segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Aconteceste-me







Simplesmente aconteceste-me.
Havia já uma inquietude de sonhos no ar ligeiramente morno do teatro. Num último frenesim as pessoas acomodavam-se nas cadeiras, numa mistura exótica de aromas e hálitos.
Sentei-me, ou melhor, deixei que o veludo vermelho me envolvesse o corpo numa carícia quente e entorpecedora. Mergulhei dispersa nos murmúrios que me cercavam, num antecipado gozo pelo espetáculo.
Não sei que ardências desabrochavam naquele dia em mim! Quando penso nisso vêm-me à cabeça feitiços ancestrais, origem de luxúrias inauditas. Corria nas minhas veias um fluxo estranho, uma febre esdrúxula e galopante a deixar-me a pele quase a gritar.
Tu surgiste minutos antes de tudo começar e foi como se te tivesse inventado na hora,   à medida dos meus desejos e da minha fome.
Sentaste-te deixando vago o lugar entre os dois e nesse instante fugaz cruzaste o teu olhar com o meu. O ar à minha volta tornou-se rarefeito e o vestido preto que envergava apertou-me o corpo num amplexo bravio. Trouxe saliva aos lábios numa vã tentativa de os amaciar. Mas eles já tinham ânsias rebeldes e uma aflitiva dependência dos teus.
O espetáculo começou. Os tangos argentinos plenos de chamas de uma Buenos Aires quente e apaixonada, as milongas primitivas e ritmadas, cresciam e lambuzavam a imaginação, incendiando o palco.
Deixei-me levar pela magia dos corpos e da música, o coração a galopar frenético no meio das notas do bandonéon.
Entre dois passos de corte e uma media vuelta, olhámos um para o outro separados pela estranha barreira da cadeira ainda vazia.
Desviei o meu como corça aflita, apercebendo-me cada vez mais do que me provocavas.
Os saltos e os tacões ecoavam no palco e agora era sobre o meu corpo, de uma  nudez de seda branca, que dançavam. Os pés dos bailarinos marcavam nele os tempos e os enlaces, mas eu apenas sentia a tua boca, viva e suculenta, a devorar-me como fera em cio.
A música carregava no ventre, quase a parir, paixões incontroláveis.
No meu lugar, eu tinha a certeza que brilhava num calamitoso apelo espartilhado pelo vestido.
O arco do violino tangia-me, expondo-me em carne viva às emoções e ao prazer que eu sentia que viriam da tua boca pressurosa e faminta, das tuas pestanas longas a pintarem-me em pinceladas diáfanas.
No palco a coreografia atingia um ponto alto, numa pose de machos a seduzirem  fêmeas e a vergá-las à sua vontade num último alento. Nesse momento a minha boca entreabriu-se para deixar fugir o resto de um grito meio amordaçado que se perdeu no aplauso do público.
O intervalo chegou e as luzes acres e brancas banharam o teatro e isolaram-me numa aridez crua.
Fiquei sem saber se me devia levantar e misturar com os outros, se ficar ali escondida naquele baluarte vermelho. O problema era pensar no que tu farias também e no que eu queria exatamente. Mas sentia-me febril, esgotada, húmida e palpitante e foi nessa pressa que me ergui, as pernas trémulas a tocarem-se e a despertarem ainda, aqui e ali, uma faísca ao longo das coxas.
Durante aqueles minutos tentei apaziguar o meu mar interior, a minha epidérmica falta de inocência. Num estranho batismo aspergi água fria nos pulsos, na cara, na gota de suor que descia como réptil no meio dos meus seios. Não me reconhecia no espelho, rosada de um prazer impudico e violentador.
Quando voltei à sala não te vi e respirei fundo acalmando os meus anseios.
O espetáculo recomeçou e a tua cadeira continuou desocupada. Agora a inquietação era flor de cardo, desespero a criar raiz, dúvida feita cadafalso.
Gardel soava ebulindo os corpos vestidos de negro e vermelhos inflamados.
E foi nesse momento que o teu perfume se introduziu em mim, invasivo, pungente, quase promíscuo de tanta sexualidade arrasadora. Sem me aperceber ocuparas o lugar a meu lado e o teu perfil desenhava uma fronteira que eu queria transgredir.
Os meus joelhos nus e desvendados tremeram.
 Agora cada passo do tango, os cortes, as cruzadas, eramos nós que os dançávamos, sincopados, carentes e predatórios.
Baixei os olhos para as tuas mãos, belas e poderosas, mãos de pianista, suaves mas viris. Imaginei-as capazes de tocar em mim todas as sinfonias e sonatas.
Presa às imagens que despudoradamente idealizava, o leve toque do teu braço lançou-me numa espiral sem retorno. Às 120 batidas da dança, respondia o meu corpo numa corrida que as superava.
 Alienada num interno desvario desejava mais do que nunca o poder da tua boca a desvendar-me em estocadas e as aranhas das tuas mãos prendendo-me numa teia,  enquanto escorregavas na seda do meu vestido.
Antes que a pequena morte chegasse e me derrubasse numa síncope inaudita, levantei-me e fugi para a rua  a abraçar o frio e a exorcizar os meus demónios.
Mas eu acontecera-te tal como tu a mim.
Por isso, dez anos passados, ambos celebramos aquilo a que não queremos dar nome, dançando um tango argentino.


