sábado, 21 de junho de 2014

Estio



Nunca mais chega o verão dos teus braços a prenderem-me na beira do abismo.
E o fim do mundo à espera num calendário rasgado sem saber quantas dores por ele passam!
Nunca mais o dia quente das mãos escondidas a escreverem  debaixo da mesa e nas tuas pernas,  alucinações geométricas e arreliadas  de carência.
Nunca mais chega esse verão apressado a escorrer seivas entre nós.
E o carro veloz e a minha mão galopando no teu corpo, cria de um cio a engrossar num arco flectido.
Nunca mais, nunca mais,  a pele preocupada e os caminhos internos exaustos da espera.
Na ditadura do meu corpo , a tua revolução exige o atrevimento de viver, de ser única
sem acomodadas ânsias e culpas ressequidas.
Nunca mais chega o verão,  e eu sequestrada nas palavras,  em  malabarismos fora de prazo.


Margarida Piloto Garcia



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Poeta suicidado





Amanheceu num dia onde a sombra do corpo não cabia na casa e as mãos se esvaíam
desde os pulsos até à ponta dos dedos em palpitações de arame farpado
Alongou os braços impertinentes para abrigar a inusitada lágrima
Sugou os lábios cobardemente ansiosos e resistentes, inflamados de uma luta
sem máscaras
Olhou-se num divórcio silencioso como se as cores lhe tossissem dos olhos e o futuro castrado
se afundasse sem remos
Atreveu-se a escrever um verso sem cauda de cometa, atropelado pelo vazio do corpo
E de repente a vida afunilou, bebida de um trago, e o esquecimento levou-lhe a insanidade
à galáxia presa nos cabelos
O poema perfeito só se escreve depois.


Margarida Piloto Garcia

Foto de Solve Sundsbo