O amor não tem prazo marcado. Nasce quando quer e vai-se
embora sem pedir permissão. O amor não tem pontos cardeais nem obedece a
climas. Pode ser um furacão ou uma brisa. Acaricia-te ou atira-te contra a
parede se tentas analisá-lo ou dar-lhe nomes. O amor não se compra em centros
comerciais nem se desdobra em cortesias uma vez por ano. Está ali ao alcance da
mão, ou tão longe que precisas de te atirar do alto de uma montanha para o
alcançares. O amor não tem hora marcada, nem dia para se repetir ad eternum nas
rádios e nas televisões de um qualquer país. O amor não é um dia, porque é
todos os dias ou não é. Pode aprisionar-te num segundo e libertar-te noutro e
as horas que o marcam não se acomodam num mero relógio. O amor é assim: tem
fases, declinações, pausas e reticências. Precisa de dádivas e de paixões. O
que ele não tem de ser é um cupido idiota a vender-se por aí num só dia do ano.
Tinha chegado o dia em que sentia o fim da infância,
mesmo que os cabelos brancos lhe dissessem, que essa há muito que não existia.
O tempo estava esquecido num gemido abafado ou num sorriso áspero e remoto na
profundidade da memória.
Mas hoje acordara tenso, despido da ilusão roubada
num mundo de aparências, onde a maior era sem dúvida ele. O tempo migrara-lhe
da mente, recusa feita à vida surda e cega que nunca o deixara envelhecer. Que
importavam os caminhos armadilhados na pele, rugas cativas da contagem dos dias
e das horas?
Até ali olhara-se e apenas vira um miúdo ladino mas
sonhador, ou até um jovem feito de vagarosa eternidade. Pouco lhe interessava a
tosse dos olhos virando lágrimas ou as curvas escorregadias da boca a dizerem
não. A tal juventude agarrava-se à pele e escondia-se nos bolsos fundos das
calças. Os ossos não gemiam e o corpo ainda cantava mesmo que a solidão lhe
enchesse a boca de sal a afundar-se feito mar dentro do estômago.
Não percebia a razão de agora se sentir diferente,
nem o facto do silêncio esquivo não lhe saber a paz mas a morte anunciada.
Curiosamente nunca pensara muito nisso, naquela ilusória juventude, fruto de
uma imperfeição sabiamente agarrada aos sentidos.
Não era um fantasma à deriva, nem um louco preso a
esfaimados desvarios. Apenas achava impossível que o seu tempo findasse e que
aquilo que via e sentia fosse somente resultado de um estado de espírito
matreiro, adoçado e maquiavélico.
Continuava a não perceber aquela transformação.
Olhava-se no espelho onde um desconhecido o enfrentava, desafiador. Há coisas que levam tempo, como
se fossem pegajosas e escorressem para
parte incerta onde nunca as encontramos.
Era assim aquele olhar vindo do espelho, uma boca a
abrir e fechar balbuciando palavras para ouvidos moucos, enquanto ele se
refugiava numa zona de conforto onde não visse, nem ouvisse,a mente desfragmentada e impúdica assumindo
aquele que ele era.
Não só o corpo lhe era estranho, como também aquela pungente
sensação de peso e a condescendente
sabedoria de quem viveu muitos anos. Pela primeira vez, um medo frio suou-lhe
da pele e roubou-lhe as certezas redondas, perfeitas e enfadonhas.
Talvez que a sua escolhida solidão, sem mulher, sem
filhos, sem enredos familiares, o
tivessem poupado ao deslizar do tempo, qual Peter Pan sem Wendy no
horizonte.
Afligiu-se a tentar desesperadamente agarrar a
criança perdida que incauta lhe fugia, a respiração instável a dizer-lhe que
tinha um coração antigo, enquanto o
corpo lasso se despia da casca jovem e se impregnava de males não sarados.
E os pontos de interrogação enfileiraram-se seguindo
o caminho inverso ao da verdade.
E tão perto que ela estava, como se o abraço
escondido da dúvida, finalmente o agarrasse e se desfizesse.
