segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Fuga




Abres a boca e as consoantes saem ordenadas
epileticamente dançadas de encontro
às vogais que balbucio.
Prendo-as levemente nos lábios
e sopro-tas com movimentos de enlace
enredando-as em fateixas de abraços.
Solto os meus cabelos cor de lua
e escorrego devagar pelo teu corpo
meio medusa, meio sereia a naufragar-te
enquanto as mãos se enchem de um perfume bárbaro.
Tenho mágoas a cobrir-me o olhar
mas diluo-as na tua pele numa osmose de sombras.
Rasgo em mim uma rota através de antárticas noites
olhadas das vespertinas clarabóias dos meus olhos.
Os teus discursos têm anzóis e gavinhas
e nem o meu canto , nem o meu gemido
nem a minha febre ou o meu olhar
conseguem evitar o precipício.
Depois...silencia-se a boca e a fuga reclama-nos


© Margarida Piloto Garcia in "VI ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS"-publicado por FOLHETO EDIÇÕES- 2014


© Quadro de Gottfried Helnwein
  


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A vida e a morte durante a ira







Sente-se envolta numa roupagem débil, semi-palpável, um desconcertante invólucro trespassado por calafrios.
Um avião corta o céu cerúleo e o som explode-lhe na boca, num quebrar de ondas de saliva de encontro aos dentes.
Há um aroma agreste feito da humidade que se lhe cola aos cabelos.
Não sabe se há-de ir embora, ou ficar mais um pouco exposta aos elementos, mas resguardada naquele pedaço de relva, que se distingue da terra castanha e ocre do cemitério.
A ira ainda não a deixou. Pergunta-se se algum dia o fará e fica aturdida e temerosa que tal aconteça. O que sente é tão devastador que não consegue acalmar o corpo.
A boca está seca, a garganta irritada. A náusea é um algoz potente a revolver-lhe as entranhas. Vomita aos arrancos tentando expelir a raiva que sente e a perfura como espada afiada.
É imperativo que se livre daqueles sentimentos parasitas que a devoram. Mas como?
Não suporta mais as intermináveis manifestações de pesar que lhe parecem cuspidas na sua direcção. Pior ainda, aguenta numa repugnância pungente, os toques pseudo-afectuosos, os beijos que lhe escorrem na pele e a fazem estremecer.
Resiste o mais que pode e sabe, às conversas, às tentativas de a sondarem e saberem mais, de remexerem fundo na sua vida. Os predadores cercam-na, como se ela fosse carniça ao seu dispor, em busca de pormenores, naquela ânsia que a turba tem de saber da vida alheia.
Ela encerra-se no vestido discreto, de um antracite reconfortante, uma espécie de armadura contra os invasores da sua intimidade.
Sabe que a imagem que passa é a de uma mulher petrificada, gélida e sem sentimentos. Não tem dor nos olhos e nem uma lágrima lhe cruzou o rosto.
Ninguém sabe que o rio há muito secou no leito. Os soluços que durante anos lhe descontrolaram o corpo, foram cuidadosamente arrumados numa caixa da qual perdeu a chave.
Enrola atrás da orelha um caracol ainda viçoso do cabelo branco e curto. O gesto lembra-lhe outros, os primeiros que os dedos de Miguel ensaiaram no seu rosto.
