domingo, 17 de agosto de 2014

Anúncio de jornal




1º anúncio:
“ Homem jovem e pronto, precisa-se. “

O suspiro arranca-lhe um som agudo do peito. Agita-se. Estremece. Aquela força desabrida que mais parece um urro, sacode-a de uma ponta à outra. Sente um sufoco inusitado, uma espécie de febre galopante, que lhe arde nos poros e na raiz dos cabelos.
Anda em frente ao espelho, medindo-se e calculando a avidez do corpo. A impaciência que lhe grassa no sangue torna-a explosiva, rebenta-lhe chispas nos olhos. Desinquieta-lhe as mãos, cava-lhe anseios no ventre.
Levanta-se, senta-se, volta a erguer-se. Espreita pela janela ruídos de uma festa domingueira e lambe os lábios, no gosto ousado,  que retira das imagens de ancas sacudidas nos corpos que passam.
A certa altura não hesita. Lança-se rua fora num passo corrido, ao encontro do que sabe que a espera.
Não olha a nada quando se atira nos braços dele, no pequeno escritório clean e sem aromas.
Ele tem a força de uma juventude rude mas sábia e vivida. Mordisca-a e beija-a, põe-lhe o corpo aos gritos, aos soluços, possui-a sem demoras, espalmando-lhe os seios na parede que ela arranha, enquanto atrás de si o macho acutilante a devasta em paroxismo.
É daquilo que precisa, daquele vigor primitivo a calcar-lhe aos pés o pensamento, deixando apenas uma fêmea em cio.
Quando tudo acaba, não são necessárias palavras ou gestos inúteis.

2º anúncio
“ Homem maduro e competente, procura-se.”

Precisa de um café.
Sai, de ombros descobertos ao sol ainda morno  e levemente rosado.
Sentada na mesa debaixo da sombra da amendoeira, vê-o aproximar-se.
O encontro marcado é só para deixar as palavras rolarem, mas elas afagam-lhe os braços e os seios como mãos famintas.
Como uma aranha tece a teia e sente-o estremecer sem contudo se tentar libertar.
Foi tão fácil, que ela já só lhe sorri e pousa a mão na perna, firmando os cinco dedos como tentáculos, tentando passar-lhe as impressões digitais através das calças, da pele, do músculo fremente até ao osso.
Rapidamente combinam um local. No caminho banalizam a conversa, enquanto ele lhe diz que gosta das coisas devagar e sem pressão.
Ela ouve-o desatenta, como se tudo o que ele diz não passe de um anúncio célere e papagueado, no meio das canções que uma rádio vai debitando e ela entoa baixinho, a mente em apoteose delirante do que se seguirá.
Sente-se estranha quando entra no quarto, como se o desejo que a revestia tivesse estalado como uma frágil capa de verniz.
Afasta o pensamento quando as mãos do homem a começam a acariciar.
De repente, a única coisa que ela consegue ver, é aquela masculinidade dirigida a ela.
Lembra-se de que ele não quer pressas mas neste momento isso não lhe interessa.
A sua curiosidade vai direita ao que ele, nu, ostenta vigorosamente entre as pernas e que ela acha quase obscenamente notável, digno de um qualquer filme porno onde a história e o diálogo são meros acessórios.
E é isso que ali se passa. Tudo o mais é dispensável e supérfluo, a não ser aquela vontade dela de que ele a devore, a preencha, a faça vergar numa súplica por mais.
Tem receio perante o que viu, mas o corpo diz-lhe que o desejo é tão grande que tudo permite.
Primeiro deixa-o ser rei e senhor mas depois cavalga-o como uma selvagem agarrada às crinas de um cavalo por domar. Usa-o, desfruta-o, deixa-o a arquejar quase violentado mas plenamente saciado.
A tarde cai em roxos entumecidos.

3º anúncio
“Jovem à procura de dominadora, necessita-se.”

