sexta-feira, 18 de abril de 2014

Agora




Agora é tarde.
Fez-se noite nos meus olhos e a melhor parte de mim não tem ponto cardeal.
Nada de novo a este ou a oeste e os sábios são cegos,  ébrios e de uma pequenez  árida.Tenho um passo não dado nos trilhos do teu corpo, nas esperas eternas e desfardadas das noites brancas, nos desejos secretos das curvas sem memória.
Finco os pés em cada pensamento colado em mim.
Sinto-os desajustados e impertinentes a levarem de mim a temperatura, o gargalhar, o suspiro das lágrimas, as curvas e contracurvas do corpo ansioso. Agarro-me a cada soalho que pisei com sapatos de esperança e abro os braços a escorar as paredes da ira.
É preciso esperar que a vida tenha quatro cantos como uma lua louca nos atalhos da razão.
É preciso esperar que tu chegues, mesmo que as palavras a tiracolo se tornem impossíveis de suportar de tão desafinadas e sem pauta que as sustente.
E depois...
Nego essa paz redonda feita de mudos vocábulos.
impossibilidadeO corpo quer é pinceladas fortes na pele e verbos a roerem o baixo ventre.


Margarida Piloto Garcia


Foto de Shabina Nadegna




sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pedido




Fecha os olhos para não veres a sombra do meu rasto, porque parto com as aves. Vou ser feliz e alagar os poros com o suor dos dias. Vou-me encher de chuva e arrancar as raízes desta terra que me pesa na pele. Vou e não volto, mesmo que as noites deixem de ser rubras e eu tenha de coser os olhos e a boca, mesmo que tenha de gelar todos os nervos. Retiro-me. Na penumbra da tarde gasto o último verso. No chão maduro e rubro do meu sangue, deponho as minhas asas. Encolho os ossos frios e arranco a carne ainda em chamas.
Que é isso da saudade, grito eu, já mal suspensa dos evadidos braços? Mas a dor é surda e não me ouve. Mordem-me as curvas escondidas num regaço de que não sei o cheiro nem as palpitações. E vou, porque a alma se gasta na esquina das noites e os dedos são miasmas à solta num contágio fremente e alucinado.
Não me entrego às perguntas, amantes e teimosas. Encosto-as à parede para que nela fiquem como quadros de um passado voraz. Solto-me incauta a desprender-me de ácidas algemas e felicidade feita às fatias.
Deixa-me ser selvagem mesmo que tenha nos seios o leite das doçuras prometidas e o meu ventre se abra às tuas palavras devoradoras, porque  elas não são tuas e nem sequer são minhas, nem mesmo de ninguém. Deixa que o vento me despenteie o caminho e o sonho revolto e preso a fios de nada me aplauda as opcões ainda que tortas.

E num último e frenético pedido, cobre a minha boca de rezas beijadas para que voe em frente, antes que eu tropece enlouquecida e recue na evasão do medo.


Margarida Piloto Garcia

Foto de Eliane Schulze Segunda