Atirou-se de peito feito a essa verdade, a juntar
todos os nãos até perfazer um sim, vestido com os medos do papão escondido da
infância.
E percebeu. E enquanto percebia, olhava. E depois de
olhar, cheirou a memória de quem muito viveu e sentiu nas mãos o que
magneticamente as ocupava.
Uma estrela dourada e cintilante acendeu-lhe nas
veias um calor morno num quase cheiro de caramelo queimado. Tocou-lhe e sentiu
chispas que lhe encheram os olhos de imagens de uma vida.
A estrela da avó! A estrela
cheia de histórias, velhinha e frágil, que hoje , não sabia porquê, fora
resgatar a uma gaveta perdida .
Súbito , todas as memórias se desfizeram nele como
um cataclismo.
Aquela estrela era o seu cordão umbilical, a sua
rota. Como tinham sido belos aqueles dias de Natal junto à chaminé da avó!
Lembrava-se tão bem do alguidar onde sovava a massa
que depois de frita e polvilhada de açúcar, ele trincava e lambia como se não houvesse
amanhã. O abraço da avó só cabia no mundo dos sonhos, de tal modo era mágico e
reconfortante. Os dias de Natal tinham o aconchego de uma mão cheia de
sorrisos e de raios de sol resgatados à
tristeza.
Mas nada, nada, se comparava à estrela dourada que
ele se habituara a ver no alto do pinheiro ainda a cheirar a resina. E as
memórias rangiam nele como cordas velhas e esticadas, assaltando-o como feras à
solta. Por muito que as datas e os nomes se esfumassem , por mais que os anos e
a vida se cansassem dele, tudo desaguava em catadupa, deixando-o desarmado, com
o destino a pesar-lhe nos ombros.
E enquanto lá fora o Natal marcava a vida de tantos,
ele compreendia que fora essa lembrança que o levara a descobrir a estrela
refugiada num canto obscuro da gaveta.
Curiosamente,
este último Natal roubava-lhe o abrigo da pseudo imortalidade. Passou a
ter anos e vidas acumuladas em cada poro, em cada batida do coração.
Mas tal como lhe deu idade, também lha retirou.
Apertou forte a estrela das memórias e de novo foi
criança.
Não, não cerres os olhos para não me
leres. Não te atrevas sequer a rasgar a folha sépia que encontrei para te
chamar à razão. Escolhi-a pela sua aparência nostálgica a lembrar outros
tempos, pelo seu toque esmaecido para melhor temperar a raiva.
Não deixes cair lágrimas amargas
diluindo a tinta azul da china com que a escrevi. Garanto-te que a escolhi num
espécie de namoro de outras eras, bucólico e primaveril.
Mas nada disso interessa. Agora aqui,
estamos apenas nós e quero que tenhas a coragem de ler estas palavras escritas
com força e mágoa.
Não te escapes de novo em malabarismos
vários e em piruetas de explicações. Não faças de tudo um circo. Não cries
raízes de desgraça, nem desistas das palavras. Não amarfanhes a voz, nem
emudeças os gestos em afectos bruscos.
Não, não e não.
O teu imperativo tem de ser um sim à
vida. Um sim canoro e estridente, uma viagem de boca escancarada a sugar
sangue-vida.
Sê tudo o que sabes e nunca uma bengala
ou uma migalha devorada pela voracidade da vida.
Lê o que te escrevo enquanto te olhas no
espelho rasgando as neblinas do passado.
Não, não é uma emboscada, nem uma astuta
ilusão, nem mesmo um impertinente passo
de dança. Falo-te da vida, essa meretriz tão amada e odiada, essa louca
espartilhada entre anos mastigados e outros levados num bater de asas e curvas
sem regresso.
Tens de te erguer e continuar. Não
importa se ela te cegou a estrada e te entornou os desejos no chão. Tu ainda
tens olhos para te estatelares ao comprido no amor e boca para gritares despenteadas
paixões. Tens mãos para rirem no corpo e atarem laços no coração.
