sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Nome





Soletro o teu nome
devagarinho
como se de uma reza se tratasse
como se a fragilidade de que o revisto
fosse em mim a força do amor.
Digo-te em sílabas
espaçadas
impregnadas dos dias em que te leio
e das noites em que irremediavelmente te espero.
Há dentro de mim um rio
que inunda as margens e me transborda.
E enquanto te digo letra a letra
o teu nome é meu mesmo que o teu corpo não seja
mesmo que nós não sejamos donos de nada



© Margarida Piloto Garcia in "PALAVRAS DE VELUDO"-publicado por ORQUíDEA EDIÇÕES-2015



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Horas






9 da manhã.
Medo na garganta, fogo na pele, olhar impúdico.
Apressa o passo, atiça o fogo, a língua a arder, a boca aos ais

10 da manhã.
A mão na perna, a urgência nos olhos, o calor dele, a fome dela.
Corpos que chocam, beijos vorazes comem por dentro
lambem por fora, desnudam prazeres.
Derrete as mãos no cabelo dele, esculpe-o a cinzel, procura-lhe a vida.
No aperto dele, quase um temor, uma reverência.
Despe-a e encontra-a.
Rasga a fronteira, estala o pudor, vai-se mais fundo.
Solta o gemido, dança-o nas pernas, sorve-lhe o âmago
abre-se nele.

12 horas e o sol empina no horizonte.
Cavalgam ondas na cama anónima
e a tarde  lúbrica estende-os no  chão.
Música toca, velas acendem, lençóis engelham no calor do cio.
Palavras loucas rugem na tarde novos caminhos e desafios.
Ternos abraços, corpos de aço, laços e passos.
As horas escorrem suor e seiva, o grito é língua entre os cicios.
Morre mil vezes, parte-se em duas, faz parte dele.
Olhos de deusa, mítico oculto, fera voraz.
Há arremessos na tarde cálida, galopes ébrios , ventres a arder.

E chega a hora e a fome fica, rasga o abraço, parte o enlace
e mora a saudade no último beijo



© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Em mim





Insubordinada de mim mesma
a boca a calar por fora
o grito a rasgar por dentro.
Intemperados  apelos escondidos
no veludo cândido dos olhos.
Insondáveis iras a escaparem-se
dos gestos dançados das palavras.
E no corpo, última fronteira
a eterna reza do evangelho da paixão


© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013

domingo, 28 de julho de 2013

Flor de laranjeira




Virou a esquina e o perfume atingiu-a como um soco violento. Parou aturdida, a mão comprimindo o estômago, a respiração ofegante, o coração tornado corcel em fuga insana. O aroma era inebriante, quase sufocante de tão pungente e intenso.
Respirou fundo, muito fundo, as narinas tremendo,  na vã tentativa de que a fragância se diluísse nas veias sem a entorpecer demasiado.
Andou um pouco, cambaleante com a intensidade da resposta que o corpo lhe transmitia.
A rua era inclinada com meia dúzia de bancos a culminar a subida. Sentou-se e voltou a aspirar o ar limpo da madrugada azul. Uma brisa odorífera, chicoteou-a levemente numa carícia perversa e proibida e uma flor caiu da árvore e escorregou-lhe levemente por um fio de cabelo, fez um percurso em espiral e aterrou-lhe nos lábios.
Voltou a sentir o formigueiro intenso nas narinas e a resposta febril que o aroma desencadeava em si.
As flores nas árvores executavam um mágico e sensual bailado, agitando-se, lançando-se em voo feérico, dispersando-se, tombando e voltando a remoínhar rua abaixo.
Estremeceu inquieta, assustada pelas sensações transmitidas pelas flores da laranjeira. Encostou-se no banco, a saborear em pequenos travos os raios de sol perfumados.
Tantas lembranças a marcarem-lhe o corpo como cicatrizes mal curadas!
Tinha dias em que jogava um jogo: o do esquecimento. Nesses dias, o jogo era misericordioso com ela. Marcava-lhe a mente com um torpor sólido e palpável, uma espécie de cadeado que impedia as memórias de se escapulirem do local onde as guardava.
Era assim que se sentia quando nessa manhã caminhava aérea e quase intangível, antes de ter virado a esquina.
Depois ...tudo se transfigurara. O perfume intenso das flores tinha sido a chave que criara o dilúvio, a tempestade de emoções. De repente os muros ruíram e as lembranças jorraram em tropel, desnudando-a, violentando-a, derrubando-a sem qualquer pudor.
Fora num dia assim que o conhecera. Corria uma primavera quente e insidiosa, com a natureza a brotar por todo o lado num parto incessante e quase lúbrico. Sentia-se especial, com o amor próprio a cantar de prazer, à custa de um corpo flexível e de um novo penteado. Os recentes caracóis pareciam espirais de um desejo pagão a volutearem ao longo da face. Tinha uma leveza exaltada, nos movimentos quase lascivos de tango dançado e um apetite voraz de um não sei quê a queimar-lhe a pele.
Fora a casa de uma amiga que regressara de uma longa estadia no estrangeiro, com o intuito de passar uma boa tarde a trocar experiências. Ela apresentara-lhe o irmão mais novo, um menino maroto como carinhosamente o apelidou.
Ainda hoje se pergunta o que aconteceu. Seria a magia do dia primaveril, uma febre grassando-lhe o sangue ou o princípio de uma demência desconhecida?
Ambos se olharam e mesmerizaram.
A partir dessa altura tudo o que a rodeava se tornou difuso, distorcido. Tinham brincado com as palavras enquanto os olhos diziam outras. A tensão entre eles era tão explícita que deformava o espaço e o tempo.
A vida fora reinventada. Pareciam falar uma língua primitiva feita  com os corpos em vibrações e cicios. Ela ardia, o corpo em chama a palpitar num louco crescendo, os mamilos a sobressaírem triunfantes na blusa branca. Tinham sorrisos comedidos mas a sofreguidão de um beijo já corria neles. As cores em redor tornaram-se psicadélicas num alucinado e gritante tumulto. Magentas cinabrinos, vermelhos lacre, brancos cintinlantes, explodiam numa atávica orgia de sentidos.
Lembrava-se que tentara manter-se racional mas falhara , corpo e mente enlouquecidos num prazer tão antigo como o tempo. Duas horas de conversa tinham parecido cinco minutos mágicos e intemperados de lava ardente.
Pensando bem, não se lembrava de como a certa altura tinham ficado momentaneamente sós na pequena sala, que de súbito não era mais do que um casulo quente e magnético.
Descontroladamente e sem pensar tinham-se aproximado. O beijo fez os corpos embaterem e fundiram-nos. Foi sôfrego, voraz, canibalesco. O abraço selvagem que os uniu, tornou-os em cometas, supernovas, buracos negros.
A partir dessa altura nenhum dos dois voltou a ser como dantes.
Nos primeiros dias que passaram sem se ver, ela adoeceu de inquietação, o corpo a ressacar a falta do beijo. Não entendia aquele desejo enorme, aquela loucura quase demoníaca que a possuíra. Sentia-se uma deusa por ele também a desejar, a ela uma mulher de 52 anos já vividos, ele ainda um jovem com os 35 anos bem notórios no corpo musculado  e naquela fragante e viciante masculinidade com que a cingira.
Passaram horas ao telefone, alheios a tudo o mais, na inútil tentativa de compreenderem o que lhes acontecera. Ao mesmo tempo iam descobrindo quem eram e criando entre eles elos que como gavinhas cada vez mais os enlaçavam.
