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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Interrogações (Ânsia)




Sede ou fome não o sei dizer.
Das palavras, dos sentidos, das coisas proibidas.

Escrevamos então um último poema. 
Onde as armas se calam e o corpo se renega
beijemos com bocas de lobo aguardando a aurora.

De pé, ereta e imune a todos os desafios horizontais
num uivo que rasga, numa febre que se assume.

Afinal, basta apenas esta língua
que tudo fala, tudo desvenda, tudo canibaliza.

© Margarida Piloto Garcia in-"SOB EPíGRAFE"-TRIBUTO A FERNANDO PESSOA- publicado por TEMAS ORIGINAIS- 2018

© Foto de Alberto Bezzanca

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Poeta suicidado





Amanheceu num dia onde a sombra do corpo não cabia na casa e as mãos se esvaíam
desde os pulsos até à ponta dos dedos em palpitações de arame farpado
Alongou os braços impertinentes para abrigar a inusitada lágrima
Sugou os lábios cobardemente ansiosos e resistentes, inflamados de uma luta
sem máscaras
Olhou-se num divórcio silencioso como se as cores lhe tossissem dos olhos e o futuro castrado
se afundasse sem remos
Atreveu-se a escrever um verso sem cauda de cometa, atropelado pelo vazio do corpo
E de repente a vida afunilou, bebida de um trago, e o esquecimento levou-lhe a insanidade
à galáxia presa nos cabelos
O poema perfeito só se escreve depois.


© Margarida Piloto Garcia  in "II ANTOLOGIA DE POETAS PORTUGUESES, ANTOLOJIE DE POEJI PORTUGHEZI"-publicado em Portugal e na Roménia-EDITURA PIM-2019

© Foto de Solve Sundsbo