Nestes anos, raras vezes me ouviste, ou
ouviste e não te deste ao trabalho de entender.
Recorri a todos os subterfúgios,
atrevendo-me a semear em ti todas as revoltas. Debateste-te e esmurraste muitas
vezes o pó dos dias numa loucura voraz e selvagem.
Mas saíste sempre arrepiado por entre
estreitas margens, a sorver o medo espesso de magoar os outros.
E tu?
Não és gente e carne e alma contrafeita?
Não és poema sem rimas? E tu?
Porque não rasgas os contratos e foges
dos vampiros que te emolduram como um anjo viciado?
Hoje, mesmo que te jogues no ar como um trapezista ébrio, mesmo
que percas os braços e as pernas, mesmo que nem os músculos, nem as veias, respondam aos apelos, não perderás o norte e
lerás o que escrevo.
Então o frio escorregará dos teus ombros
e os vendedores de banha da cobra tremerão antes de tentarem castrar-te o
destino.
Ainda é tempo. Ainda não gastaste as 7
vidas que um dia um gato te deu.
O delírio de um improvável céu azul
ainda se sustenta numa arquitectura frágil mas desperta.
Por isso, vais ler-me e erguer-te como
os guerreiros fazem, porque as batalhas não se ganham em acomodadas camas.
Vejo-te da
minha janela, quando o sol se descobre numa letargia que parece apaziguar os
meus anseios. Ele chega de mansinho embrulhado numa estranha neblina matinal e
entrega-se a um ritual sem pressas.
Tu não. Vejo-te assomar de supetão à janela e
expandires-te num abraço à alvorada. Escondida no cortinado esvoaçante desenho
com os olhos cada centímetro da tua pele. Não sei bem porque o faço . Apenas
sei que após a primeira vez, tudo se transformou num hábito que me foi viciando
e tornando cada vez mais cativa de ti.
Tudo em ti é de uma velocidade quase dançada, como
se fosses uma chita a correr na pradaria ou um vulcão a irromper na paisagem.
Encerro-me de olhos fechados no teu abraço ao sol e
o calor do dia atinge-me em cheio como uma pancada surda mas grávida de prazer.
Passas as mãos pelo cabelo que brilha nas últimas
gotas de água que lhe deixaste ficar. Quase lhe posso sentir o aroma e entretenho-me
a saboreá-lo na língua e nos lábios, ao mesmo tempo que um calafrio me lembra
que é necessário regressar à realidade .
Tem sido difícil fazê-lo desde o dia em que chegaste
e ocupaste a janela do lado.
Passei a monitorizar as tuas vindas à janela como se
eu fosse um pássaro atento e vigilante na procura do valioso alimento. E tu és
tal. Enches os meus dias da perfeição com que te revestes aos meus olhos. Umas
vezes és um deus nórdico, outras um cavaleiro mítico, mas sempre tens algo que
foge à rotineira classificação de humano.
Mas sei que o és porque te sinto daqui. O teu cheiro
chega invasivo mas sedutor e eu de gaivota curiosa passo rapidamente a ave de
rapina, os olhos brilhando na predatória busca da presa.
Mas as noites são ainda as piores horas que o dia me
traz.
Chegas e a lua escorre pelo teu corpo desenhando-te
e esculpindo-te. Ansiosamente seguro o meu despudorado arfar enquanto te
debruças, os olhos a sondar a noite.
As minhas mãos são gatunos a roubar o silêncio do
meu corpo, intrusos a explorar a solidão. Dançam-me no corpo loucas e vorazes e
empurram-me de encontro à janela numa posse quase agonizante.
Tu nada sabes destes meus pensamentos e sentires.
Nunca me olhaste ou sorriste. A ti basta-te existir nessa janela enquanto me
fazes e desfazes ao longo das horas em que nela te debruças.
Eu não sou capaz de me furtar à paralisia que me
tolhe . Engasgado na garganta está mais do que um olá. Está um grito rude que
me assola, a rasgar toda a sensatez e a
despir-me de tudo o que em mim é postiço e imposto.