Cerra os lábios com força, porque assustadoramente cresce-lhe na memória, o dia em que os dedos lhe ficaram marcados na face. Apesar das ameaças, essa foi a única vez,  mas o efeito foi o de uma tatuagem eterna, algo que ninguém vê mas ela nunca deixou de sentir.
Envolta na sua armadura cor de aço, o seu olhar é um radar a sondar todos os que passam e lhe deixam os pêsames.
Será que eles sabem como gastou o caudal de lágrimas?
Será que adivinham como foi possível transformá-la numa terra árida de desejos contidos  e onde nada brota?
Muitos anos antes tinha sido uma sonhadora, dedicada à causa de formar família, de singrar naquele rumo, plena de todo um enorme manancial de amor.
Nada dera certo por muitos esforços que fizesse. Em cada passo dado, a vida deixou-lhe o gosto amargo dos falhanços e uma certeza começada a construir,  de que algo estava errado nela. Algo nos seus genes, na sua matriz, estava contaminado. Nas suas veias devia  correr  uma infecção que jamais seria curada.
Miguel contribuíra, sem dúvida, para que tal acontecesse. Submetera-a, subjugara-a, traindo-a e humilhando vezes sem conta. A ira contra ele era medonha mas a principal  raiva sentia-a por ela própria e pela sua cobardia.
Não sabe bem porquê, mas os sonhos nunca a tinham abandonado, tornando-se na única jangada disponível para não se afogar.
Tinham passado muitos anos, até ele se acalmar e serenar perante a vida.
Mas que restara dela? Que restara dos dois?
Ele parecia ter encerrado a vida. Existia sem a ver e ouvir. Ela compreendia agora que ele a  matara. Antes trocava-a, agora ignorava-a.
Sara recusara-se a envelhecer, a calar o corpo, a desistir de si.
E ao fim de tantos anos, a ira apossou-se dela como um veneno de acção lenta mas letal.
Pouco a pouco, aquela raiva surda começou a invadi-la. Num dia desenhava-lhe uma nova ruga, noutro esculpia-lhe magramente as maçãs do rosto ou branqueava-lhe mais o cabelo revolto. Todos os dias a ia secando  como algo visceral e imundo.
Tentara muitas vezes libertar-se daquele anzol sem contudo o conseguir.
E um dia, tranquilamente, Miguel morreu enquanto dormia. Sem dores, sem pavores, deixava-lhe em testamento toda a ira que nela plantara.
Nesse dia explodiu pela casa, partiu objectos, rasgou roupa, dançou numa espécie de estertor, como uma boneca partida, uma marioneta sem fios.
Gritou para as paredes  o que guardara em si, tentando que tudo o que sentia  desaparecesse com ele.
Ali, enfim sozinha, naquele pedaço de relva que a sustém, sabe que ainda não se livrou daquela ira. Falta-lhe algo, uma última catarse que a exorcize.
Caminha devagar, pisando a gravilha num som acidamente corrosivo e irritante, tentando esmagar a vida perdida.
Nas paredes em frente ao cemitério, contrastando com o imaculado dos seus muros, um grupo de jovens grafita frases e desenhos.
E de repente, num acto que denomina de pura loucura, mas que lhe parece genial resolve falar com eles. Nem são precisas muitas palavras porque eles lhe sorriem e incitam de um modo que nunca ninguém fez.
Munida de uma lata de tinta, começa a escrever o sentir amordaçado. Os “companheiros” incitam aquela mulher de cinza e cabelo branco que saiu do cemitério.
E ela escreve e escreve, iradamente


