segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Quando o amor chegar






Mesmo que não possas fechar os olhos
mesmo que o medo te arda como uma gargalhada incendiada
quando o amor chegar, segue-o
Embora os seus caminhos sejam íngremes e difíceis
enterra os silêncios ainda que rasgues novas cicatrizes
Quando o amor chegar, rende-te
deixa que as suas asas te abracem
te sejam ninho e rima, ou restos de um sonho sedento
Embora o punhal escondido nas suas penas te fira o coração
confia-lhe a pele naufragada num ardor antigo e indecifrável
Quando o amor chegar, renasce
mata a fome e a febre dos desassossegos em busca do verso não escrito
e grita nele todas as letras enquanto o corpo morre a cada dia


© Margarida Piloto Garcia in-ANTOLOGIA DE POESIA CONTEMPORÂNEA VOL 10 "ENTRE O SONO E O SONHO"-publicado por CHIADO EDITORA-2019


© Foto de Edmund Kesting

domingo, 12 de abril de 2015

Paz



Traz-me um pedaço de céu
um rumor de asas, uma flor amarela.
Peço-te que em todo o lado procures
olhos azuis ou castanhos, peles de todas as cores
rezas, canções, danças secretas.
Extermina no pó todos os horrores
e apodrece os malefícios da louca humanidade.
Ri-te e ama no branco dos lençóis, no azul das águas
num abraço fraterno a respirar doçura.
Traça um armistício da lua até à terra
numa onda de paz que nos transborde e submerja
Que o único gume a existir
seja o das bocas que se beijam.


© Margarida Piloto Garcia

© Foto de Grethe Holmgard Lange

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Cupido





O amor não tem prazo marcado. Nasce quando quer e vai-se embora sem pedir permissão. O amor não tem pontos cardeais nem obedece a climas. Pode ser um furacão ou uma brisa. Acaricia-te ou atira-te contra a parede se tentas analisá-lo ou dar-lhe nomes. O amor não se compra em centros comerciais nem se desdobra em cortesias uma vez por ano. Está ali ao alcance da mão, ou tão longe que precisas de te atirar do alto de uma montanha para o alcançares. O amor não tem hora marcada, nem dia para se repetir ad eternum nas rádios e nas televisões de um qualquer país. O amor não é um dia, porque é todos os dias ou não é. Pode aprisionar-te num segundo e libertar-te noutro e as horas que o marcam não se acomodam num mero relógio. O amor é assim: tem fases, declinações, pausas e reticências. Precisa de dádivas e de paixões. O que ele não tem de ser é um cupido idiota a vender-se por aí num só dia do ano.



© Margarida Piloto Garcia 


© Arte de David Renshaw

domingo, 25 de janeiro de 2015

Recusa





O corpo recusou-se a morrer
numa indecente paixão sem arrependimentos
Num esforço atrevido
negou-se a enterrar as flores da pele
e os frutos das lutas famintas
que corriam sempre como rios
nas latitudes e longitudes das camas gemedoras
Disse não ao terror nas veias
que os outros lhe deixavam nas palavras
e aos abraços feitos de tendões frios
a virarem-na ao contrário
Decepou os oráculos
e atreveu-se a amassar as sombras que  a tolhiam
estrangulando os medos
alinhavados nos nomes que não queria pronunciar
Rasgou a dor que respirava
e soltou o canto eterno mas secreto
Sem pudor atirou o corpo contra o outro
num passo de dança rasgado e febril.
Depois... dissolveu-se às camadas
palmo a palmo, no palato inquieto de uma boca
e no abismo assanhado de outra pele. 


© Margarida Piloto Garcia  in "POEMÁRIO 2016"  - publicado por PASTELARIA STUDIOS  EDITORA-2016