Sei que vou morrer de sede por não te beber os
lábios e ficar cega de tanto te olhar. Tu jamais serás meu.
Ele
Quando vim para aqui morar reparei de imediato em
ti. Senti-te pequena como um pardal mas
explosiva no modo como o teu corpo se mexe.
Escondes-te atrás dos translúcidos cortinados mas eu
consigo descobrir-te quando o sol num passe mágico te lança um dos seus raios.
Envolta neles pareces uma pequena fada encerrada num mundo mágico e a lutar
para alcançar a liberdade.
De manhã venho mais cedo à janela só para te ver
meio escondida . Se tu soubesses como me despertas para o sol!
Saio para trabalhar mas não consigo paz durante o
dia. Numa tremenda obsessão tudo me arrasta para a tua silhueta tentando
imaginar como serás palpável nos meus dedos. Tudo é pura ilusão mas os efeitos
dela têm consequências visíveis no meu corpo e na minha vida. Tento
concentrar-me mas apenas anseio inquieto pelo passar das horas que parecem cada
vez mais lentas e pesarosas.
Não sei como fugir ao fascínio que me despertas com
o teu ar de menina mulher. Apesar do ar condicionado do escritório sinto que o suor
faz uma travessia do meu corpo quente . Ao meu lado a tua presença idealizada
torna o meu dia num abrasador deserto e pede-me suplicante que regresse a casa.
Finalmente a noite chega mas o meu tormento apenas
se despiu de uma forma e assume agora outras vestes.
A lua insinua-se devagarinho por entre os cortinados
onde te escondes. De repente és uma odalisca perturbante a dançar para mim e
embora eu apenas me atreva a sonhar tal, é essa a ideia que me invade .
O vento traz-me o cheiro da maresia que embora
fresca contribui para a minha alucinação.
Queria ser um super herói e voar até à tua janela.
Pousar as minhas mãos nesse corpo encantado e fazer dele a minha morada. Nada
me seria mais caro do que saber o nome da tua pele e aprender contigo a dança
do amor.
Mas tu não me olhas e eu fujo assustado da janela
que não me alivia o ardor que sinto.
Talvez fosse fácil procurar alguém que me fizesse
desprender dessa teia que teceste sem o saberes. Já o tentei mas levei comigo a
fome de ti que não pude atenuar noutros corpos.
Portanto prefiro a solidão das noites em que solto
os gritos de prazer que te eram destinados , imaginando-te desnuda na minha
cama.
Sei que não sou capaz de te abordar e que tu não te
mostrarás para mim. Escondes-te e não me devolves o olhar. Fico nesta ansiedade
e desespero e torno-me insano a cruzar noites de insónia.
As nossas janelas paralelas quase chegaram a ser
tangentes. Mas não consegui ser um Romeu
a falar-te ao coração e portanto elas nunca serão secantes. Tenho de fugir
daqui, desta casa, desta janela. Tu jamais serás minha.
Tapas os olhos para não veres e os ouvidos
para não ouvires. Cerras a mente ao murmúrio em zoada. A noite sem dormir,
deixou um buraco e um cinzento de palavras. Só precisas de enrolar o corpo num
raio de sol e esbanjar as cores do arco íris numa gargalhada.
E é assim que um dia acordas, num
desassossego embrulhado como se te escrevessem ao contrário ou te costurassem
do avesso.
Achas que é hoje o dia, o tal onde pensas ter
a coragem para o derradeiro salto, para transpor a fronteira da última sanidade
, para sair das marcas gastas e vincadas à tua volta. Não há abraços de solidão
nem felicidades bonitas e baratas. Contas feitas à vida, há que dar um pontapé no
caminho enferrujado e dizer que é agora.
E confessas ou tentas confessar.
No teu ombro direito um anjinho diáfano
semicerra os olhos e faz beicinho. Tenta convencer-te a dizeres coisas doces,
porque afinal és pura e de uma inocência negada à vida. És apenas louca como um
artista cativo de um admirável toque de génio, ou um pássaro em delírio a
carregar o céu nas asas.
