segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Quando o amor chegar






Mesmo que não possas fechar os olhos
mesmo que o medo te arda como uma gargalhada incendiada
quando o amor chegar, segue-o
Embora os seus caminhos sejam íngremes e difíceis
enterra os silêncios ainda que rasgues novas cicatrizes
Quando o amor chegar, rende-te
deixa que as suas asas te abracem
te sejam ninho e rima, ou restos de um sonho sedento
Embora o punhal escondido nas suas penas te fira o coração
confia-lhe a pele naufragada num ardor antigo e indecifrável
Quando o amor chegar, renasce
mata a fome e a febre dos desassossegos em busca do verso não escrito
e grita nele todas as letras enquanto o corpo morre a cada dia


Margarida Piloto Garcia


Foto de Edmund Kesting

domingo, 12 de abril de 2015

Paz



Traz-me um pedaço de céu
um rumor de asas, uma flor amarela.
Peço-te que em todo o lado procures
olhos azuis ou castanhos, peles de todas as cores
rezas, canções, danças secretas.
Extermina no pó todos os horrores
e apodrece os malefícios da louca humanidade.
Ri-te e ama no branco dos lençóis, no azul das águas
num abraço fraterno a respirar doçura.
Traça um armistício da lua até à terra
numa onda de paz que nos transborde e submerja
Que o único gume a existir
seja o das bocas que se beijam.


Margarida Piloto Garcia

Foto de Grethe Holmgard Lange

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Cupido





O amor não tem prazo marcado. Nasce quando quer e vai-se embora sem pedir permissão. O amor não tem pontos cardeais nem obedece a climas. Pode ser um furacão ou uma brisa. Acaricia-te ou atira-te contra a parede se tentas analisá-lo ou dar-lhe nomes. O amor não se compra em centros comerciais nem se desdobra em cortesias uma vez por ano. Está ali ao alcance da mão, ou tão longe que precisas de te atirar do alto de uma montanha para o alcançares. O amor não tem hora marcada, nem dia para se repetir ad eternum nas rádios e nas televisões de um qualquer país. O amor não é um dia, porque é todos os dias ou não é. Pode aprisionar-te num segundo e libertar-te noutro e as horas que o marcam não se acomodam num mero relógio. O amor é assim: tem fases, declinações, pausas e reticências. Precisa de dádivas e de paixões. O que ele não tem de ser é um cupido idiota a vender-se por aí num só dia do ano.



Margarida Piloto Garcia 


Arte de David Renshaw

domingo, 25 de janeiro de 2015

Recusa





O corpo recusou-se a morrer
numa indecente paixão sem arrependimentos
Num esforço atrevido
negou-se a enterrar as flores da pele
e os frutos das lutas famintas
que corriam sempre como rios
nas latitudes e longitudes das camas gemedoras
Disse não ao terror nas veias
que os outros lhe deixavam nas palavras
e aos abraços feitos de tendões frios
a virarem-na ao contrário
Decepou os oráculos
e atreveu-se a amassar as sombras que  a tolhiam
estrangulando os medos
alinhavados nos nomes que não queria pronunciar
Rasgou a dor que respirava
e soltou o canto eterno mas secreto
Sem pudor atirou o corpo contra o outro
num passo de dança rasgado e febril.
Depois... dissolveu-se às camadas
palmo a palmo, no palato inquieto de uma boca
e no abismo assanhado de outra pele. 