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Uma estrela de memórias






Tinha chegado o dia em que sentia o fim da infância, mesmo que os cabelos brancos lhe dissessem, que essa há muito que não existia. O tempo estava esquecido num gemido abafado ou num sorriso áspero e remoto na profundidade da memória.
Mas hoje acordara tenso, despido da ilusão roubada num mundo de aparências, onde a maior era sem dúvida ele. O tempo migrara-lhe da mente, recusa feita à vida surda e cega que nunca o deixara envelhecer. Que importavam os caminhos armadilhados na pele, rugas cativas da contagem dos dias e das horas?
Até ali olhara-se e apenas vira um miúdo ladino mas sonhador, ou até um jovem feito de vagarosa eternidade. Pouco lhe interessava a tosse dos olhos virando lágrimas ou as curvas escorregadias da boca a dizerem não. A tal juventude agarrava-se à pele e escondia-se nos bolsos fundos das calças. Os ossos não gemiam e o corpo ainda cantava mesmo que a solidão lhe enchesse a boca de sal a afundar-se feito mar dentro do estômago.
Não percebia a razão de agora se sentir diferente, nem o facto do silêncio esquivo não lhe saber a paz mas a morte anunciada. Curiosamente nunca pensara muito nisso, naquela ilusória juventude, fruto de uma imperfeição sabiamente agarrada aos sentidos.
Não era um fantasma à deriva, nem um louco preso a esfaimados desvarios. Apenas achava impossível que o seu tempo findasse e que aquilo que via e sentia fosse somente resultado de um estado de espírito matreiro, adoçado e maquiavélico.
Continuava a não perceber aquela transformação. Olhava-se no espelho onde um desconhecido o enfrentava,  desafiador. Há coisas que levam tempo, como se fossem pegajosas e escorressem  para parte incerta onde nunca as encontramos.
Era assim aquele olhar vindo do espelho, uma boca a abrir e fechar balbuciando palavras para ouvidos moucos, enquanto ele se refugiava numa zona de conforto onde não visse, nem ouvisse,  a mente desfragmentada e impúdica assumindo aquele que ele era.
Não só o corpo lhe era estranho, como também aquela pungente sensação de peso e a condescendente sabedoria de quem viveu muitos anos. Pela primeira vez, um medo frio suou-lhe da pele e roubou-lhe as certezas redondas, perfeitas e enfadonhas.
Talvez que a sua escolhida solidão, sem mulher, sem filhos, sem enredos familiares, o  tivessem poupado ao deslizar do tempo, qual Peter Pan sem Wendy no horizonte.
Afligiu-se a tentar desesperadamente agarrar a criança perdida que incauta lhe fugia, a respiração instável a dizer-lhe que tinha  um coração antigo, enquanto o corpo lasso se despia da casca jovem e se impregnava de males não sarados.
E os pontos de interrogação enfileiraram-se seguindo o caminho inverso ao da verdade.
E tão perto que ela estava, como se o abraço escondido da dúvida, finalmente o agarrasse e se desfizesse.
Atirou-se de peito feito a essa verdade, a juntar todos os nãos até perfazer um sim,  vestido com os medos do papão escondido da infância.
E percebeu. E enquanto percebia, olhava. E depois de olhar, cheirou a memória de quem muito viveu e sentiu nas mãos o que magneticamente as ocupava.
Uma estrela dourada e cintilante acendeu-lhe nas veias um calor morno num quase cheiro de caramelo queimado. Tocou-lhe e sentiu chispas que lhe encheram os olhos de imagens de uma vida.
A estrela da avó! A estrela cheia de histórias, velhinha e frágil, que hoje , não sabia porquê, fora resgatar a uma gaveta perdida .
Súbito , todas as memórias se desfizeram nele como um cataclismo.
Aquela estrela era o seu cordão umbilical, a sua rota. Como tinham sido belos aqueles dias de Natal junto à chaminé da avó!
Lembrava-se tão bem do alguidar onde sovava a massa que depois de frita e polvilhada de açúcar, ele trincava e lambia como se não houvesse amanhã. O abraço da avó só cabia no mundo dos sonhos, de tal modo era mágico e reconfortante. Os dias de Natal tinham o aconchego de uma mão cheia de sorrisos  e de raios de sol resgatados à tristeza.
Mas nada, nada, se comparava à estrela dourada que ele se habituara a ver no alto do pinheiro ainda a cheirar a resina. E as memórias rangiam nele como cordas velhas e esticadas, assaltando-o como feras à solta. Por muito que as datas e os nomes se esfumassem , por mais que os anos e a vida se cansassem dele, tudo desaguava em catadupa, deixando-o desarmado, com o destino a pesar-lhe nos ombros.
E enquanto lá fora o Natal marcava a vida de tantos, ele compreendia que fora essa lembrança que o levara a descobrir a estrela refugiada num canto obscuro da gaveta.
Curiosamente,  este último Natal roubava-lhe o abrigo da pseudo imortalidade. Passou a ter anos e vidas acumuladas em cada poro, em cada batida do coração.
Mas tal como lhe deu idade, também lha retirou.
Apertou forte a estrela das memórias e de novo foi criança.
E sendo-a, sonhou e voou.