© Margarida Piloto Garcia in- " SEDUZ-ME " -publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2014


© Foto de Alfredo Ventura Sousa, concebida a partir do texto.






segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Desabafo




Preciso habituar-me à imperfeição, logo eu, de imperfeições feita
agarradas aos olhos e ao cérebro latejante
Ergo-me inconformada e inquieta, o rio do corpo a correr não sei para que foz
as margens a tropeçarem nos azares e a vida a tentar passar a fronteira da pele
Mas que importa, se crias outro dialecto com que me assombras com a futilidade de um romance!
Às vezes o coração fica míope de tão inocente e desacertado
E depois? Olho para trás e para dentro , a mão nervosa a tocar os olhos
como se as lágrimas fossem cordas de guitarra.
Os anjos puxam-me o cabelo e os pássaros abraçam-me com asas cinzentas
a salvarem-me do que não controlo, olhos magoados a escoarem dores.
Não grito como flor aberta, não deixo escorrer por entre os dedos
o desassossego da sede feroz e da fome a roer as entranhas.
Agarrada ao sonho teimo cegueiras em palavras lúdicas
em cheiros de corpos que a paixão louca não questiona
em sabores engolidos e pele a arder no vazio enclausurado.
Mas emudeço os tacanhos e delirantes sentimentos
porque algures num mundo escangalhado sem velas e sem leme
mais uma mãe encosta o corpo na fronteira da dor
e exausta, desabita a lucidez enquanto abraça o filho morto.


© Margarida Piloto Garcia  in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019


© Foto de Jonè Reed








domingo, 17 de agosto de 2014

Anúncio de jornal




1º anúncio:
“ Homem jovem e pronto, precisa-se. “

O suspiro arranca-lhe um som agudo do peito. Agita-se. Estremece. Aquela força desabrida que mais parece um urro, sacode-a de uma ponta à outra. Sente um sufoco inusitado, uma espécie de febre galopante, que lhe arde nos poros e na raiz dos cabelos.
Anda em frente ao espelho, medindo-se e calculando a avidez do corpo. A impaciência que lhe grassa no sangue torna-a explosiva, rebenta-lhe chispas nos olhos. Desinquieta-lhe as mãos, cava-lhe anseios no ventre.
Levanta-se, senta-se, volta a erguer-se. Espreita pela janela ruídos de uma festa domingueira e lambe os lábios, no gosto ousado,  que retira das imagens de ancas sacudidas nos corpos que passam.
A certa altura não hesita. Lança-se rua fora num passo corrido, ao encontro do que sabe que a espera.
Não olha a nada quando se atira nos braços dele, no pequeno escritório clean e sem aromas.
Ele tem a força de uma juventude rude mas sábia e vivida. Mordisca-a e beija-a, põe-lhe o corpo aos gritos, aos soluços, possui-a sem demoras, espalmando-lhe os seios na parede que ela arranha, enquanto atrás de si o macho acutilante a devasta em paroxismo.
É daquilo que precisa, daquele vigor primitivo a calcar-lhe aos pés o pensamento, deixando apenas uma fêmea em cio.
Quando tudo acaba, não são necessárias palavras ou gestos inúteis.

2º anúncio
“ Homem maduro e competente, procura-se.”

