dançava orgulhos no corpo juvenil numa pressa esfaimada de viver. As expectativas eram como uma erupção de mil sóis. Mal sabia ela que não passava de uma estrela cadente.
Sente que a dor se agudiza e lhe crava punhais ao longo das costas. O rio já está tão perto que quase lhe pode tocar. Estende a mão na busca do murmúrio das primeiras ondas leves e pequenas a  beijarem-lhe os pés.
- Não Maria, escuta-me! Não me ouves chamar-te? Sem ti não existo e eu quero sentir o sol e ver o reflexo da lua nos teus olhos. Estou há tanto tempo  à espera de te ver, de sentir o teu afago.
A voz é um punhal a desenhar-lhe arabescos retorcidos e fundos ao longo de cada nervo.
Queria tanto ter um filho! Fez tantos planos! Foi mulher, foi asa, foi combate e garra e sonho vadio. E depois...depois derrubaram-na, partiram-na em tantos pedaços que agora  precisa diluir-se e evitar que mais alguém seja infeliz.
Não se consegue levantar. As dores pregaram-na na margem fria e  escura. Nem sente que enregela naquele dia de Dezembro. A carne adquiriu uma dureza marmórea que lhe alivia o sofrimento e lhe entorpece cada vez mais a mente.
Como era delicioso aquele mês em casa dos avós! Ela mal dormia expectante pela visão da árvore engalanada e do presépio que crescia a cada ano.
Afinal era isso a felicidade e só agora o percebia.
 Como era bom o frio de Dezembro quando se abrigava na cama quente!
Tem a pele cheia das memórias sussurrantes a deslizarem rasteiras e a infiltrarem-se no sangue. Todas doces, mesmo as que trazem alfinetes a picarem-lhe os olhos lacrimejantes.
O rio tem um cheiro pungente e pesado. Sente-o envolvendo-a num abraço sufocante e poderoso. Acha que sabe a lodo e a todos os que nele escolheram habitar para sempre.
Não é assim que o recorda. Antes, quando era feliz, o rio tinha cores a correrem ao encontro dela e suspiros de sereia a acariciarem-lhe cada curva do corpo.
Gostava de o atravessar no barco que a levava de uma margem a outra. Mesmo no meio de tantos passageiros estava sempre sozinha. O vento soprava-lhe na face beijos impolutos e fazia-lhe os cabelos dançar em feéricas voltas.
A dor voltou e é preciso avançar um pouco mais. A água sobe-lhe pelas pernas como as mãos de um sôfrego amante.
- Maria já não consigo gritar mais. Tenho frio, tenho medo. Medo de nunca sentir o teu beijo e ver o teu sorriso.
- Mãe, mãe, por favor não me deixes morrer.
Como é assustadora aquela voz dentro dela! Quase a faz recuar nos seus propósitos. Rói-lhe por dentro aquele apelo lancinante e voraz.
Avança mais no rio, a água a lamber-lhe a barriga alva mal coberta pelo bordado inglês a desfazer-se.
E de repente, braços resgatam-na, roubam-na ao amante eterno, gritam-lhe juntamente com a voz. Debate-se com as poucas forças que lhe restam mas é inútil. Mal se apercebe que a deitam na margem e a envolvem em algo quente. Agora sente todas as dores a atravessarem-na como se ela não passasse  de um atalho para chegar a um destino.
 Na confusão gerada não dá conta  da chegada da ambulância , nem das mãos que a tocam.
As vozes riem e choram numa histeria que lhe soa caótica. E subitamente o relógio da praça antiga, ecoa 12 badaladas pesadas mas gloriosas, ao mesmo tempo que a voz se cala dentro dela mas  grita agora nos seus braços.
Sente algo antigo a invadir-lhe o corpo e a criar gavinhas .
Olha o pequeno ser que tem no colo e toda ela é júbilo e felicidade.
- Já viu bem? - diz-lhe alguém. É um menino e nasceu à meia noite do dia 24 de Dezembro. Ganhou um pequeno Jesus.
Maria sorri levemente como se também ela tivesse acabado de nascer e a vida fosse agora virgem de suplícios.