Partiu e nunca mais voltou.



© Margarida Piloto Garcia in "LUGARES E PALAVRAS DE NATAL III" publicado por LUGAR DAS PALAVRAS EDITORA 2014

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Dicotomia



Fizeste  amor comigo
como se de sexo se tratasse.
O corpo tinha a perversão do poder
e aprisionaste em mim o desejo louco
lúbrico e insano nas pernas a tremer.
Não houve remorsos
nem sombras
nem medos.
Nem mesmo palavras de esperança
de luz
ou redentoras frases.
Só não percebeste
que era mesmo sexo o que precisava
mas libertado nos teus olhos
como se de amor se tratasse.



© Margarida Piloto Garcia









domingo, 30 de novembro de 2014

Pensamentos soltos




De que servem os braços onde não cabes?
Lianas sem flor azul nascidas em mãos de adaga.
De que serve a pele, plena de um momento cheio
desde o dia em que a madrugada acordou o meu pulso?
Essa pele onde as armas escreveram desalinhadas vogais
e os dias naufragaram no vício maduro e intrometido.
De que servem os olhos, frestas incendiadas?
Nem anjos nem demónios se escondem
nas palpitações dos cílios que beijaste.
De que serve a boca onde as estrelas acordam?
De nada, sem essa respiração suspensa sobre mim
e a tua invasão destes meus lábios cerrados.



© Margarida Piloto Garcia

© Foto de Joné Reed





quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Parto



Do ventre solta o fio do grito e corta a paixão umbilical
tão macia e voraz que não a dessedenta
Leva o olhar a fingir uma reza até que nada veja
nem o grito que sobe, nem as mãos desvairadas
a moldarem em cálculos infinitesimais o lugar vazio.
O grito sobe e o sismo viaja nos caminhos do corpo
numa pornografia de tendões e músculos
numa ode orgíaca de pele e rios caudalosos
Engole as palavras a fingir que é saliva
e só o grito paira sobre si, agora morno e pálido
agora sonolento, até que o gere uma outra vez




© Margarida Piloto Garcia


© Foto de Jaroslaw Datta









segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A carta



Não, não cerres os olhos para não me leres. Não te atrevas sequer a rasgar a folha sépia que encontrei para te chamar à razão. Escolhi-a pela sua aparência nostálgica a lembrar outros tempos, pelo seu toque esmaecido para melhor temperar a raiva.
Não deixes cair lágrimas amargas diluindo a tinta azul da china com que a escrevi. Garanto-te que a escolhi num espécie de namoro de outras eras, bucólico e primaveril.
Mas nada disso interessa. Agora aqui, estamos apenas nós e quero que tenhas a coragem de ler estas palavras escritas com força e mágoa.
Não te escapes de novo em malabarismos vários e em piruetas de explicações. Não faças de tudo um circo. Não cries raízes de desgraça, nem desistas das palavras. Não amarfanhes a voz, nem emudeças os gestos em afectos bruscos.
Não, não e não.
O teu imperativo tem de ser um sim à vida. Um sim canoro e estridente, uma viagem de boca escancarada a sugar sangue-vida.
Sê tudo o que sabes e nunca uma bengala ou uma migalha devorada pela voracidade da vida.
Lê o que te escrevo enquanto te olhas no espelho rasgando as neblinas do passado.
Não, não é uma emboscada, nem uma astuta ilusão, nem mesmo um impertinente  passo de dança. Falo-te da vida, essa meretriz tão amada e odiada, essa louca espartilhada entre anos mastigados e outros levados num bater de asas e curvas sem regresso.
Tens de te erguer e continuar. Não importa se ela te cegou a estrada e te entornou os desejos no chão. Tu ainda tens olhos para te estatelares ao comprido no amor e boca para gritares despenteadas paixões. Tens mãos para rirem no corpo e atarem laços no coração.
Nestes anos, raras vezes me ouviste, ou ouviste e não te deste ao trabalho de entender.
Recorri a todos os subterfúgios, atrevendo-me a semear em ti todas as revoltas. Debateste-te e esmurraste muitas vezes o pó dos dias numa loucura voraz e selvagem.
Mas saíste sempre arrepiado por entre estreitas margens, a sorver o medo espesso de magoar os outros.
E tu?
Não és gente e carne e alma contrafeita? Não és poema sem rimas? E tu?
Porque não rasgas os contratos e foges dos vampiros que te emolduram como um anjo viciado?
Hoje, mesmo que te  jogues no ar como um trapezista ébrio, mesmo que percas os braços e as pernas, mesmo que nem os músculos, nem as veias,  respondam aos apelos, não perderás o norte e lerás o que escrevo.
Então o frio escorregará dos teus ombros e os vendedores de banha da cobra tremerão antes de tentarem castrar-te o destino.
Ainda é tempo. Ainda não gastaste as 7 vidas que um dia um gato te deu.
O delírio de um improvável céu azul ainda se sustenta numa arquitectura frágil mas desperta.
Por isso, vais ler-me e erguer-te como os guerreiros fazem, porque as batalhas não se ganham em acomodadas camas.

