terça-feira, 13 de abril de 2021

Liberdade


 


Liberdade


Tem a voz rouca da areia do deserto
e os trapos brancos disfarçados de cor.
A pouca água pingou-lhe nos lábios
curta para limpar os sulcos da cara
curta para cheirar a flores
ou fazer germinar o caroço de tâmara.
Solta a canção ao vento e sorri
com a negridão sôfrega dos olhos.
Corre enquanto sonha
mesmo que a guerra alastre apressada
e não se prenda à inocência de menino.
Num fôlego desafia a vida
antes que um frágil sustenido
lhe envie a bala prometida.
Até lá rompe os braços no arame
enquanto cresce no sangue de um só dia.
Olha para além dele e pensa
se aquele horizonte rubro e adocicado
é aquilo a que os homens chamam
liberdade.



©Margarida Piloto Garcia


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