© Margarida Piloto Garcia in- "LUGARES E PALAVRAS DE NATAL II"-publicado por LUGAR DA PALAVRA EDITORA-2013



segunda-feira, 5 de maio de 2014

De longe







E Abril passou
E outros virão aqui onde estou
de esperanças feito
O frio aperta na mente que sonha
e a fome alerta sem voo nem asas
Daqui faço planos
mas os desenganos escrevem-se a cru
Na luta sem tréguas
não mais vejo as águas do meu oceano
nem as azinheiras torradas de sol
Daqui a lonjura é corda que enforca
é faca que corta e caudal que alaga
e sobe à garganta
No país amado deixei só a alma
que o corpo faz falta pra ganhar o pão
Abril já partiu
e os medos que envergo não guardo
nem quero
mas expulso e enterro
em estrangeiro chão.


© Margarida Piloto Garcia



sexta-feira, 18 de abril de 2014

Agora



Agora é tarde.
Fez-se noite nos meus olhos e a melhor parte de mim não tem ponto cardeal.
Nada de novo a este ou a oeste e os sábios são cegos,  ébrios e de uma pequenez  árida.Tenho um passo não dado nos trilhos do teu corpo, nas esperas eternas e desfardadas das noites brancas, nos desejos secretos das curvas sem memória.
Finco os pés em cada pensamento colado em mim.
Sinto-os desajustados e impertinentes a levarem de mim a temperatura, o gargalhar, o suspiro das lágrimas, as curvas e contracurvas do corpo ansioso. Agarro-me a cada soalho que pisei com sapatos de esperança e abro os braços a escorar as paredes da ira.
É preciso esperar que a vida tenha quatro cantos como uma lua louca nos atalhos da razão.
É preciso esperar que tu chegues, mesmo que as palavras a tiracolo se tornem impossíveis de suportar de tão desafinadas e sem pauta que as sustente.
E depois...
Nego essa paz redonda feita de mudos vocábulos.
O corpo quer é pinceladas fortes na pele e verbos a roerem o baixo ventre.



© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019


© Foto de Shabina Nadegna




sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pedido




Fecha os olhos para não veres a sombra do meu rasto, porque parto com as aves. Vou ser feliz e alagar os poros com o suor dos dias. Vou-me encher de chuva e arrancar as raízes desta terra que me pesa na pele. Vou e não volto, mesmo que as noites deixem de ser rubras e eu tenha de coser os olhos e a boca, mesmo que tenha de gelar todos os nervos. Retiro-me. Na penumbra da tarde gasto o último verso. No chão maduro e rubro do meu sangue, deponho as minhas asas. Encolho os ossos frios e arranco a carne ainda em chamas.
Que é isso da saudade, grito eu, já mal suspensa dos evadidos braços? Mas a dor é surda e não me ouve. Mordem-me as curvas escondidas num regaço de que não sei o cheiro nem as palpitações. E vou, porque a alma se gasta na esquina das noites e os dedos são miasmas à solta num contágio fremente e alucinado.
Não me entrego às perguntas, amantes e teimosas. Encosto-as à parede para que nela fiquem como quadros de um passado voraz. Solto-me incauta a desprender-me de ácidas algemas e felicidade feita às fatias.
Deixa-me ser selvagem mesmo que tenha nos seios o leite das doçuras prometidas e o meu ventre se abra às tuas palavras devoradoras, porque  elas não são tuas e nem sequer são minhas, nem mesmo de ninguém. Deixa que o vento me despenteie o caminho e o sonho revolto e preso a fios de nada me aplauda as opcões ainda que tortas.

E num último e frenético pedido, cobre a minha boca de rezas beijadas para que voe em frente, antes que eu tropece enlouquecida e recue na evasão do medo.