Precisa de um café.
Sai, de ombros descobertos ao sol ainda morno  e levemente rosado.
Sentada na mesa debaixo da sombra da amendoeira, vê-o aproximar-se.
O encontro marcado é só para deixar as palavras rolarem, mas elas afagam-lhe os braços e os seios como mãos famintas.
Como uma aranha tece a teia e sente-o estremecer sem contudo se tentar libertar.
Foi tão fácil, que ela já só lhe sorri e pousa a mão na perna, firmando os cinco dedos como tentáculos, tentando passar-lhe as impressões digitais através das calças, da pele, do músculo fremente até ao osso.
Rapidamente combinam um local. No caminho banalizam a conversa, enquanto ele lhe diz que gosta das coisas devagar e sem pressão.
Ela ouve-o desatenta, como se tudo o que ele diz não passe de um anúncio célere e papagueado, no meio das canções que uma rádio vai debitando e ela entoa baixinho, a mente em apoteose delirante do que se seguirá.
Sente-se estranha quando entra no quarto, como se o desejo que a revestia tivesse estalado como uma frágil capa de verniz.
Afasta o pensamento quando as mãos do homem a começam a acariciar.
De repente, a única coisa que ela consegue ver, é aquela masculinidade dirigida a ela.
Lembra-se de que ele não quer pressas mas neste momento isso não lhe interessa.
A sua curiosidade vai direita ao que ele, nu, ostenta vigorosamente entre as pernas e que ela acha quase obscenamente notável, digno de um qualquer filme porno onde a história e o diálogo são meros acessórios.
E é isso que ali se passa. Tudo o mais é dispensável e supérfluo, a não ser aquela vontade dela de que ele a devore, a preencha, a faça vergar numa súplica por mais.
Tem receio perante o que viu, mas o corpo diz-lhe que o desejo é tão grande que tudo permite.
Primeiro deixa-o ser rei e senhor mas depois cavalga-o como uma selvagem agarrada às crinas de um cavalo por domar. Usa-o, desfruta-o, deixa-o a arquejar quase violentado mas plenamente saciado.
A tarde cai em roxos entumecidos.

3º anúncio
“Jovem à procura de dominadora, necessita-se.”

O cabelo negro balança-lhe na face incendiada, envolvendo-a num aroma  a pespontar-lhe agulhas no sexo a escaldar.
Guia lentamente no crepúsculo que quase se esvai naquele princípio de noite quente e pecaminosa.
O vulto do jovem cruza-lhe a mente e as palavras que ele costuma proferir são uma espécie de choque quase impossível de suportar.
Tão jovem, tão delgado, um querubim que a endeusa e lhe pede lascivamente que o consuma.
Céus, nunca se sentiu assim tão poderosa, o prazer a entrar-lhe pelas veias como uma droga potente! Ela é a deusa debaixo da qual ele ora, sucumbe e soluça, gritando por mais, enquanto ela lhe transgride o corpo com o objecto que a masculiniza.
 Nunca pensou percorrer tal caminho mas a luxúria poderosa que deles se apossa fá-la vibrar como um diapasão demasiado sensível.
Ele já entrou na idade adulta como uma criança viciada e de um modo burlesco e quase dantesco, é isso que o torna tão apetecível.
Espera por ele perto do jardim, faróis apagados e a respiração ofegante a tingir os vidros de uma supuração lacrimejante.
Ele está quase aí...sabe-o.

4º anúncio
“ Procuram-se sensações de luxúria, venham de onde vierem.”

Já trocaram palavras e textos e há um encantamento dourado no que ele lhe escreve. Revolta-lhe o sentir, esgrime-lhe a alma com estocadas ardentes mas tão sub-reptícias quanto certeiras.
Ela não quer aquilo. Os sentimentos são um estorvo que a impedem de usufruir em pleno da devastação que o prazer carnal lhe provoca.
De momento não tem como escapar aos efeitos daquela voz quente e sensual que a atira para incontáveis êxtases, que a faz cerrar as pernas com força e soltar gemidos quase uivados.
Está um dia fulgurante, quente e grávido do perfume pungente das acácias. O beijo dele é doce de mirtilo, canela e gengibre, quase obsceno de tão escancarado, provocante  e indagador.
Rende-lhe os ombros desnudos na blusa negra e arrendada. Rende-lhe os seios meio ocultos no soutien bordado. Rende-se toda quando ele a dobra e lhe invade, em beijos de língua, o baixo-ventre exposto àquela tempestade.
O vento engole-lhe os ais, quando se atira pela janela aberta a fazer dançar os cortinados brancos.
A porta fecha-se repentinamente, ocultando parcialmente a voz de Antony Hegarty que naquele tom que só ele possui a impede de pensar no seu desejo, na sua fúria de controle, na paixão única de obter prazer a qualquer custo.
Aquele acto deixou de ser puramente sexual. Foi maculada a luxúria crua e aditiva que a movia até agora.
Ele faz amor com ela, pede mas também dá, submete-se numa fragilidade cativante, mas oferta-lhe algo que ela sempre se negou.
De repente sabe-se pequena e exposta, o coração a querer dizer coisas que não são banais, as palavras ácidas e brutais que o sexo lhe dita, substituídas por outras, doces e caramelizadas, inebriada por algo que nada tem a ver com o corpo.
Quando tudo acaba, quer ficar nos seus braços e esse pensamento aterroriza-a e fá-la sufocar no pânico que dela se apodera.
Sai de casa dele a apagar desesperadamente a memória daquele local.
Nunca mais lá volta. O amor não faz parte da equação. Há coisas que não se podem deixar assim, abandonar de repente, sob pena de nos arrancarem um pedaço.
É tão mais fácil um rumo de prazer, sem que o coração peça meças e venha embrulhar a vida.
Tem que esquecer, seguir, matar o vício, uma, duas, muitas vezes.