Raiva
Farpas afiadas a deixar esquírolas
Raiva
Rasgões violentos cuspidos da pele
Raiva
Um corpo em desvario a partir cortinas ocultas
opacas de tanto serem rasgadas e refeitas.
Negro, breu e sem vestígios de um raio de sol.
Negro, encardido com a mágoa
que os loucos não reconhecem.
Vontade de voar e cair livremente do espaço
a abraçar as árvores, a ser absorvida pelo mar,
a mergulhar na relva e nas azedas amarelas.
Pele a arder e púrpura nos olhos
chispas a chicotear paredes
e a sair lá para fora num bando de asas rutilantes.
Raiva
Negro, vermelho, cinza com laivos, laranja ardente
Raiva, raiva, raiva
E um coração a rebentar violência
e a esquecer doçuras.

Perante as palmas dos recentes “amigos” sorri envergonhada e lê e relê tudo o que saiu dela.
Inspira profundamente o ar que lhe parece agora mais frutado e leve.
Afasta-se quando o crepúsculo cai levando na face o rasto salgado da primeira lágrima.


© Margarida Piloto Garciain- 7 PECADOS II- publicado por PASTELARIA ESTUDIOS EDITORA-2013


© Pintura de Djordje Prudnikoff









segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Notas de outono




Anoitecia quando vieste cobrir-me de outonos.
E eu a voar como uma efémera, presa às poucas horas
que me restam para te dizer palavras impossíveis!
Teimam em mim os rubores extasiados e primaveris
de um corpo foragido e inquieto.
Confesso que te balbucio liturgias
enquanto te suspiro os cabelos, a boca entreaberta
à procura dos cheiros que possa engolir em golfadas
numa apneia de ti.
Trazes-me um frio azul e pálido como mãos silenciosas
que apenas me respiram intermitentemente
sem me arderem na pele.
E perdes-te sempre à bolina da razão enquanto me calas.
Doem-me os poros e a raíz dos cabelos
enredados no musgo dos muros que contróis.
Mas tudo entre nós é apenas paralelo.
Tu comes blinis em Moscovo nos jogos de vermelho e negro
enquanto eu saboreio crepes e sonho na Place de L’Opera.
E é por isso, que apesar do desejo estar perto
os nossos outonos nunca serão iguais.


© Margarida Piloto Garcia in "PALAVRAS DE VELUDO"-publicado por ORQUÍDEA EDIÇÕES-2015




segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Testamento





O que me cabe de ti são as palavras
Nada mais habita o testamento do que me deixaste.
Dentro de mim a tua voz passeia omnisciente
sobe os degraus do meu corpo
e grita ousada e quente na posse profunda e feroz.
Só as palavras nos pertencem
porque tudo o mais é labirinto e imaginação
Estas nossas  bocas são louva-a-deus que se devoram
sem que os olhos se abram e desnudem verdades.
Cresces em mim e eu abro-te o centro de mim mesma
para que nele expludam os céus e as marés.
Mas apenas te sonho e te aconchego sem pressas, nem temores.
A tua presença ficou agarrada às maçanetas das portas
 e aos cortinados flutuando nas janelas. Tudo respira o teu hálito.
Eu trago o sorriso a tremer, corredor fora. Busco fantasmas
de uma ausência bruscamente afirmada.
Mas nada mais existe e necessito
e a vida que me resta, está toda nas palavras que me cabem.


© Margarida Piloto Garcia in "ESSÊNCIA DO AMOR III"-publicado EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015


© Foto de Iaia Gagliani


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ontem






Ontem escrevi sobre ti
sobre os tempos em que me delineavas a anca
com dedos firmes e aguerridos
e os deslizavas pela minha cintura
numa espécie de morte anunciada.
Tinhas sempre um medo de me perder
agarrado a ti, como se fosses um eterno náufrago.
Eu escondia entre as pernas a impaciência
e rugia palavras proibidas em pressas desvairadas.
Ontem senti na boca o teu sabor a sal
como se fosse a última onda
de uma maré imperfeita.


© Margarida Piloto Garcia in-ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA VOL VI "ENTRE O SONO E O SONHO"-publicado por CHIADO EDITORA-2015


© Tela de Suhair Sibai


  

domingo, 17 de novembro de 2013

Declaração




Declaro que te espero
nos dias em que a chuva me mitiga o fogo
nas noites em que o corpo em rebuliço
se entretém em danças e litanias solitárias.
Não venhas se me temes
ou se a tua fornalha não anseia pelo meu mar interno.
Tenho em mim a telúrica força de uma valquíria
e ouso defrontar o teu guerreiro altivo de canto rouco
e a tua espada acesa a queimar-me desde a boca
até ao vórtice onde o desejo renasce
num devorar repetitivo e lancinante.
Declaro que te espero
e sempre te esperei.
Esta música da pele tem um travo doce de devaneio juvenil
e a carência vivida das inclementes horas.
Declaro que te quero
assim, neste final que chega manso e louco.
Por isso
antes que os deuses te roubem ao insano desejo
vem.


© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013


terça-feira, 12 de novembro de 2013

A estupidez humana





Estupidez, aquela, a humana que Einstein disse que era infinita. Nada tem a ver com literacia ou capacidade  intelectual. Para além de infinita é pegajosa e traz um arrepio gelado à minha pele.
Enfrento a estupidez  de alma lavada, nua de preconceitos e juízos. E ali fico, à espera que ela suma no chão, diluindo-se numa poça líquida. Mas a estupidez ergue-se e como num filme de ficção assume forma humana e cresce para mim.
Vou buscar argumentos implacáveis, fatais e irrepreensíveis. Esgrimo palavra contra palavra, num ballet rítmico cheio de pliés, cabriolés, jetés. A meio da dança a estupidez abranda e eu deixo a irritação relaxar.
Mas nessa altura sou de novo atacada com novo vómito de verborreia inusitada, um bafo quente e corrosivo que me atinge em cheio.
A estupidez nunca dá tréguas, por isso é infinita. Não compreende, não aceita, não vê. É um Ciclope cego, um bloco de granito contra o qual embatemos sem o conseguir transpor.
Preparo-me para nova luta. Avanço com a guarda alta e desfiro uns jabs, cross e uppercuts. Ela recua mas não tomba. Um suor escorregadio cruza-me o rosto e a boca fica nua e seca como um saco árido e vazio sem as palavras despejadas.
Tento não desistir da luta contra a estupidez humana. Às vezes transformo-me num ninja indecifrável e rondo-a sorrateiramente à procura de um qualquer modo de a derrotar.
Mas que resultado é possível contra este adversário temível?
No fim, ensaio um sorriso ensolarado a entreabrir-me os lábios. Foco o olhar na distância a calcular o voo e a mente parte vestida de silêncio.
Na minha frente a estupidez incha e dá o braço à irritação.


© Margarida Piloto Garcia






quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Poema pouco sereno






Não há serenidade  no meu olhar.
Intrépidas são as buscas e eternos os porquês.
Não esperes do meu corpo
a mansidão das searas flutuantes
porque ele tem pressas e tumultuosas vagas.
Não busques em mim
a paz contemplativa do fim dos tempos.
Tenho rubras esperas a tingirem-me os lábios
e abraços esfomeados agarrados a mim.
Talvez um dia possas dizer
que o meu corpo é uma casa
da qual sabes os recantos, as esquinas e os lugares sagrados
ou o ultimo reduto onde comes e dormes
enquanto as estações dão a volta ao mundo.
Mas não teças dialéticas sobre o que quero e sou
e não enchas de balas
o que apesar das palavras noturnas e dos desejos camuflados
ainda não é teu.


© Margarida Piloto Garcia






quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Na noite




Nas noites que trazem o cheiro do alecrim
espreguiço-me no lençol de linho da cama alva.
Ainda há pouco me lançavas no ouvido
papagaios coloridos de papel
e eu soltava-os ao ritmo da imaginação
que é de tudo raíz, fruto e flor.
A felicidade caminha em mim
como se fosse um animal sedento
e eu espreguiço-me de novo
deixando pequenas nesgas de luar
marcarem o meu corpo.
E a tua boca é sagrada
porque sabe comer as luas e torná-las deuses.
E a tua boca é uma fera
que bebe o meu regato, come a minha flor nascida
e se afunda exausta nas grutas palpitantes.
O meu suspiro entra e sai da tua boca
e tudo sabe a sal, a mosto, a chuva.
Tudo sabe a desassossego, a música habitada,
a felicidade a consumir antes que acabe o prazo.
Acordo do meu sonho e tudo sabe a nós.



© Margarida Piloto Garcia in AUDÁCIA DOS SENTIDOS-publicado por EDITORA UNIVERSUS-2013


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Morte anunciada






 Morrias
em manhãs odoríferas grávidas de imaginação.
Morrias
nas tardes espúrias e pálidas que a nada chegam
Morrias
singrando as noites estultícias e afundando a vida.
Na tua boca as palavras expiraram
e os trechos cursivos estiolaram sem as tuas mãos..
De olhos voltados para dentro
estrangulaste sonhos e desejos.
Agora corro à procura do rio que sem pressas nem destino
me leva a outras margens
e sondo-me na esperança de que o sentimento
me acenda
me varra
me sugue como um vampiro.
Enquanto isto, sem mesmo te dares conta
tu morrias-me