Ao princípio achara que era só desejo, uma incontrolável atração que os unira. Mas a primeira vez que fizeram amor, ele tremera como uma criança e ela chorara de uma só vez os sonhos perdidos e as mágoas rebeldes.
No quarto onde o sol lhes pintava os corpos com fórmulas de alquimista, compreenderam que o desejo se tornara paixão. Da janela viam o pequeno pátio onde as laranjeiras se enchiam de frutos doces prenhes de sumo, explodindo depois numa florescência impetuosa.
Impossível não tactearem cada milímetro do corpo e se devorarem com beijos sempre que estavam perto. A suas bocas conheciam todos os recantos e sem tabus ou preconceitos desvendavam todos os segredos. No fim gritavam sempre êxtases, murmurando depois versos no fundo da boca. A carência de um pelo outro era quase uma prece aflita, um cântico de alarme.
Ambos se sentiam virgens de tudo, inventando e reinventando a palavra amor. Porque era de amor que se tratava.
Sabia que o tinham percebido no decorrer dos meses e na morte anunciada em cada ausência.
Tantas vezes ela ia ao seu encontro e ao entrar na casa saltava-lhe para o colo como uma menina ladina. Ele ria sempre subjugando-a com beijos e chamando-lhe miúda louca, a sua adolescente.
Mas a pouco e pouco a preocupação de um pelo outro aumentava, os planos começavam a perturbá-la e a dor de não se terem sempre, iniciou uma rota feroz.
Ela começou a indagar-se, perturbada pelo que fazia. Sempre que passeavam enlaçados, sentia entre eles silêncios rezados que amargavam o pôr do sol.
Sempre fora uma mulher sem pecados a não ser os da imaginação. Há muito que o seu casamento ruíra e o marido seguira um outro rumo sem olhar para trás. Não havia filhos para lhe lembrar o passado e ela nem sequer pensara em encontrar alguém. E ali estava ele, com uma noiva à espera pronta a dar-lhe o que tanto ambicionava: um filho.
Sentia-se culpada, com sentimentos a baralhar tudo invadindo-lhe algo que fantasiosamente construíra. Ela podia bastar-lhe mas nunca lhe satisfaria o sonho.
Num dia de horizontes rubros tinha-o esperado, ansiosa como sempre. Música tocava, canções que lhes punham lágrimas nos olhos enquanto os corpos suados escreviam antigas runas e os rios entre as suas pernas desaguavam sempre num estremecer incontido. Ela juncara a cama de flores que agora lhes perfumavam os corpos. Inúmeras velas criavam caminhos de luz e sombra,  contando a história antiga  do amor entre um homem e uma mulher.
Foram frementes as carícias desenhadas com a mãos. Intensas, poderosas, loucas, a anunciar o apocalipse. Mais uma vez mergulhara nos olhos dele e tentara esgueirar-se pelas pupilas negras e magnéticas. Tinha querido arder nelas enquanto se desfazia no corpo dele. Cheirou-o como fera, embrenhou-se naquele cabelo rebelde e cingiu-o arrebatadamente. E amaram-se vezes sem fim, no eco dos tempos primitivos, como um pássaro aflito num louco bater de asas.
O corpo dela tinha sido instrumento onde ele com mestria tocara acordes rasgados e profundos num inimaginável adagio. E no fim, quando gritaram em paroxismo os nomes um do outro, ela libertara-o.
Durante muito tempo o corpo dele ficou preso no dela numa despedida muda. Não deixara que as súplicas a demovessem. Sentira-se oca mas amava-o demasiado para lhe negar o sonho.
Naquele dia ele partiu primeiro e levou-a colada à sua pele. A mulher que entrara ficou embrulhada na colcha da cama e no perfume das flores que desenhavam a marca dos corpos. Quando por fim saíra, levava os braços enlaçados no corpo à procura do dele. Por dentro a escuridão avançava, a corroê-la numa agonia que ela queria arredar correndo como louca e desfazendo a decisão. De olhos postos na porta fechada, achava que a dor iria acalmar com o tempo, com os anos, com outras primaveras a florir.
Mas a dor nunca tinha passado ou abrandado, num ritual que começava ao acordar e só a largava altas horas quando o cansaço da insónia a vergava.
É certo que erguera barreiras e se habituara a ficar entorpecida, perdida em pensamentos.
Mas bastara o aroma súbito das laranjeiras em flor para que a história daquele intenso amor e dos laços que cortara cerce e sem hipótese de retorno a devorassem como parasitas a roerem-lhe os ossos.
Passados doze anos, sentada no banco banhado pelo odor fulgurante, sabe que a dor lhe traz algo de bom. Com ela reviveu cada minuto do amor perdido e parece-lhe sentir de novo as mãos dele, fazendo-a e defazendo-a como barro moldável.
Nada mudou nela apesar dos cabelos brancos. Adolescente aos 52 e adolescente depois dos 70. Uma alma juvenil e ébria de paixão a espreitar nos seus olhos.
Devagarinho, enquanto o entardecer arrefece o perfume das flores, retira uma folha meio amarelecida do bolso do casaco. Desdobra-a com o cuidado de quem toca uma renda preciosa, as mãos tremendo como uma virgem em dia de descobertas.
Os lábios que sabem bem o gosto de um primeiro beijo nunca esquecido, recitam o último poema que ele lhe deixou.