© Margarida Piloto Garcia in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019

© Foto de Eliane Schulze Segunda



segunda-feira, 31 de março de 2014

Lábios






Fervem os lábios enquanto brilham na espera
e eu amo-te tanto
que não sei porque as bocas estremecem
no medo de se darem
Perdem-se as bocas em línguas de fogo
e eu amo-te ainda mais
mas não posso dizer-to
Se os lábios se envolvem num espasmo desmedido
eu rasgo-me louca na polpa agridoce
Neles se tocam os seios e os sexos
as palavras e os silêncios
neles se enredam histórias e estremecem estrelas
e as explosões dão-se em eternos segundos
Por isso amo-te
mas guardo na boca fechada o teu nome
porque ele é um segredo a florir nos lábios


© Margarida Piloto Garcia-in AMANTES DA POESIA I-publicado por EDITORA UNIVERSUS-2014





segunda-feira, 24 de março de 2014

Outras palavras




Matam, as palavras que escorrem nos cantos dos olhos
ansiosas, brutas, paralisantes de agonias tóxicas.
Vampirizam-nos as vogais numa deslumbrante dança
com sensuais e cúmplices consoantes .
O sol de cada manhã jaz parido nas mãos de noite
que celebram afectos. Cúmplice de tudo, o coração
esbofeteia-nos no pingar das horas solitárias.
E as palavras voltam a morder as entranhas
numa sofreguidão plasmada. Erguem-se as verdades
e às escondidas dão-nos bússolas que comemos
com a mesma boca com que engolimos as palavras
com a cortesia anónima com que olhamos os outros.
Cegas, rolam para os dedos e escrevem matreiras
as confissões histriónicas cheias de declarações
a secar a boca e a chegar o sal à pele.
No fim, o tempo corre e quem paga é a chuva
e o vento, e a dor que passa apressada.
Resta a vida vociferada, a ternura fechada
na gaveta e o corpo que urge.

© Margarida Piloto Garcia in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A JORGE DE SENA- publicado por TEMAS ORIGINAIS- 2019





sábado, 15 de março de 2014

Apenas mais um dia




Era o tempo dos aromas, das fragâncias quentes a cheirar a sol, das melodias entranhadas, do toque sensual da areia fina das madrugadas.
Era a hora dos sentires rubros, dos olhares como farpas, dos primeiros beijos, da pele com sabor a caramelo.
Eram o tempo e a hora dos horizontes infinitos a levedarem nela.
Era o mundo à espera e o coração a rebentar pelas costuras na juvenil ganância de viver.
Pensava que a vida era uma linha recta, na qual poderia desenhar floreados equilibristas gerados pela mente. As metas eram oníricas e de uma louca fantasia escrita em livros de contos.
Os recantos escondidos onde se abrigava, tinham o sabor do fruto proibido e permitiam um nirvana onde a realidade não deixava pegadas.
Achava que o amor devia ter um gosto doce, feito de rebuçados duros donde o recheio suculento, tombava sobre a língua expectante. A paixão só poderia ser uma fera acutilante mas com um subtil travo a especiarias.
Pensava mesmo, que seria impossível não aprisionar nas mãos, os dias impolutos em que era gazela estonteada pelo brilho do sol, antes de sentir a agitação que a tornava loba nos luares da vida.
E depois, havia aquela transumância dos afectos, a eterna procura do Graal, enquanto os sonhos migravam deixando-a árida e grávida de recordações,
Mas os caminhos eram tortuosos e as rectas, se as havia, tinham o rigor preciso e matemático de um eterno labirinto a murmurar solidão.
As palavras que adorava transformaram-se em fumo.
Os homens que amara trocaram-na por tudo.
A vida que a prende é um fio pálido na neblina. Não tem um pouco de asa, nem sinal de colo.
Cabelos rebeldes ganharam laivos de lua enquanto ela pensava.
A força telúrica que a movia, ainda viaja e a percorre , a deixar rastos quer de fogo, quer de cinzas.
Adormece sempre no cansaço dos gestos e da vida ao lusco-fusco.
Acorda sempre nas manhãs deslavadas, vestindo o fantasma do corpo mal amado.
Não sabe porque segue.
Talvez porque tem raivas esdrúxulas, esquírolas que a ferem mas a espicaçam.
Talvez porque sempre foi assim, ingénua e despudoradamente sôfrega, uma louca em banda desenhada.