O cabelo negro balança-lhe na face incendiada, envolvendo-a num aroma  a pespontar-lhe agulhas no sexo a escaldar.
Guia lentamente no crepúsculo que quase se esvai naquele princípio de noite quente e pecaminosa.
O vulto do jovem cruza-lhe a mente e as palavras que ele costuma proferir são uma espécie de choque quase impossível de suportar.
Tão jovem, tão delgado, um querubim que a endeusa e lhe pede lascivamente que o consuma.
Céus, nunca se sentiu assim tão poderosa, o prazer a entrar-lhe pelas veias como uma droga potente! Ela é a deusa debaixo da qual ele ora, sucumbe e soluça, gritando por mais, enquanto ela lhe transgride o corpo com o objecto que a masculiniza.
 Nunca pensou percorrer tal caminho mas a luxúria poderosa que deles se apossa fá-la vibrar como um diapasão demasiado sensível.
Ele já entrou na idade adulta como uma criança viciada e de um modo burlesco e quase dantesco, é isso que o torna tão apetecível.
Espera por ele perto do jardim, faróis apagados e a respiração ofegante a tingir os vidros de uma supuração lacrimejante.
Ele está quase aí...sabe-o.

4º anúncio
“ Procuram-se sensações de luxúria, venham de onde vierem.”

Já trocaram palavras e textos e há um encantamento dourado no que ele lhe escreve. Revolta-lhe o sentir, esgrime-lhe a alma com estocadas ardentes mas tão sub-reptícias quanto certeiras.
Ela não quer aquilo. Os sentimentos são um estorvo que a impedem de usufruir em pleno da devastação que o prazer carnal lhe provoca.
De momento não tem como escapar aos efeitos daquela voz quente e sensual que a atira para incontáveis êxtases, que a faz cerrar as pernas com força e soltar gemidos quase uivados.
Está um dia fulgurante, quente e grávido do perfume pungente das acácias. O beijo dele é doce de mirtilo, canela e gengibre, quase obsceno de tão escancarado, provocante  e indagador.
Rende-lhe os ombros desnudos na blusa negra e arrendada. Rende-lhe os seios meio ocultos no soutien bordado. Rende-se toda quando ele a dobra e lhe invade, em beijos de língua, o baixo-ventre exposto àquela tempestade.
O vento engole-lhe os ais, quando se atira pela janela aberta a fazer dançar os cortinados brancos.
A porta fecha-se repentinamente, ocultando parcialmente a voz de Antony Hegarty que naquele tom que só ele possui a impede de pensar no seu desejo, na sua fúria de controle, na paixão única de obter prazer a qualquer custo.
Aquele acto deixou de ser puramente sexual. Foi maculada a luxúria crua e aditiva que a movia até agora.
Ele faz amor com ela, pede mas também dá, submete-se numa fragilidade cativante, mas oferta-lhe algo que ela sempre se negou.
De repente sabe-se pequena e exposta, o coração a querer dizer coisas que não são banais, as palavras ácidas e brutais que o sexo lhe dita, substituídas por outras, doces e caramelizadas, inebriada por algo que nada tem a ver com o corpo.
Quando tudo acaba, quer ficar nos seus braços e esse pensamento aterroriza-a e fá-la sufocar no pânico que dela se apodera.
Sai de casa dele a apagar desesperadamente a memória daquele local.
Nunca mais lá volta. O amor não faz parte da equação. Há coisas que não se podem deixar assim, abandonar de repente, sob pena de nos arrancarem um pedaço.
É tão mais fácil um rumo de prazer, sem que o coração peça meças e venha embrulhar a vida.
Tem que esquecer, seguir, matar o vício, uma, duas, muitas vezes.

Amanhã é dia de novo anúncio.


Margarida Piloto Garcia in- 7 PECADOS MORTAIS-publicado por PASTELARIA ESTÚDIOS EDITORA-2013



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Anatomia de um beijo




Olhavam-se as bocas em carnívoro apetite
em desassossego de lumes
vagueando o corpo como lobo feroz
Estudavam-se os lábios num percurso de lavas
a pensar geografias suculentas
Aqui e ali um dente alvo e canibal
emitindo chispas na iris predatória
Rasgavam-se as cortinas da vida
e dentro era fogo, era flor em grito
era raiva incerta, corpo exposto e aberto
papoila rubra a rebentar no ventre.
Degladiavam-se as bocas em desespero
a ressacar um vicio nunca experimentado
Corria entre eles o cheiro das acácias
o toque corrompido , um absurdo sem vírgulas
uma violência de bocas acesas a espantar a escuridão
Foi na desordem que as línguas respiraram
ressuscitando o calor e a fome, o princípio e o fim
tudo em revolta numa estrada louca e atropelada
sem razões sugadas nos lábios.
E a terra tremeu no grito dos corpos
E a vida cresceu no céu da boca
E não houve promessas a cumprir
porque nenhumas foram feitas.


Margarida Piloto Garcia