“ Quando fechar os olhos
tu virás amor e eu farei
do teu corpo a minha casa.
Nas tardes melancólicas
Beijarei os teus seios de deusa
e morrerei em ti, onde sempre me esperas.
As muitas luas que passarem
sobre as nossas bocas
soletrarão o teu nome
e o beijo ardente perdurará
na memória das flores de laranjeira.”



© Margarida Piloto Garcia-in BEIJOS DE BICOS-publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2013





sexta-feira, 19 de julho de 2013

Confiança





Sem que a dúvida te traia
confia em mim.
Desde a aurora a despontar no corpo
até ao ocaso dos desejos
segue a minha rota e peregrina-me.
Desde o dia em que as nossas palavras
caminharam de mãos dadas
até ao momento em que a carne se desprenda dos ossos
e estes sejam apenas cinza a amar os oceanos,
sempre confia em mim.
Não tenho mentiras a chocar contra os dentes
nem salivas que não sejam osculadas.
Trago um abraço pleno
feito de pele branca, onde espreitam janelas azuis.
Apenas te aconchego porque te quero rebelde
e largo-te do cimo da falésia numa liberdade
que será sempre tua.
Por isso, confia em mim.

© Margarida Piloto Garcia in "SOM DE POETAS"-publicado por PAPEL D'ARROZ-2015



domingo, 14 de julho de 2013

Busca




Ando à procura de ti.
Meti-me nesta saga, armada de um espírito de conquista e descoberta, a cabeça cheia de sonhos quase inatingíveis. Ainda não percebi porque tenho este anseio frenético de almejar o ideal. Quem sou eu afinal neste mundo transgénico e longe das lendas arquitectadas em criança?
Dia 2

10,30h
Tu chegas. A passada larga como que te percorre de alto a baixo, subindo-te pelo corpo até aos cabelos revoltos. No meu louco devaneio esqueço-te o fato de bom corte e vejo em direção a mim, um guerreiro viking de armadura reluzente. Fico emudecida no acalento de um corpo a despertar ansiedades. Tento ser realista e ver-te tal como és, de carne e osso, mas ser moura encantada é mais forte do que eu.
12,30h
Ao fim de 2 horas, tenho estampado em mim os restos calcinados da ilusão. Parecias um deus mas não te consegui navegar na voz, nem perceber-te um sentido de vida. Tanta futilidade, tantos rasgos de vida material, tanto que faria as delícias de alguém que não fosse eu.
 Eu...esta mente em alvoroço, este corpo feito de aragem perfumada, das areias quentes de um deserto à espera dessa água que me mitigue a sede sem nunca me saciar.
Dia 8

Procuro-te nas praças, nos areais a parir lonjura e paixões ardentes. Tento encontrar-te no aroma de um café, no apelo de um quadro, no raio de sol que lambe a face.
A insistência deste apelo torna-me frenética, ameaça desnudar-me as paixões e ânsias em qualquer praça pública, incita a minha loucura a desbravar e transpor  os limites que a vida me ensinou.
Se os aceitei foi numa mentira que forjei para mim mesma, para continuar a demanda sem que me venham trazer leis encapotadas de palavras mornas e mansas.
Dia 12