Nada tens para confessar a não ser a vida mal
amada do dia a dia , cheia de metáforas (ou serão mentiras?), a atreverem-se a colorir
a existência azeda.
Mas no teu ombro esquerdo, um diabinho
elegante e melífluo não te deixa em paz. Belisca-te, desce pelo pescoço e
aloja-se entre os seios a desafiar-te. Emudeces os lábios no ar morno, espesso
da dúvida galopante.
Afinal,
um passo dado na incógnita do medo a arriscar uma caminhada feita de um querer fecundo, seria como atirares-te
do alto do penhasco da vida.
Quem sabe não teria o gosto de uma lágrima
pintada e escorrida, nesse corpo que quer mas não lembra!
E entre o pedido urgente e requebrado do
diabinho lânguido de voz íntima e rouca e o balbuciar doce do anjinho aflito,
abanas e alquebras , o instinto a tremer nas pernas e umas nuvens de insanidade a corroerem todas
as intenções de seres razoável.
Mas se confessas, se te atreves, se te
aventuras a rasgar a carne e a mostrar os ossos sem suavidade, corres o risco
de partir as asas, de despenteares a alma com o destino ao pescoço.
Porque não é fácil mastigares os pensamentos
que te cruzam e cuspi-los assim de uma rajada, numa onda metálica a chiar
ferrugens de tanto estarem presos.
Vais falar dos dias e dos instintos selvagens
que te crescem nos dedos, das palavras a brilhar saliva, que te apetece
ausentar da boca?
Ou vais confessar as noites bravias dos
fôlegos sem gaguez, onde não há delicadezas e tudo se perde em verdades ébrias?
Confessa então as certezas que não tens
dentro de ti mas que rugem como feras
esfaimadas, diz das palavras obscenas e cruas, placebo do amor não feito. De
olhos fechados sussurra a tua condição de mulher e as piruetas que o teu corpo sonha
no enlace que veste a pele de um homem.
Abre a Caixa de Pandora e conjuga o verbo
confessar em todos os tempos. Porque
afinal, se podes assegurar os pecados (serão?) de um passado e presente, por
certo o futuro não será diferente, ainda
que cada vez mais se faça tarde e os silêncios sejam densos e de solitárias
travessias.
Escolhe
de uma vez por todas se queres ficar acorrentada a esse anjo certinho e
de fragrância obscura ou por fim abraçar o diabo real que nada mais é que a tua
natureza de mulher .
Olhas-te ao espelho e tens lábios ceifados
pelo rubor de um beijo e uma impronunciável emoção a criar seiva nos reflexos
escondidos do teu corpo.
E portanto... confessas, porque mesmo que temas a realidade, o medo é
onde vais para aprender.
Havia já uma inquietude de sonhos no ar ligeiramente
morno do teatro. Num último frenesim as pessoas acomodavam-se nas cadeiras,
numa mistura exótica de aromas e hálitos.
Sentei-me, ou melhor, deixei que o veludo vermelho
me envolvesse o corpo numa carícia quente e entorpecedora. Mergulhei dispersa
nos murmúrios que me cercavam, num antecipado gozo pelo espetáculo.
Não sei que ardências desabrochavam naquele dia em
mim! Quando penso nisso vêm-me à cabeça feitiços ancestrais, origem de luxúrias
inauditas. Corria nas minhas veias um fluxo estranho, uma febre esdrúxula e
galopante a deixar-me a pele quase a gritar.
Tu surgiste minutos antes de tudo começar e foi como
se te tivesse inventado na hora, à
medida dos meus desejos e da minha fome.
Sentaste-te deixando vago o lugar entre os dois e
nesse instante fugaz cruzaste o teu olhar com o meu. O ar à minha volta
tornou-se rarefeito e o vestido preto que envergava apertou-me o corpo num
amplexo bravio. Trouxe saliva aos lábios numa vã tentativa de os amaciar. Mas
eles já tinham ânsias rebeldes e uma aflitiva dependência dos teus.