Amanhã é dia de novo anúncio.


© Margarida Piloto Garcia in- 7 PECADOS MORTAIS-publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2013




sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Anatomia de um beijo




Olhavam-se as bocas em carnívoro apetite
em desassossego de lumes
vagueando o corpo como lobo feroz
Estudavam-se os lábios num percurso de lavas
a pensar geografias suculentas
Aqui e ali um dente alvo e canibal
emitindo chispas na iris predatória
Rasgavam-se as cortinas da vida
e dentro era fogo, era flor em grito
era raiva incerta, corpo exposto e aberto
papoila rubra a rebentar no ventre.
Degladiavam-se as bocas em desespero
a ressacar um vicio nunca experimentado
Corria entre eles o cheiro das acácias
o toque corrompido , um absurdo sem vírgulas
uma violência de bocas acesas a espantar a escuridão
Foi na desordem que as línguas respiraram
ressuscitando o calor e a fome, o princípio e o fim
tudo em revolta numa estrada louca e atropelada
sem razões sugadas nos lábios.
E a terra tremeu no grito dos corpos
E a vida cresceu no céu da boca
E não houve promessas a cumprir
porque nenhumas foram feitas.


© Margarida Piloto Garcia in "EROSÁRIO 2016"-publicado por SILKSKIN EDITORA 2016





quarta-feira, 30 de julho de 2014

O mundo da lua




Há muitos anos, era parte de mim a lua pendurada no teu corpo. Tu ias e vinhas na noite, num tropel que nem os cavalos do sonho conseguiam acompanhar. Nada era realidade a vestir-me o corpo e apenas o medo penteava os meus cabelos.
Tu seguias imune aos meus apelos, orgulhoso e falsamente convencido de que a estrada do luar era só tua. Agarrada a ténues esperanças, abri-te os braços vezes sem conta, na vã tentativa de que eles fossem abrigo e casulo, fossem caminho e cama de amores lunares. Mas a teia dos segredos a palpitar nos olhos, sempre nos enredou e os lobos a morderem a pele numa luciferina sedução, foram sempre vencedores.
Hoje os dedos doem-me quando toco o luar e me tento demorar na pele do teu corpo.
É em quarto minguante que a lua te recorta, suspirando maresias insensatas e insuspeitas. Nada consigo ouvir, os sons enclausurados num outro universo, nada consigo ver, cega pelas mentiras embrulhadas em papel colorido. E as palavras que poderia dizer ou gritar, calo-as porque perdi as asas de gaivota ao cruzar o último céu.
Com o teu lado escuro tentas agarrar-me num abraço luarento, os olhos postos, não em mim, mas na feiticeira iluminada numa gritante noite azul.
Mas algo se recolhe em segredo, refugiando-se dos gestos gastos e mínimos. Não tenho mais desejos grávidos de ti porque os isentaste de mim.
Agora, só desejo guardar  aquele lugar mágico , inviolado e secreto que nunca corrompeste.
Toma para ti o que com esqueléticas razões julgaste ser teu. Deixa-me apenas o mundo da lua.




© Margarida Piloto Garcia in- O MUNDO DA LUA-publicado por EDITORA LUA DE MARFIM-2014

© Arte de Dimitar Voinov Jr

 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Encontro





Se puderes
dobra essa esquina e abre os olhos
para me espreitares por dentro
Em qualquer pedaço de gesto, demora-te.
No intervalo da minha ausência
muda o tempo do verbo, mas não o próprio verbo
Desagua o verso sem pressa e faz fintas à vida
sem esquecer que a felicidade é um abraço
imprevisto
Se puderes
perde o rasto da razão mais-que-perfeita
e sorve o vento embalado num beijo inesquecível
a bater no chão fecundo do meu seio.
Se quiseres
vem com o vazio das mãos ávidas de mim
perseguindo o impensável sem curvas nem ossos
com o tempo a chiar e a tomar para si o pó dos dias
Se quiseres
ama esta inevitabilidade feita de um querer comum
e escreve sobre o amor abrigo ou inquietação
Depois
se puderes
se quiseres
sente as impronunciáveis emoções
e no obsceno arrepio que inventamos
a vida será chama sem palavras
e nada mais importará