14,30h
Olho-te numa demora escrutinadora. Extraordinário como as palavras te fluem num discurso carismático. Ambos sabemos como fazê-las entoar deliciosos trilos que se insinuam em nós como punhais.
Permaneço num langor que me esvai, enquanto a tua mão enceta uma rota rumo ao meu corpo e a tua boca se aproxima num fôlego a partilhar.
Cerro os olhos ao sol que foge no horizonte, tentando embalar-me na cadência do que dizes. Não quero abri-los para descobrir enganos  e tornar prosaica a poesia do que já dissemos.
Inútil! De súbito gelo, numa recusa que me emudece, quando num arrepiado e consciente momento me apercebo da ausência da fisicalidade entre nós.
Se antes condenava o sonho, agora arrependo-me da realidade que acabo de sentir.
Dia 21

Os dias passam num atar de nós de incertezas e buscas permanentes.
Existirá aquele que me pode trazer o festim do amor que o meu imaginário almeja?
Dia 25

18h
À medida que me lanças um daqueles sorrisos de menino, tento sondar-te  e ver para além do que os teus olhos me dizem. Não acredito em olhares, desconfio da sua veracidade. Sei que por vezes traem, são teatrais e escondem nebulosos segredos.
Lembrava-me dos teus de há alguns anos e do que sempre julguei saber deles. Talvez eu afinal não soubesse tanto assim, e fosse apenas a minha imaginação que me incapacitasse de um juízo fiel.
Mas continuas a agradar-me  com o teu corpo esguio a tentar cingir o meu, os teus lábios frementes, que antes da busca dos meus, tentam dizer palavras que sabes de antemão o meu intelecto te exige.
Estás perante mim e eu penso, num ardil que lanço a mim própria, se a busca terminou.
Escondido atrás da porta o amor hesita, e à laia de um cupido ladino e ardiloso, pisca-me o olho e abana a cabeça.
Ainda não...


© Margarida Piloto Garcia



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Pedido em três tempos





Pediste-me que te dissessse que te amava.
Cá dentro havia febre como água a correr
vontade que a garganta se abrisse
e que as palavras pressurosas
saíssem  mesmo que atropeladas.
Queria gritar em mãos cheias
de vibrações, o que o corpo não calava
nas ondas azuis e ansiadas
de uma juventude crepitante.
Mas eu ainda mal aprendera o nome das palavras
 que apenas me permitia murmurar.

Pediste-me que te dissesse que te amava.
Não precisavas, não precisaste nunca.
“Amo-te” era uma ladaínha
que eu orava no teu corpo
mãos em cadências raras
toda eu em devota adoração.
“Amo-te” não tinha hora ou dia
ressoava mesmo nos silêncios
em que tu não estavas
ou formava um rosário de pérolas
a escorrer da minha boca
para tudo o que eras tu.

Pediste-me que te dissesse que te amava.
E eu tremi no dia quente
sentindo o frio de um vampiro
procurando-me o sangue.
Queria escorregar na tua pele
lambendo nela a palavra desejada.
Mas agora não há força que me faça
descerrar os lábios
nem cavalos selvagens
à desfilada no meu corpo.
Não quero atar-te numa mentira cega
e o que me pedes não encontra espaço
para ti, no meu vocabulário.
Mergulho o olhar no horizonte
e apenas te abraço.


© Margarida Piloto Garcia


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Entre nós




Da tua pele à minha
vai um suspiro e um vibrar de línguas
em reptilíneos arremessos.
Vão dedos diligentes, colibris apressados
invasores que permito e acalento.
Entre ti e mim há cidades e montanhas
rios e gente, num horizonte de lonjuras.
Mas tu constróis o caminho com as palavras
e eu desenho em mim uma rosa dos ventos
para que me percorras sem nunca te perderes.
Do norte da polpa dos meus seios
rumas ao sul já orvalhado.
Meu corpo em cataclísmico desafio
arqueia-se em ogiva
as pernas sucumbindo em agonia.
E no estremecimento já não há distâncias.
Da minha pele à tua vai um  sonho.


© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013


sábado, 8 de junho de 2013

Fim de tarde




Hoje apetece-lhe alguém
que lhe ame o corpo
sem sorrisos doces
sem palavras a enganarem os sentidos.

Anula a alma
um estorvo que carrega
como o peso de uma mala vazia
ou um pássaro morto.

Precisa de urgências
porque não quer sentir.
Apenas deseja ser um animal
no cio da primavera.

Hoje apetece-lhe
que nada lhe apeteça
e o dia finde.


© Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS-PARTE II-publicado po PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013


terça-feira, 7 de maio de 2013

Tanto e tão pouco








Sabes-me sempre a pouco
quando chegas com os teus olhos de espanto
e a boca sôfrega a desvendar a minha.
Os teus cabelos cheiram profundamente a sol
e atam com nós trémulos a paixão que carrego.
Deixo uma lágrima morna
beijar-me os cantos da boca que já só sabe à tua.
Misturo-a com a saliva numa alquimia pagã
enquanto o teu corpo me dita húmidas pressas.
Abraças-me como um mar de sargaços.
Enleada em ti sou apenas uma pequena flor
a proteger-se do vento das palavras que me cantas.
Das tuas mãos espero sempre a vida celebrada
quando me tornas tua e emudeces.
Não quero que me saibas de cor.
Apenas que te surpreendas sempre
e renasças para me redescobrir mais uma vez.
E de gazela estonteada e débil
torno-me loba nos luares da vida
para poder ser presa e predadora.
Em mim deixas sempre uma urgência
que receio não calar.
Por isso, mesmo que não consigas debelar
esta fome de ti
o pouco que me dás sabe-me a tanto.


© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Silêncios








Talvez eu goste dos teus silêncios
porque não trazem laços.
Sentados  junto ao rio que corre
esquecemos palavras.
Apenas o teu olhar escreve alfabetos
tão antigos como o homem.
Tenho perguntas para fazer
mas navegam num barco de papel
feito das últimas letras  que escrevi.
Deixo o meu ombro desnudar-se
e secar-te os discursos.
Agora, já só tens um desejo
gritado no silêncio.
Não levamos connosco âncoras
de passado ou futuro.
Só temos o momento a tremer nas pestanas
e a escorregar devagar pelas margens do corpo.
E se eu quiser
pronunciar palavras proibidas
por favor não me deixes fazê-lo
e sela com a tua a minha boca.


© Margarida Piloto Garcia in-POESIA SEM GAVETAS II-publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013




quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sem palavras






Pelas pontas dos dedos
as palavras não escorrem.
Recusam-se a caminhar nuas
a despir-se para mim.
Os meus olhos não as transbordam
teimam em calá-las num brilho aquoso
a esconder constelações.

Num silêncio que me come por dentro
caminho devagar na sombra que deixaste.
As palavras não morreram
prendem-me com os nós que não soubemos dar.

E é neste duro enleio
que te sinto, mas te apago,
te devoro e minto.
Eu guardo a pressa de um amor aflito
tu, jazendo a meus pés já nada sendo.

A minha saia dançando
a minha roupa em voo
no rasgo alucinado da asa da gaivota.
Meu corpo amanhecido
rubro ventre
seiva que o teu navio implorante guarda.

Mas de encontro às minhas coxas de cetim
há muito naufragaste
enterrando o sentir neste meu mar profundo.
E as palavras que te impediriam de partir
eu não as soube então
nem nunca as saberei.