Muita força da sempre tua


Consciência



© Margarida Piloto Garcia in "CARTAS"-publicado por LUA DE MARFIM -2014  







sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Destinos paralelos




Ela

 Vejo-te da minha janela, quando o sol se descobre numa letargia que parece apaziguar os meus anseios. Ele chega de mansinho embrulhado numa estranha neblina matinal e entrega-se a um ritual sem pressas.
Tu não. Vejo-te assomar de supetão à janela e expandires-te num abraço à alvorada. Escondida no cortinado esvoaçante desenho com os olhos cada centímetro da tua pele. Não sei bem porque o faço . Apenas sei que após a primeira vez, tudo se transformou num hábito que me foi viciando e tornando cada vez mais cativa de ti.
Tudo em ti é de uma velocidade quase dançada, como se fosses uma chita a correr na pradaria ou um vulcão a irromper na paisagem.
Encerro-me de olhos fechados no teu abraço ao sol e o calor do dia atinge-me em cheio como uma pancada surda mas grávida de prazer.
Passas as mãos pelo cabelo que brilha nas últimas gotas de água que lhe deixaste ficar. Quase lhe posso sentir o aroma e entretenho-me a saboreá-lo na língua e nos lábios, ao mesmo tempo que um calafrio me lembra que é necessário regressar à realidade .
Tem sido difícil fazê-lo desde o dia em que chegaste e ocupaste a janela do lado.
Passei a monitorizar as tuas vindas à janela como se eu fosse um pássaro atento e vigilante na procura do valioso alimento. E tu és tal. Enches os meus dias da perfeição com que te revestes aos meus olhos. Umas vezes és um deus nórdico, outras um cavaleiro mítico, mas sempre tens algo que foge à rotineira classificação de humano.
Mas sei que o és porque te sinto daqui. O teu cheiro chega invasivo mas sedutor e eu de gaivota curiosa passo rapidamente a ave de rapina, os olhos brilhando na predatória busca da presa.
Mas as noites são ainda as piores horas que o dia me traz.
Chegas e a lua escorre pelo teu corpo desenhando-te e esculpindo-te. Ansiosamente seguro o meu despudorado arfar enquanto te debruças, os olhos a sondar a noite.
As minhas mãos são gatunos a roubar o silêncio do meu corpo, intrusos a explorar a solidão. Dançam-me no corpo loucas e vorazes e empurram-me de encontro à janela numa posse quase agonizante.
Tu nada sabes destes meus pensamentos e sentires. Nunca me olhaste ou sorriste. A ti basta-te existir nessa janela enquanto me fazes e desfazes ao longo das horas em que nela te debruças.
Eu não sou capaz de me furtar à paralisia que me tolhe . Engasgado na garganta está mais do que um olá. Está um grito rude que me assola, a rasgar toda a sensatez  e a despir-me de tudo o que em mim é postiço e imposto.
Sei que vou morrer de sede por não te beber os lábios e ficar cega de tanto te olhar. Tu jamais serás meu.