© Margarida Piloto Garcia

© Artworks by Montserrat Gudiol






sexta-feira, 7 de março de 2014

Ausência




Se eu não estiver mais aqui
não me procures se as aves não regressaram
ou se os poentes se tornaram indecifráveis
Não questiones o tempo que foi meu
nem as palavras escondidas nos meus seios
e carregadas pelos meus ombros famintos
Se eu não estiver mais aqui
no local onde os lábios são sangue
e as pernas se entrelaçam sequiosas
nesse tempo onde os olhares se canibalizam
e os ventres se guerreiam ardendo
perceberás que eu só sou, se tu fores em mim
e este mundo só foi nosso porque nos demos.


© Margarida Piloto Garcia-in AMANTES DA POESIA I-publicado por EDITORA UNIVERSUS-2014

© Arte de Tomasz Rut


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Fuga




Abres a boca e as consoantes saem ordenadas
epileticamente dançadas de encontro
às vogais que balbucio.
Prendo-as levemente nos lábios
e sopro-tas com movimentos de enlace
enredando-as em fateixas de abraços.
Solto os meus cabelos cor de lua
e escorrego devagar pelo teu corpo
meio medusa, meio sereia a naufragar-te
enquanto as mãos se enchem de um perfume bárbaro.
Tenho mágoas a cobrir-me o olhar
mas diluo-as na tua pele numa osmose de sombras.
Rasgo em mim uma rota através de antárticas noites
olhadas das vespertinas clarabóias dos meus olhos.
Os teus discursos têm anzóis e gavinhas
e nem o meu canto , nem o meu gemido
nem a minha febre ou o meu olhar
conseguem evitar o precipício.
Depois...silencia-se a boca e a fuga reclama-nos


© Margarida Piloto Garcia in "VI ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS"-publicado por FOLHETO EDIÇÕES- 2014


© Quadro de Gottfried Helnwein
  


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A vida e a morte durante a ira