© Margarida Piloto Garcia-in PALAVRAS DE CRISTAL-publicado por MODOCROMIA-2013

Web -art de Yolanda Botelho



sábado, 13 de abril de 2013

Mala de viagem






Há muitos anos a vida cabia toda numa mala de viagem. Não daquelas que agora se usam. Apenas uma que levava na mão com toda a energia da sua juventude. Ana lembra-se que nela cabiam poucas coisas, a maior parte dos seus bens materiais, mas a bagagem dos sonhos era enorme.
Agora alonga o olhar num rio juncado de gaivotas. Traçam-lhe percursos, todos divagantes. Em cada voo um grito, em cada mergulho um sonho afogado. E o rio enche e vaza em perenes partos sempre anunciados. Ana passeia por entre o verde vibrante que a nova estação fez desabrochar. Busca flores, com a alma aflita de quem minera ouro, num eterno cansaço de novas descobertas. Agarra-se à terra buscando raízes que a prendam à vida e sonha, sonha sempre. Nos campos ou junto ao mar, sente-se um espírito livre. Enverga palavras borboleteantes, salpicos de ondas ou pérolas de orvalho matinal. Parte em todos os navios que despontam no horizonte ou enche-se do aroma fervilhante da terra, qual insecto laborioso.
Ana afunda o olhar na distância e sorri no prazer antecipado do reencontro. Ao longe Luísa caminha na sua direcção. Traz um passo masculino, quase um contra-natura do seu pequeno mas viçoso seio, ligeiramente descoberto no decote. Luísa é toda alvoroço, palavras atropeladas distribuídas por uns lábios finos que não denotam a paixão que a move. Ana abraça e beija a amiga. De imediato ela lhe conta os dois últimos meses. As doenças dos filhos, as crises conjugais, os últimos falhanços. Fala-lhe dos quês e dos porquês, das raivas pendentes, das noites adiadas, dos solavancos do corpo miúdo, das ânsias de fugas desmedidas, das loucuras ácidas e picantes. Ana ouve-a e no fundo, tenta resgatar os navios que deixou naufragar nos rios que atravessou com a mala de viagem. Nas palavras da amiga, descobre os gorjeios do pássaro aflito que a consome. Já nem escuta, os olhos a dançarem desejos e os lábios gotejando  paixões arrítmicas. Ambas se debatem,  presas numa gaiola onde estiolam os sonhos de uma juventude.
Tornaram-se amigas na descoberta de ritmos dançados. Luísa mais saltitante, Ana mais apaixonada. Habituaram-se pouco a pouco a debitar segredos, a partilhar mágoas. De vez em quando, fogem ao quotidiano e atiram-se como setas a matar a inércia e a letargia. Descobrem sempre um recanto onde pairam como fadas. Partilham um copo e desfazem os nós dos romances. Numa certa loucura, dançam com magia, trauteando versos que lhes expurgam as maldições.
Depois que a amiga parte, de volta ao trilho que traçou, Ana pensa que também precisa regressar, não à vida sonhada, mas àquela que foi fabricando em tantos anos de vida. Ajeita o vestido preto que lhe faz destacar o cabelo louro, quase branco. Sente-se bem nessa cor sombria que há anos se sentiu compelida a escolher. É quase um luto pelo corpo mal amado. Por baixo, a pele explode em vermelhos luxuriantes, em laranjas flamejantes que só pensam em mitigar a sede em encontros azuis. Sob o vestido um arco-íris, uma palpitação, uma boca mordida. Por fora, sombras e placidez, só traídas por uma curva do corpo, pela sensualidade do olhar, pelo modo como enrola o cabelo nos dedos suaves mas febris.
A tarde cai e um pôr-do-sol desenha o horizonte como uma tela de Van Gogh. Pensa numa música de Bethânia a gravar-lhe palavras esdrúxulas na alma magoada. Não quer pensar na casa sem flores nas janelas, na paisagem quase alienígena dos prédios que a cercam e lhe serram as pernas com que dança e as mãos com que acaricia. O encontro com a amiga já se esfumou, deixando-lhe a boca seca e um frio a lamber-lhe as margens do corpo.
Já não tem a mala onde cabiam os sonhos e os poucos pertences. Agora seriam precisos muitos caixotes para empacotar os valores, mas também os desperdícios de toda uma vida. A tralha substituiu toda a esperança e delapidou-a.
Pensa que caminha para um fim e a única coisa que desejava era um caminho de luz por onde seguir e uma mala de viagem carregada de sonhos