Ele

Quando vim para aqui morar reparei de imediato em ti. Senti-te pequena como um pardal  mas explosiva no modo como o teu corpo se mexe.
Escondes-te atrás dos translúcidos cortinados mas eu consigo descobrir-te quando o sol num passe mágico te lança um dos seus raios. Envolta neles pareces uma pequena fada encerrada num mundo mágico e a lutar para alcançar a liberdade.
De manhã venho mais cedo à janela só para te ver meio escondida . Se tu soubesses como me despertas para o sol!
Saio para trabalhar mas não consigo paz durante o dia. Numa tremenda obsessão tudo me arrasta para a tua silhueta tentando imaginar como serás palpável nos meus dedos. Tudo é pura ilusão mas os efeitos dela têm consequências visíveis no meu corpo e na minha vida. Tento concentrar-me mas apenas anseio inquieto pelo passar das horas que parecem cada vez mais lentas e pesarosas.
Não sei como fugir ao fascínio que me despertas com o teu ar de menina mulher. Apesar do ar condicionado do escritório sinto que o suor faz uma travessia do meu corpo quente . Ao meu lado a tua presença idealizada torna o meu dia num abrasador deserto e pede-me suplicante que regresse a casa.
Finalmente a noite chega mas o meu tormento apenas se despiu de uma forma e assume agora outras vestes.
A lua insinua-se devagarinho por entre os cortinados onde te escondes. De repente és uma odalisca perturbante a dançar para mim e embora eu apenas me atreva a sonhar tal, é essa a ideia que me invade .
O vento traz-me o cheiro da maresia que embora fresca contribui para a minha alucinação.
Queria ser um super herói e voar até à tua janela. Pousar as minhas mãos nesse corpo encantado e fazer dele a minha morada. Nada me seria mais caro do que saber o nome da tua pele e aprender contigo a dança do amor.
Mas tu não me olhas e eu fujo assustado da janela que não me alivia o ardor que sinto.
Talvez fosse fácil procurar alguém que me fizesse desprender dessa teia que teceste sem o saberes. Já o tentei mas levei comigo a fome de ti que não pude atenuar noutros corpos.
Portanto prefiro a solidão das noites em que solto os gritos de prazer que te eram destinados , imaginando-te desnuda na minha cama.
Sei que não sou capaz de te abordar e que tu não te mostrarás para mim. Escondes-te e não me devolves o olhar. Fico nesta ansiedade e desespero e torno-me insano a cruzar noites de insónia.
As nossas janelas paralelas quase chegaram a ser tangentes.  Mas não consegui ser um Romeu a falar-te ao coração e portanto elas nunca serão secantes. Tenho de fugir daqui, desta casa, desta janela. Tu jamais serás minha.


© Margarida Piloto Garcia

© Quadro de Bogdan Prystrom








domingo, 21 de setembro de 2014

Confissão





Tapas os olhos para não veres e os ouvidos para não ouvires. Cerras a mente ao murmúrio em zoada. A noite sem dormir, deixou um buraco e um cinzento de palavras. Só precisas de enrolar o corpo num raio de sol e esbanjar as cores do arco íris numa gargalhada.
E é assim que um dia acordas, num desassossego embrulhado como se te escrevessem ao contrário ou te costurassem do avesso.
Achas que é hoje o dia, o tal onde pensas ter a coragem para o derradeiro salto, para transpor a fronteira da última sanidade , para sair das marcas gastas e vincadas à tua volta. Não há abraços de solidão nem felicidades bonitas e baratas. Contas feitas à vida, há que dar um pontapé no caminho enferrujado e dizer que é agora.
E confessas ou tentas confessar.
No teu ombro direito um anjinho diáfano semicerra os olhos e faz beicinho. Tenta convencer-te a dizeres coisas doces, porque afinal és pura e de uma inocência negada à vida. És apenas louca como um artista cativo de um admirável toque de génio, ou um pássaro em delírio a carregar o céu nas asas.
Nada tens para confessar a não ser a vida mal amada do dia a dia , cheia de metáforas (ou serão mentiras?), a atreverem-se a colorir a existência azeda.
Mas no teu ombro esquerdo, um diabinho elegante e melífluo não te deixa em paz. Belisca-te, desce pelo pescoço e aloja-se entre os seios a desafiar-te. Emudeces os lábios no ar morno, espesso da dúvida galopante.
 Afinal, um passo dado na incógnita do medo a arriscar uma caminhada  feita de um querer fecundo, seria como atirares-te do alto do penhasco da vida.
Quem sabe não teria o gosto de uma lágrima pintada e escorrida, nesse corpo que quer mas não lembra!
E entre o pedido urgente e requebrado do diabinho lânguido de voz íntima e rouca e o balbuciar doce do anjinho aflito, abanas e alquebras , o instinto a tremer nas pernas  e umas nuvens de insanidade a corroerem todas as intenções de seres razoável.
Mas se confessas, se te atreves, se te aventuras a rasgar a carne e a mostrar os ossos sem suavidade, corres o risco de partir as asas, de despenteares a alma com o destino ao pescoço.
Porque não é fácil mastigares os pensamentos que te cruzam e cuspi-los assim de uma rajada, numa onda metálica a chiar ferrugens de tanto estarem presos.
Vais falar dos dias e dos instintos selvagens que te crescem nos dedos, das palavras a brilhar saliva, que te apetece ausentar da boca?
Ou vais confessar as noites bravias dos fôlegos sem gaguez, onde não há delicadezas e tudo se perde em verdades ébrias?
Confessa então as certezas que não tens dentro de ti mas que rugem  como feras esfaimadas, diz das palavras obscenas e cruas, placebo do amor não feito. De olhos fechados sussurra a tua condição de mulher e as piruetas que o teu corpo sonha no enlace que veste a pele de um homem.
Abre a Caixa de Pandora e conjuga o verbo confessar em todos os tempos.  Porque afinal, se podes assegurar os pecados (serão?) de um passado e presente, por certo o futuro não será diferente,  ainda que cada vez mais se faça tarde e os silêncios sejam densos e de solitárias travessias.
Escolhe  de uma vez por todas se queres ficar acorrentada a esse anjo certinho e de fragrância obscura ou por fim abraçar o diabo real que nada mais é que a tua natureza de mulher .
Olhas-te ao espelho e tens lábios ceifados pelo rubor de um beijo e uma impronunciável emoção a criar seiva nos reflexos escondidos do teu corpo.
E portanto... confessas,  porque mesmo que temas a realidade, o medo é onde vais para aprender.