© Margarida Piloto Garcia  in "ESSÊNCIA DO AMOR III"-publicado EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015








terça-feira, 15 de julho de 2014

Um dia de cada vez





Está frio lá fora ou talvez seja ele que mirrou na carne de outrora. Veste-se lentamente porque cada gesto é um ritual que não pode esquecer, é um arrimo onde se encosta porque ainda precisa de continuar a viver.
O casaco pende-lhe dos ombros magros, como coisa emprestada a um homem diferente do que foi. Mas a face que o espelho lhe devolve, recusa essa pressa dos anos a correrem e a pisarem tudo numa fuga imparável. Quando se olha nunca está só. Ali no seu reflexo não se contam rugas nem desaires. É um homem trigueiro e jovem que lhe sorri trocista, mas que logo esconde esse vinco dos lábios e o troca por uma terna suavidade quando o vulto loiro e quase diáfano lhe estende a mão.
E ali está ela ao seu lado. Um mar nos olhos a embalá-lo e uma espécie de bater de asas a evolar-se dos lábios rosados.
Fecha os olhos e pensa que não pode demorar tanto tempo nem perder-se em divagações. O que nele é sonho tem de esperar, secretamente escondido no bolso da camisa. Agora precisa de ter âncoras a grudá-lo em cada passo que dá. Não se pode atrever a fugir, por um milímetro que seja, da realidade dos dias e das pequenas coisas.
Os pormenores são de uma importância esmagadora. O seu peso derruba-o muitas vezes mas nunca o esmaga. Levanta-se sempre, numa coragem renovada, mesmo que trema por fora e por dentro, no eterno receio que a morte o leve e a deixe sozinha.
Sai de casa e apanha o autocarro. Vai quase vazio e dá-lhe espaço para deixar os pensamentos à solta como se fossem papagaios de papel. Tudo o que tem são as memórias e esse facto é ainda mais cruel, porque não pode dividi-las nem partilhá-las. Pudesse ele dar-lhe, nem que fosse a lembrança daquele primeiro beijo, e seria feliz. Tivesse ele a pálida ilusão de que o seu olhar seria reconhecido e a sua mão aconchegada com certezas no seio morno, e tudo mudaria na vida, mesmo que lhe restasse pouca.
Era insuportável carregar sem ela o peso das memórias.
E depois, vinha-lhe aquele frio a agarrar-lhe os braços, sequioso do que nele era ainda vida, os cansaços esvaídos , as lágrimas nocturnas a escorrer em sulcos já lavrados. Morriam-lhe os delírios ainda palpáveis do corpo porque pensava nela. Mas não cedia à tentação porque era terrível saber o que ela nunca saberia . Só se admitia vazios a preencher, com tudo o que lhe dava. E era tão pouco, tão pouco!
Uma só memória lhe chegaria se lhe pudesse dar as outras. Encostar a sua testa à pálida e loira cabeleira e por osmose ser ele nela.
O autocarro pouco avança no trânsito que , não sabe porquê, se tornou caótico.
Não costuma ser assim àquela hora.
Há três anos que num fervor religioso faz aquele caminho. Três anos de mágoas e de solidão. Mais de mil dias numa corrida que não pode ganhar. Segundos eternos a reter memórias que não pode perder,  porque agora tem de as ter também por ela.
Tudo a dobrar, num apertado círculo, uma mó a moer a incerteza e a exigir que aguente inteiro.
A casa deixou de ser aconchegante e luminosa. Nas mesas os retratos falam com ele e contam-lhe histórias de uma amor infinito. Nada morreu , nem mesmo quando nela tudo foi ficando envolto em brumas voláteis.
Enquanto o autocarro se arranca à forçada imobilização, conta nas unhas partidas as vezes que construiu molduras para agarrar na memória do tempo os momentos a dois. Agora a memória é só sua e nem as molduras conseguem dar vida à que foi dela. Nos olhos dela existe um caminho tão vasto que não leva a nenhum lado. Uma eternidade tão vazia que preferia ser cego para não se debruçar naquele parapeito mortal.
Em casa pesa cuidadosamente cada passo dado. Do mais ínfimo ao mais complexo, tenta não se esquecer de nada e grava minuciosamente na mente, os gestos comezinhos do dia a dia.
Não tem o direito a falhas e pequenos erros. Tem em si uma geometria calculada , um cinzento robótico que lhe destrona os sonhos ainda por vir. Mas o único sonho que tem, prende-se com ela e com o frágil e silencioso medo de cada dia. Tudo o que deseja está para trás mas ele precisa de seguir em frente, mesmo que o faça cada vez mais num curvado declínio que lhe ameaça o equilíbrio.
Ninguém lhe atira uma jangada ou uma mera corda e nem as palavras são suficientes para o salvar. Apenas sabe que morreu mais um dia quando a casa vazia lhe enregela os ossos e os retratos se calam mudos e de órbitas vazias.
Finalmente o autocarro chega ao destino. Agarra pelos colarinhos a lentidão do passo e atravessa o portão da clínica. Açodado e com o coração a bater descompassado, foge ao medo de a saber na mesma, naquele anónimo estado de quem nada sabe e lembra.
Atravessa o jardim e perante o vulto envolto no xaile azul, tudo o mais é um mero tropeção da vida. Olha-a como da primeira vez. Cala-se nele o atrevimento da lamúria que ousou corroer-lhe a mente e desafiá-lo. Que mais pode desejar do que estar  perante ela , confortá-la e amá-la? Reaprender uma nova linguagem mesmo que um destino torto a tenha privado de saber quem é?
Experiencia aos poucos a urgência de a poder beijar e contar-lhe o amor que foi deles.
Que importa que nela tudo se silencie se ambos se podem amar mesmo assim, um dia de cada vez.