O espetáculo começou. Os tangos argentinos plenos de
chamas de uma Buenos Aires quente e apaixonada, as milongas primitivas e
ritmadas, cresciam e lambuzavam a imaginação, incendiando o palco.
Deixei-me levar pela magia dos corpos e da música, o
coração a galopar frenético no meio das notas do bandonéon.
Entre dois passos de corte e uma media vuelta,
olhámos um para o outro separados pela estranha barreira da cadeira ainda
vazia.
Desviei o meu como corça aflita, apercebendo-me cada
vez mais do que me provocavas.
Os saltos e os tacões ecoavam no palco e agora era
sobre o meu corpo, de uma nudez de seda
branca, que dançavam. Os pés dos bailarinos marcavam nele os tempos e os
enlaces, mas eu apenas sentia a tua boca, viva e suculenta, a devorar-me como
fera em cio.
A música carregava no ventre, quase a parir, paixões
incontroláveis.
No meu lugar, eu tinha a certeza que brilhava num
calamitoso apelo espartilhado pelo vestido.
O arco do violino tangia-me, expondo-me em carne
viva às emoções e ao prazer que eu sentia que viriam da tua boca pressurosa e
faminta, das tuas pestanas longas a pintarem-me em pinceladas diáfanas.
No palco a coreografia atingia um ponto alto, numa
pose de machos a seduzirem fêmeas e a
vergá-las à sua vontade num último alento. Nesse momento a minha boca
entreabriu-se para deixar fugir o resto de um grito meio amordaçado que se
perdeu no aplauso do público.
O intervalo chegou e as luzes acres e brancas
banharam o teatro e isolaram-me numa aridez crua.
Fiquei sem saber se me devia levantar e misturar com
os outros, se ficar ali escondida naquele baluarte vermelho. O problema era
pensar no que tu farias também e no que eu queria exatamente. Mas sentia-me
febril, esgotada, húmida e palpitante e foi nessa pressa que me ergui, as
pernas trémulas a tocarem-se e a despertarem ainda, aqui e ali, uma faísca ao
longo das coxas.
Durante aqueles minutos tentei apaziguar o meu mar
interior, a minha epidérmica falta de inocência. Num estranho batismo aspergi
água fria nos pulsos, na cara, na gota de suor que descia como réptil no meio
dos meus seios. Não me reconhecia no espelho, rosada de um prazer impudico e
violentador.
Quando voltei à sala não te vi e respirei fundo
acalmando os meus anseios.
O espetáculo recomeçou e a tua cadeira continuou
desocupada. Agora a inquietação era flor de cardo, desespero a criar raiz,
dúvida feita cadafalso.
Gardel soava ebulindo os corpos vestidos de negro e
vermelhos inflamados.
E foi nesse momento que o teu perfume se introduziu
em mim, invasivo, pungente, quase promíscuo de tanta sexualidade arrasadora.
Sem me aperceber ocuparas o lugar a meu lado e o teu perfil desenhava uma
fronteira que eu queria transgredir.
Os meus joelhos nus e desvendados tremeram.
Agora cada
passo do tango, os cortes, as cruzadas, eramos nós que os dançávamos,
sincopados, carentes e predatórios.
Baixei os olhos para as tuas mãos, belas e
poderosas, mãos de pianista, suaves mas viris. Imaginei-as capazes de tocar em
mim todas as sinfonias e sonatas.
Presa às imagens que despudoradamente idealizava, o
leve toque do teu braço lançou-me numa espiral sem retorno. Às 120 batidas da
dança, respondia o meu corpo numa corrida que as superava.
Alienada num
interno desvario desejava mais do que nunca o poder da tua boca a desvendar-me
em estocadas e as aranhas das tuas mãos prendendo-me numa teia, enquanto escorregavas na seda do meu vestido.
Antes que a pequena morte chegasse e me derrubasse
numa síncope inaudita, levantei-me e fugi para a rua a abraçar o frio e a exorcizar os meus
demónios.
Mas eu acontecera-te tal como tu a mim.
Por isso, dez anos passados, ambos celebramos aquilo
a que não queremos dar nome, dançando um tango argentino.