© Margarida Piloto Garcia in- " Confissões " - publicado por LUA DE MARFIM EDITORA-2014


© Pintura de Charles Webster Hawthorne














segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Aconteceste-me







Simplesmente aconteceste-me.
Havia já uma inquietude de sonhos no ar ligeiramente morno do teatro. Num último frenesim as pessoas acomodavam-se nas cadeiras, numa mistura exótica de aromas e hálitos.
Sentei-me, ou melhor, deixei que o veludo vermelho me envolvesse o corpo numa carícia quente e entorpecedora. Mergulhei dispersa nos murmúrios que me cercavam, num antecipado gozo pelo espetáculo.
Não sei que ardências desabrochavam naquele dia em mim! Quando penso nisso vêm-me à cabeça feitiços ancestrais, origem de luxúrias inauditas. Corria nas minhas veias um fluxo estranho, uma febre esdrúxula e galopante a deixar-me a pele quase a gritar.
Tu surgiste minutos antes de tudo começar e foi como se te tivesse inventado na hora,   à medida dos meus desejos e da minha fome.
Sentaste-te deixando vago o lugar entre os dois e nesse instante fugaz cruzaste o teu olhar com o meu. O ar à minha volta tornou-se rarefeito e o vestido preto que envergava apertou-me o corpo num amplexo bravio. Trouxe saliva aos lábios numa vã tentativa de os amaciar. Mas eles já tinham ânsias rebeldes e uma aflitiva dependência dos teus.
O espetáculo começou. Os tangos argentinos plenos de chamas de uma Buenos Aires quente e apaixonada, as milongas primitivas e ritmadas, cresciam e lambuzavam a imaginação, incendiando o palco.
Deixei-me levar pela magia dos corpos e da música, o coração a galopar frenético no meio das notas do bandonéon.
Entre dois passos de corte e uma media vuelta, olhámos um para o outro separados pela estranha barreira da cadeira ainda vazia.
Desviei o meu como corça aflita, apercebendo-me cada vez mais do que me provocavas.
Os saltos e os tacões ecoavam no palco e agora era sobre o meu corpo, de uma  nudez de seda branca, que dançavam. Os pés dos bailarinos marcavam nele os tempos e os enlaces, mas eu apenas sentia a tua boca, viva e suculenta, a devorar-me como fera em cio.
A música carregava no ventre, quase a parir, paixões incontroláveis.
No meu lugar, eu tinha a certeza que brilhava num calamitoso apelo espartilhado pelo vestido.
O arco do violino tangia-me, expondo-me em carne viva às emoções e ao prazer que eu sentia que viriam da tua boca pressurosa e faminta, das tuas pestanas longas a pintarem-me em pinceladas diáfanas.
No palco a coreografia atingia um ponto alto, numa pose de machos a seduzirem  fêmeas e a vergá-las à sua vontade num último alento. Nesse momento a minha boca entreabriu-se para deixar fugir o resto de um grito meio amordaçado que se perdeu no aplauso do público.
O intervalo chegou e as luzes acres e brancas banharam o teatro e isolaram-me numa aridez crua.
Fiquei sem saber se me devia levantar e misturar com os outros, se ficar ali escondida naquele baluarte vermelho. O problema era pensar no que tu farias também e no que eu queria exatamente. Mas sentia-me febril, esgotada, húmida e palpitante e foi nessa pressa que me ergui, as pernas trémulas a tocarem-se e a despertarem ainda, aqui e ali, uma faísca ao longo das coxas.