© Margarida Piloto Garcia in "LABIRINTOS DA MENTE"-publicado por Editora Papel D'Arroz 2016






terça-feira, 8 de julho de 2014

Pequenos passos





Um passo, um abraço.
Um enlace, laço.
No negro te sinto, vermelho me torno.
Mais um passo e toques.
De língua me revisto, caramelo e sal.
Virgem nos afectos, sábia nos desejos.
Segredos desvendo com dedos de fada.
E o caminho feito
da cabeça aos pés
morre no teu grito, no homem que és.


© Margarida Piloto Garcia in- ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I- publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013





terça-feira, 1 de julho de 2014

A outra




Enleio as mãos no cabelo ressuscitando um antigo formigueiro nos dedos. Sigo caminho rumo aos lábios, sentindo-lhes a textura suculenta. Divertida, olho para o espelho onde aquela mulher, real, mas cheia de magia, me provoca e com um piscar de olho inusitado e burlesco, me seduz.
Como adoro perceber que há um corpo curvilíneo, cingido num vestido cor de céu a ocultar estrelas!
Rodopio num louco devaneio, o corpo em chamas, a mente como uma ave liberta do cativeiro. Tenho ondas, ora salgadas, ora doces, a percorrerem-me como um tsunami.
Atiro-me para cima da cama, jogando os sapatos vermelhos de salto agulha pelo ar. As meias gritam-me nas pernas e a lingerie ousada que só eu vi, canta-me um jazz melódico, rouco e lânguido.
De repente apetece-me gritar e expulsar a outra que eu era. Vestida de modo sorumbático, cabelo apanhado, um corpo a fingir-se morto e enlutado. Uma mulher-sombra, pacata, uma espécie de rato pardacento. Era isso que eu era? Sou isto que sou?
Sempre me afundei nos livros e resguardei em retaguardas, náufraga a nadar violentamente em busca de terra firme. Nunca a alcancei porque há sempre um samurai implacável a traçar-me caminhos.
Estranho que a Teresa me tivesse escolhido para a substituir hoje. Claro que primeiro recusei. Como transformar-me no que não sou? Numa mulher enigmática, elegante, vibrante de sensualidade? Mas a Teresa foi tão persistente! Afinal era apenas um almoço de negócios onde teria de entregar projetos que conheço mas de onde nunca emerjo como resplandecente borboleta. Esse é o papel dela neste nosso teatrinho diário.
Curiosamente, esta mulher de cinza, escondida de todos, fechada num casulo, aceitou. E o pó de fadas que agora sinto a espalhar-se pelo corpo e pelo sangue, começou a possuir-me.
Sentir-me admirada, poder conversar, olhar nos olhos de outros sem esconder os meus, rir num riso quase cúmplice que me veio de dentro e me brilhou no corpo como um arco-íris, foi um prazer quase dissoluto.
Foi febrilmente orgásmica a satisfação com que me penteei e vesti com roupas que nunca usara. Não pretendi seduzir ninguém, apenas a mim.
 E aqui estou eu, numa embriaguez de sentidos e sentimentos. A Helena de ontem não é aquela mulher que vislumbrei no espelho e que agora se estende voluptuosa na cama.
No fim de um dia onde cada minuto me mordeu a pele, já não sei quem sou.


© Margarida Piloto Garcia




sábado, 21 de junho de 2014

Estio








 “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.

José Saramago









Estio



Nunca mais chega o verão dos teus braços a prenderem-me na beira do abismo.

E o fim do mundo à espera num calendário rasgado sem saber quantas dores por ele passam!

Nunca mais o dia quente das mãos escondidas a escreverem debaixo da mesa e nas tuas pernas, alucinações geométricas e arreliadas de carência.

Nunca mais chega esse verão apressado a escorrer seiva entre nós.

E o carro veloz e a minha mão galopando no teu corpo, cria de um cio a engrossar num arco fletido.

Nunca mais, nunca mais, a pele preocupada e os caminhos internos exaustos da espera.