© Margarida Piloto Garcia


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A pior coisa na vida





Não sei bem como medir o olhar que me deitaste, quando passaste por mim num matraquear de saltos na calçada. Nos poucos segundos em que te embaraçaste na multidão, ficaste presa em mim, como um pássaro aflito a bater asas. Foi um breve espaço no tempo, uma cena de cinema em câmara lenta.
Eu olhei-te como se pudesse ter levitado da enxerga às riscas, pejada das mantas da caridade pública, quase a tentar encarnar-te e seguir contigo. Reconheci-me no passo bailado a cantar esperanças, na roupa a cheirar a flores de laranjeira, no cabelo a esconder um olhar aceso.
Quis seguir contigo e agarrar-me aos poemas que os teus lábios deixavam adivinhar, enquanto te diluías nas sombras de tantos vultos. Tu pisaste as pedras rumo ao desconhecido e eu reconheci o percurso anteriormente feito pelo meu corpo.
Escondo-me nos cartões duma publicidade que já não me faz falta, olhando-te através das letras dos jornais, que me falam de um mundo que já não é o meu.
Acomodo-me rente à muralha a pensar como serás, o teu corpo esticado num sofá a tecer sonhos. Um sofá, algo extraordinário, uma peça onde se pode ler, dormir, amar e sonhar...sempre. Antes, eu nunca teria percebido como um objeto de 4 letras, poderia ser tão importante.
Tenho este canto onde ainda sonho quando consigo fugir à aspereza da pedra e à frialdade duma noite invernosa. Afinal, o sonho tem essa impecável imaterialidade de tudo o que nunca será.
Mas tu passas agarrada aos teus sonhos de sofá, do qual não sei a cor. Passas e lanças-me esse olhar que não é nem de nojo, nem de pena. É antes um arrepio que te vem da pele e te sobe aos olhos, deixando-os a refletir sombras e desvaires.
Da tua mala, quando roçaste a pedra, saiu uma lufada quente e reluzente, um aroma doce a sacudir-me a memória e a despertar uma confusão aguda no estômago faminto.
Mas apaziguo-a rápido, habituada que estou a cercear qualquer devaneio que o corpo solicite.
Não costumo reparar nos vultos que me enchem os dias de sons e odores. Mas hoje, tu passaste e foi como se fosses eu, num outro tempo, numa outra vida.
Apeteceu-me levantar deste fim de mim, correr atrás de ti e gritar-te:

- Cuidado, a pior coisa na tua vida será matares os sonhos.



© Margarida Piloto Garcia

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Lembrança





Lembro-me sempre de ti.
Crescem-me ramos ao longo dos braços
e as minhas mãos são maçãs carnudas e aromáticas
a desfiar carícias de antigamente.
Abraço a tua lembrança
com os lábios acerejados onde as flores brotam
ao ritmo da respiração lenta e sincopada
para esquecer as arritmias do nosso cavalgar.
Cada dia passado na tua ausência
abre o rumo da fome dos sentidos
e deixa pegadas que o tempo não apaga.
Lembro-me sempre de ti
dos dias em que as sombras
eram apenas o nome dos nossos corpos acesos
e das noites em que morríamos nos gritos
a ecoarem no silêncio dos cheiros enlaçados.
Mas não deixo que a lembrança me desvende o olhar
e me roube a paixão de que sou feita.
De mim só eu sei.
O resto são artifícios, rendas que os outros tecem.


© Margarida Piloto Garcia



quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Amor




Amo-te na língua de Camões
naquela que nos fez correr mundo e ser aventureiros.
Amo-te em francês
em inglês, em farsi ou urdu.
Amo-te no árabe das noites de deserto
debaixo de um céu a rebentar-nos estrelas nos olhos.
Ich liebe dich de encontro aos tijolos do que resta do Muro de Berlim
e je t’aime nas ruas de Montparnasse na primavera parisiense.
Amo-te em mandarim, em japonês e em checo.
Juntamos os rios e desaguamos numa foz de paz e ternura
após termos galgado vivos e apaixonados as cataratas do Niagara.
Não importa se somos Amazonas, Tejo ou Mississipi
apenas os dedos sabem o percurso do rio.
Te quiero nas ruas de Buenos Aires, num tango lascivo a escorrer
leite e mel e a deixar na boca o sabor da pele em chamas.
Beijo-te em mil línguas numa Babel aleggro ma non troppo
a deixar embeber o meu ritmo no teu.
O beijo soa em coreano sem ponto cardeal a separá-lo
em dinamarquês ou hebraico, apenas beijo com a única língua
que conheço e domino. E essa é minha mas pode também
ser tua, num encontro onde o mundo derruba as barreiras.
Numa esplanada aqui ou nos antípodas
numa praia onde só a areia sabe desenhar-nos os corpos
simplesmente amo-te  na linguagem universal do amor.



