terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sonata no areal






Ela move devagar cada partícula,cada grão de areia

que lhe acaricia a pele.

Suave e fresca a areia fina e fria do despertar matinal

provoca-lhe sensações dispersas,

acordando-a para a realidade de um novo dia.

No entanto ela não deseja acordar.

Fecha os olhos e inspira a maresia sensual

que o ar evola de cada onda.

Pela cabeça passam-lhe

todas as imagens lúdicas e intensamente vividas

de instantes mágicos e inebriantes.

O corpo acaricia novamente a areia.

Deixa uma poalha escorrer entre os dedos finos.

Mãos e pés, extremidades sensitivas

apoderam-se de cada pequeno e ínfimo pormenor

da carícia.

É uma frescura inusitada, uma paixão moldada

pelo encontro entre o frio de cada grão de areia

e o suave calor da sua pele.

Nada mais importa no momento

a não ser

esse desvirginar do areal

no primeiro toque de um novo amor

num novo ciclo primaveril.

Abre os olhos

consciente de que é a única na praia deserta.

Neste momento nada existe do quotidiano

buliçoso e barulhento.

As notas do dia a dia foram apagadas

pela hora matinal e pelo seu casulo

povoado de sonhos.

Um leve sorriso paira-lhe nos lábios.

Sorri de si mesma, da sua vida. das memórias, dos desejos.

Aos poucos o sorriso morre-lhe nos lábios.

Porque os lábios desejam

e a fome dos desejos é em si mesma devoradora.

Tenta não pensar

e deixa que o mar a absorva e de certo modo

a subjugue.

O grasnido de uma gaivota

percorre-a de repente e desperta-a para o mundo.

O corpo estremece, os olhos descerram e os lábios tremem.

Toda ela é sacudida pelo turbilhão da vida

pelo desejo de absorver todos os cheiros

e os sons que a rodeiam.

Busca desesperadamente

regressar à redoma que construíu

ao embrião em que se tinha tornado

num contacto osmótico

com a frieza da areia da praia.

Mas é demasiado tarde!

Neste momento retrai-se

porque a areia aquece, os sons estendem-se

e o isolamento desfaz-se.

Levanta-se e caminha.

Ainda continua a ser um ponto no areal

uma pedra rolada nos beijos lambidos

das ondas que morrem e mordem a praia.

Mas a sensualidade felina do espreguiçar

na areia

e o isolamento em si,

como que se quebrou.

Luta consigo mesma

contra a paixão que a quer assolar

e devolver à vida.

Sabe de antemão que vai perder a batalha

que o seu corpo e a sua mente

a vão inundar de vida

e embriagar de emoções.

Deseja-o tanto quanto o repele!

A paixão é dor e sofrimento

mas faz parte de si, do seu eu maior, intrínseco e imutável.

Cede à vida, cede ao desejo, cede à realidade.

No fundo

guarda um segredo que lhe arrebata

o coração.

Ela sabe

que amanhã o areal ainda frio e macio

tão intocado quanto um primeiro amor...

espera por ela.





Margarida Piloto Garcia



2 comentários:

Anónimo disse...

Deixas no ar uma incógnita melodia de extase .O sabor do amor é sem dúvida o mel produzido por flores com o teu nome. Margaridas

Vmnc

Haere Mai disse...

Olá! Confesso que já há algum tempo não faço visitas aos blogs. Vários problemas me têm impedido. Aguardo a resolução de aspectos importantes da minha vida para poder continuar a visitar os amigos. Foi um prazer te-la na minha pág azul. Assim, como foi um grato prazer deliciar o olhar na sua escrita, reparei que estamos juntas em alguns sites.

Beijo azul