© Margarida Piloto Garcia in- "CORDA BAMBA"- publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2012





quarta-feira, 10 de abril de 2013

Hoje



Quero que o hoje seja amanhã
ou outro qualquer dia.
Nunca um hoje onde guardo aflita
a alma amarrotada e dobrada
numa caixinha de cantos esquinados.
Uso a mente, dou corda ao coração
tento poli-la e arredondar-lhe
as arestas vivas e quase cítricas
como um limão azedo.
Hoje a asa da andorinha
não cruzou este horizonte
nem me falou de risos.
A chuva pintou de cinzento
estas mãos com que escrevo
desejos de outros tempos.
Talvez venha um amanhã
ou outro qualquer dia que não seja este.
Talvez.
Eu apenas estremeço as pálpebras
fecho a caixa dos sonhos à espera
e encerro a página do dia que não foi.

© Margarida Piloto Garcia in-NÓS POETAS EDITAMOS- VOL II-2013





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

EU





Se eu fosse EU, seria de um outro universo
uma guerreira bela e escultural
com algo de uma qualquer nipónica série de tv
mesclada de uma ocidentalidade suave.
Se eu fosse uma gota de suor, escalaria a tua pele firme
e só pararia quando me misturasse à saliva
na ponta da tua língua.
Se eu fosse uma deusa, teria um exército
de animais falantes, estranhamente belos.
Voaria sobre toda a natureza e
pintaria uma tela de arco-íris encantados.
Se eu fosse o fulgor do teu olhar
forjaria amor desde a alvorada
até me exaurir no pôr do sol.
Se eu fosse EU
Ah, se eu fosse EU...seria uma mulher feliz.



© Margarida Piloto Garcia





domingo, 10 de fevereiro de 2013

Ousadia






Levanto-me da aridez do dia pasmado e decido que hoje vou voar, jogar-me lá do alto de uma montanha e planar sobre o mar. Quase que sinto na boca, o ar prenhe do perfume pungente das acácias e quero render-me ao medo sem que ele me violente.

Não sei, mas talvez hoje pegue no carro e parta em direção a lado nenhum. Vou levar os ouvidos a escorrerem um soul profundo que me corrói a pele e procurar por aí a solidão dos que me são iguais.
Atrevo-me a encontrar-te, sentado num areal perdido onde me cegas os olhos e me prendes o tacto.
Dispo-me de preconceitos, para que no meu corpo grites como as gaivotas que nos surpreendem e pasmam.
Juntamente com o sol, preenches-me e transformas-me num cristal translúcido. Não te conheço, mas já te ouvi tantas palavras, que agora só preciso do primitivo enlace. Não gritarás sozinho, porque tenho esta ânsia de te dominar e de saber que na tua boca, o meu nome é prece suplicante.
Ouso ir mais além e procuro nas azedas amarelas, um outro que me traga cânticos de guerra gravados em runas milenares e mate esta fome suicida e sôfrega de que não sei o nome.
Há um mudo e atávico sentimento, que dentro de mim ata nós em que me enleio e cria enigmas que não sei desvendar.
Hoje vou ser louca num filme de cinema mudo.
Calei todas aquelas palavras que desfilam permanentemente em mim, numa esquizofrenia alheia aos outros.
Transporto comigo um vendaval que já ninguém pode travar.
Percebo agora que a minha ousadia é muito maior e vai mais além. Roeu todas as grilhetas, rebentou barreiras e tem um nome que não posso pronunciar. Deixou de se esconder e enfrenta-me disposta a triunfar sobre uma cobardia acomodada.
Não mais algodão doce, apenas o travo amargo da verdade a deixar antever especiarias picantes de que a vida é feita.
Sou a última partícula de um universo em explosão. Nada mais para além de mim, do que sou, do que resta, do que sempre fui. Um sonho atormentado lido nuns olhos de criança.
E é hoje e é já, que me atrevo e que ouso.
No alto da montanha ou nos corpos que enleio, busco a minha verdade pela última vez.
Se falhar, que importa?
Vou acabar gritando madrugadas para sempre e Fernão Capelo jamais será gaivota.

© Margarida Piloto Garcia in "CONTOS AO VENTO"publicado por EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015