Na ditadura do meu corpo , a tua revolução exige o atrevimento de viver, de ser única

sem acomodadas ânsias e culpas ressequidas.

Nunca mais chega o verão, e eu sequestrada nas palavras, em malabarismos fora de prazo.






© Margarida Piloto Garcia



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Poeta suicidado





Amanheceu num dia onde a sombra do corpo não cabia na casa e as mãos se esvaíam
desde os pulsos até à ponta dos dedos em palpitações de arame farpado
Alongou os braços impertinentes para abrigar a inusitada lágrima
Sugou os lábios cobardemente ansiosos e resistentes, inflamados de uma luta
sem máscaras
Olhou-se num divórcio silencioso como se as cores lhe tossissem dos olhos e o futuro castrado
se afundasse sem remos
Atreveu-se a escrever um verso sem cauda de cometa, atropelado pelo vazio do corpo
E de repente a vida afunilou, bebida de um trago, e o esquecimento levou-lhe a insanidade
à galáxia presa nos cabelos
O poema perfeito só se escreve depois.


© Margarida Piloto Garcia  in "II ANTOLOGIA DE POETAS PORTUGUESES, ANTOLOJIE DE POEJI PORTUGHEZI"-publicado em Portugal e na Roménia-EDITURA PIM-2019

© Foto de Solve Sundsbo




quarta-feira, 28 de maio de 2014

Perguntas





Posso dar-te a mão neste desejo quente
neste vórtice que me suga sem pedir licença?
Deixas que o meu corpo, tornado
ogiva rubra de que és arquitecto,
envie às estrelas a nave do meu grito?
Posso pedir-te que me ames
só com a ponta dos dedos
a deslumbrar a génese de tudo em nós?
Assim, longe mas tão perto
no movimento secreto, escondido,
desordeiro e a engasgar-se de paixão.
Assim, febril , num choro de grossa lágrima
a ferver nos olhos e a rebentar
palavras delirantes e ciciadas na boca ávida.
Posso abraçar-te despida de mágoas
liberta do arame farpado nascido nas entranhas
na carícia do gesto redondo e denso?
Posso dizer-te baixinho as palavras
que já gritei debaixo de um tecto sem lua?
Podes dizer que me amas?


© Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 14 de maio de 2014

O apelo







-Acorda Maria, acorda por favor !
Soergue o ventre como um sol pleno e alonga as pernas de algas assombradas na berma do rio. A neblina esvai-se das águas sussurrantes e aprisiona-lhe a mente num torpor letárgico. Já não tem sorrisos para lançar ao vento. Só mãos pálidas com que tece prantos . Sente os seios de lua cheia, grávidos de esperanças e do próximo leite. Mas não quer pensar e cerra os olhos.
- Maria não desistas, estou à  tua espera.  Quero ver os teus olhos e sentir o teu colo.
De novo se levanta num incómodo liquefeito. Ajeita ao corpo o vestido sujo onde o bordado inglês já tem a cor dos dias desfeitos. Vem-lhe à memória a menina ladina na varanda ao sol.
 Lá longe o rio junta-se ao céu e os cheiros entram-lhe pela boca e pelas narinas em golfadas ardentes. Canta debruçada por entre as flores garridas e o cabelo baloiça-lhe nas costas, acetinado e fragante. Quantos segredos por desvendar, quantas caravelas soltas no mar da imaginação!
Ergueu-se um frio gélido que se insinua na pele arrepiada. Sabe-lhe bem. A frialdade  é bem vinda para lhe sossegar o corpo quente e dorido . Respira devagarinho como se exalasse pouco a pouco os últimos suspiros e precisasse de os soltar em câmara lenta. Agarrada aos cabelos emaranhados está a derradeira esperança. Mais vale afugentá-la, fazê-la correr sem retorno. O-s-t-r-a-c-i-s-m-o é o destino da esperança e o seu.
- Maria porque não me ouves? A hora vai chegar e tu a negares a vida. Porquê Maria?
Não suporta aquela vozinha irritante a brocar-lhe a cabeça num ritmo insidioso. Quer muito que se cale mas os sons apertam-na e comem-na por dentro com dentes afiados.
 A pouco e pouco foram-se transformando numa dor palpitante e espasmódica que a faz tentar de novo adormecer no esquecimento.
Suavemente desliza num sonho feliz. Sabe-lhe a boca aos pastéis que o pai lhe comprava todos os domingos. O aroma a canela faz-lhe cócegas e adoça-lhe o palato e a mente. Como eram felizes esses passeios! Dançava orgulhos no corpo juvenil numa pressa esfaimada de viver. As expectativas eram como uma erupção de mil sóis. Mal sabia ela que não passava de uma estrela cadente.
Sente que a dor se agudiza e lhe crava punhais ao longo das costas. O rio já está tão perto que quase lhe pode tocar. Estende a mão na busca do murmúrio das primeiras ondas leves e pequenas a  beijarem-lhe os pés.
- Não Maria, escuta-me! Não me ouves chamar-te? Sem ti não existo e eu quero sentir o sol e ver o reflexo da lua nos teus olhos. Estou há tanto tempo  à espera de te ver, de sentir o teu afago.
A voz é um punhal a desenhar-lhe arabescos retorcidos e fundos ao longo de cada nervo.
Queria tanto ter um filho! Fez tantos planos! Foi mulher, foi asa, foi combate e garra e sonho vadio. E depois...depois derrubaram-na, partiram-na em tantos pedaços que agora  precisa diluir-se e evitar que mais alguém seja infeliz.
Não se consegue levantar. As dores pregaram-na na margem fria e  escura. Nem sente que enregela naquele dia de Dezembro. A carne adquiriu uma dureza marmórea que lhe alivia o sofrimento e lhe entorpece cada vez mais a mente.
Como era delicioso aquele mês em casa dos avós! Ela mal dormia expectante pela visão da árvore engalanada e do presépio que crescia a cada ano.
Afinal era isso a felicidade e só agora o percebia.
 Como era bom o frio de Dezembro quando se abrigava na cama quente!
Tem a pele cheia das memórias sussurrantes a deslizarem rasteiras e a infiltrarem-se no sangue. Todas doces, mesmo as que trazem alfinetes a picarem-lhe os olhos lacrimejantes.
O rio tem um cheiro pungente e pesado. Sente-o envolvendo-a num abraço sufocante e poderoso. Acha que sabe a lodo e a todos os que nele escolheram habitar para sempre.
Não é assim que o recorda. Antes, quando era feliz, o rio tinha cores a correrem ao encontro dela e suspiros de sereia a acariciarem-lhe cada curva do corpo.
Gostava de o atravessar no barco que a levava de uma margem a outra. Mesmo no meio de tantos passageiros estava sempre sozinha. O vento soprava-lhe na face beijos impolutos e fazia-lhe os cabelos dançar em feéricas voltas.
A dor voltou e é preciso avançar um pouco mais. A água sobe-lhe pelas pernas como as mãos de um sôfrego amante.
- Maria já não consigo gritar mais. Tenho frio, tenho medo. Medo de nunca sentir o teu beijo e ver o teu sorriso.
- Mãe, mãe, por favor não me deixes morrer.
Como é assustadora aquela voz dentro dela! Quase a faz recuar nos seus propósitos. Rói-lhe por dentro aquele apelo lancinante e voraz.
Avança mais no rio, a água a lamber-lhe a barriga alva mal coberta pelo bordado inglês a desfazer-se.
E de repente, braços resgatam-na, roubam-na ao amante eterno, gritam-lhe juntamente com a voz. Debate-se com as poucas forças que lhe restam mas é inútil. Mal se apercebe que a deitam na margem e a envolvem em algo quente. Agora sente todas as dores a atravessarem-na como se ela não passasse  de um atalho para chegar a um destino.
 Na confusão gerada não dá conta  da chegada da ambulância , nem das mãos que a tocam.
As vozes riem e choram numa histeria que lhe soa caótica. E subitamente o relógio da praça antiga, ecoa 12 badaladas pesadas mas gloriosas, ao mesmo tempo que a voz se cala dentro dela mas  grita agora nos seus braços.
Sente algo antigo a invadir-lhe o corpo e a criar gavinhas .
Olha o pequeno ser que tem no colo e toda ela é júbilo e felicidade.
- Já viu bem? - diz-lhe alguém. É um menino e nasceu à meia noite do dia 24 de Dezembro. Ganhou um pequeno Jesus.
Maria sorri levemente como se também ela tivesse acabado de nascer e a vida fosse agora virgem de suplícios.


© Margarida Piloto Garcia in- "LUGARES E PALAVRAS DE NATAL II"-publicado por LUGAR DA PALAVRA EDITORA-2013



segunda-feira, 5 de maio de 2014

De longe







E Abril passou
E outros virão aqui onde estou
de esperanças feito
O frio aperta na mente que sonha
e a fome alerta sem voo nem asas
Daqui faço planos
mas os desenganos escrevem-se a cru
Na luta sem tréguas
não mais vejo as águas do meu oceano
nem as azinheiras torradas de sol
Daqui a lonjura é corda que enforca
é faca que corta e caudal que alaga
e sobe à garganta
No país amado deixei só a alma
que o corpo faz falta pra ganhar o pão
Abril já partiu
e os medos que envergo não guardo
nem quero
mas expulso e enterro
em estrangeiro chão.


© Margarida Piloto Garcia