Margarida Piloto Garcia

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Uma estrela de memórias






Tinha chegado o dia em que sentia o fim da infância, mesmo que os cabelos brancos lhe dissessem, que essa há muito que não existia. O tempo estava esquecido num gemido abafado ou num sorriso áspero e remoto na profundidade da memória.
Mas hoje acordara tenso, despido da ilusão roubada num mundo de aparências, onde a maior era sem dúvida ele. O tempo migrara-lhe da mente, recusa feita à vida surda e cega que nunca o deixara envelhecer. Que importavam os caminhos armadilhados na pele, rugas cativas da contagem dos dias e das horas?
Até ali olhara-se e apenas vira um miúdo ladino mas sonhador, ou até um jovem feito de vagarosa eternidade. Pouco lhe interessava a tosse dos olhos virando lágrimas ou as curvas escorregadias da boca a dizerem não. A tal juventude agarrava-se à pele e escondia-se nos bolsos fundos das calças. Os ossos não gemiam e o corpo ainda cantava mesmo que a solidão lhe enchesse a boca de sal a afundar-se feito mar dentro do estômago.
Não percebia a razão de agora se sentir diferente, nem o facto do silêncio esquivo não lhe saber a paz mas a morte anunciada. Curiosamente nunca pensara muito nisso, naquela ilusória juventude, fruto de uma imperfeição sabiamente agarrada aos sentidos.
Não era um fantasma à deriva, nem um louco preso a esfaimados desvarios. Apenas achava impossível que o seu tempo findasse e que aquilo que via e sentia fosse somente resultado de um estado de espírito matreiro, adoçado e maquiavélico.
Continuava a não perceber aquela transformação. Olhava-se no espelho onde um desconhecido o enfrentava,  desafiador. Há coisas que levam tempo, como se fossem pegajosas e escorressem  para parte incerta onde nunca as encontramos.
Era assim aquele olhar vindo do espelho, uma boca a abrir e fechar balbuciando palavras para ouvidos moucos, enquanto ele se refugiava numa zona de conforto onde não visse, nem ouvisse,  a mente desfragmentada e impúdica assumindo aquele que ele era.
Não só o corpo lhe era estranho, como também aquela pungente sensação de peso e a condescendente sabedoria de quem viveu muitos anos. Pela primeira vez, um medo frio suou-lhe da pele e roubou-lhe as certezas redondas, perfeitas e enfadonhas.
Talvez que a sua escolhida solidão, sem mulher, sem filhos, sem enredos familiares, o  tivessem poupado ao deslizar do tempo, qual Peter Pan sem Wendy no horizonte.
Afligiu-se a tentar desesperadamente agarrar a criança perdida que incauta lhe fugia, a respiração instável a dizer-lhe que tinha  um coração antigo, enquanto o corpo lasso se despia da casca jovem e se impregnava de males não sarados.
E os pontos de interrogação enfileiraram-se seguindo o caminho inverso ao da verdade.
E tão perto que ela estava, como se o abraço escondido da dúvida, finalmente o agarrasse e se desfizesse.
Atirou-se de peito feito a essa verdade, a juntar todos os nãos até perfazer um sim,  vestido com os medos do papão escondido da infância.
E percebeu. E enquanto percebia, olhava. E depois de olhar, cheirou a memória de quem muito viveu e sentiu nas mãos o que magneticamente as ocupava.
Uma estrela dourada e cintilante acendeu-lhe nas veias um calor morno num quase cheiro de caramelo queimado. Tocou-lhe e sentiu chispas que lhe encheram os olhos de imagens de uma vida.
A estrela da avó! A estrela cheia de histórias, velhinha e frágil, que hoje , não sabia porquê, fora resgatar a uma gaveta perdida .
Súbito , todas as memórias se desfizeram nele como um cataclismo.
Aquela estrela era o seu cordão umbilical, a sua rota. Como tinham sido belos aqueles dias de Natal junto à chaminé da avó!
Lembrava-se tão bem do alguidar onde sovava a massa que depois de frita e polvilhada de açúcar, ele trincava e lambia como se não houvesse amanhã. O abraço da avó só cabia no mundo dos sonhos, de tal modo era mágico e reconfortante. Os dias de Natal tinham o aconchego de uma mão cheia de sorrisos  e de raios de sol resgatados à tristeza.
Mas nada, nada, se comparava à estrela dourada que ele se habituara a ver no alto do pinheiro ainda a cheirar a resina. E as memórias rangiam nele como cordas velhas e esticadas, assaltando-o como feras à solta. Por muito que as datas e os nomes se esfumassem , por mais que os anos e a vida se cansassem dele, tudo desaguava em catadupa, deixando-o desarmado, com o destino a pesar-lhe nos ombros.
E enquanto lá fora o Natal marcava a vida de tantos, ele compreendia que fora essa lembrança que o levara a descobrir a estrela refugiada num canto obscuro da gaveta.
Curiosamente,  este último Natal roubava-lhe o abrigo da pseudo imortalidade. Passou a ter anos e vidas acumuladas em cada poro, em cada batida do coração.
Mas tal como lhe deu idade, também lha retirou.
Apertou forte a estrela das memórias e de novo foi criança.
E sendo-a, sonhou e voou.

Partiu e nunca mais voltou.



Margarida Piloto Garcia