Durante aqueles minutos tentei apaziguar o meu mar interior, a minha epidérmica falta de inocência. Num estranho batismo aspergi água fria nos pulsos, na cara, na gota de suor que descia como réptil no meio dos meus seios. Não me reconhecia no espelho, rosada de um prazer impudico e violentador.
Quando voltei à sala não te vi e respirei fundo acalmando os meus anseios.
O espetáculo recomeçou e a tua cadeira continuou desocupada. Agora a inquietação era flor de cardo, desespero a criar raiz, dúvida feita cadafalso.
Gardel soava ebulindo os corpos vestidos de negro e vermelhos inflamados.
E foi nesse momento que o teu perfume se introduziu em mim, invasivo, pungente, quase promíscuo de tanta sexualidade arrasadora. Sem me aperceber ocuparas o lugar a meu lado e o teu perfil desenhava uma fronteira que eu queria transgredir.
Os meus joelhos nus e desvendados tremeram.
 Agora cada passo do tango, os cortes, as cruzadas, eramos nós que os dançávamos, sincopados, carentes e predatórios.
Baixei os olhos para as tuas mãos, belas e poderosas, mãos de pianista, suaves mas viris. Imaginei-as capazes de tocar em mim todas as sinfonias e sonatas.
Presa às imagens que despudoradamente idealizava, o leve toque do teu braço lançou-me numa espiral sem retorno. Às 120 batidas da dança, respondia o meu corpo numa corrida que as superava.
 Alienada num interno desvario desejava mais do que nunca o poder da tua boca a desvendar-me em estocadas e as aranhas das tuas mãos prendendo-me numa teia,  enquanto escorregavas na seda do meu vestido.
Antes que a pequena morte chegasse e me derrubasse numa síncope inaudita, levantei-me e fugi para a rua  a abraçar o frio e a exorcizar os meus demónios.
Mas eu acontecera-te tal como tu a mim.
Por isso, dez anos passados, ambos celebramos aquilo a que não queremos dar nome, dançando um tango argentino.


© Margarida Piloto Garcia in- " SEDUZ-ME " -publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2014


© Foto de Alfredo Ventura Sousa, concebida a partir do texto.






segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Desabafo




Preciso habituar-me à imperfeição, logo eu, de imperfeições feita
agarradas aos olhos e ao cérebro latejante
Ergo-me inconformada e inquieta, o rio do corpo a correr não sei para que foz
as margens a tropeçarem nos azares e a vida a tentar passar a fronteira da pele
Mas que importa, se crias outro dialecto com que me assombras com a futilidade de um romance!
Às vezes o coração fica míope de tão inocente e desacertado
E depois? Olho para trás e para dentro , a mão nervosa a tocar os olhos
como se as lágrimas fossem cordas de guitarra.
Os anjos puxam-me o cabelo e os pássaros abraçam-me com asas cinzentas
a salvarem-me do que não controlo, olhos magoados a escoarem dores.
Não grito como flor aberta, não deixo escorrer por entre os dedos
o desassossego da sede feroz e da fome a roer as entranhas.
Agarrada ao sonho teimo cegueiras em palavras lúdicas
em cheiros de corpos que a paixão louca não questiona
em sabores engolidos e pele a arder no vazio enclausurado.
Mas emudeço os tacanhos e delirantes sentimentos
porque algures num mundo escangalhado sem velas e sem leme
mais uma mãe encosta o corpo na fronteira da dor
e exausta, desabita a lucidez enquanto abraça o filho morto.


© Margarida Piloto Garcia  in "IDEÁRIOS" publicado por A CHAMA 2019


© Foto de Jonè Reed