sábado, 28 de março de 2009

Abismo





O nulo absoluto
oprime e exige.
Quando te apercebes...
já nada tens.
As imagens surgem-te desfocadas.
As letras são corropios em veloz retirada.
E restam-te sonhos idiotas.
Descobres-te na ridícula paisagem
do faz de conta.
Prometes não voltar.
Mas voltas, vezes sem conta.
Rejeitas o que te oferecem,
pela procura da negra perdição.
Afundas os sonhos.
Mergulhas na maldição.
Tudo o que és de bom é subvertido.
Perversamente aceitas que já nada te resta.
Desejas o vórtice da loucura,
as algemas que te rasgam a carne
desde que do outro lado a vida exulte.
Os teus desejos são intransponíveis,
transitam num vislumbre
pelo negrume dos outros.
E as horas passam
desfilam anorécticas em sedas transparentes.
O teu relógio morde-te, fere-te,
dilacera-te em pedaços a espera.
E não tens dúvidas...
de que tens um abismo no lugar da alma.



Margarida Piloto Garcia








2 comentários:

Anónimo disse...

Mais um onde demonstras para além da enorme capacidade de escrever, também uma amargura mais do sentida .Quicá vivida


Vmnc

Susana Garcia disse...

Porque o abismo em lugar da alma? e não uma alma a transbordar de luz que é com que se fica quando se lê os teus poemas.
beijocas