segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Desabafo




Preciso habituar-me à imperfeição, logo eu, de imperfeições feita
agarradas aos olhos e ao cérebro latejante
Ergo-me inconformada e inquieta, o rio do corpo a correr não sei para que foz
as margens a tropeçarem nos azares e a vida a tentar passar a fronteira da pele
Mas que importa, se crias outro dialecto com que me assombras com a futilidade de um romance!
Às vezes o coração fica míope de tão inocente e desacertado
E depois? Olho para trás e para dentro , a mão nervosa a tocar os olhos
como se as lágrimas fossem cordas de guitarra.
Os anjos puxam-me o cabelo e os pássaros abraçam-me com asas cinzentas
a salvarem-me do que não controlo, olhos magoados a escoarem dores.
Não grito como flor aberta, não deixo escorrer por entre os dedos
o desassossego da sede feroz e da fome a roer as entranhas.
Agarrada ao sonho teimo cegueiras em palavras lúdicas
em cheiros de corpos que a paixão louca não questiona
em sabores engolidos e pele a arder no vazio enclausurado.
Mas emudeço os tacanhos e delirantes sentimentos
porque algures num mundo escangalhado sem velas e sem leme
mais uma mãe encosta o corpo na fronteira da dor
e exausta, desabita a lucidez enquanto abraça o filho morto.


Margarida Piloto Garcia


Foto de Jonè Reed








1 comentário:

vitor correia disse...

"Ergo-me inconformada e inquieta, o rio do corpo a correr não sei para que foz
as margens a tropeçarem nos azares e a vida a tentar passar a fronteira da pele" Este Desabafo mostra que afinal não és tão incorfomada.Belíssimo texto.Não pares nunca......pelo menos até te conseguir ler