Sente-se envolta numa roupagem débil, semi-palpável, um desconcertante invólucro trespassado por calafrios.
Um avião corta o céu cerúleo e o som explode-lhe na boca, num quebrar de ondas de saliva de encontro aos dentes.
Há um aroma agreste feito da humidade que se lhe cola aos cabelos.
Não sabe se há-de ir embora, ou ficar mais um pouco exposta aos elementos, mas resguardada naquele pedaço de relva, que se distingue da terra castanha e ocre do cemitério.
A ira ainda não a deixou. Pergunta-se se algum dia o fará e fica aturdida e temerosa que tal aconteça. O que sente é tão devastador que não consegue acalmar o corpo.
A boca está seca, a garganta irritada. A náusea é um algoz potente a revolver-lhe as entranhas. Vomita aos arrancos tentando expelir a raiva que sente e a perfura como espada afiada.
É imperativo que se livre daqueles sentimentos parasitas que a devoram. Mas como?
Não suporta mais as intermináveis manifestações de pesar que lhe parecem cuspidas na sua direcção. Pior ainda, aguenta numa repugnância pungente, os toques pseudo-afectuosos, os beijos que lhe escorrem na pele e a fazem estremecer.
Resiste o mais que pode e sabe, às conversas, às tentativas de a sondarem e saberem mais, de remexerem fundo na sua vida. Os predadores cercam-na, como se ela fosse carniça ao seu dispor, em busca de pormenores, naquela ânsia que a turba tem de saber da vida alheia.
Ela encerra-se no vestido discreto, de um antracite reconfortante, uma espécie de armadura contra os invasores da sua intimidade.
Sabe que a imagem que passa é a de uma mulher petrificada, gélida e sem sentimentos. Não tem dor nos olhos e nem uma lágrima lhe cruzou o rosto.
Ninguém sabe que o rio há muito secou no leito. Os soluços que durante anos lhe descontrolaram o corpo, foram cuidadosamente arrumados numa caixa da qual perdeu a chave.
Enrola atrás da orelha um caracol ainda viçoso do cabelo branco e curto. O gesto lembra-lhe outros, os primeiros que os dedos de Miguel ensaiaram no seu rosto.
Cerra os lábios com força, porque assustadoramente cresce-lhe na memória, o dia em que os dedos lhe ficaram marcados na face. Apesar das ameaças, essa foi a única vez,  mas o efeito foi o de uma tatuagem eterna, algo que ninguém vê mas ela nunca deixou de sentir.
Envolta na sua armadura cor de aço, o seu olhar é um radar a sondar todos os que passam e lhe deixam os pêsames.
Será que eles sabem como gastou o caudal de lágrimas?
Será que adivinham como foi possível transformá-la numa terra árida de desejos contidos  e onde nada brota?
Muitos anos antes tinha sido uma sonhadora, dedicada à causa de formar família, de singrar naquele rumo, plena de todo um enorme manancial de amor.
Nada dera certo por muitos esforços que fizesse. Em cada passo dado, a vida deixou-lhe o gosto amargo dos falhanços e uma certeza começada a construir,  de que algo estava errado nela. Algo nos seus genes, na sua matriz, estava contaminado. Nas suas veias devia  correr  uma infecção que jamais seria curada.
Miguel contribuíra, sem dúvida, para que tal acontecesse. Submetera-a, subjugara-a, traindo-a e humilhando vezes sem conta. A ira contra ele era medonha mas a principal  raiva sentia-a por ela própria e pela sua cobardia.
Não sabe bem porquê, mas os sonhos nunca a tinham abandonado, tornando-se na única jangada disponível para não se afogar.
Tinham passado muitos anos, até ele se acalmar e serenar perante a vida.
Mas que restara dela? Que restara dos dois?
Ele parecia ter encerrado a vida. Existia sem a ver e ouvir. Ela compreendia agora que ele a  matara. Antes trocava-a, agora ignorava-a.
Sara recusara-se a envelhecer, a calar o corpo, a desistir de si.
E ao fim de tantos anos, a ira apossou-se dela como um veneno de acção lenta mas letal.
Pouco a pouco, aquela raiva surda começou a invadi-la. Num dia desenhava-lhe uma nova ruga, noutro esculpia-lhe magramente as maçãs do rosto ou branqueava-lhe mais o cabelo revolto. Todos os dias a ia secando  como algo visceral e imundo.
Tentara muitas vezes libertar-se daquele anzol sem contudo o conseguir.
E um dia, tranquilamente, Miguel morreu enquanto dormia. Sem dores, sem pavores, deixava-lhe em testamento toda a ira que nela plantara.
Nesse dia explodiu pela casa, partiu objectos, rasgou roupa, dançou numa espécie de estertor, como uma boneca partida, uma marioneta sem fios.
Gritou para as paredes  o que guardara em si, tentando que tudo o que sentia  desaparecesse com ele.
Ali, enfim sozinha, naquele pedaço de relva que a sustém, sabe que ainda não se livrou daquela ira. Falta-lhe algo, uma última catarse que a exorcize.
Caminha devagar, pisando a gravilha num som acidamente corrosivo e irritante, tentando esmagar a vida perdida.
Nas paredes em frente ao cemitério, contrastando com o imaculado dos seus muros, um grupo de jovens grafita frases e desenhos.
E de repente, num acto que denomina de pura loucura, mas que lhe parece genial resolve falar com eles. Nem são precisas muitas palavras porque eles lhe sorriem e incitam de um modo que nunca ninguém fez.
Munida de uma lata de tinta, começa a escrever o sentir amordaçado. Os “companheiros” incitam aquela mulher de cinza e cabelo branco que saiu do cemitério.
E ela escreve e escreve, iradamente