© Margarida Piloto Garcia in "VI ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS"-publicado por FOLHETO EDIÇÕES-2014



domingo, 8 de setembro de 2013

Depois de ti




Depois de ti não há mais palavras.
O tempo é ladrão que tudo rouba
sem que em troca nos dê o deus do esquecimento.
Depois de ti não ficaram terras por cultivar
onde eu pudesse ao amanhecer
vir espreitar as papoilas rubras.
Não ficaram mais mistérios por desvendar
porque já me tinhas navegado até ao último horizonte.
Depois de ti a noite já não tem pecados
nem sonhos, nem estrelas a chamarem por mim.
Não conheço mais fogos esventrando as madrugadas
nem as sinfonias me acordam de noite
desejosas que se escreva um novo andamento.
Depois de ti nada em mim é sobressalto.
Nem as sombras da pele
nem as comissuras dos lábios
nem o reflexo dos olhos.
Nada se atreve a existir.
Alimento-me das memórias
e minto-te e minto-me porque o pensamento é matreiro
e cerca de ciladas o coração.
Nada sei do fingimento do poeta
apenas do que restou depois de ti.


© Margarida Piloto Garcia  in "ESSÊNCIA DO AMOR III"-publicado EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA-2015





sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Nome





Soletro o teu nome
devagarinho
como se de uma reza se tratasse
como se a fragilidade de que o revisto
fosse em mim a força do amor.
Digo-te em sílabas
espaçadas
impregnadas dos dias em que te leio
e das noites em que irremediavelmente te espero.
Há dentro de mim um rio
que inunda as margens e me transborda.
E enquanto te digo letra a letra
o teu nome é meu mesmo que o teu corpo não seja
mesmo que nós não sejamos donos de nada



© Margarida Piloto Garcia in "PALAVRAS DE VELUDO"-publicado por ORQUíDEA EDIÇÕES-2015



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Horas






9 da manhã.
Medo na garganta, fogo na pele, olhar impúdico.
Apressa o passo, atiça o fogo, a língua a arder, a boca aos ais

10 da manhã.
A mão na perna, a urgência nos olhos, o calor dele, a fome dela.
Corpos que chocam, beijos vorazes comem por dentro
lambem por fora, desnudam prazeres.
Derrete as mãos no cabelo dele, esculpe-o a cinzel, procura-lhe a vida.
No aperto dele, quase um temor, uma reverência.
Despe-a e encontra-a.
Rasga a fronteira, estala o pudor, vai-se mais fundo.
Solta o gemido, dança-o nas pernas, sorve-lhe o âmago
abre-se nele.

12 horas e o sol empina no horizonte.
Cavalgam ondas na cama anónima
e a tarde  lúbrica estende-os no  chão.
Música toca, velas acendem, lençóis engelham no calor do cio.
Palavras loucas rugem na tarde novos caminhos e desafios.
Ternos abraços, corpos de aço, laços e passos.
As horas escorrem suor e seiva, o grito é língua entre os cicios.
Morre mil vezes, parte-se em duas, faz parte dele.
Olhos de deusa, mítico oculto, fera voraz.
Há arremessos na tarde cálida, galopes ébrios , ventres a arder.

E chega a hora e a fome fica, rasga o abraço, parte o enlace
e mora a saudade no último beijo



© Margarida Piloto Garcia-in A ESSÊNCIA DOS SENTIDOS I-publicado por EDIÇÕES PAULA OZ-2013