domingo, 1 de março de 2009

Delírio





Esqueço o teu número num copo.
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Tento...tonta, vestir a desnudada incompreensão.
Atravesso a fronteira entre o real e o imaginário.
Esqueço a tua voz que me hipnotiza
rabisco frases idiotas, engulo ácidos de desespero.
Anseio pela tão desejada anestesia.
Esqueço os teus beijos,
suaves, carentes, tímidos.
Devoradores, suculentos, sugando-me a alma.
Embarco num turbilhão de tanta mágoa
giro num carrossel que me nauseia, numa montanha russa de sombras escuras.

Retorço-me na minha carapaça,
insecto inútil e assustado na palma da tua mão!
Esmagas-me devagar com toda a crueldade,
de quem não entende, de quem me teme.

Esqueço a tua escrita correndo-me no sangue,
fluído vital
parte de mim.
Conteúdo da minha amarga consciência
da minha indomável existência!
Esqueço tudo, o antes, o durante e o depois.
Rasgo com olhos vagos o copo...
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
A vida escoa-se em cada gota de álcool, a sangue frio.
Dor pura que nada consegue mitigar.

O ar à minha volta é o abraço que não quero
a vida que não desejo.

Esqueço a percepção do inevitável.
Não consigo evitar o rasgar de entranhas, numa ilógica e fascinante destruição,
diluída num conteúdo inútil de tão ferida.
O copo continua lá
meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Deixo de acreditar que o sol nasceu num novo dia.

O insecto que sou ainda estremece,
tentando lutar num instinto básico e primário.
Mas a dor que tu provocas aperta mais o cerco,
fina, fria, metálica.

Já nem reparo no copo.
Meio cheio
meio vazio
meio cheio.
Esqueço-me de viver...


Margarida Piloto Garcia



2 comentários:

Zezé disse...

Pois... a memória da pele é a mais forte...
beijo

Anónimo disse...

Eu diria da carne e dos sentidos. beijos

vmnc