Raiva
Farpas afiadas a deixar esquírolas
Raiva
Rasgões violentos cuspidos da pele
Raiva
Um corpo em desvario a partir cortinas ocultas
opacas de tanto serem rasgadas e refeitas.
Negro, breu e sem vestígios de um raio de sol.
Negro, encardido com a mágoa
que os loucos não reconhecem.
Vontade de voar e cair livremente do espaço
a abraçar as árvores, a ser absorvida pelo mar,
a mergulhar na relva e nas azedas amarelas.
Pele a arder e púrpura nos olhos
chispas a chicotear paredes
e a sair lá para fora num bando de asas rutilantes.
Raiva
Negro, vermelho, cinza com laivos, laranja ardente
Raiva, raiva, raiva
E um coração a rebentar violência
e a esquecer doçuras.

Perante as palmas dos recentes “amigos” sorri envergonhada e lê e relê tudo o que saiu dela.
Inspira profundamente o ar que lhe parece agora mais frutado e leve.
Afasta-se quando o crepúsculo cai levando na face o rasto salgado da primeira lágrima.


© Margarida Piloto Garciain- 7 PECADOS II- publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013


© Pintura de Djordje Prudnikoff









segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Notas de outono




Anoitecia quando vieste cobrir-me de outonos.
E eu a voar como uma efémera, presa às poucas horas
que me restam para te dizer palavras impossíveis!
Teimam em mim os rubores extasiados e primaveris
de um corpo foragido e inquieto.
Confesso que te balbucio liturgias
enquanto te suspiro os cabelos, a boca entreaberta
à procura dos cheiros que possa engolir em golfadas
numa apneia de ti.
Trazes-me um frio azul e pálido como mãos silenciosas
que apenas me respiram intermitentemente
sem me arderem na pele.
E perdes-te sempre à bolina da razão enquanto me calas.
Doem-me os poros e a raíz dos cabelos
enredados no musgo dos muros que contróis.
Mas tudo entre nós é apenas paralelo.
Tu comes blinis em Moscovo nos jogos de vermelho e negro
enquanto eu saboreio crepes e sonho na Place de L’Opera.
E é por isso, que apesar do desejo estar perto
os nossos outonos nunca serão iguais.


© Margarida Piloto Garcia in "PALAVRAS DE VELUDO"-publicado por ORQUÍDEA EDIÇÕES-2015




segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Testamento





O que me cabe de ti são as palavras
Nada mais habita o testamento do que me deixaste.
Dentro de mim a tua voz passeia omnisciente
sobe os degraus do meu corpo
e grita ousada e quente na posse profunda e feroz.
Só as palavras nos pertencem
porque tudo o mais é labirinto e imaginação
Estas nossas  bocas são louva-a-deus que se devoram
sem que os olhos se abram e desnudem verdades.
Cresces em mim e eu abro-te o centro de mim mesma
para que nele expludam os céus e as marés.
Mas apenas te sonho e te aconchego sem pressas, nem temores.
A tua presença ficou agarrada às maçanetas das portas
 e aos cortinados flutuando nas janelas. Tudo respira o teu hálito.
Eu trago o sorriso a tremer, corredor fora. Busco fantasmas
de uma ausência bruscamente afirmada.
Mas nada mais existe e necessito
e a vida que me resta, está toda nas palavras que me cabem.


© Margarida Piloto Garcia in "ESSÊNCIA DO AMOR III"-publicado EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015


© Foto de Iaia Gagliani


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ontem






Ontem escrevi sobre ti
sobre os tempos em que me delineavas a anca
com dedos firmes e aguerridos
e os deslizavas pela minha cintura
numa espécie de morte anunciada.
Tinhas sempre um medo de me perder
agarrado a ti, como se fosses um eterno náufrago.
Eu escondia entre as pernas a impaciência
e rugia palavras proibidas em pressas desvairadas.
Ontem senti na boca o teu sabor a sal
como se fosse a última onda
de uma maré imperfeita.


© Margarida Piloto Garcia in-ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA VOL VI "ENTRE O SONO E O SONHO"-publicado por CHIADO EDITORA-2015


© Tela de Suhair Sibai


  

domingo, 17 de novembro de 2013

Declaração




Declaro que te espero
nos dias em que a chuva me mitiga o fogo
nas noites em que o corpo em rebuliço
se entretém em danças e litanias solitárias.
Não venhas se me temes
ou se a tua fornalha não anseia pelo meu mar interno.
Tenho em mim a telúrica força de uma valquíria
e ouso defrontar o teu guerreiro altivo de canto rouco
e a tua espada acesa a queimar-me desde a boca
até ao vórtice onde o desejo renasce
num devorar repetitivo e lancinante.
Declaro que te espero
e sempre te esperei.
Esta música da pele tem um travo doce de devaneio juvenil
e a carência vivida das inclementes horas.
Declaro que te quero
assim, neste final que chega manso e louco.
Por isso
antes que os deuses te roubem ao insano desejo
vem.


© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013


terça-feira, 12 de novembro de 2013

A estupidez humana





Estupidez, aquela, a humana que Einstein disse que era infinita. Nada tem a ver com literacia ou capacidade  intelectual. Para além de infinita é pegajosa e traz um arrepio gelado à minha pele.
Enfrento a estupidez  de alma lavada, nua de preconceitos e juízos. E ali fico, à espera que ela suma no chão, diluindo-se numa poça líquida. Mas a estupidez ergue-se e como num filme de ficção assume forma humana e cresce para mim.
Vou buscar argumentos implacáveis, fatais e irrepreensíveis. Esgrimo palavra contra palavra, num ballet rítmico cheio de pliés, cabriolés, jetés. A meio da dança a estupidez abranda e eu deixo a irritação relaxar.
Mas nessa altura sou de novo atacada com novo vómito de verborreia inusitada, um bafo quente e corrosivo que me atinge em cheio.
A estupidez nunca dá tréguas, por isso é infinita. Não compreende, não aceita, não vê. É um Ciclope cego, um bloco de granito contra o qual embatemos sem o conseguir transpor.
Preparo-me para nova luta. Avanço com a guarda alta e desfiro uns jabs, cross e uppercuts. Ela recua mas não tomba. Um suor escorregadio cruza-me o rosto e a boca fica nua e seca como um saco árido e vazio sem as palavras despejadas.
Tento não desistir da luta contra a estupidez humana. Às vezes transformo-me num ninja indecifrável e rondo-a sorrateiramente à procura de um qualquer modo de a derrotar.
Mas que resultado é possível contra este adversário temível?
No fim, ensaio um sorriso ensolarado a entreabrir-me os lábios. Foco o olhar na distância a calcular o voo e a mente parte vestida de silêncio.
Na minha frente a estupidez incha e dá o braço à irritação.


© Margarida Piloto Garcia






quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Poema pouco sereno






Não há serenidade  no meu olhar.
Intrépidas são as buscas e eternos os porquês.
Não esperes do meu corpo
a mansidão das searas flutuantes
porque ele tem pressas e tumultuosas vagas.
Não busques em mim
a paz contemplativa do fim dos tempos.
Tenho rubras esperas a tingirem-me os lábios
e abraços esfomeados agarrados a mim.
Talvez um dia possas dizer
que o meu corpo é uma casa
da qual sabes os recantos, as esquinas e os lugares sagrados
ou o ultimo reduto onde comes e dormes
enquanto as estações dão a volta ao mundo.
Mas não teças dialéticas sobre o que quero e sou
e não enchas de balas
o que apesar das palavras noturnas e dos desejos camuflados
ainda não é teu.


© Margarida Piloto Garcia